A oposição homem-natureza

Imagem: William Doll II
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Por LISZT VIEIRA*

A visão cartesiana coisifica a natureza, ignora a complexidade e ataca a homeopatia

O ataque da visão cartesiana da ciência à complexidade e, no caso da medicina, à homeopatia, não é novidade. Tem raízes profundas na tradição ocidental que, desde suas origens, colocou a natureza à disposição do ser humano para que ele a subjugasse. Com raras exceções, é assim que ela aparece na Bíblia, no Corão, nos filósofos medievais e nos pensadores racionalistas dos séculos XVII e XVIII. E isso ocorre tantos nas concepções teocêntricas quanto nas antropocêntricas. É nas sociedades fundadas com a revolução industrial, porém, que o antagonismo homem-natureza se aprofunda e se define.

Nem sempre foi assim. Para a mitologia grega, os deuses e os seres humanos têm a mesma origem. O que os diferencia não é a origem, mas sim o destino: os deuses são imortais. Entretanto, os deuses são formados à imagem e à semelhança dos homens, com sentimentos e paixões, qualidades e defeitos humanos. Os deuses gregos não são entidades sobrenaturais, pois são compreendidos como parte integrante da natureza (Bornheim, Gerd. In: Os filósofos pré-socráticos).

Assim, não existia, como na tradição judaico-cristã, um Deus incriado que criou o Universo e todas as coisas. Os deuses e os seres humanos coexistem na natureza. Na própria terminologia da língua grega, a palavra physis significa a natureza e o ser humano com suas ações e pensamentos. Certamente outros exemplos existem ao longo da história, mas a que prevaleceu na tradição ocidental é uma concepção de natureza submetida ao ser humano para que este a dominasse.

Foi sobretudo com a influência judaico-cristã que a oposição homem-natureza, espírito-matéria, adquiriu maior expressão. Esta concepção encontrou sua formulação máxima e melhor justificação no filósofo René Descartes. A concepção cartesiana colocava o homem como sujeito e a natureza como objeto: o homem passava a ser o senhor e mestre da natureza. A concepção cartesiana vai influenciar profundamente a maneira de pensar o mundo que está na base da revolução científica e tecnológica que predominou no Ocidente e que encontra sua expressão máxima na Revolução Industrial. Seguindo a trilha aberta por Descartes, o pensador Francis Bacon, tempos depois, afirma que o homem deve domar a natureza como se domina uma mulher. Na sua concepção, a natureza é feminina, enquanto que a dominação sobre a natureza é o elemento masculino. Assim, o patriarcalismo é um subproduto da revolução científica que inaugura a Modernidade depois da Idade Média.

O antropocentrismo, o sentido pragmático-utilitarista do pensamento cartesiano e a oposição do sujeito em relação ao objeto, à natureza, vão marcar a modernidade. A natureza, já não mais povoada por deuses, pode ser esquartejada. Este antropocentrismo arraigado rompe qualquer possibilidade de integração do ser humano com a natureza, numa visão cósmica como partes do Universo. Assim, a organização social patriarcal e os sistemas econômicos predatórios que prevaleceram nos últimos séculos andaram de mãos dadas com o racionalismo cartesiano.

A natureza se define, em nossa sociedade, por aquilo que se opõe à cultura. A cultura é tomada como algo superior que conseguiu controlar e dominar a natureza. Com a agricultura, o homem domestica a natureza e se torna sedentário, considerando primitivos os nômades. Dominar a natureza, é dominar a inconstância, o instinto, as pulsões e as paixões. Além disso, a expressão dominar a natureza só tem sentido a partir da premissa de que o ser humano é não-natureza. Mas, como ele é também natureza, falar em dominar a natureza é falar também em dominar os seres humanos.

O capitalismo leva essa tendência às últimas consequências. O Iluminismo e a Revolução Industrial são a expressão e a base dessas ideias. A ciência e a técnica adquirem, no século XIX, um significado central na vida humana. As ciências humanas surgem inteiramente separadas das ciências da natureza. A ideia de uma natureza objetiva e exterior ao ser humano considerado como não-natural e fora da natureza, cristalizou-se com a Revolução Industrial e tornou-se dominante no pensamento ocidental.

Assim, é neste quadro de ruptura da solidariedade ser humano-natureza que se coloca hoje a crise ecológica como um grande desafio para a humanidade. E a razão clássica, baseada no repouso e na ordem, no divórcio de natureza e sociedade, é impotente para dar conta deste grande desafio. Mas a teoria da relatividade e a física quântica no século XX mostraram que a ciência não produz mais certezas, mas apenas probabilidades. O Ocidente passou a tornar-se mais sensível às concepções holísticas que prevalecem nas filosofias orientais, baseadas numa visão não-dualista da realidade, buscando transcender a divisão entre mente e matéria, sujeito e objeto.

Trata-se de promover uma compreensão mais profunda da vida e da consciência, reconhecendo a interconexão e a interdependência de todas as coisas, como a conexão entre a ciência e a espiritualidade, buscando integrar conhecimentos científicos com sabedoria proveniente da consciência e do espírito. Isso requer uma visão holística de interpenetração entre corpo, mente e natureza, rejeitando a ideia cartesiana de que o homem é o sujeito, e a natureza, o objeto a serviço do homem. É com base nessa visão integradora que a atual perspectiva ecológica combate a visão predatória do capitalismo que destrói os recursos naturais, levando à perda da biodiversidade, e provoca a atual crise climática pela emissão de gases de efeito estufa, ameaçando a sobrevivência da humanidade no planeta.

Mas os exemplos estão em toda parte. Na segunda metade do século passado, firmou-se uma visão de medicina psicossomática que avançou, embora ignorada por alguns. Sou leigo em questões médicas, mas acho muito precário o ataque atual à homeopatia a partir de uma visão dualista que separa o corpo da mente. A medicina tradicional tem uma influência cartesiana que separa o corpo em partes, e cuida de cada parte sem integrá-las num todo. A constatação de que muitas doenças físicas, em órgãos do corpo, têm origem psicológica ou emocional, parecia fato consumado, mas muitos médicos hoje parecem ignorar isso.

Já nem me refiro à grande quantidade de médicos (seriam 50%?) que receitaram cloroquina para COVID, motivados por questões mais ideológicas do que científicas. Esses são charlatães que receitam poções mágicas. Refiro-me a cientistas que, em nome da ciência – tal como eles entendem a ciência – atacam sistemas e métodos complexos que tratam o paciente como um todo inseparável, corpo e espírito.

O curioso é que o princípio geral que orienta a homeopatia é parecido com o princípio por trás da vacina: “o semelhante cura o semelhante” (Similia Similibus Curantur). No caso da vacina, uma dose ínfima do mal é injetada no corpo para que este adquira anticorpos. No caso da homeopatia, não há substância material que se esvai durante as manipulações da substância, mas permanece a energia daquela substância oriunda do mal. Como a energia é invisível, não é aceita pela medicina tradicional. Aliás, a homeopatia não exclui outros tipos de abordagem terapêutica, como esclarece a Declaração do CREMERJ repudiando o ataque recente à homeopatia proveniente não de médicos, mas de uma bióloga.

Não estou defendendo nenhuma tese, estou apenas estranhando que elementos não materiais sejam a priori rejeitados e considerados como superstições. Dizer que, mudando o observador, muda a coisa observada, era uma absurda afirmação herética antes da física quântica e de seus teóricos pós Einstein, como Max Planck, Werner Heisenberg, Niels Bohr, entre outros. E hoje sabemos que não há mais certezas na matemática, antes considerada ciência exata. Kurt Gödel demonstrou que, na aritmética básica, há enunciados verdadeiros que não podem ser provados e que a consistência de um sistema não pode ser provada dentro do mesmo sistema. A ciência evolui e relativiza suas certezas. Mas muitos cientistas ainda se agarram às certezas cartesianas do passado e ignoram as relações complexas da realidade, biológica ou social, e suas interdependências.

A drástica separação ontológica entre sujeito e objeto, ser humano e natureza, corpo e mente, energia e matéria, partes e todo, embora superada pela filosofia e ciência contemporâneas, continua empolgando corações e mentes influenciadas pela tradicional visão cartesiana de mundo.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond).


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