A fazenda dos animais

Joan Miró, Personagem, Bronze, 200 x 120 x 90 cm, 1970.

Por PAULO SCOTT*

Apresentação do livro recém-editado de George Orwell.

Bons livros resistem aos anos, às décadas, aos contrastes e às injunções ideológicas, às hegemonias episódicas e às hegemonias estruturais, ao se renovarem, sobretudo nas leituras e releituras que proporcionam, diante do avançar civilizatório, suas contradições e seus limites, e do expandir de nossa capacidade de compreensão e problematização das tragédias incontornavelmente atreladas a esse avançar.

Autor de ensaios magníficos a respeito das complexidades sociais de seu tempo e da produção literária de língua inglesa, George Orwell, nascido Eric Arthur Blair em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari, na Índia – ainda afligida, à época, pela presença colonial britânica –, além de textos jornalísticos emblemáticos, escreveu ficções que impactaram leitoras e leitores e também a crítica como pouquíssimas autoras e autores conseguiriam.

Suas obras deslocaram lentes para o que, circunscrito a elementos contemporâneos de seu tempo, e até então pouco escrutinados, poderiam, em sua potencialidade perversa, desencadear rumos irrefreáveis em direção aos piores cenários de aplicação política e social. Nesse sentido, duas obras ficcionais de sua autoria ganharam atenção, tornando-se extremamente populares: 1984 e A fazenda dos animais: um conto de fadas.

Valendo-se de um formato supostamente simples, de fácil leitura e assimilação, o das fábulas, A fazenda dos animais é narrativa de muitas implicações. Direcionada, por seu autor – ferrenho oposicionista à lógica do imperialismo  britânico e ao sistema capitalista em geral –, como uma crítica aguda às práticas totalitaristas, contexto em que se inclui a propaganda totalitária, cometidas por Stálin na  União Soviética, este livro contempla um cenário, uma ambientação, bastante elementar: a rotina de uma fazenda.

Nessa fazenda inventada, situada no interior de uma Inglaterra que, segundo o próprio Orwell, não era completamente democrática, o proprietário, um homem decadente, ébrio, endividado, trata os animais que nela vivem de maneira cada vez mais cruel. Por essa razão,  em determinado momento, os animais – inspirados  pelo sonho de um porco ancião chamado Major, que falece “pacificamente enquanto dormia” dias depois de  externar sua visão de um futuro melhor – rebelam-se contra o fazendeiro que os oprime, o homem, o único inimigo.

Dessa rebelião (o autor não emprega a palavra “revolução”), começa a gerência da fazenda pelos bichos. Os porcos tomam a frente e passam a dirigir os outros animais – entre eles se destacam Snowball e Napoleon, personagens que, na proposta alegórica do autor, representariam, respectivamente, Leon Trótski e Josef Stálin. O livro não é propriamente uma crítica ao comunismo soviético (ou às ideologias comunista e socialista),  mas um desvelar de condutas atrozes e desvirtuadas que,  na indução narrativa, conectar-se-iam às atrocidades e  aos desvirtuamentos produzidos pelo stalinismo. Este – protegido por uma propaganda ideológica, de culto à  personalidade do líder, do pai severo e protetor, muito bem executada, muito eficaz – era lido e enaltecido externamente como solução justificada e concretização possível, adequada, dos ideais socialistas.

Não se pode esquecer que  Orwell era filho das classes populares e conheceu o lado  árduo da existência humana antes de se tornar o escritor que desejou ser. Na esteira disso, também se pode apontar, em perspectiva de quase defesa, o aproveitamento da emblemática figura de Trótski – o autor flertou e, em vários  momentos, aderiu pontualmente, em militância e luta, ao trotskismo – que, expurgado, assumiria, no discurso de Stálin, o papel de fantasma conspirador, parte da engrenagem de ameaças à nação soviética.

Esta edição, com tradução de Fábio Bonillo, traz o prefácio escrito por Orwell em 1945 para o lançamento do seu A fazenda dos animais – texto que foi recusado pelos editores na época –, possibilitando que se compreenda a extensão de sua vontade em atacar o totalitarismo, a opressão do povo soviético pelo seu líder Josef Stálin, mas não só isso. Descobre-se nesse texto a ética que impulsiona as leituras e a produção desse incansável escritor, cuja sensibilidade o posicionava em um lugar de jamais aderir aos esquemas civilizatórios de opressão, sobretudo a opressão gerida pelos capitalistas, os donos do sistema financeiro, das tecnologias massificadoras, das grandes propriedades, os titereiros mestres do convencimento coletivo de que a normalidade do mundo está na afirmação de uma igualdade que nunca será tão igual assim. É quase impossível encontrar alguém minimamente antenada, antenado, que, amante ou não de  literatura, em algum momento não tenha esbarrado na assertiva “todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais que os outros”, que conta da história.

Como leitor desta obra, alguém que a discutiu fervorosamente com os amigos de final de adolescência – assim como discutiu o 1984 –, que foi militante estudantil simpatizante do trotskismo, que ainda se pretende minimamente apto a perceber e analisar um tanto das  idiossincrasias da contemporaneidade, penso que o livro é um ataque à exploração. E, como brasileiro, penso ser  possível relacioná-lo ao modo brasileiro de perpetuação das desigualdades. Vem rebelião, vai rebelião, vem golpe, vai golpe, vem pacto, vai pacto e nada abala a casta cristalizada  que, num esquema de lento rodízio, consubstanciando  menos de um por cento da população, hegemoniza o controle de um modelo de subjugação de um povo historicamente desassistido, conspirando constantemente contra a possibilidade de um projeto de nação.

Ler A fazenda dos animais também é, portanto, uma possível forma de entender o Brasil, o Estado brasileiro como espaço engendrado para jamais sair da lógica de nossa sistemática opressão das classes pobres e miseráveis, da classe média – que se enxerga rica quando, na verdade, só recebe migalhas –, de nossa classe trabalhadora – aviltada, espoliada de seus direitos, de sua dignidade –, de nosso machismo, de nosso racismo, de nosso descaso com a educação e com as liberdades e isonomias materiais.

Importante ressaltar, mais uma vez, que A fazenda  dos animais foi utilizada, pelo capitalismo e pela máquina de submissão operada pelos agentes do capitalismo mundo afora, como ferramenta de propaganda anticomunista. Isso aconteceu inclusive no Brasil – não foi de graça o título A revolução dos bichos atribuído à primeira edição brasileira, tornada pública em 1964, ano em que, com apoio da elite econômica nacional, foi instalada a ditadura militar em nosso país.

O livro, na lente que projeta, expõe a dificuldade dos processos de construção de uma leitura acurada do que é tão difícil enxergar mesmo estando diante de nossos olhos, como a desigualdade estrutural brasileira. Não é difícil imaginar quem seriam os porcos na realidade colonial de nosso país e quem seriam os que não conseguem escapar, pela incapacidade de desenvolver uma consciência crítica, das armadilhas da precarização do trabalho, por exemplo.

Na dissociação entre a intenção do autor e a intenção possível de ser capturada na leitura da obra, por tudo já destacado, está a magia da literatura, que, mesmo sendo,  a princípio, não apta a mudar o mundo, provoca reflexões que afetam nossa maneira de olhar, de enxergar, de questionar e compreender espaços que não se revelariam, em toda a sua potencialidade e caos, diante de outra verdade que não fosse a ficcional, fabular, literária. Por isso, nesta edição, nesta renovação, inclusive na troca do título da obra, está uma resposta às tentativas pretéritas, recentes ou não, de atribuição de uma leitura reducionista da obra de George Orwell, vinculando-a, mais uma vez, à propaganda anticomunista, como um elemento moral insustentável, a propósito.

Por fim, penso ainda, A fazenda dos animais é sobre as imperfeições que se viabilizam nos modelos implantados a partir da revolução burguesa e do modus que a cerca, sempre inclinado a rearranjos – são as crises financeiras de graves repercussões já constatadas no século XXI. Em face disso, é uma obra sobre o medo e a incapacidade de compreender as prescrições que se avolumam em nosso prosseguir, tornando-o mais difícil, mais injusto, como o prosseguir de uma das personagens fundamentais da história contada por Orwell: o pobre, e incondicionalmente engajado, cavalo chamado Boxer.

Um livro que está vencendo o tempo e já não pode ser apropriado por olhares e leituras retrógradas.

*Paulo Scott é poeta e escritor. Autor, entre outros livros de Habitante irreal (Alfaguara).

Referência


George Orwell. A fazenda dos animais: um conto de fadas. Tradução: Fábio Bonillo. Belo Horizonte, Autêntica, 2021, 160 págs.

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ISBN 978-65-5928-072-8

 

 

 

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