A síndrome de Poliana

Imagem: Jimmy Chan

Por JOSÉ DAMIÃO TRINDADE*

Durante quanto tempo se sustentaria um governo de mãos amarradas, autorizado apenas a ir tocando medidas assistenciais e algo mais?

Poliana é um clássico da literatura infanto-juvenil, da estadunidense Eleanor Porter, publicado originalmente em 1913. A personagem Pollyanna é uma mocinha que se guia pelo empenho gentil e crédulo de sempre procurar o “lado bom” em tudo. No Brasil o livro popularizou o termo “poliana”, que se transformou em adjetivo. Ainda que a maior parte dos dicionários mais populares não registrem o verbete, ele pode ser encontrado no Wikdicionário, que o descreve como relativo à “pessoa que é excessiva e idealistamente positiva, otimista e inocente, pura, ingênua”. Pois, se procurar com boa vontade, dá mesmo para encontrar um lado “bom” em qualquer coisa. Até no nazismo.

Os nazistas resgataram, no período 1933-45, o orgulho nacional de um país derrotado na Primeira Guerra Mundial, que havia sido colocado de joelhos pelos vencedores. O nazismo foi o primeiro regime do mundo a alcançar o pleno emprego, sua economia saiu da depressão e passou a produzir com frenesi. Suas estradas e conjuntos habitacionais foram os melhores do seu tempo. A ciência alemã saltou para o primeiro plano mundial, e o automóvel Volkswagen, produzido especialmente para uso dos trabalhadores alemães, foi um sucesso internacional por 50 anos.

Dá até calafrios imaginar como poderia ter sido o desfecho da guerra, se Hitler não houvesse cometido a burrada militar de invadir a União Soviética, escolhendo lutar em duas frentes militares. A esmagadora maioria do povo alemão gostou do nazismo, beneficiou-se dele, apoiou aquele regime violento e anti-humano – até mesmo depois do seu fim. Mas nada disso caracterizou o nazismo, não foram esses os traços predominantes daquele regime horroroso.

Conforme Hegel, descobrimos o que uma coisa é, não pelo seu “lado” bom – ou ruim, tanto faz – mas pelo rumo principal, pelo rumo determinante do seu movimento.

Claro que é “melhor” termos Alckmin conosco do que contra nós, ou Michel Temer, ou Sarney, ou o MDB – inteiro ou pela metade – ou qualquer outro político ou bloco de direita que se descole do bolsonarismo. Nem precisamos perder tempo argumentando com esse “lado bom”.

A questão é outra: o que vem junto com esse pacote? Teremos, novamente, de abandonar o nosso programa de governo, como fez Dilma em 2014, uma semana após ser reeleita? Pois não adiantou, derrubaram-na do mesmo jeito – e sem o povo para defendê-la. “Ah, mas Alckmin vai nos trazer os fiéis votos tucanos dos interiores”. Vai mesmo? Quem assegura? Isso é apenas um desejo. Uma variante desse mesmo argumento: “Sem Alckmin, podemos perder as eleições”. Será mesmo? Eis outra convicção indemonstrável.

Mas, polianamente, vamos fazer de conta de que esses dois argumentos são verdadeiros, e de que Lula precisa de Geraldo Alckmin para derrotar eleitoralmente Bolsonaro. Alckmin e a rançosa direita antipovo, sua acompanhante há muito tempo, darão esse apoio de graça, programaticamente falando? Pois o moço já está esbravejando contra mexer na reforma trabalhista de Temer! Convém recordar o conteúdo daquela gamela enorme de maldades: flexibilização/declínio dos direitos trabalhistas, a informalidade passando a ser regra, esticamento das jornadas de trabalho para até 60 horas semanais, emagrecimento das competências da Justiça laboral, fragmentação das férias, autonomização/pejotização dos trabalhadores, terceirização irrestrita de todas as atividades (até das atividades-fim das empresas), o “negociado” sobrepondo-se ao legislado, esvaziamento da responsabilidade patronal nos danos à saúde e à segurança no trabalho, retorno do trabalho obrigatório até para as gestantes e lactantes. Ainda caberia aqui um longo etcetera.

Ademais, é público que esse mesmo veto empresarial também recai sobre todas as outras malvadezas que as direitas governantes perpetraram contra o povo e contra o país de 2016 para cá. Lembrando: a reforma previdenciária que, no limite, extingue ou miserabiliza a aposentadoria, o teto de gastos orçamentários que interdita investimentos sociais, a autonomia do Banco Central, capaz de brecar até políticas desenvolvimentistas, a alienação do pré-sal para o capital estrangeiro, os alívios tributários para as megaempresas exportadoras, o agronegócio predador queimando e esterilizando o cerrado e as florestas, a desigualdade social indecente que não cessa de se aprofundar. Por aí, vai. As direitas são consequentes: estão aí para defender os seus interesses de classe. Levam a sério programas de governo, exigem o seu cumprimento.

E as esquerdas? Assumindo, mesmo informalmente, o compromisso de respeitar esses pontos fortes que a direita interditou – condição para o apoio eleitoral – durante quanto tempo se sustentaria um governo assim, de mãos amarradas, autorizado apenas a ir tocando as medidas assistenciais e algo mais?

Em política, conduzir-se como Poliana é um modo conformista de considerar a realidade. Poliana gasta tantas energias procurando – e encontrando! – o “lado bom” das coisas, que corre o risco de não reconhecer o lado principal delas – aquele lado que, em última instância, determina como elas são/serão.

Poliana não é reformista. É conformista. Conforma-se com qualquer coisinha boa. “Melhor do que nada” é o seu pensamento predileto. Nem suspeita que o “nada” pode estar tão pertinho. Na ficção infantojuvenil, o comportamento poliana não produz mais do que frustração, saudável até, para o amadurecimento emocional. Na política, a “síndrome de Poliana” pode ter consequências que matam um governo antes do seu nascimento.

*José Damião Trindade é procurador aposentado do estado de São Paulo. Autor, entre outros livros, de História Social dos Direitos Humanos (Peirópolis).