A mentira institucionalizada

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Por IURY TAVARES*

Se vida e economia se contrapõem para o governo, o tratamento lastreado em mentira é igual para ambas

Currículos adulterados, promessas irrealizáveis, anúncios vazios, políticas de combate a fantasmas e até um cachorro de mentira. Das questões mais urgentes e graves até as mais triviais e simplórias, o governo descarta a verdade e reforça a eleição da mentira como parâmetro institucional. A recente adoção fracassada de um cachorro pela primeira-dama serve de alegoria para a constatação e para exposição dos valores praticados.

Ao menos desde a cerimônia de posse, a primeira-dama tem desempenhado a função de humanizar a figura do Presidente, técnica antiga adotada por diversos políticos. Guardadas todas as devidas proporções e apenas pela comparação funcional, podemos citar como exemplo Ruth Cardoso, Bia Doria, Adriana Anselmo, Marcela Temer, Lu Alckmin. Dada a personalidade intempestiva e falta de caráter do chefe do Executivo, a imagem pública de Michelle aos poucos foi associada a obras sociais e à defesa dos deficientes – mesmo que o governo não demonstre especial apreço por tais pautas. Assim, a boa ação com um animal abandonado nada teve de caridade.

Tão logo feita, a adoção foi instrumentalizada como agenda positiva numa tentativa de relações públicas de amenizar o trem de desastres que avança sem freio no trilho bolsonarista. O cão rebatizado de Augusto (seria uma piada interna em referência a outros mascotes do governo?) ganhou perfil em rede social com fotos e vídeos descontraídos com Michelle e família. Difícil resistir, não é mesmo? Tão velha política quanto usar o posto de primeira-dama para fins de reputação é recorrer à produção de conteúdo com animais domésticos, ímãs de empatia e engajamento. Após a divulgação, o verdadeiro dono reclamou o cão e uma cerimônia de pronto foi preparada. Tudo bem simples, se o episódio não carregasse muitos símbolos de ironia para passar impune.

A família adotou um cão branco, de raça, cujo valor é estimado entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, enquanto um vira-lata preto e pardo perambula pela entrada do Palácio do Alvorada há semanas. Os portões do poder também mantêm outros pretos e partos do lado fora: em um povo de maioria negra (56%), não há um negro no primeiro escalão do Executivo. Apenas 24,4% dos deputados federais e 28,9% dos estaduais eleitos em 2018 são negros, assim como pouco mais de 15% dos magistrados, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (2013)[i]. Pretos e pardos lutam pela sobrevivência como vira-latas, já que são 75% dos 13 milhões de brasileiros na extrema pobreza[ii]. Coincidentemente, a raça pastor maremano é ideal para cuidar de rebanho, como são chamados os fervorosos bolsonaristas, e “tem habilidade nata para o serviço de auxílio a fazendeiros, criadores e demais profissionais da área rural, gerando para a propriedade economia na substituição de mão de obra”[iii]. O combo sob medida para o agronegócio. E, por fim, como admitiu-se, era sabido que o cão pertencia a alguém, mas, mesmo assim, os esforços não foram para encontrar seu responsável, mas sim para capitalizar a suposta boa ação, sem falar na dose de apropriação indébita, característica típica de um estrato social que se julga acima de leis e regras, como viu-se recentemente[iv].

Provavelmente, não será a última vez que o governo será exposto graças à, digamos, falta de ligação com a verdade, até porque outros exemplos o precederam. Carlos Decotelli sequer conseguiu ser nomeado ministro da Educação, pois as qualificações que ostentava revelaram-se falsas. Não era doutor, muito menos pós-doutor, e ainda foi acusado de plágio em seu trabalho final de mestrado. Seus antecessores, Ricardo Vélez e Abraham Weintraub não escaparam à regra. Damares Alves se apresentava como mestre em Educação, Direito Constitucional e Direito da Família, sem nunca ter tido tais títulos. Em sua defesa, disse que “Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico.”[v] Ricardo Salles também apresentou qualificação inexistente. Culpou a assessoria pelo erro que lhe atribuiu um mestrado em Direito Público na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Talvez, os assessores tenham aproveitado a oportunidade para dar de baciada o diploma, assim como o ministro viu na pandemia uma chance para simplificar regras e normas ambientais.

A irrelevância com a qual o governo tratou a adulteração da formação de seus integrantes revela o desdém pela verdade, mas também pela educação formal, já manifesta no obscurantismo que nega a gravidade da pandemia, o aumento do desmatamento, o desemprego, a fome. A prioridade para Saúde e Educação nunca existiu. Sem a nomeação de Decotelli, o ministério está há dias sem titular, no ano em que a principal forma de financiamento da educação básica termina. Do mesmo modo, a Saúde é comandada por um interino face a maior crise sanitária da história brasileira, não obstante, em 100 dias de pandemia no Brasil, cerca de dois terços dos recursos do orçamento sequer foram empenhados (compras de insumos não foram feitas nem transferências para estados e municípios), aponta o balanço de junho do Conselho Nacional de Saúde. A avaliação do economista responsável é que ou falta planejamento para ações emergenciais ou uma política de austeridade tem retardado a utilização dos recursos, às custas de vidas[vi]. Vale lembrar que a mentira foi, de fato, institucionalizada quando tentou-se alterar as estatísticas oficiais da pandemia.

Se vida e economia se contrapõem para o governo, o tratamento lastreado em mentira é igual para ambas. O auxílio emergencial, aprimorado com esforço pelo Congresso, ainda está sob análise para 10 milhões de brasileiros. A incapacidade de fazer o benefício chegar a quem está fragilizado socialmente dá o tom do desapreço pela população. Por outro lado, mais de 70 mil militares receberam o auxílio indevidamente, como se não bastasse integrar a categoria mais privilegiada na reforma previdenciária e agraciada com penduricalhos.

Principais responsáveis pela geração de emprego no país, micro e pequenas empresas (aquelas que ainda resistem) não viram chegar o crédito oferecido à contragosto pelo governo, que não quer perder dinheiro “salvando empresas pequenininhas”, como disse Paulo Guedes[vii]. Nem 20% do crédito destinado para programas de financiamento foram desembolsados[viii]. No acumulado dos últimos 12 meses, 93,4% dos pedidos de falências e 94,2% dos pedidos de recuperação judicial foram de pequenas empresas, que também responderam pela maioria das falências decretadas (95,8%) e recuperações judiciais deferidas (94,3%)[ix]. É uma linha que busca o caos social. Aniquila-se as fontes de empregos formais aumentando a informalidade em um país onde, pela primeira vez, menos da metade das pessoas em idade para trabalhar está empregada[x].

A nomeação de Regina Duarte para a Cultura deu a falsa sensação para poucos otimistas que a atriz poderia encontrar um caminho para ajudar um setor quase que integralmente paralisado pela pandemia. Sua passagem vexatória não deixou absolutamente nada de relevante para a classe artística e será lembrada com constrangimento. Seu deslocamento para a Cinemateca de São Paulo também era falso. O cargo prometido não existia e a intenção do governo é justamente fechá-la. A ela, seguiu-se outro secretário que nada de bom inspira à categoria.

A mentira está entranhada nos poros do governo. Bolsonaro degradou o compromisso primeiro de verdade perante os eleitores ao ponto que, agora, o anúncio de sua contaminação é visto com extrema desconfiança, não de forma gratuita, e sim pelo hábito de desmoralização da palavra presidencial pelo próprio Presidente. Negacionistas fizeram um exercício de humildade uma vez infectados, mas Bolsonaro espezinha ao dizer que melhorou quase imediatamente após tomar cloroquina, cuja eficiência foi descartada por pesquisadores. É um desserviço criminoso que reflete na pressão sobre profissionais de saúde por tratamentos sem comprovação científica[xi]. O devaneio rendeu ao Exército um estoque de 18 anos do medicamento! O Presidente vetou a obrigação do uso de máscaras em escolas, repartições públicas, presídios, comércios, indústrias com objetivo de transferir a antipatia das inevitáveis medidas restritivas para governadores e prefeitos e, assim, reforçar a mentira que a tragédia brasileira não é sua responsabilidade, mas o teste deu positivo para mentira.

Cedo ou tarde, a verdade prevalece, dizem. Por enquanto, a mentira persiste de pé ao custo de, pelo menos, 100 mil mortos, a considerar a subnotificação que será conhecida futuramente; de milhões de desempregados e trabalhadores informais largados à precariedade; de milhões de contaminados por um doença cujas sequelas são desconhecidas; de degradação institucional e corrupção moral dos poderes; de devastação ambiental e extermínio indígena; de dominação popular por interesses financeiros.

Defender a contraprova em 2022 significa prolongar o rastro de arrasamento social de um país enfermo sem nenhuma perspectiva de recuperação. Os danos são gravíssimos para serem minimizados por questões procedimentais ou colocados no banco à espera do momento apropriado. Difícil acreditar que a verdade precisa destruir o Brasil para triunfar.

*Iury Tavares é mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa.

Notas


[i] https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/

[ii] https://valor.globo.com/brasil/noticia/2019/11/13/ibge-dos-135-milhoes-vivendo-em-extrema-pobreza-75percent-sao-pretos-ou-pardos.ghtml

[iii] https://revistagloborural.globo.com/vida-na-fazenda/como-criar/noticia/2015/02/como-criar-pastor-maremano-abruzes.html

[iv] Refiro-me, claro, aos episódios conhecidos pelas frases “Cidadão não, engenheiro civil, melhor que você.”, “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano.” e “”Meu pai é procurador, você vai perder esse seu empreguinho.”.

[v] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/sem-diploma-damares-ja-se-apresentou-como-mestre-em-educacao-e-direito.shtml

[vi] https://www.youtube.com/watch?v=zUIo0BtnOQ8

[vii] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/leia-a-integra-das-falas-de-bolsonaro-e-ministros-em-reuniao-ministerial-gravada.shtml

[viii] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/07/menos-de-20-do-credito-para-socorrer-empresas-foi-desembolsado.shtml

[ix] https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/07/08/pedidos-de-recuperacao-judicial-sobem-822-em-junho-ante-maio-diz-boa-vista.htm

[x] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/06/desemprego-chega-a-129-em-meio-a-pandemia-da-covid-19.shtml

[xi] https://folha.com/h3rg4s96