A inevitável reforma do jornalismo

Imagem: Nevzat Öztürk
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Por ARTHUR GROHS*

Todos os indícios levam a crer que o jornalismo impresso perdeu seu propósito de ser, sob sua configuração atual

Há muito tempo, fala-se em duas crises na imprensa. A primeira, mais sabida, trata do gradual processo de redução do público que paga pelo conteúdo e também de seus anunciantes. A segunda, principalmente presente nas faculdades de jornalismo, concentra-se em um declínio moral dos veículos jornalísticos, aos quais, grosso modo, associa-se a atuação à serviço de agentes reacionários e/ou neoliberais.

Muito já foi dito sobre essas duas discussões, resultando em redundâncias que, parecem, sem uma solução realista. Entretanto, por baixo do radar, o futuro do jornalismo impresso reúne parte dos dois diagnósticos anteriores e parece permanecer em uma discussão quase totalmente especulativa de uma extinção ocasionada pela sobreposição tecnológica.

Não é novidade que o jornalismo impresso ocupou, muito tempo atrás, um espaço de relativo protagonismo no debate público. Por ambição pecuniária, inclusive, acreditou-se que era possível transpor seu sucesso em círculos mais “letrados” para o grande público, o que, como hoje se vê, converteu-se em um fracasso retumbante. Isso não significa dizer, no entanto, que as pessoas que não possuem maiores níveis de formação não devem ou não querem se informar, mas, ao contrário, seus interesses tendem a se diferir, em grande medida, aos das classes de maior poder aquisitivo.

Para isso, o modelo “vitorioso” no século XX foi o informativo, voltado à pretensa intenção de informar sem a intrusão do autor no conteúdo do texto. Logo, os jornais abdicaram “de seu conteúdo partidário, se esvaziado do sentido doutrinário que tanto os marcara no período anterior”,1 em benefício de um modelo que concentrado nas notícias e, em segundo plano, comentários que, com exceções, são palpites superficiais sobre acontecimentos em voga, situados em colunas assinadas por jornalistas de carreira mais longeva ou por personalidades que, em tese, ajudariam a impulsionar o número de interessados.

Faz sentido com que esse esforço fosse empreendido durante vários anos, considerando, principalmente, a divulgação de novidades em relação aos serviços essenciais, postos de trabalho, eleições etc. No entanto, com o avançar do novo milênio, insistir nesse modelo aparenta ser algo tolo: podendo se informar gratuitamente via rádio e televisão, por que assinar um periódico que, ao chegar em suas mãos, estaria, na maior parte das vezes, datado? Pior, em alguns casos, inclusive, desatualizado. No caso das revistas, o questionamento é: quando não há obsolescência quase instantânea, o conteúdo é, de fato, indispensável?2

Nos Estados Unidos (EUA), um país que, em termos históricos, o consumo de jornais e revistas é maior que o brasileiro em números absolutos e relativos, o cenário tampouco é alentador. Tudo leva a crer que o mercado perdeu seu propósito e o público está em envelhecimento ou simplesmente desinteressado.3 Em outras palavras, todos os indícios levam a crer que o jornalismo impresso perdeu seu propósito de ser, sob sua configuração atual. Isso se agrava na medida em que a maioria dos jornais compra pacotes de notícias de agências (como a Reuters, a Agência Estado etc.) e a prática de reportagem está cada vez mais rara, dado o entendimento que o custo não compensa a entrega.

Ao conversar com jornalistas “da velha guarda”, nota-se uma insatisfação quase uníssona em relação aos jovens jornalistas, pois, em muitos casos, restringem-se à redação, fazerem entrevistas por vídeo, por telefone, por mensagem e por e-mail, ou, posto de outra forma, pela atividade de rua ser secundária em seu expediente. Contudo, é difícil acreditar que isso seja uma escolha voluntária da geração atual (ainda mais quando a profissão é muitas vezes retratada com valentia e esbanjamento, como em Quase Famosos e em Spotlight). Tudo sugere que é a combinação de orçamentos cada vez menores para a manutenção de um modelo jornalístico em plena decadência.

O mercado de trabalho para esses profissionais, convém salientar, é, em esmagadora maioria, fora de sua especialização, ou seja, em ambientes publicitários, produtoras de vídeos/ cinema e em assessorias do mundo corporativo que nada mais fazem do que relações públicas e comunicados internos. Nas faculdades, há um esforço de tentar montar currículos que tentam equilibrar a essência do jornalismo com a realidade de ofertas, procurando combinar uma formação técnico-profissionalizante com uma formação científico-acadêmica, cuja tentativa vem sofrendo contestações.4 Quer dizer, a demanda de mercado pede profissionais de domínio técnico e a academia tenta preparar uma mão de obra com capacitação para atividades de toda e qualquer natureza.5

Alguns aspectos subjacentes a essas questões, porém, encontram-se longe do domínio dos jornalistas e das faculdades (como, por exemplo, quanto o empresário está disposto a reinvestir baseado no lucro da operação) e jamais pertencerão ao escopo de decisões que a redação terá de tomar. Seria, portanto, ingênuo, senão obtuso, tentar a superação de impasses dessa natureza, seja dentro da universidade, seja como empregado.

Existem alternativas para esse problema. Alguns defenderiam, por exemplo, financiamento público ou subsídio, o que, dada a situação brasileira (senão da política dos países ocidentais, de modo geral e seus pleitos políticos), é impensável. Uma solução é uma tentativa de retorno à primeira metade do século passado, isto é, a adoção de um jornalismo realizado principalmente por articulistas. Sem, contudo, pretender o universal: voltar-se para um público específico, com propósito de municiá-lo de argumentos e, por que não, de uma orientação dos acontecimentos políticos. Obviamente, essa alternativa não sanará os problemas e tampouco será “à prova de balas”.

Primeiro, porque esse entendimento do jornalismo pressupõe a profissão como um ofício intelectualizado Assim sendo, excluiria muitos daqueles que não possuem domínio de matérias robustas (como a política, a economia, as artes etc.) e que, por conseguinte, não conseguiriam empreender uma discussão ou fazer objeções às proposições que surgem na esfera pública (como repórteres e redatores). Logo, provavelmente, sufocaria ainda mais o mercado de trabalho.

Segundo, existiria a necessidade de um comprometimento e investimento sério por parte dos interessados. Já foi constatado que, a título de ilustração, nos EUA, houve uma lacuna geracional pelo lado da esquerda no debate público. Os intelectuais desse espectro político, sem grandes questionamentos, caminharam no curso dos acontecimentos e, como resultado, em sua maioria, acabaram afastados das discussões públicas e incluídos no, cada vez mais encastelado, universo acadêmico.

O desfecho foi uma gradual substituição deles por analistas do mercado financeiro e vozes que, em linhas gerais, estão alinhadas com as, assim chamadas, forças hegemônicas.6 Significa dizer, desse modo, que nessa corrida alguns largariam voltas na frente; enquanto, aqueles que se propõe a dissidiar do status quo, precisariam insistir em projetos e em alianças cujo o retorno será basicamente moral (quando muito cívico).

Pelo menos, nos maiores centros urbanos, onde há possibilidade e alguma tradição em comentário crítico, essa parece ser uma alternativa viável e que poderia prosperar (mesmo que em proporções modestas). Em cidades menores, a crítica voltada às questões de ordem política e social deveria ser levada mais a sério, a fim de contribuir na reversão de monopólios eleitorais. Do contrário, o jornalismo noticioso se manterá à margem de seu suposto devir.

A provocação está lançada e, qualquer que seja a resposta, é, no mínimo, questionável, se alguém acredita que o futuro da profissão esteja, como é a realidade de hoje em vários veículos, na publicação de notícias de três ou quatro parágrafos (com três ou quatro linhas cada) e de matérias de segunda mão. Afinal, tal como está, tudo parece conspirar em favor de um grande naufrágio.

*Arthur Grohs é doutorando em Comunicação na PUC-RS.

Notas


1 Rüdiger, F. (2023). O Pensamento Jornalístico de Albert Camus: Crepúsculo do Liberalismo Tardio Europeu. Revista Brasileira de História da Mídia, v. 12, p. 22-44.

2 A título de curiosidade, as assinaturas de impresso acompanhado de digital possuem os seguintes custos: a Folha de S. Paulo: R$99,90 mensais nos seis primeiros meses; O Estadão R$61,90mensais durante o mesmo período; a revista Veja tem custo de R$39,90 mensais aos seus assinantes em um plano de 12 meses; enquanto a revista Época, R$18,00 durante 12 meses.

3 Para dados, consultar: <https://www.pewresearch.org/journalism/fact-sheet/news-platform-fact-sheet/#:~:text=for%20news%20below.-,News%20consumption%20across%20platforms,said%20the%20same%20in%202021> e <https://www.poder360.com.br/economia/revistas-em-2021-impresso-cai-28-digital-retrai-21/#:~:text=As%20revistas%2C%20assim%20como%20os,e%20a%20total%20diminuiu%2025%25.>.

4 Rüdiger, F. (2022). Epistemologias da Comunicação no Brasil: ensaios sobre teoria da ciência. Milfontes.

5 Há de se lembrar também que os cursos de Comunicação são recentes na universidade. As redações historicamente foram ocupadas por pessoas com formações em áreas como a Filosofia, a História, as Letras e a Sociologia, bem como políticos. Em geral, a imprensa era o ambiente no qual aqueles que ambicionavam se estabelecer como literatos e políticos atuavam. Sobre isso, ver Neveu, É. (2006). Sociologia do jornalismo. Edições Loyola.; Rüdiger, F. (2020). Origens do pensamento acadêmico em jornalismo: Alemanha, União Soviética, Itália e Japão. Insular.; Winock, M. (2000). O século dos intelectuais. Bertrand Brasil.

6 Jacoby, R. (1990). Os últimos intelectuais: A Cultura Americana na Era da Academia. Edusp/Trajetória Cultural.


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