Paulo Freire – um defensor da liberdade

Bill Woodrow, Sem título, 1992.
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por HENRY GIROUX*

O espírito e a política de Freire não devem ser celebrados, mas sim emulados

19 de setembro foi o aniversário de Paulo Freire. Freire e eu trabalhamos juntos por quinze anos, os quais eu considero como os mais enriquecedores da minha vida. Nós editamos juntos uma série de livros e, junto com Donaldo Macedo, traduzimos e publicamos muitos dos livros de Freire no mundo falante de inglês. Ele escreveu o prefácio do meu segundo livro, “Teoria e Resistência na Educação”, e nós colaboramos juntos até a sua morte. Tiveram e terão ainda muitas celebrações. Muitas o tratarão como um ícone, ao invés do revolucionário que ele de fato era. Ao fazer isso, falarão de Freire com um tipo de reverência despolitizada que nós frequentemente associamos com o louvor vazio reservado às celebridades mortas. Escolas da Liga Ivy farão declarações celebrando seu trabalho que oferece a eles mudanças radicais, que são, é claro, o oposto do que eles acreditam. Essa distração é compreensível em um período no qual a ignorância é produzida, e temos a adoração da cultura das celebridades, e uma época na qual a memória histórica se torna perigosa e a discordância se torna uma maldição. Freire foi um revolucionário cuja paixão por justiça e resistência se encontrava com seu ódio pelo capitalismo neoliberal e pelos autoritários de todas as vertentes políticas. Simplesmente, ele não era meramente um intelectual público, como também era um defensor da liberdade. Os atuais ataques a ele no Brasil pelo neo-fascista Bolsonaro deixam claro o quão perigoso seu trabalho é até mesmo hoje.

Uma das contribuições mais importantes de Freire foi sua politização da cultura. Ele via a cultura como um campo de batalha que tanto refletia quanto implementava poder. Ele rejeitava a noção vulgar marxista de que a cultura era simplesmente o reflexo das forças econômicas. Não somente ele conectava a cultura às relações sociais que vinham da produção e legitimação da luta de classes, da destruição ecológica, e das várias formas de privilégio, como ele também entendia que a cultura estava sempre relacionada ao poder e era uma enorme força de influência. Isso era especialmente verdade na era das redes sociais com o seu poder de definir modos diversos de inclusão, consenso legitimado, produzir formas específicas de agenciamento, e reproduzir relações desiguais de poder dentro e fora dos Estados-nação. Ele enfatizou fortemente o papel da linguagem e dos valores nas lutas por identidade e recursos e como eles trabalharam por meio de diferentes organizações e esferas públicas como escolas, mídia, aparatos corporativos, e outras esferas sociais. Seu trabalho com a alfabetização focou em como as práticas culturais neoliberais estabelecem certas formas de órgãos comercializados, definem e driblam o espaço público, despolitizam as pessoas por meio da linguagem de comandos, enquanto privatizam e transformam tudo em commodities. A cultura e a alfabetização para Freire ofereceram às pessoas o espaço para desenvolver novos modos de agenciamento de pessoas, de resistência em massa e apegos emocionais que abraçaram formas empoderadas de solidariedade. Para Freire, os terrenos da cultura, alfabetização, e educação eram os campos nos quais os indivíduos conquistam consciência de sua posição, e a disposição para lutar por dignidade, justiça social e liberdade. Para Freire, a cultura era um campo de batalha, um local de luta, e ele reconheceu como Gramsci que cada relação de dominação era “pedagógica e ocorre em meio às diferentes foças que as compõe”.

Freire, em primeiro lugar, acreditava que a educação estava conectada com a mudança social e que as questões de identidade e consciência eram essenciais para tornar a pedagogia algo central na política. Para Freire, a educação e o aprendizado faziam parte de uma luta ainda maior contra o capitalismo, neoliberalismo, autoritarismo, fascismo e contra a despolitização e instrumentalização da educação. Ação direta, educação política e política cultural definiam, para ele, novas estratégias de resistência e novas compreensões da relação entre poder e cultura e como moldaram questões de identidade, valores, e a compreensão do indivíduo em relação ao futuro. A pedagogia e a alfabetização eram políticas porque estavam conectadas à luta pelo agenciamento, às relações contínuas de poder, e às pré-condições para a conexão entre conhecimento e valores e o desenvolvimento de cidadãos ativos, críticos e engajados. A grande contribuição de Freire foi reconhecer que a dominação não era somente econômica e estrutural, como também pedagógica, ideológica, cultural e intelectual e que as questões de persuasão e crença eram armas cruciais para a criação de agentes engajados e sujeitos críticos. Ele também refutou a rota de fuga fácil dos cínicos que equiparavam a dominação e o poder. A resistência sempre era uma possibilidade e qualquer política que a negava cometia um erro, em cumplicidade com os crimes mais hediondos, embora não reconhecidos. Freire era um intelectual público transformador e um defensor da liberdade que acreditava que educadores tinham a enorme responsabilidade de abordar importantes problemas sociais e políticos, de falar a verdade, e assumir riscos, independentemente das consequências inconvenientes. A coragem cívica era essencial para a política, e ele personificava o melhor dessa convicção.

Ao tornar a educação uma peça central da política, Freire conectava ideias ao poder, e consciência crítica à alfabetização para intervir no mundo e na luta pela justiça econômica, social e racial. Ele nunca separou o enorme sofrimento e limitações impostos pela desigualdade da esfera da política e, ao fazer isso, conectava as condições, embora específicas, para a resistência à abordagem das limitações que eram fardos nas vidas das pessoas. Freire acreditava que todo mundo tinha a capacidade de ser intelectual, de pensar criticamente, de tornar o familiar em algo estranho, e de lutar individualmente e coletivamente contra as máquinas de “desimaginação” e as zonas de abandono político, ético e social que transformaram as democracias em versões atualizadas do Estado fascista.

Seu trabalho não era sobre métodos, mas sim sobre forjar uma mudança social e individual de modo que desse voz aos sem voz e poder aos considerados descartáveis. Freire era um defensor da liberdade, que acreditava profundamente em um futuro no qual uma democracia radical era possível. Ele era um utopista destemido para quem a esperança não era apenas uma ideia, mas um modo de pensar o contrário para agir de outro modo. O trabalho político e educacional de Freire era enraizado em um ideal ético e um senso de responsabilidade que, hoje, estão sob ataque, o que testemunha sua importância e necessidade de defesa; também há a necessidade de evitar que os trabalhos sejam apropriados pelas elites vigentes; além disso, há a necessidade de expandi-los para novas circunstâncias sociais, culturais e econômicas que precisam desesperadamente de ajuda na luta contra as políticas fascistas que estão emergindo ao redor do globo. Freire acreditava que nenhuma sociedade é suficiente e que a luta contra a injustiça é a pré-condição para a radicalização dos valores, para a luta contra a opressão institucional, e para a adoção de uma política global de valores democráticos partilhados. A alfabetização civil para ele era uma arma para despertar a consciência, empoderar a ação civil, e cessar a sedução das políticas fascistas. Freire era perigoso, e com razão, em uma época na qual a história está sendo “purificada”, aqueles considerados descartáveis estão, ao mesmo tempo, expandindo e perdendo suas vidas, e a necessidade de uma consciência anti-capitalista e de um movimento social de massa estão mais urgentes do que nunca. O espírito e a política de Freire não devem ser celebrados, mas sim emulados.

*Henry Giroux é professor na Universidade McMaster (Canadá). Autor, entre outros livros, de Pedagogia Radical – subsídios (Cortez).

Postado originalmente no portal Conterpunch.

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Eugênio Trivinho Henri Acselrad Remy José Fontana Eleonora Albano Eduardo Borges Leonardo Avritzer Priscila Figueiredo Antonio Martins Paulo Capel Narvai Ricardo Abramovay Rubens Pinto Lyra José Costa Júnior Alexandre de Freitas Barbosa João Carlos Salles José Machado Moita Neto Carlos Tautz Paulo Fernandes Silveira Walnice Nogueira Galvão Gilberto Lopes João Adolfo Hansen José Dirceu Mário Maestri Marilena Chauí Lorenzo Vitral Airton Paschoa Rodrigo de Faria João Lanari Bo Marcos Silva Paulo Martins Jorge Branco Valerio Arcary Ricardo Antunes Bernardo Ricupero Marjorie C. Marona Kátia Gerab Baggio Érico Andrade Celso Favaretto Rafael R. Ioris João Sette Whitaker Ferreira Anderson Alves Esteves Jean Pierre Chauvin Bento Prado Jr. Tadeu Valadares Ricardo Fabbrini Berenice Bento Fábio Konder Comparato Osvaldo Coggiola Francisco de Oliveira Barros Júnior André Singer Jean Marc Von Der Weid Alysson Leandro Mascaro Renato Dagnino Armando Boito Matheus Silveira de Souza Claudio Katz Tarso Genro Celso Frederico Jorge Luiz Souto Maior Luiz Carlos Bresser-Pereira Leonardo Boff Daniel Costa Luiz Eduardo Soares Maria Rita Kehl Liszt Vieira Julian Rodrigues Marcelo Módolo Everaldo de Oliveira Andrade Leonardo Sacramento André Márcio Neves Soares Vanderlei Tenório Marcus Ianoni Chico Alencar Luís Fernando Vitagliano Milton Pinheiro Heraldo Campos Francisco Pereira de Farias Paulo Sérgio Pinheiro Fernão Pessoa Ramos Gilberto Maringoni Salem Nasser Gabriel Cohn Otaviano Helene Luiz Werneck Vianna Andrés del Río Sergio Amadeu da Silveira Samuel Kilsztajn Luiz Bernardo Pericás Luis Felipe Miguel Atilio A. Boron Lincoln Secco Ronald León Núñez Eliziário Andrade Luciano Nascimento Dênis de Moraes Bruno Fabricio Alcebino da Silva Michel Goulart da Silva Ricardo Musse Manchetômetro Ronaldo Tadeu de Souza Luiz Marques Henry Burnett Eugênio Bucci Ari Marcelo Solon Flávio R. Kothe Daniel Afonso da Silva Valerio Arcary Plínio de Arruda Sampaio Jr. Fernando Nogueira da Costa Marcelo Guimarães Lima Marilia Pacheco Fiorillo Antonino Infranca Manuel Domingos Neto Ronald Rocha Tales Ab'Sáber Michael Roberts Chico Whitaker Annateresa Fabris Slavoj Žižek Boaventura de Sousa Santos Bruno Machado Anselm Jappe Gerson Almeida José Geraldo Couto Daniel Brazil Francisco Fernandes Ladeira José Luís Fiori Benicio Viero Schmidt Yuri Martins-Fontes Alexandre Aragão de Albuquerque Marcos Aurélio da Silva Sandra Bitencourt Lucas Fiaschetti Estevez Paulo Nogueira Batista Jr José Micaelson Lacerda Morais José Raimundo Trindade Michael Löwy Alexandre de Lima Castro Tranjan Afrânio Catani Juarez Guimarães Ladislau Dowbor Thomas Piketty Antônio Sales Rios Neto Elias Jabbour Flávio Aguiar Luiz Roberto Alves Eleutério F. S. Prado Mariarosaria Fabris Andrew Korybko Carla Teixeira Denilson Cordeiro Luiz Renato Martins Leda Maria Paulani João Feres Júnior João Carlos Loebens João Paulo Ayub Fonseca Vinício Carrilho Martinez Caio Bugiato Vladimir Safatle Igor Felippe Santos Dennis Oliveira

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada