Lar,

Marco Buti, Curso Superior

Por MARCOS SISCAR*

Comentário sobre o livro do poeta Armando Freitas Filho

Há quem pense a tradição de poesia como um páreo no qual a descendência está sempre em atraso; outros preferem buscar nela modelos para uma austera exigência de valor criativo, supostamente em desuso. Numa época em que o futuro é sentido como bloqueio, é compreensível que a poesia seja sempre medida em relação a dados que já foram lançados.

É difícil ler a poesia de Armando Freitas Filho sem se colocar essa questão. Afinal, o livro Lar, requisita a tradição e a qualifica – não sem ironia – como mármore perfeito, contra o qual se debate a imperfeição ou a dissonância estéril do presente. O livro decepciona a corrida de cavalos e a comparação qualitativa. Isso porque a decepção é sua matéria, sua formulação, sua arte. A obsessão pelo passado manqué, pelo verso manqué, o drama da dificuldade de dar forma, é aquilo que desacredita a forma e ao mesmo tempo a constitui, instruindo o leitor na experiência de suas regras. Lar, pede para ser lido sob o signo da desarmonia, da solidão sem lar.

Se o livro é, explicitamente, um livro de memória, um livro da experiência que se expõe como autobiográfica, o autobiográfico em si mesmo é uma falsa questão. Embora os poemas, mais diretamente os da primeira parte, não deixem de organizar um percurso cronológico, do universo familiar ao escolar, a própria miséria dos “fatos” sugere que está em jogo não a mera narrativa biográfica, mas a experiência ao mesmo tempo situada e deslocada de um sujeito. A relação com os pais, com a religião, com o sexo, mas também a metalinguagem e a negociação com a idéia de finitude, são ocasiões em que se expõe o ruído da memória e a sujeira da intimidade. O que interessa nos fatos biográficos não está tanto nos conteúdos do passado quanto no “gemido da madeira” que detém antigos papéis. Se há confissão, aqui, é antes de mais nada uma confissão do corpo.

A falta de interioridade possível, que sugere a vírgula atrelada à palavra “lar”, no título, aponta para um tema já conhecido da poética de Armando: a dramatização da superfície do corpo (de sentidos como o cheiro, o gosto, o tato, explorados à exaustão), ou melhor, o “esfregar” dos corpos, que os retira da imanência e os coloca em relação, ou em atrito. É preciso levar isso em conta, a propósito da proximidade que Armando toma de Drummond ou Cabral, mas também da crítica que dirige a eles: ao primeiro, pelo seu simbolismo, sua suposição de interioridade, ainda que dissonante; ao segundo, pela “limpeza” da situação poética.

Não há oposição ao tipo de solução que os totens modernistas realizaram, mas à exigência da solução, ela mesma; “matando o pai no segredo / do corpo”, a poesia reafirma sua singularidade, mas não a relança tal como foi prevista. O “segredo do corpo” não é aqui exatamente o espaço (alusivo, irônico, ou pós-moderno) onde se realiza um sacrifício higiênico, mas tem função quase adverbial, de um por-meio-de-que que contém seu próprio embaraço, seu dano, seu sinistro.

Uma paráfrase honesta de Lar, nos conduziria a algo como uma poética da decepção, não apenas porque o corpo nunca está além de seu segredo, mas porque o esfregar dos corpos também não é rejubilativo. O corpo range, mais do que se arrepia. O corpo nos ensina a ler a decepção como uma função do verso, que tropeça, que transborda, que se derrama conjuminado com a dramática iminência da prosa; que negocia com o aleatório do corte, prescrevendo um discurso sobre o verso como interrupção. Interromper é ampliar o sentido de uma palavra, de uma locução, perdida no fluxo da prosa do mundo. Se essa ampliação pode parecer a alguns leitores desprovida de razão e de efeito, e exatamente por isso, ela não deixa de ser um retrato fidedigno da decepção histórica que caracteriza sua época.

A arte da desolação, tal como a pratica Armando, tem coerência e perspectiva. Ela nos ensina como deve ser lida, mas precisa de tempo para mostrar seus requisitos. A tal ponto que acaba se envolvendo com um certo didatismo, que não se separa nunca do ato de ensinar, e que na poesia de Armando fervilha na insistência com relação à fraqueza da repetição, à compulsão de escrita que não se fecha, à reiteração de fracasso do “repetente”, do ajuste de contas com seus fantasmas. Aprender a ler é aprender a lidar com a decepção reiterada, a reescrita, a correção, o adiamento de si contido na gravação de voz – é o que parece nos dizer a cada página o livro Lar, (“reescrevo, corrijo, fazendo / pressão com o lápis rombudo / para marcar minha dissidência”).

Ao longo dos textos, o extravio, a ferrugem, o descompasso, o inacabamento, o corroído, o empilhado, toda a lógica do dano contida no canhoto (“sinistro”) que se esfrega contra o gauche drummondiano, são índices de uma poética que se comenta, que expande sua metalinguagem. O drama se dilata, assumindo o risco de remeter “sem parar”, compulsivamente, a seu próprio inacabamento, a seu situado “castigo”. O poema ensina o sinistro de modo tão abundante que faz dele seu próprio flagelo.

Mas o que parece haver de excessivo na poesia de Armando não deixa de ser a resposta para aquilo que se requisita dela, da poesia de modo geral: uma coerência, uma atitude, uma função – sempre contrariadas ou decepcionadas pela voracidade da própria exigência que as solicita. A épica de nosso tempo é tantas vezes a da decepção, do descompasso entre aquilo que se procura na poesia e aquilo que ela oferece, mesmo que não saibamos exatamente o quê. A “culpa” expressa pelo poema não deixa de ter paralelo com esta outra, que é a de prolongar tal constrangimento, por não sabermos ou não querermos reconhecê-lo.

O que a poética da decepção em Lar, acaba sugerindo é uma responsabilidade compartilhada diante do sinistro: a de exigir o direito da forma e de concedê-lo, por exemplo, à poesia.

*Marcos Siscar é professor de literatura na Unicamp. Autor, entre outros livros, de Poesia e crise: ensaios sobre a “crise da poesia” como topos da modernidade

(Editora da Unicamp)

Referência


Armando Freitas Filho. Lar,. São Paulo, Companhia das Letras, 134 págs.

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 6, outubro de 2009.