A melancolia da esquerda brasileira

Clara Figueiredo, série registros da quarentena, casa, São Paulo, 2020

Por ARI MARCELO SOLON*

A negatividade da esquerda e a necessidade de curá-la dos sintomas que imaginávamos ser típicos do fascismo

für Lucas.

Na elaboração do meu artigo “Sigmund Freud [rabbi Freud: o descobridor da bissexualidade inerente aos homens]: Socialista, Herético e Revolucionário”, o que mais me chamou a atenção foi como nos círculos psicanalistas socialistas, concreta e clinicamente, discutiam-se as neuroses da classe operária e como tratá-las.

Como kelseniano ortodoxo, ciente de que a Teoria Pura do Direito nada mais é que uma psicanálise política do poder autoritário e fascista, fiquei chocado com as descrições da melancolia dos movimentos de esquerda portadores da esperança e da utopia da redenção.

A melancolia não é só na Idade Média, como fala Panofsky em Saturno e a Melancolia. Se bem que mesmo na Idade Média, com base em Aristóteles, com todas as doenças associadas à melancolia e a Saturno, havia sempre a possibilidade de uma genialidade transformativa.

Na minha leitura da melancolia, ministrado na Casa do Saber, sempre enfatizei esse elemento criativo, transformador e utópico, e deixei de lado a doença dos gênios criativos. Mas como alguém no círculo de felicidade pode estar acometido de depressão/melancolia/bílis negra/agressividade?

Kafka bem o sabia quando descreveu a cena do circo. As bailarinas, os domadores de leão, os mágicos, todos infelizes e fracassados nessa arena da liberdade.

Isso permite entender o fracasso das esquerdas brasileiras e suas militâncias tão melancólicas quanto os fascistas que nos governam. Como curar essa doença infantil dos movimentos de combate à direita no Brasil?

Adorno, porta-voz de uma utopia melancólica, ajuda a perceber tais indícios com base em Walter Benjamin. Para combater o fascismo, Schönberg escreveu uma ópera sacra, de redenção, Moisés e Aarão. O tema do Êxodo, o tema da liberdade, o tema que, apesar da proibição de imagens, você consegue libertar um povo pela arte, pela música e pela oração.

Mas, segundo Adorno, essa que deveria ser uma ópera sacra, como toda ópera não passava de uma ópera burguesa, logo decadente. Como um fragmento sacro em que o profeta fala diretamente com o criador, mesmo que seja gago ou que não tenha voz, consegue se comunicar com o criador do mundo e aquele que vai redimi-lo fracassa?

Adorno diz: a ópera sacra fracassa porque ela mimetiza o conservadorismo da ópera tradicionalista. Macaqueia Wagner, em O Parsifal, não consegue fazer uma evolução dos deuses tribais à pureza espiritual do monoteísmo. Assim são os movimentos libertários no Brasil, pois replicam o fascismo na sua militância social. Todos os estereótipos fascistas: a homofobia, o racismo, a intolerância. Eles, na libertação, reprimem seus irmãos.

Em 1931, Walter Benjamin atacou a melancolia da esquerda, na pessoa do poeta Erich Kästner, porquanto o radicalismo da New Objectivity foi vista por Walter Benjamin como de fachada infantil e lúdica, mas que por trás era facilmente reconhecível os gostos de uma elite burguesa fascinada pela estética modernista dos avant-gardes. Nesse sentido, constipação e melancolia andavam juntas, e, diferentemente de Sigfried Kracauer, que apontava a “geistige Obdachlosigkeit” dos intelectuais da New Objectivity, Walter Benjamin considerava-os como a incorporação da melancolia, a partir da categoria retirada da história da arte, através da qual asserva que a melancolia significa, antes de tudo, a impotência política de um rei incapaz de comandar e de decidir, tal como Hamlet era visto por ele como o paradigma do homem melancólico.

De fato existe uma tradição de melancolia de esquerda. É inegável. E, para autores como Erwin Panofsky e Fritz Saxl, o espírito melancólico das imagens de Albrecht Dürer surgem da consciência dos limites do conhecimento humano incapaz de subjugar a natureza. No Renascimento, a melancolia ganha uma nova característica, qual seja, a autorreflexão, que não mais se resume à contemplação ou sentimento; torna-se instrospecção, uma disposição da mente, um uso da razão e o símbolo de Saturno.

A esquerda derrotou, portanto, minha interpretação otimista e confirmou as reservas de Panofsky e Adorno em relação à utopia social.

Em “Luto e Melancolia”, de Freud, a descrição dos sintomas da melancolia não modificam a representação clássica herdada da Idade Média, mas há uma ênfase nos aspectos patológicos: “The distinguished mental features of melancholia are a pro- foundly painful dejection, cessation of interest in the outside world, loss of the capacity to love, inhibition of all activity, and a lowering of the self-regarding feelings to a degree that finds utterance in self-reproaches and self-reviling, and culminates in a delusional expectation of punishment”.

Na Primeira Guerra Mundial, Freud definiu melancolia como a incapacidade de amar, e de modo semelhante Walter Benjamin propôs o seguinte acerca dos indivíduos melancólicos” “is precisely the attitude to which there is no longer in general any corresponding political action. (…) For from the beginning all it has in mind is to enjoy itself in a negativistic quiet”.

Logo, deparamo-nos com a necessidade de curar a esquerda dos sintomas que imaginávamos ser típicos do fascismo – homofobia, racismo etc.

*Ari Marcelo Solon é professor da Faculadde de Direito da USP. Autor, entre outros, livros, de Caminhos da filosofia e da ciência do direito: conexão alemã no devir da justiça (Prismas).