A estrela vermelha

Regina Silveira, "To Be Continued... (Latin American Puzzle)", 2001.

Por MARCOS DANTAS*

Considerações sobre a ficção-científica do líder bolchevique Alexandr Bogdánov

Alexandr Bogdánov (1873-1928) foi co-fundador do partido socialdemocrata bolchevique russo, junto com Vladimir Lênin (sua ficha era a nº. 2). Participou ativamente da revolução de 1905. Após 1917, esteve entre os fundadores do que viria a ser a Academia de Ciências da URSS, de cujo Politburô fez parte entre 1918 a 1926. E ainda criou o que pode ter sido o primeiro centro de hematologia do mundo, na Rússia soviética, em 1926. Médico e biólogo, viria, porém, travar com Lênin e Plekhanov uma dura disputa epistemológica, teórica e, ao cabo política, da qual, sai derrotado porém não convencido.

Certamente por isso, seu nome foi quase completamente apagado da História, ao longo da consolidação do stalinismo e do que viria ser conhecido como marxismo-leninismo. Apesar da indiscutível importância da sua presença teórica e política nas duas primeiras décadas do século XX, muito pouca gente, hoje em dia, sabe quem foi Bogdánov e qual foi sua brilhante contribuição teórica e política para o pensamento marxista.

Bogdánov desenvolveu toda uma teoria à qual denominou Tektologia: em grego, o substantivo tekton significa “carpinteiro”, “construtor”, daí o verbo tektainen, “construir”, “estruturar”. Epistemologicamente, pois, Bogdánov, já apontava para o que, hoje em dia, denominamos construtivismo. Cientificamente, pode-se demonstrar, como já fizeram muitos estudiosos do seu pensamento, que sua teoria foi simplesmente precursora da Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertallanffy (1901-1972); da Cibernética de Norbert Wiener (1894-1964) e até mesmo da termodinâmica longe do equilíbrio de Ilya Prigogine (1917.-2003).[i]

Ou seja, o establishment marxista soviético, ao condenar Bogdánov e suas idéias ao ostracismo, simplesmente perdeu uma enorme oportunidade de se antecipar e vir a liderar programas epistemológicos e teóricos que hoje em dia são amplamente aceitos na Academia ocidental (embora, claro, sem maior referência à dialética materialista) e mesmo na nossa vida cotidiana: afinal, os aparelhos celulares em nossas mãos (só para citar um exemplo comezinho) não passam de equipamentos cibernéticos. A Bogdánov, os soviéticos preferiram Lysenko…

Este artigo, porém, vai tratar principalmente de outra faceta do filósofo, cientista, político revolucionário, Alexandr Bogdánov: a de romancista. Do ponto de vista político, ele sustentava que a revolução avançaria através de progressivo desenvolvimento cultural-ideológico das massas trabalhadoras, nisto também se diferenciando de Lênin cujo programa, como sabemos, mirava o assalto revolucionário ao poder.[ii] Bogdánov, neste aspecto, pode ter sido precursor de Gramsci. Buscando pôr em prática suas idéias, entre tantas atividades ainda dedicava-se a produzir obras didáticas e panfletos visando a educação dos trabalhadores; organizava cursos de formação e, depois da revolução de 1917, junto com Anatóli Lunatchárski (1875-1933), desenvolveu um movimento de “Cultura Proletária” (Proletkult) que buscava levar arte e literatura para as massas trabalhadoras russas. É nesse cenário que se insere o seu romance A estrela vermelha, ficção científica na qual descreve o que poderia vir a ser alguma futura sociedade comunista. Publicado pela primeira vez em 1908, o romance ganhou tradução brasileira em 2020 pela Editora Boitempo.

O roteiro de A estrela vermelha desenrola-se no planeta Marte. O personagem principal, Leonid, é um revolucionário marxista russo que, contatado e convidado por marcianos, passa um tempo nesse planeta. Em Marte, ter-se-ia desenvolvido uma sociedade bem mais avançada do que a terrestre, com relações de produção e sociais que seriam comunistas, nos termos das terráqueas definições marxistas. O objetivo dos marcianos era o de abrir um canal de diálogo com algum grupo humano que pudesse representar o pensamento historicamente mais avançado da Terra. Leonid terá assim a oportunidade de conhecer, inclusive vivenciar, as diferentes dimensões sociais e culturais da sociedade comunista marciana da qual deveria vir a ser uma espécie de “embaixador”, quando retornasse à Terra.

Ler essa ficção mais de 100 anos depois de publicada, tendo-se já experimentado na realidade social concreta, toda a história da União Soviética, da China, Cuba etc., suscita interessantes questões e algumas emoções. Parte das descrições de Bogdánov expressa, por óbvio, a sua visão pessoal, embora de líder político – “formador de opinião”, diríamos hoje –, do que deveria vir a ser a sociedade comunista pela qual ele e seus camaradas lutavam com tanto denodo, até sacrifício. Mas é possível supor que algumas ideias ali refletem também certo senso comum, entre os revolucionários socialdemocratas no início do século XX, sobre o comunismo futuro. Será que, em algum momento de ócio, entre uma vodca e outra, um vinho e outro, ou mesmo numa roda de chá, não se deixassem devanear sobre o mundo que pretendiam construir?… Se sim, entre a intenção e o gesto, qual foi a distância?

Por outro lado, será seguro afirmar que o livro exibe, em linguagem coloquial, de fácil compreensão, própria a uma obra dirigida ao leitor “comum”, os principais tópicos de divergência entre Bogdánov e seus camaradas bolcheviques, Lênin acima de todos. Em muitos diálogos, Leonid se mostra um questionador um tanto cético ou surpreso, perante pacientes, amistosos, às vezes parecendo condescendentes, interlocutores e interlocutoras marcianos. Pela boca dos marcianos e marcianas, Bogdánov respondia aos seus críticos.

A estrela vermelha costuma ser situada no campo das utopias literárias: a primeira utopia socialista ou comunista. Alguns críticos questionam. Autênticas utopias como as de Thomas Morus (1478-1535) ou Tommaso Campanella (1568-1639) são ficções nas quais seus autores expõem e defendem valores éticos através da descrição de alguma sociedade fora de tempo e lugar. O objetivo da obra utópica é a crítica moral da sociedade real. Mas se a ficção de Bogdánov propaga valores éticos (afinal qualquer ficção também propaga), ela ancora-se num tempo histórico e mesmo num contexto de lugar. A sociedade marciana é produto da evolução da História: antes, Marte, como a Terra, experimentara o feudalismo e o capitalismo. Ela resulta também da contradição entre o ser humano e a Natureza, sendo este um dos aspectos mais surpreendente – e polêmico – do livro. O desenvolvimento da Civilização pressiona cada vez mais os recursos naturais causando exaustão dos recursos, portanto exigindo soluções inovadoras em nome da sobrevivência da espécie humana já civilizada. Esse processo conduz a transformações produtivas, logo sociais, que acabaram levando os marcianos a edificarem um sistema comunista de viver como condição da própria sobrevivência. O comunismo não será assim a consequência de uma revolução (possivelmente) sangrenta, mas de um processo evolucionário determinado, no limite, pelas relações entre o ser humano e seu meio-ambiente. No entanto, veremos mais abaixo, mesmo essa evolução pode chegar a uma difícil encruzilhada.

À época em que Bogdánov viveu e escreveu as sociedades capitalistas europeias e, em parte, outras sociedades nas quais o capitalismo penetrava, estavam sendo verdadeiramente chacoalhadas por algumas radicais invenções e, também, por radicais descobertas científicas acompanhando essas invenções. A energia elétrica começava a chegar às fábricas, ruas e lares. Marie Curie (1867-1934) anunciara a descoberta do rádio e da radioatividade. Einstein (1879-1955), das leis da relatividade. Pasteur (1822-1895), da microbiologia. Giovanni Schiaparelli (1835-1910) publicara, em 1877, o primeiro mapa da superfície de Marte, o qual provocaria outras tantas elucubrações e fantasias.

Num ambiente assim, a literatura também descobriria a ficção científica: aventuras que projetavam – melhor, imaginavam – novas possibilidades de desenvolvimentos científicos e tecnológicos, muitas delas sem deixar de apontar para os limites ou carências da condição humana. Autores como Jules Verne (1828-1905) ou H. G. Wells (1866-1946) faziam sucesso. A ficção de Bogdánov podia inserir-se nesse movimento, já lhe apontando um rumo que, em termos marxistas, seria histórico. Cabe relembrar, como dito mais acima, que Bogdánov era cientista. Seu universo de leituras e influências, pois, ia além das referências filosóficas ou político-econômicas de quase todos os seus camaradas socialistas. Acompanhava de perto, estudava, entendia bem os avanços mais recentes da Física, da Química, sobretudo da Biologia. Essa específica competência intelectual muito provavelmente terá sido outro fator, subjetivo, psicológico, inconsciente, a diferenciá-lo, até chegar ao rompimento, de Lênin e demais lideranças bolcheviques, desprovidos da mesma formação. Com toda a certeza, foi essencial para que pudesse ter elaborado a sua Tektologia.

Vida em Marte

Em meio às lutas revolucionárias de 1905, Leonid, 27 anos, é contatado por um certo Menny que lera um seu artigo científico, sobre elétrons e matéria. Neste artigo, Leonid levantava a hipótese de existir “anti-matéria” no universo. Se sim, as forças repulsivas dessa anti-matéria poderiam ser empregadas para permitir o desenvolvimento de veículos de transporte ultra-rápidos, inclusive para viagens interestelares. Menny revela que essa tecnologia já era dominada por uma “sociedade secreta” e convida Leonid a juntar-se a ela.

Assim começa A estrela vermelha. Poucas páginas adiante, Leonid, narrando na primeira pessoa, já está sabendo que essa “sociedade secreta” é formada por marcianos infiltrados na vida terrestre; entra em seus veículos movidos a radioatividade que escapam à gravidade devido à anti-matéria; e viaja para Marte. Nesta etapa, nos são apresentados os demais principais personagens marcianos, além de Menny: Netty, Enno, Sterny. Todos são cientistas. Sobre os dois primeiros, Bogdánov nos reserva, na segunda metade do livro, uma grande surpresa que não precisamos desfazer aqui. Quanto a Sterny, matemático e lógico, descrito como um tipo extremamente objetivo, direto, seco, de poucas palavras e escassas emoções, Leonid, desde o início, manifestará suas reservas.

Não tem sentido resumir aqui toda a história. Interessa-nos apontar, como sugerido antes, os pontos de encontro ou desencontros entre a narrativa de Bogdánov e os desdobramentos políticos e culturais que vivenciamos ao longo do século durante o qual sua visão utópica conviveu com experiências socialistas reais. Em A estrela vermelha, Bogdánov discute escola e educação; fábrica e produção; artes, inclusive arquitetura; aspectos da vida cotidiana. E, claro, debate teoria. Por isso podemos supor que, além das suas próprias ideias, ele nos fornece um mapa genérico da mentalidade dos revolucionários de seu tempo.

Vestuário, por exemplo. Homens e mulheres usam roupas padronizadas, sem adereços “inúteis”, que mal permitem distinguir seus sexos. As famosas “túnicas Mao” dos tempos da Revolução Cultural chinesa, logo nos vêm à lembrança… Os prédios, inclusive os residenciais, eram também simples, retos, funcionais, não buscando se distinguirem uns dos outros por ornamentos estéticos. Num museu, Leonid pôde conhecer e comparar as diversas fases da história arquitetônica de Marte, constatando que, “em épocas anteriores, era muito frequente, assim como entre nós, que o requinte fosse alcançado em prejuízo da comodidade, que os ornamentos prejudicassem a durabilidade, que a arte cometesse violência contra o destino direto da utilidade dos objetos”. Acrescenta: “meus olhos não captavam nada disso nas obras da época moderna: nem em seus móveis, nem em seus instrumentos, nem em suas construções”.

Ele pergunta a Enno se “a arquitetura moderna admitia o desvio da perfeição funcional dos objetos em nome da beleza”. Resposta: “Nunca, seria uma falsa beleza, artificial, e não arte”. Logo adiante, as linhas despojadas e funcionais das máquinas nos são apresentadas como o modelo de beleza estética na sociedade comunista, o que nos remeteria aos enormes murais pintados em 1933, pelo artista comunista mexicano Diego Rivera (1887-1957), na sede da Ford, em Detroit. Em outro diálogo, Enno acrescenta: “ainda menos adornamos as nossas casas”. Temos a impressão de que, poucas décadas depois de escritas tais linhas, essas ideias espartanas iriam orientar boa parte da arquitetura urbana e ainda a despojada decoração doméstica dominante na vida soviética. Possivelmente expressavam uma visão de mundo, um compromisso ético-estético, já então disseminado entre líderes e militantes revolucionários, críticos da ostentação capitalista. Sementes do “realismo socialista”?

São verdadeiras cidades onde vivem, internas em cada uma, cerca de 20 mil crianças e jovens, e seus professores e professoras, distribuídos por casas com 200 a 300 crianças, jovens e os professores adultos. De novo, as vestimentas padronizadas quase não permitem distinguir seus sexos. Não há turmas seriadas, mas aulas temáticas com presença e participação conjunta de crianças e jovens. Os jovens ajudam os professores nas tarefas de educar as crianças. Não fosse assim, “não haveria educação real”, explica Nella, uma professora, a Leonid: “para receber educação para a sociedade, uma criança deve viver em sociedade. A maior parte da experiência de vida e dos conhecimentos, as crianças obtêm umas das outras. Isolar uma idade da outra significaria criar para elas um modo de vida unilateral e estreito, no qual o desenvolvimento da futura pessoa caminharia de modo devagar, debilitado e monótono… Não, nós não só juntamos conscientemente todas as idades das crianças, mas também tentamos escolher educadores das mais diferentes idades e das mais diferentes especialidades práticas para cada Casa das Crianças”. Processos de aprendizagem mediados pela proximidade entre os que ensinam e os que aprendem. Antevisão prática das idéias que, nos anos 1920, seriam anunciadas e experimentadas na União Soviética por um, em 1908 ainda desconhecido adolescente de 12 anos, de nome Lev Vygotsky (1896-1934)?

Naturalmente, a produção é o núcleo de tudo. Leonid é primeiro apresentado a uma fábrica e, mais tarde, decide ele mesmo trabalhar como operário. Temos oportunidade não somente de conhecermos as antevisões tecnológicas de Bogdánov (entre elas, o tecido sintético), como o perfil intelectual e técnico do trabalhador comunista. As fábricas são movimentadas “pela força mais fina, porém mais poderosa da eletricidade”. Os operários encontram-se em meio às máquinas sem demonstrar tensão, numa “atenção tranquila. Pareciam observadores curiosos, instruídos… só lhes interessava observar”. O processo produtivo é coordenado numa grande sala cujas “paredes pretas eram cobertas por sinais brancos e brilhantes” – sim, Bogdánov nos introduz numa grande sala de controle automático, hoje em dia, e já há muito tempo, comuns em qualquer grande usina industrial.

Através de fios conectados às máquinas, ou seja, rede de computadores como diríamos hoje, o sistema tecnológico cibernético acompanha, controla e planeja a produção. As telas informam onde existe excedente ou déficit de horas diárias de trabalho nas diferentes fábricas, em todo o planeta. Os indivíduos, conscientemente, conhecedores dos dados por telas espalhadas nas fábricas e sabedores dos perfis profissionais demandados em cada caso, movem-se das fábricas com excedentes para as com déficit.

No topo, todo o sistema é coordenado pelo Instituto de Estatística: a política parece ausente, com ela o Estado. Bastam os números e a gestão autoconsciente dos trabalhadores. Muitos fatores afetam esses números, mas a tecnologia em rede pode responder rapidamente às mudanças que provocam desequilíbrio: escassez de um minério, inovação em alguma máquina, variações no consumo. Por isso, dada as flutuações da oferta ou demanda, pode aparecer déficit de trabalho em uma fábrica, ou excedente em outra. As respostas conscientes dos indivíduos restaurariam o equilíbrio. Bogdánov, aqui, está também oferecendo lições práticas da sua Tektologia.

Ao decidir ocupar-se numa fábrica, Leonid nos exibe os conhecimentos necessários ao trabalhador comunista: científicos. “Precisei estudar os princípios de organização das fábricas, em geral, elaborados pela ciência, e conhecer particularmente a disposição daquela fábrica na qual trabalharia: tinha de lidar, sobretudo, com sua organização do trabalho, desvendar, em linhas gerais, também a estrutura de todas as máquinas usadas nela e, claro, em todos os detalhes, especialmente daquela máquina com a qual eu tinha de lidar. Além disso, descobri ser necessário aprender de antemão algumas áreas de mecânica aplicada e tecnologia geral, e até mesmo análise matemática”. Nada a ver com o operário taylorizado que, num texto escrito dez anos depois, Lênin sustentaria ser necessário introduzir na recém fundada Rússia soviética.[iii]

Por outro lado, nos remete aos hoje em dia famosos “Fragmentos da maquinaria” dos Grundrisse de Marx, embora, com certeza, àquela época, Bogdánov e seus contemporâneos não pudessem ter a menor idéia sequer da existência desses rascunhos fundamentais para a compreensão do pensamento e método marxianos. No cérebro do operário comunista de Bogdánov “existe o saber acumulado da sociedade” que “se relaciona ao processo de produção muito mais como supervisor e regulador”, conforme já tinha escrito Marx.[iv] Intelecto individual que absorve e também gera o conhecimento social geral necessário à produção e reprodução da vida social humana.

A crise

Nem tudo são flores. Aliás, em Marte, as folhas são vermelhas, as flores muito coloridas. Há crises. Crianças, não raro, revelam motivações individualistas ou tendências à violência. É da natureza humana, mesmo marciana, corrigida pela Educação. Embora só precisem trabalhar duas a três horas por dia, operários, não raro (ao que parece), se mostram de tal modo obcecados pelo trabalho e por “sua” máquina que permanecem horas e horas no interior das fábricas, desenvolvendo perigosos distúrbios psicológicos, inclusive tendências suicidas. Doenças, claro, existem – e hospitais. O próprio Leonid, entregue cada vez mais desesperadamente à tarefa (a essa altura autoimposta) de tudo aprender sobre aquela civilização (língua, literatura, história, ciência, hábitos) acaba vítima de stress e, sentindo-se incapaz de atingir o nível intelectual e ético “superior” dos seus novos amigos e amigas, mergulha num estado que, pela descrição de Bogdánov, podemos identificar à depressão.

Mas a maior crise aparece já quase no final e clímax da novela. Marte é um planeta cada vez mais seco, cujos recursos energéticos e minerais estão se esgotando cada vez mais rapidamente. Os marcianos precisam encontrar uma solução. Aqui emerge uma discussão que parece expressar a visão de qualquer europeu, inclusive Bogdánov, sobre a natureza no início do século XX. A relação com a Natureza é a grande contradição da espécie humana. Esta é a contradição básica, motor de todas as demais, irá sustentar, ainda no final do século XX, o filósofo marxista brasileiro Álvaro Vieira Pinto, em obra postumamente publicada.[v] As técnicas e o desenvolvimento tecnológico resultam das soluções que a Humanidade vai encontrando para resolver os desafios postos por essa contradição. Porém, nas palavras do marciano Menny, “quanto mais estreitamente nossa humanidade cerrar fileiras para a conquista da natureza, mais estreitamente se cerram os elementos da natureza para se vingar das [nossas] vitórias”. A Covid está aí mesmo, parecendo dar razão a Menny…

Leonid questiona: não seria o caso, então, de diminuir a natalidade? reduzir a velocidade do crescimento? “Mas aí seria justamente a vitória dos elementos da natureza”, contesta Menny. “Seria a recusa do crescimento ilimitado da vida, sua parada inevitável em um dos degraus mais baixos. Vencemos enquanto atacamos. Se recusarmos o crescimento do nosso exército de pessoas, isso significaria estarmos sitiados pelos elementos da natureza. Então enfraqueceria a fé na nossa força coletiva, em nossa grande vida em comunidade”.

Para a nossa mentalidade atual, esse discurso surpreende. A Natureza, aí, não somente parece externa ao ser humano, como é sua inimiga. Existe para ser conquistada. Porém, esse discurso também não parece coerente com o próprio sistema tektológico de Bogdánov! Estudando um livro marciano de História, Leonid aprende, logo no seu primeiro capítulo, que o “Universo é um Todo Único”. Mais adiante, no duro debate que encaminha o fim da novela, Netty afirma que a Filosofia será superada pelo “monismo da ciência”. Essas passagens que, para um leitor desavisado podem sequer chamar atenção, contém, porém, toda a essência do projeto epistemológico de Bogdánov.

Como nos ensina Lucien Sfez,[vi] o pensamento contemporâneo, principalmente quando relacionado às teorias cibernéticas, cognitivistas ou info-comunicacionais, pode-se dividir em dois grandes troncos: dual-objetivista ou mono-construtivista. O primeiro remete ao dualismo sujeito-objeto cartesiano, largamente dominante nas teorias e metodologias das Ciências da Natureza mas também subjacente aos positivismos nas Ciências Sociais, dentre eles o estruturalismo. O segundo remete à identidade (ou unidade) sujeito-objeto spinoziana que, embora secundária ou marginal no pensamento ocidental ao longo dos séculos XIX e XX, nos chega através de Hegel e Marx, encontrando-se também no Gyorgy Lukács (1885-1971) de História e consciência de classe, obra, como sabemos, contemporânea de Bogdánov e igualmente lançada no index prohibitorum do marxismo-leninismo.

Desde a segunda metade do século passado, esse pensar monista expandiu-se através da Escola de Palo Alto liderada por Gregory Bateson (1904-1980); da biologia de Henri Atlan ou Humberto Maturana (1928-2021); ou ainda de todo o debate ecológico contemporâneo. A Tektologia monista de Bogdánov, duramente criticada pela cabeça dualista de Lênin, insere-se nessa linhagem, ainda mais justificando, nos dias de hoje, buscarmos recuperá-la e melhor conhecê-la.

Porém, se o “universo é um todo único”, como explicar aquela visão de luta, como se fosse guerra, entre o ser humano e a Natureza? Talvez aqui, Bogdánov tenha esbarrado nos limites intelectuais do homem no seu tempo; caído em contradição consigo mesmo devido à fé – e só podia ser fé – na Humanidade como destino manifesto de progresso. Uma fé prometéica incrustada até a medula na arrogância européia que ainda não tinha vivido sequer a tragédia da Primeira Guerra Mundial, e também abraçada e professada por gerações de marxistas engajados nas revoluções do século XX.

Diante da crise ecológica projetada com toda a segurança científico-tecnológica pelo Instituto de Estatística, os marcianos reúnem-se num Congresso para debater o futuro. A Leonid, não sendo marciano, não é permitido sequer assistir esse encontro mas, numa biblioteca, ele consegue, via esperteza tipicamente terráquea, ouvir as gravações – sim, gravações, fonogramas – dos discursos. E o que ele nos narra, parece-nos assustador, sabendo-se o que veio a acontecer na URSS, nas décadas imediatamente seguintes à Revolução de Outubro.

Eram duas as alternativas. Mudar para a Terra, com seus recursos ainda abundantes ou explorar minérios em Vênus a um custo altíssimo, até porque planeta inóspito para a vida humana. Mudar para a Terra parecia ser a melhor solução, exceto por um pequeno problema… os terráqueos.

Que fazer?

Aquela pergunta…

Sterny toma a palavra e faz um discurso que ocupa quase 10 páginas da edição brasileira do livro. Colonizar Vênus, impossível. Explorar exclusivamente suas fontes minerais exigiria um custo elevadíssimo em energia, investimentos, inclusive vidas marcianas. Resta a Terra. Mas esse planeta é habitado por uma humanidade atrasada. Povos que vivem em guerra entre si, dominados por ideologias patriotas, divididos por línguas, aferrados a seus territórios e tradições. Não cederão de bom grado algum espaço aos marcianos, não dividirão seus recursos com os extra-terrestres. Os terráqueos ainda teriam uma longa história a percorrer até chegar no grau de civilização, leia-se, comunismo, dos marcianos. Se instalados na Terra, os marcianos precisariam ocupar algum território bem delimitado e dedicar boa parte dos seus esforços à defesa desse território. “Como seria a existência de nossos camaradas em meio a esses perigos e a essa eterna apreensão?”, pergunta Sterny. “Seriam envenenadas não só todas as suas alegrias de vida, mas o próprio tipo seria rapidamente pervertido e degradado. Penetrariam neles, aos poucos, a desconfiança, a vingança, a sede egoísta da autopreservação e a crueldade que lhe é intrínseca. Essa colônia deixaria de ser nossa e se transformaria em uma república militar em meio às tribos derrotadas e hostis. Os ataques repetidos e as vítimas deles resultantes não só gerariam o sentimento de vingança e raiva que deturpam a imagem humana que nos é cara, mas também forçariam objetivamente a passar da autodefesa para a ofensiva impiedosa”. Dito isso, Sterny apresenta e defende a solução lógica (pois ele é lógico): “a colonização da Terra exige o completo extermínio da humanidade terráquea”.

Em palavras muito cruas, o proto-gramsciano Bogdánov deu o seu claro recado para os jacobinos bolcheviques. Antecipou o drama do comunismo em um só país.

Netty respondeu a Sterny com um discurso extraordinariamente atual. Sim, a história da Terra seguiu outros roteiros muito em função das próprias condições da natureza terrestre: ao contrário das infindas planícies marcianas, a Terra é fragmentada por oceanos, mares, cordilheiras, vales, inúmeros ecossistemas, daí a diversidade de suas culturas e povos. Estas são “formas diferentes (itálico de Bogdánov) daquelas que temos: nelas refletiu-se e concentrou-se a história de outra natureza, de outra luta; nelas está oculta outra força da natureza, nelas encerram-se outras contradições, outras possibilidades de desenvolvimento”. O elogio da diferença! Netty vê nos povos da Terra, não seres ou culturas inferiores, mas, sob certos aspectos, até superiores pelos esforços maiores, pelas lutas mesmo, que precisam travar para se desenvolverem e evoluírem. O caminho dos terráqueos até o comunismo será, por isso, mais lento e mais duro do que o foi para os marcianos.

Esse debate expõe a grande polêmica no interior do partido bolchevique entre um Lênin e seus outros companheiros ansiosos por viver a conquista revolucionária do poder, e um quase solitário Bogdánov defendendo entregar o processo às forças sociais da História, ainda que semeadas e adubadas pela militância político-cultural do movimento socialista.

A decisão final foi a de buscar minérios em Vênus, lá construindo estações de trabalho que poderiam lembrar nossas atuais plataformas de petróleo extraindo fonte de energia das profundas e inóspitas condições do oceano. E para lá viajaram Menny, Netty, uma grande equipe, deixando Leonid, solitário, em Marte. Como dito, ele já estava com sua saúde mental abalada. Reagiu muito mal ao discurso de Sterny. Procurou-o em seu laboratório e o assassinou. E, em meio a delírios, sem saber muito bem como aconteceu, foi devolvido à Terra. Convalesceu num hospital psiquiátrico, convencido de que “a tarefa de que [foi] incumbido acabou por se mostrar superior às [suas] forças”. Os marcianos haviam-no selecionado considerando seu engajamento político e, especialmente, o seu nível cultural, como cientista. Para Leonid, foi aí que erraram, “ao atribuir mais importância ao nível cultural que à força cultural do desenvolvimento”. Mais importância à “vanguarda” do que à evolução político-cultural do povo.

No campo político, esse debate, inconclusivo, prossegue ainda hoje. E deverá prosseguir, enquanto houver História… Mas no campo epistemológico e teórico, a Tektologia monista de Bogdánov já confirmou o seu lugar original e precursor na história do pensamento filosófico e científico. Mesmo sem referências a ele (há quem diga que Bertallanffy o plagiou), suas idéias construtivistas básicas se projetam e são hoje em dia reafirmadas nos diferentes ramos das investigações de fronteira, tanto nas ciências naturais quanto nas sociais, neste século XXI.

*Marcos Dantas é professor titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autor, entre outros livros, de A lógica do capital-informação (Contraponto).

Referência


Alexandr Bogdánov. A estrela vermelha. Tradução: Paula Vaz de Almeida e Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo, Boitempo, 2020, 184 págs.

Notas


[i] Peter DUDLEY, “Editor’s Introduction”, in Bogdanov’s Tektology, Book 1, Hull, UK: Center for Systems Study Press, 1996, pp. xxxi-xlvi.

[ii] Zenovia A. SOCHOR, Revolution and Culture: the Bogdanov-Lenin Controversy, Ithaca/London: Cornell University Press, 1988.

[iii] V. I. LÊNIN, As tarefas imediatas do Poder Soviético. In: Obras Escolhidas, V. 2, São Paulo: Alfa-Ômega, 1980 [1918], pp. 559-591.

[iv] Karl MARX, Grundrisse, São Paulo: Boitempo, 2011, pp. 588-594 passim.

[v] Alvaro VIEIRA PINTO, O conceito de tecnologia, Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

[vi] Lucien SFEZ, Crítica da comunicação, São Paulo: Loyola.