A metáfora de Lula

Iamgem: Thai Nguyen
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LISZT VIEIRA*

O antissemitismo vem sendo usado como pretexto para defender o atual governo de extrema direita de Israel. O antissionismo e o antissemitismo são colocados no mesmo saco

O Governo de Israel matou mais de 30 mil civis na Palestina. Bombardeou 34 hospitais e 104 escolas e universidades. Milhões de pessoas estão sem condições mínimas de sobrevivência: sem comida, remédios, condições sanitárias e abrigo.

O nome desse extermínio é genocídio. Mas a mídia ignora isso e prefere criticar a denúncia de Lula que usou uma comparação que pode ser chamada de metáfora. O Holocausto foi um massacre de seis milhões de judeus. O extermínio de palestinos é um massacre de, até agora, 30 mil civis, dos quais mais de 10 mil crianças.

O Governo de Israel não é proprietário da palavra Holocausto. Essa palavra pode ser usada por qualquer um, como metáfora de extermínio, embora seja diferente o extermínio de judeus – e também de socialistas, comunistas, homossexuais, portadores de necessidades especiais e ciganos – pela Alemanha nazista e o extermínio atual de palestinos pelo governo neofascista de Israel. As condições são muito diferentes no que se refere à quantidade de pessoas assassinadas, situação histórica, condições políticas etc.

É verdade que, mudando a quantidade, muda a qualidade, mas a metáfora não é uma imitação. Uma comparação metafórica de X com Y não significa que X seja igual a Y. Significa que ambos têm algo em comum. Por definição, “metáfora” é uma figura de linguagem utilizada para fazer comparações por semelhança. É o uso de uma palavra com o significado de outra. No caso, o que existe em comum é o extermínio em massa de pessoas inocentes.

Lula só foi criticado pelo governo de Israel e pela mídia brasileira. Nenhum governo, de nenhum país, criticou Lula, que se tornou uma referência importante para a opinião pública mundial, escandalizada com o genocídio dos palestinos. Lula colocou o dedo na ferida e penetrou no coração das trevas. A mídia brasileira, porém, prioriza a decisão de Israel de considerar Lula como persona non grata. O embaixador brasileiro, humilhado em Israel, foi chamado de volta ao Brasil. Uma pequena crise diplomática que está sendo usada como vã tentativa de tapar o sol com a peneira e ignorar o genocídio dos palestinos.

Na realidade, o atual governo de Israel sempre apoiou o governo de Jair Bolsonaro, e autorizou a venda de equipamento de espionagem para Jair Bolsonaro espionar seus adversários políticos. A extrema direita no Brasil conta agora com uma nova base de apoio: o desenvolvimento atual do chamado sionismo cristão, bandeira dos neopentecostais com seu apoio irrestrito a Israel.

Manifestações de massa, em todo o mundo, protestaram nas ruas contra o massacre de palestinos. Organizações de judeus progressistas condenaram com veemência a guerra de extermínio levada a cabo pelo governo de Benjamin Netanyahu. Mas isso vem de longe. Logo após a criação do Estado de Israel pela ONU em 1948, o novo governo decidiu que “a fronteira será definida pela guerra”. Assim, Israel rapidamente tornou-se um país colonialista que invadiu terras da Palestina, expulsou seus moradores e, muitas vezes, violou mulheres e matou civis nas aldeias, conforme depoimento de antigos soldados do Exército de Israel.

O antissemitismo vem sendo usado como pretexto para defender o atual governo de extrema direita de Israel. O antissionismo e o antissemitismo são colocados no mesmo saco. O Holocausto é usado como um argumento passe partout para justificar a invasão da Palestina e o extermínio de seus habitantes. No Brasil, quem criticava o governo de Jair Bolsonaro era chamado de antipatriota pela direita. Da mesma forma, quem critica o atual governo Benjamin Netanyahu é chamado de antissemita.

Em 20 de fevereiro último, o Governo Norte-americano vetou pela 3ª vez o cessar-fogo em Gaza no Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos usaram seu poder de veto para rejeitar uma resolução de cessar-fogo na Faixa de Gaza proposta durante reunião no Conselho de Segurança da ONU. Por outro lado, o diplomata Celso Amorim disse que a fala de Lula “sacudiu o mundo e pode ajudar a resolver a questão da guerra”.

Em meio à crise diplomática com Israel, o governo brasileiro pediu que a Corte de Haia declare ilegal a ocupação por Israel dos territórios palestinos. A delegação brasileira defende criação de dois Estados. “A ocupação de Israel dos territórios palestinos que persiste desde 1967 em violação ao direito internacional e a várias resoluções da Assembleia-Geral da ONU e do Conselho de Segurança não pode ser aceita, muito menos normalizada”, afirmou a diplomata Maria Clara Paula de Tusco, representante do Brasil no Tribunal. Ela defendeu que a Corte declare a ocupação israelense ilegal.

Não há solução militar para o conflito de Israel com a Palestina. Mas o atual governo de Israel precisa de guerra para sobreviver. Sabe que pode cair se e quando a guerra terminar. Com o apoio dos EUA, o governo israelense conquista vitórias militares, mas perdeu a batalha política na opinião pública e se tornou inimigo da sociedade civil mundial e de seus valores humanitários. Sem apoio político, os tiranos não se sustentam muito tempo. O mundo dá voltas. No longo prazo, as vitórias de hoje podem ser uma vitória de Pirro.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Ronaldo Tadeu de Souza Benicio Viero Schmidt Dênis de Moraes Flávio R. Kothe Fernando Nogueira da Costa Priscila Figueiredo Igor Felippe Santos Luiz Bernardo Pericás José Geraldo Couto Vinício Carrilho Martinez Luís Fernando Vitagliano Atilio A. Boron João Carlos Salles Leonardo Boff Flávio Aguiar João Carlos Loebens Yuri Martins-Fontes Eleonora Albano Luciano Nascimento Antonino Infranca José Micaelson Lacerda Morais João Paulo Ayub Fonseca Luiz Eduardo Soares Mário Maestri Elias Jabbour Ronald León Núñez Marcos Aurélio da Silva Berenice Bento Leonardo Sacramento Rafael R. Ioris Antonio Martins Valerio Arcary Bernardo Ricupero Alexandre de Freitas Barbosa Manuel Domingos Neto Eugênio Bucci Leda Maria Paulani Gilberto Maringoni Érico Andrade Daniel Costa Afrânio Catani Marcelo Guimarães Lima José Machado Moita Neto Paulo Nogueira Batista Jr Ricardo Abramovay José Luís Fiori Lorenzo Vitral Alysson Leandro Mascaro Salem Nasser Matheus Silveira de Souza Vladimir Safatle Manchetômetro Claudio Katz Jean Pierre Chauvin Boaventura de Sousa Santos Carlos Tautz José Costa Júnior Gerson Almeida João Adolfo Hansen Otaviano Helene Ari Marcelo Solon Celso Frederico Fábio Konder Comparato Leonardo Avritzer João Feres Júnior Dennis Oliveira Osvaldo Coggiola Thomas Piketty Eduardo Borges Luiz Renato Martins Everaldo de Oliveira Andrade Armando Boito Bruno Machado Walnice Nogueira Galvão Anselm Jappe Bruno Fabricio Alcebino da Silva Luis Felipe Miguel André Singer Caio Bugiato Kátia Gerab Baggio Celso Favaretto Francisco de Oliveira Barros Júnior Ricardo Musse Michel Goulart da Silva Plínio de Arruda Sampaio Jr. Bento Prado Jr. Maria Rita Kehl Chico Alencar Juarez Guimarães Andrés del Río Andrew Korybko Tales Ab'Sáber Marcos Silva Marcus Ianoni Paulo Martins Luiz Marques Francisco Pereira de Farias Tarso Genro Rodrigo de Faria Julian Rodrigues Anderson Alves Esteves Slavoj Žižek Chico Whitaker Eleutério F. S. Prado Paulo Fernandes Silveira Marjorie C. Marona José Raimundo Trindade Lucas Fiaschetti Estevez Sandra Bitencourt Gilberto Lopes Eliziário Andrade Valerio Arcary Alexandre Aragão de Albuquerque João Lanari Bo Fernão Pessoa Ramos Michael Löwy Luiz Werneck Vianna Henry Burnett Marilia Pacheco Fiorillo João Sette Whitaker Ferreira Milton Pinheiro Liszt Vieira Sergio Amadeu da Silveira Samuel Kilsztajn Luiz Roberto Alves Daniel Afonso da Silva Marcelo Módolo Ricardo Fabbrini Antônio Sales Rios Neto Luiz Carlos Bresser-Pereira Michael Roberts Lincoln Secco José Dirceu Remy José Fontana Vanderlei Tenório Francisco Fernandes Ladeira Jorge Branco Ronald Rocha Ricardo Antunes Ladislau Dowbor Eugênio Trivinho Jorge Luiz Souto Maior Jean Marc Von Der Weid Airton Paschoa Carla Teixeira Alexandre de Lima Castro Tranjan Paulo Capel Narvai Heraldo Campos Paulo Sérgio Pinheiro Tadeu Valadares Daniel Brazil Denilson Cordeiro Renato Dagnino Annateresa Fabris Gabriel Cohn Rubens Pinto Lyra Marilena Chauí André Márcio Neves Soares Henri Acselrad Mariarosaria Fabris

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada