As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A emergência ambiental

Imagem: ColeraAlegria
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ELTON CORBANEZI*

Um pouco de ar, senão sufocamos: crises incendiárias

É notório o mar de crises em que nos chafurdamos nos últimos meses. Saúde, economia, política, cultura, educação e, agora, novamente, a emergência ambiental, desta vez em torno da devastação sem precedentes provocada pelo descontrole das queimadas. Tudo de uma só vez implicando diretamente nossas vidas.

Na sórdida reunião ministerial do governo Bolsonaro em 22 de abril de 2020, enquanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, tratava os servidores públicos como inimigos em cujos bolsos já teriam sido introduzidas granadas, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, enunciou seu propósito, considerando-o, no mínimo, um índice de esperteza: com a atenção pública toda voltada para a pandemia de Covid-19, seria preciso “aproveitar a oportunidade” e ir “passando a boiada”, disse o ministro. Bastante conhecidos, os dois fatos mencionados e a linguagem vil e bélica denotam a perfídia e a destruição que motivam o atual governo. Em um caso, servidores públicos são tratados não como aliados, mas como inimigos – um alvo, entre tantos outros fantasmas que assombram os palacianos da vez. No segundo, a “boiada” a que se referia Salles não dizia respeito, em um primeiro momento,à circulação do rebanho bovino propriamente dito. Sua manifestação, ao contrário, evidencia a máquina de morte a que está envolto: enquanto corpos se empilham aos milhares em razão de uma infecção viral menosprezada irresponsavelmente pelo chefe de governo, o subordinado responsável pela pasta ambiental insinuava o desejo de desregulamentar e de simplificar controles regulatórios em torno da proteção ambiental. Pretendia-se fazer publicar desapercebidamente atos administrativos enquanto o público,a imprensa e órgãos de justiça e de controle concentravam sua atenção na urgência sanitária e em suas vítimas. O descaso com a proteção ambiental em favor de um determinado modo de produção agropecuário, do garimpo e da extração ilegal de madeiras anunciava a repetição e a intensificação da catástrofe que presenciamos.

Vimos acumulando crises. Não obstante a gravidade da questão sanitária e econômica, continua em curso uma crise política cujo resultado patente é o fracasso absoluto na gestão da pandemia. Em termos biopolíticos, o insucesso na administração da vida da população. Em plena emergência sanitária, um general da ativa manteve-se por quatro meses como ministro interino da Saúde, sendo agora efetivado como titular da pasta com uma equipe constituída essencialmente de militares, como se a metáfora da guerra contra o vírus fosse levada ao pé da letra e a gestão, o cuidado e a prescrição médica da saúde prescindissem da própria medicina. Mas não bastassem a subversão da lógica e as crises acumuladas, e o que elas significam para as populações que vivem no território nacional, a estratégia de governo a que se referia Salles é a base a partir da qual se pode compreender a intensificação e o descontrole da atual crise ambiental. É verdade que ela já não é nova em relação ao modelo predatório de desenvolvimento econômico adotado mundialmente, mas, nos dias correntes,a crise ambiental adquire, no Brasil, a coloração vermelha que remete à urgência de socorrera vida, pois coloca em risco, a partir dos incêndios e do desmatamento, três biomas do país, a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado. Junto à produção da crise, especialidade do governo, evidencia-se, uma vez mais, a máquina mortífera a que estão submetidas também a fauna e a flora. O Brasil todo vê estarrecido o noticiário sobre as queimadas incinerando animais os mais diversos e em extinção, abrasando a vegetação e sufocando as pessoas. Um caminho que pode não mais ter volta, pois mesmo a vegetação, alertam os especialistas, quando submetida à reincidência das queimadas, tende a não se restituir, “savanizando-se”.

Enquanto vivenciamos o drama, fazendo valer o adágio da passagem da boiada em plena pandemia, órgãos de proteção e de controle ambientais, como ICMBio e Ibama, são, assim como nós, sistematicamente sufocados. Continua-se a estratégia de “dar de baciada a simplificação regulatória em todos os aspectos”, como disse Salles naquela ocasião. Depois de desorganizar tais instituições destituindo chefias dotadas de competência técnica e tornando cargos se não ociosos ocupados com militares, o governo apresenta, com o país em chamas, uma significativa redução orçamentária para 2021, comprometendo ainda mais o funcionamento das entidades federais e acirrando a crise ambiental. No interior desta, desdobram-se outras sempre novas crises: sanitária, cultural, econômica, política…Povos indígenas já em condições precárias são forçados a se deslocar para outras regiões, expondo-se, assim, ao risco ainda mais elevado de contaminação pelo novo coronavírus; problemas respiratórios agudizam-se mesmo em regiões urbanas; populações ribeirinhas e o próprio turismo têm suas atividades comprometidas; estende-se a disputa política em torno de causas e de dados, os quais são incansavelmente negados. A lista de crises no interior da crise ambiental multiplica-se, como se não estivéssemos já imersos em uma crise de escala planetária.A não abertura de concursos públicos exacerba o drama.A própria imprensa argumenta que é preciso “aproveitar a oportunidade” da apresentação da reforma administrativa ao Congresso, como se fosse o momento de “fazer passar a boiada”, isto é, de desregulamentar e desmontar ao máximo os princípios que regem o funcionalismo público, o mesmo que serviria, conforme a argumentação da própria grande mídia, para combater o descalabro ambiental. De todo modo, já não temos a ilusão de que a ciência e a informação apurada sejam elementos a serem considerados pelo governo: a guerra cultural que move o populismo também por aqui, no sul da América, não dá sinais de arrefecimento. Com a situação de emergência decretada no estado de Mato Grosso,em razão, agora, dos incêndios florestais, enquanto se quer fazer a “boiada passar”, a sociedade civil se organiza com inúmeras campanhas para salvar os biomas – a fauna, a vegetação e os povos que neles habitam.

Há dias o típico céu azul e claro não se abre aos que moramos em regiões em torno das queimadas. O ofuscamento do horizonte em meio à nuvem densa e contínua de fumaça dá a dimensão do sofrimento dos que estão entranhados onde grassam os focos de incêndio. A privação de ar ameaça nossas existências. Sabe-se que a fatalidade por Covid-19 provém sobretudo do comprometimento pulmonar e da insuficiência respiratória. A asfixia brutal que levou George Floyd à morte despertou uma multidão para as lutas contra o racismo. Ressalvadas as proporções, com o avanço descontrolado e destrutivo das queimadas, é também do ar que vamos sendo privados, não bastassem tantas outras privações a que as populações brasileiras estão diariamente submetidas. Para além do sentido metafórico, a expressão do ministro do Meio Ambiente sobre a “passagem da boiada” tem também significado literal, concreto: é com o propósito de aumentar a pastagem que fazendeiros do Mato Grosso do Sul são investigados pela Polícia Federal por terem supostamente iniciado focos criminosos de incêndios.

De casa, na capital mato-grossense, sempre avistamos o morro de Santo Antônio de Leverger, a partir do qual vislumbra-se o Pantanal. Há dias o morro desapareceu novamente do horizonte cotidiano. A imagem do desaparecimento no mapa visual lembra Bacurau. Na distopia, a insurgência era inevitável. Como reagiremos a mais uma violência real? Do interior do Brasil, vemos o fogo se alastrando à semelhança das crises, em velocidade acelerada e sem resolução. Em nosso país, a biopolítica transformou-se mesmo em necropolítica.

*Elton Corbanezi é professor de sociologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Vladimir Safatle Atilio A. Boron Jorge Branco Ronald León Núñez Daniel Afonso da Silva Michael Roberts Bernardo Ricupero Luiz Bernardo Pericás João Adolfo Hansen Ricardo Musse Yuri Martins-Fontes Paulo Nogueira Batista Jr Salem Nasser Otaviano Helene Paulo Fernandes Silveira Luís Fernando Vitagliano Lorenzo Vitral Tarso Genro Leonardo Avritzer André Singer Walnice Nogueira Galvão Marjorie C. Marona Kátia Gerab Baggio Airton Paschoa Caio Bugiato Fernão Pessoa Ramos Rubens Pinto Lyra Alexandre de Freitas Barbosa Plínio de Arruda Sampaio Jr. Samuel Kilsztajn Luiz Renato Martins Henri Acselrad Marcos Silva Rodrigo de Faria Dênis de Moraes Leda Maria Paulani Jean Marc Von Der Weid Lincoln Secco Marcos Aurélio da Silva Eliziário Andrade Boaventura de Sousa Santos André Márcio Neves Soares Francisco de Oliveira Barros Júnior Tadeu Valadares Vanderlei Tenório João Lanari Bo Fábio Konder Comparato Ronaldo Tadeu de Souza Marcelo Módolo Valério Arcary Luiz Eduardo Soares Paulo Capel Narvai João Feres Júnior Jorge Luiz Souto Maior Fernando Nogueira da Costa Benicio Viero Schmidt Paulo Sérgio Pinheiro Anderson Alves Esteves Roberto Noritomi Antonio Martins Alexandre de Lima Castro Tranjan Celso Frederico Mário Maestri José Geraldo Couto Gilberto Lopes Luiz Werneck Vianna Elias Jabbour Leonardo Sacramento Slavoj Žižek Antonino Infranca Alexandre Aragão de Albuquerque José Machado Moita Neto Ricardo Abramovay Luis Felipe Miguel Marcelo Guimarães Lima José Raimundo Trindade Daniel Costa Liszt Vieira Celso Favaretto Francisco Pereira de Farias Osvaldo Coggiola Manuel Domingos Neto Lucas Fiaschetti Estevez Alysson Leandro Mascaro Milton Pinheiro Paulo Martins Francisco Fernandes Ladeira Claudio Katz Luiz Roberto Alves Ari Marcelo Solon Rafael R. Ioris Maria Rita Kehl Marcus Ianoni Chico Alencar Luiz Marques Eleutério F. S. Prado Henry Burnett Berenice Bento Chico Whitaker Ronald Rocha Armando Boito Ricardo Fabbrini Tales Ab'Sáber Afrânio Catani José Micaelson Lacerda Morais Thomas Piketty Heraldo Campos Eduardo Borges Marilena Chauí Manchetômetro Leonardo Boff Remy José Fontana Julian Rodrigues Mariarosaria Fabris Gabriel Cohn Eugênio Trivinho Daniel Brazil Carlos Tautz João Sette Whitaker Ferreira Flávio Aguiar Roberto Bueno Juarez Guimarães Denilson Cordeiro José Dirceu Anselm Jappe José Luís Fiori Jean Pierre Chauvin Annateresa Fabris Priscila Figueiredo Bento Prado Jr. Valerio Arcary Renato Dagnino Vinício Carrilho Martinez João Carlos Salles Michael Löwy Bruno Fabricio Alcebino da Silva Antônio Sales Rios Neto Gerson Almeida Marilia Pacheco Fiorillo Sergio Amadeu da Silveira Everaldo de Oliveira Andrade Gilberto Maringoni Luiz Costa Lima Ricardo Antunes José Costa Júnior João Carlos Loebens Flávio R. Kothe Eleonora Albano Andrew Korybko Bruno Machado Sandra Bitencourt Érico Andrade Dennis Oliveira Eugênio Bucci Igor Felippe Santos Luiz Carlos Bresser-Pereira João Paulo Ayub Fonseca Carla Teixeira Luciano Nascimento Ladislau Dowbor

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada