A dominação unipolar dos Estados Unidos

Imagem: Erik Schereder

Por RICHARD DRAKE*

Os interesses americanos na guerra da Ucrânia: o avanço da liberdade ou do império?

O desastre que é a guerra da Ucrânia ainda não encontrou seu Francisco Goya, mas os relatos dos jornalistas permitem visualizar um quadro de morte e destruição. Esta guerra, como todas as anteriores, é o inferno. Ao escrever sobre uma guerra supostamente boa, a Segunda Guerra Mundial, Nicholson Baker, em Fumaça humana, descreve o início desta como o advento do fim da civilização a partir do registro, de ambos os lados, dos mais horríveis crimes de guerra.

O relato de Nicholas Turse, em Shoot Anything that Moves, sobre a guerra do Vietnã, e o relato de Vincent Bevins, em The Jakarta Method, sobre os massacres apoiados por Washington em todo o mundo durante a Guerra Fria, colocaram os americanos, nestes dois casos, como perpetradores de crimes de guerra. Chalmer Johnson, na trilogia Blowback e em Dismantling the Empire, compilou uma longa lista das atrocidades no que ele chamou de “obsessivas guerras imperiais” no Iraque e no Afeganistão.

O relato de Vladimir Putin na Ucrânia pode ser tão ruim quanto seus piores inimigos declaram, mas mesmo assim está dentro das normas para uma guerra, a despeito da indignação seletiva sobre ele. Guerras e crimes caminham juntos. Uma questão mais ampla do que os crimes de guerra de Putin é sobre a origem desta guerra. Quem ou o que a causou? Desta primeira causa, inelutáveis consequências de uma personalidade criminosa se seguiram.

Sobre o princípio de que análises históricas dependem de uma tentativa de compreender todos os lados em uma guerra, o argumento Russo merece uma audiência justa. Roy Medvedev, um dos mais distintos historiadores russos e um histórico apoiador de Vladimir Putin, deu uma entrevista em 2 de março de 2022 ao Corriere della Sera. O senhor de 96 anos expressou, sucintamente, a visão do Kremlin sobre a crise na Ucrânia como um confronto que envolvia muito mais do que a preocupação de Vladimir Putin sobre a expansão da OTAN nas fronteiras de seu país. A metástase da OTAN ilustrava, mas não definia, para a Rússia, a questão fundamental, que se relacionava com o fracasso dos EUA em compreender que o momento unipolar de serem os estabelecedores de regras chegava ao fim. A hora havia chegado para uma mudança de paradigma nas relações internacionais.

Como um exemplo do fracasso da hegemonia americana, Medvedec comentou sobre os efeitos do papel de supervisor de Washington na transição russa para o capitalismo. Ele se referia à miséria que se abateu sobre seu país ao final da Guerra Fria e claramente descrita pelo prêmio Nobel da Universidade de Columbia, Joseph Stiglitz em seu Globalização e seus malefícios. Em linhas gerais, Stiglitz não encontrou nada que fosse competente ou de ordem moral na forma como a globalização foi imposta ao mundo pelo FMI, o Banco Mundial, e o Departamento do Tesouro americano. A globalização se tornou um esquema de enriquecimento para elites internacionais implementarem e se beneficiarem do consenso de Washington.

Quando Stiglitz discute a economia russa pós-Guerra Fria liderada pelos EUA, que se desenvolveu segundo as linhas da escola de Chicago de crentes capitalistas do livre-mercado, ele mostrou em detalhes aquilo que Medvedev aludiu em sua entrevista ao maior jornal italiano. Esse curso intensivo na economia de livre-mercado produziu um aumento angustiante da pobreza daquela nação. O PIB russo diminuiu em dois terços entre 1989 e 2000. O padrão de vida e a expectativa de vida caíram enquanto o número de pessoas na pobreza aumentou. Os níveis de desigualdade cresceram enquanto oligarcas tiraram vantagem das informações privilegiadas para limpar o país de seus bens, os quais foram investidos não na Rússia, mas no mercado de ações norte-americano. Bilhões de dólares sumiram junto a uma gigantesca imigração de jovens talentosos e bem formados que não viam futuro ali.

Ao revisitar a experiência na década de 90 do século passado, Medvedev citou as consequências sociais desses anos terríveis como a principal razão da popularidade de Putin na Rússia de hoje. Depois de dez anos de tutela democrática do ocidente, o país se despedaçou. Medvedev creditou a Putin reviver a Rússia e devolvê-la ao status de poder respeitável. As acusações feitas contra ela na mídia ocidental, ligando seu governo à tirania assassina de Stalin, foram consideradas por Medvedev como uma má-compreensão da história russa. Ele havia vivido sob esses dois líderes. Não há como compará-los. A Rússia era uma sociedade controlada, certamente, mas Putin não agia sobre seu complexo sistema político como um ditador.

Balizado pelo seu grande prestígio em toda a nação, Vladimir Putin tinha o apoio do povo russo na intervenção na Ucrânia. É possível deduzir da entrevista de Medvedev que eles aceitaram a dupla justificativa para as ações russas. Primeiro, para os russos, a aliança entre EUA, Otan e Ucrânia constituía uma ameaça existencial, que se tornou ainda mais perigosa pela inclusão de elementos anti-russo de direita nas forças militares ucranianas. Começando pelo encontro de 2008 em Bucareste, a administração de George W. Bush forçou a admissão da Ucrânia e da Geórgia como membros da Otan, por definição e prática uma aliança anti-Rússia.

Além disso, a marcha dos eventos naquela parte do mundo foi apenas a uma direção, chegando a 10 de novembro de 2021, na Carta sobre parceria estratégica entre EUA e Ucrânia. Esse acordo desenhou o processo de integração deste país na União Europeia e na Otan. De fato, o sucesso militar da Ucrânia contra a Rússia revela o longo alcance do incessante programa de treinamento da Otan. Da perspectiva do Kremlin, uma invasão se tornou necessária para prevenir uma ameaça ainda mais letal de se materializar na porta da frente.

A consequência da promulgação da Carta e a recusa americana de reconhecer as preocupações russas, o Chanceler Sergey Lavrov declarou que seu país havia atingido seu “ponto de fervura”. Mesmo essas palavras contundentes não foram suficientes para impressionar os formuladores de política em Washington. O secretário de estado, Antony Blinken, fez uma forte declaração sobre o direito da Ucrânia de escolher sua própria política externa e de se candidatar a membro da Otan caso quisesse, desconsiderando a inaplicabilidade prática desse princípio caso o Canadá ou México descobrisse seu direito de se aliar militarmente à Rússia ou à China. A consequente mobilização das tropas russas na fronteira ucraniana resultou em mais declarações de Blinken: “Não há mudança. Não haverá mudança”.

O que não mudaria em essência se refere à Doutrina Wolfowitz. O interesse americano na Ucrânia vem dessa doutrina. Seu propósito declarado é o ponto focal da segunda justificativa sobre a Ucrânia.

Como subsecretário de defesa na administração de George Herbert Walker Bush, Paul Wolfowitz foi o autor do memorando do guia de Políticas de Defesa de 1992. Este documento seminal de política externa defendia a manutenção da supremacia norte-americana na era pós-Guerra Fria. Nenhum superpoder rival deveria emergir. A dominação unipolar dos Estados Unidos será mantida perpetuamente. Os democratas não fizeram objeções. Durante a administração Clinton, a Secretária de Estado Madeleine Albright anúncio que os Estados Unidos gozavam de um status singular no mundo como a única nação indispensável. A preservação da primazia econômica e militar dos EUA tinha apoio de ambos os partidos.

O fato de Vladimir Putin ter como maior preocupação o credo norte-americano quanto a sua supremacia ficou evidente em 4 de fevereiro de 2022, quando ele e o presidente chinês Xi Jinping lançaram a Declaração conjunta sobre a Nova Era nas Relações Internacionais e Desenvolvimento Sustentável. Eles declararam que, no lugar de hegemonia dos EUA, o painel da ONU seria uma fundação mais sólida para as relações internacionais. Resumindo, o momento unipolar sobre o qual Medvedev falaria um mês depois entraria para a história.

O perigo da atual crise com a Rússia na Ucrânia e a que virá da China com Taiwan envolve a forma como tais poderes veem a si mesmos como enfrentando ameaças existenciais. Para russos e chineses, os problemas imediatos são territoriais, para os americanos, sua hegemonia global. A ordem baseada em regras defendida pela administração Biden fala em defesa de sua política na Ucrânia é a mesma que temos concebido e defendido desde a conferência financeira de Bretton Woods em julho de 1944. A doutrina Wolfowitz assume seu lugar como um de muitos apêndices e cláusulas adicionais da mentalidade americana que assumiu uma forma institucional tangível com a criação do Fundo Monetário Internacional e o Banco mundial junto ao investimento e suporte militar do Plano Marshall e da Otan.

Toda a panóplia do poder americano confronta, agora, seu primeiro desafio direta e francamente declarado desde o fim da Guerra Fria. Como enfrentá-lo? Poderíamos continuar a alimentar a guerra na Ucrânia com dinheiro, armas e sanções econômicas enquanto esperamos que nosso envolvimento direto possa ser evitado. No entanto, dado nosso já multifacetado envolvimento, a sombra de guerra reduz enormemente as chances de sucesso de ficarmos longe da guerra de fato.

Com o prolongamento da guerra agora à vista, uma contenção lúcida de qualquer um dos lados seria uma aposta arriscada. A negociação de um assentamento seria uma próxima etapa racional, mas os poderes que veem a si mesmos como em uma dúbia batalha nas planícies do céu raramente pensam em ceder até que todas as alternativas estejam esgotadas. Essas alternativas incluem a guerra nuclear.

Tendo a perpetuação da hegemonia americana como o ponto central na Ucrânia e como o principal motivo para a resposta extrema da administração Biden ao desafio de Putin, é conveniente para nós, como nação, olhar com franqueza para a política que estamos defendendo. Não estamos lá para salvar os ucranianos da morte ou para salvar a Ucrânia da destruição, dois objetivos que seriam alcançados de forma mais eficiente se trabalhássemos para terminar a guerra o mais rápido possível, em vez de perpetuá-la como estamos fazendo. Como um ótimo bônus para o nosso lado, os lucros estão subindo na indústria armamentista, que deve se sentir enobrecida por sua assistência à Ucrânia abençoada pela grande mídia.

Fora dos EUA, no entanto, a reação internacional às sanções estipuladas por Washington contra a Rússia dão uma pequena ideia da divisão, no mundo, quanto à ordem que estamos defendendo. Mesmo nas nações da Otan abaixo do nível oficial, a resistência às sanções cresce devido ao medo do impacto econômico sobre as populações europeias. Os preços do gás e de alimentos sobem enquanto os salários permanecem estagnados ou em declínio, com uma tendência ainda pior no futuro próximo enquanto as sanções alcançam todo seu efeito. Para um crescente número de europeus, o custo de se tornar um membro oficial da OTAN já é muito alto.

Além da Europa, a reação à crise na Ucrânia favorece Vladimir Putin porque as nações do Sul Global sabem que eles serão os mais vulneráveis aos efeitos indesejados das sanções que têm a Rússia como alvo. Mais importante, as lembranças vívidas do imperialismo ocidental nas nações não-brancas têm um efeito de amortecer a recepção das narrativas da Otan sobre seus objetivos filantrópicos e irênicos. As guerras da Otan na Sérvia, Iraque e não Líbia tiveram o mesmo efeito.

Que África, América Latina e Ásia, em geral, não tenham apoiado às sanções, sugere que a guerra na Ucrânia é o teste de tornassol para a tese de Pankaj Mishra em The age of anger: a history of the present. Ele retrata um mundo fervendo em ódio e ressentimento graças a humilhação de pessoas e culturas desprovidas da proteção das elites no poder. A evidência mais visível da emergência global que ele descreve consiste na piora da desigualdade de renda e na degradação ambiental. A ordem mundial pela qual estamos lutando com o fornecimento de armas na Ucrânia padece de uma base moral e exige uma completa revisão.

Ao persistir com nossa política atual na Ucrânia, esperamos que desta vez, diferente de todas as outras desde Woodrow Wilson colocou os EUA na incumbência de tornar o mundo seguro para a democracia, a guerra selvagem seja algo diferente da caneta assassina colocada à serviço daquilo que Thorstein Veblen chamava de “o bom e velho plano”. Ele se referia à manutenção, à proteção e à extensão do controle doméstico sobre territórios, mercados e recursos de todo o mundo. Essa crítica profunda à política externa norte-americana aparece, na sua forma mais desenvolvida, em dois de nossos maiores historiadores, Charles Austin Beard e William Appleman Williams cujos trabalhos merecem, nos dias de hoje, a reconsideração enquanto tentamos nos desmamar do império como um modo de vida.

*Richard Drake é professor de ciência política e história na Universidade de Montana. Autor, entre outros livros, de The Education of an Anti-Imperialist: Robert La Follette and US Expansion. (University of Wisconsin Press).

Tradução: Lucius Provase.

Publicado originalmente em Counterpunch.