A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno. Por quê?

Francisco de Goya, Duelo a Garratozos, 1820-1823
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Por VALEIRO ARCARY*

O voluntarismo não é bom conselheiro. Ideias revolucionárias são poderosas e podem colocar em movimento milhões de pessoas até então desesperançadas. Mas é imprudente desconhecer a impiedosa força da realidade objetiva.

Quem em caminho leva pressa, no chão tropeça
Quem anda à chuva, molha-se
As flores ficam mais perfumadas antes da chuva
Provérbios populares portugueses

A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno em 2026. O PSol é o maior partido anticapitalista e deve fazê-lo, repetindo a tática eleitoral de 2022, embora a decisão ainda não tenha sido, formalmente, aprovada. Diferente de 2022, quando a decisão de renunciar à apresentação de candidatura, pela primeira vez desde a fundação foi, intensamente, polêmica, o mais provável é que a discussão provoque uma controvérsia menor. O PSol não considera a sua autoconstrução o primeiro critério de definição da tática eleitoral, e avalia que será mais útil construindo uma Frente de Esquerda com o PT para abrir caminho de uma situação política mais favorável. O PSol deverá, evidentemente, defender o seu próprio programa. Apoiar Lula não é o mesmo que silenciar a crítica. O PSol não apoiou e não defenderá o arcabouço fiscal, porque não concorda nem com o fiscalismo. O PSol não apoiou e nem defenderá o quietismo diante da chantagem da maioria reacionária no Congresso reacionário, inimigo do povo. O PSol não apoiou e nem defenderá a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, só para citar três exemplos. Mas o PSol compreende que o desafio central de 2026, em uma situação em que a relação social de forças permanece, infelizmente, defensiva, é impedir o retorno ao poder em Brasília do movimento de extrema-direita que elegeu os três governadores do triângulo estratégico do Sudeste – Tarcísio em São Paulo, Zema em Minas Gerais, e Castro no Rio de Janeiro – além de uma maioria reacionária na Câmara de Deputados.  

A esquerda revolucionária está muito fragmentada e, muito provavelmente, deverá se dispersar em diferentes candidaturas à presidência. Três partidos – PSTU, Unidade Popular e PCB – estão legalizados, e já o fizeram em 2022 através de Vera Lúcia, Leo Péricles e Sofia Manzano. O desempenho foi muito modesto, seja na audiência da base social da esquerda durante a campanha, seja nas votações. Até agora não parece haver qualquer articulação para sequer tentar uma aproximação mútua. Outras organizações sem registro legal e em diferentes estágios de construção escolheram o campo de oposição de esquerda ao governo Lula, diferente do PSol que decidiu pela independência. A oportunidade de apresentar candidaturas próprias é, evidentemente, um direito legítimo, e obedece ao cálculo de defender um programa próprio e projetar lideranças aproveitando o momento de visibilidade nacional. Mas a opção de repetir em 2026 o que foi feito quatro anos atrás deveria impor uma avaliação do que foi feito nas eleições de 2022. Um coração rebelde tem pressa de mudar o mundo. A força da vontade pode muito. Mas o voluntarismo não é bom conselheiro. Ideias revolucionárias são poderosas e podem colocar em movimento milhões de pessoas até então desesperançadas. Mas é imprudente desconhecer a impiedosa força da realidade objetiva.   

A apresentação de candidatos próprios não deveria ser um imperativo estratégico, mas uma opção tática. O PSol e até algumas das correntes históricas da esquerda petista, como a Articulação de Esquerda, a Democracia Socialista e O Trabalho, embora no interior do PT, defendem, também, um balanço crítico do mandato de Lula, com maior ou menor severidade. Mas isso não é o bastante para concluir que não se deveria apoiar Lula. Apresentar candidaturas no primeiro turno só faz sentido se for para criticar o governo Lula. Existem razões justas para fazer essas críticas, mas elas devem ser apresentadas no interior do campo de defesa do governo Lula contra a extrema-direita, não exterior. O argumento de que é possível e seria mais eficaz a delimitação contra Lula pela esquerda, sem prejudicar a luta contra o neofascismo, é uma teimosia ingênua. A aposta no “antipetismo pela esquerda” já foi testada e condenada à invisibilidade. O único argumento sério para candidaturas no primeiro turno contra Lula é a autoconstrução, mas em nível molecular. A explicação deste desfecho repousa em três fatores objetivos e subjetivos: (a) o espaço de oposição ao lulismo foi ocupado, não só nas camadas médias, mas, também, em estratos remediados da classe trabalhadora, nos últimos dez anos pelo bolsonarismo, por variadas razões, mas de forma, inexorável; (b) a experiência das maioria da classe trabalhadora e do povo oprimido com os limites do lulismo, que tinha avançado até 2013, depois refluiu, drasticamente, e permanece muito incompleta; (c) a tentativa de explorar um espaço de “terceira via” foi testado, em especial pelas candidaturas de Ciro Gomes, mas não só, pela esquerda e pela direita do lulismo, e fracassou, porque a polarização eleitoral responde a uma polarização social real.          

A principal razão para apoiar Lula, embora não seja a única, é que a esquerda radical deve agir com responsabilidade. O neofascismo de Trump, Milei, Kast é o movimento mais dinâmico de representação da classe dominante na atual etapa e seu retorno ao poder é a maior ameaça aos trabalhadores. Não é possível derrotar a extrema-direita sem Lula. Não há palavra de ordem mágica, não há “frase revolucionária”, não há “ação exemplar” que possa ser um atalho na experiência de milhões. Sem uma aliança, que deve preservar a independência da esquerda radical diante da moderação reformista do PT, não é possível sequer ser ouvidos pelas amplas massas. As margens de risco da eleição presidencial permanecem muito elevadas porque, embora as condições objetivas e subjetivas tenham evoluído favoravelmente, diante de um provável segundo turno, a incerteza é grande. Por quê? Existem, sumariamente, cinco fatores a serem considerados: (a) porque as mudanças na vida das massas populares foram somente quantitativas, não qualitativas; (b) porque a economia não é tudo, a disputa é sobre valores e visão de mundo que definem o sentido da vida; (c) porque Trump está no poder, engajado em ofensiva sobre a América Latina, e vai interferir; (d) porque as campanhas em defesa da “bukelização” têm audiência como confirmamos após a operação nas comunidades no Rio de Janeiro; (e) porque devemos aprender com as derrotas na Bolívia, Equador, Argentina e, provavelmente, Chile. Não fosse isso o bastante, há que considerar que serão eleições gerais e, se Lula tem uma autoridade que vai além da esquerda, nas eleições para governador e senadores as dificuldades serão muito maiores, em especial no Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste, e as eleições para deputados são muito mais personalizadas e despolitizadas.

Existem cinco boas razões para apostar na reeleição de Lula: (a) a redução do desemprego, apesar do desaquecimento, a redução da inflação, apesar da previsível queda das exportações para os EUA, o aumento do consumo popular, apesar das taxas de juro reais mais altas do mundo, a redução da pobreza extrema e, não menos importante, a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, são cinco processos positivos ao final do mandato; (c) o giro à esquerda do governo após a derrota da votação do aumento do IOF, mesmo se limitado a respostas atrasadas diante da PEC da Blindagem e da aprovação da Anistia na Câmara de Deputados, favoreceu a maior mobilização de massas desde 2022 no dia 21 de setembro, incidindo na relação política de forças; (d) a evolução das pesquisas de opinião sinalizam um aumento da aprovação do governo a partir de meados do ano de 2025, apesar de oscilações recentes; (e) o desfecho do julgamento dos golpistas com a condenação de Bolsonaro e do seu núcleo duro de generais produziu um enfraquecimento da extrema-direita, e confusão na articulação de uma unidade da oposição. Lula deve vencer. Esse deve ser nosso compromisso. Mas está colocada no horizonte do pós-2026, também, uma disputa em função da previsível crise do ciclo lulista, o que não é o mesmo que o seu fim. Grosso modo podemos considerar quatro hipóteses. Três regressivas e uma progressiva; (a) a ala direita do PT racha contra o núcleo central lulista, liderada por Quaquá ou outros, como aconteceu com o giro do PSD contra o PTB de Brizola ao fim do ciclo varguista; (b) o PT não racha como aconteceu com o peronismo n Argentina, mas mergulha em decadência como no pós-kirchnerismo; (c) o PT desagrega como foi o destino do PCB após a ascensão do PT nos anos oitenta;  (d) a ala esquerda do PT racha, com fez Mariguella ao fim do ciclo do PCB, após a revolução cubana; O que é certo é que o amanhã da esquerda brasileira começa hoje.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].

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