A primavera e a Jenny dos piratas

image_pdf

Por LUIZ MARQUES*

O ressurgimento de uma esquerda plural e conectada com anseios nacionais aponta para uma primavera política, marcada pelo otimismo e pela crença num futuro de solidariedade global

1.

As mobilizações cívicas nas cidades brasileiras, dia 21 de setembro, véspera da estação das flores, mostraram o descontentamento do povo com a PEC da Bandidagem e o PL da Anistia. A opinião pública teve um registro midiático, estatístico e político que decerto vai influir nos humores de Brasília. A extrema direita baixou a crista com as imagens, números e à potência da estética democrático-popular. A desaprovação com a desfaçatez da Câmara de Deputados é retumbante.

Não se pode afirmar que a opinião pública não existe, como fizeram teóricos cinquenta anos atrás. Um “ethos de classe” desfilou nas marchas que marcaram o domingo, remetendo a uma volta da esquerda e seu pluralismo às ruas, com o encantamento das mudanças devolvido à classe média. A posição do presidente Lula em defesa da democracia e da soberania nacional, no enfrentamento ao bolsonarismo e ao pesado tarifaço dos Estados Unidos, contribui para o despertar da letargia.

Ao se reapropriar de temas que dialogam com a comunidade nacional por meio de um projeto de nação, sem temer afirmar os valores cumulativos da civilização moderna e o princípio da soberania em direção à dignidade e à felicidade, – o governo federal sintetiza com sucesso a retomada das lutas pela sociedade civil. É com gosto que as pessoas saíram de suas casas para fazer história.

Trata-se de um marco na conjuntura do país. Como uma epifania que ilumina a consciência coletiva, o momento reconstitui os afetos da nacionalidade e do patriotismo que o processo de globalização neoliberal, cantado em prosa e verso na imprensa corporativa, dissipa. O ardor pátrio caricatural (bolsonarista) reafirma as hierarquias sociais rígidas da dominação tradicional contra as organizações dos trabalhadores e os partidos e os movimentos do espectro progressista. No entanto, os conceitos voltam ao leito do “direito a ter direitos”, com coragem. É o sinal, de Norte a Sul

O acontecimento não tem um caráter isolado. Compõe o mosaico de resiliência que se observa nas pesquisas que colocam o Brasil na vanguarda da luta pela cooperação mundial, para combater a crise comercial, bem como a crise climática e social. O Brics se fortalece como uma alternativa à unipolaridade e ao fracasso dos EUA na liderança global, com o protagonista que aprofunda os problemas que afligem a humanidade e o planeta no século XXI. Um novo mundo é possível.

O espírito universalista converge para um nacionalismo positivo, orientado para a globalização da solidariedade, não do capital financeiro, não dos algoritmos do capital-nuvem. O eco das demandas socioeconômicas e ambientalistas revela que as promessas de prosperidade do neoliberalismo, confundidas com promessas da própria democracia, se esfumam no ar. O espírito do tempo começa a ser captado pela esquerda (governo, partidos, movimentos). A extrema direita, parece que não compreende os ventos atuais: confinada em bolhas, perde a sintonia e o leme da opinião pública.

2.

As opiniões que criam um universo paralelo já não convencem. O negacionismo com relação às vacinas continua a preocupar os epidemiólogos, porém, os que se colocam contra as campanhas de vacinação não têm audiência para se expressar publicamente. O conhecimento científico sobre a evolução das doenças e as medidas necessárias para preveni-las, na rede pública de saúde, retornam à condição de paradigma. O discurso contra a política in totum se esvazia. A apresentação espúria de propostas que afrontam o bom senso e a decência esbarram nas denúncias dos progressistas.

O jogo de opiniões que validava os absurdos, sem limites, resgata o crédito epistemológico sob a racionalidade não negacionista. A legitimidade das opiniões religa-se aos valores da democracia e da soberania nacional. Basta comparar o defendido nas manifestações obscurantistas, no início de setembro, com a agenda das mobilizações iluministas, muito mais robustas, convocadas pela Frente Brasil Popular e pelo Povo Sem Medo.

A distinção de conteúdo era um fato intelectual; hoje é um fato de massas, contando com uma adesão transversal na população. As opiniões que exprimem interesses particulares são vencidas por aquelas que refletem a urgência dos interesses gerais.

O espaço para a manipulação se reduz. O terreno público é menos afetado pelas paixões que cegam o discernimento. A autenticidade das opiniões precisa da chancela dos direitos humanos, da empatia com o sofrimento dos concidadãos (concivis). A razão reencontra a política, e vice-versa. Agora a persuasão prevalece sobre a correlação de forças. Os procedimentos importam nas avaliações. Uma exigência ética se impõe no debate público, coisa que deixou de ocorrer em um período recente.

A liberdade se junta à responsabilidade na aferição da verdade. A política deixa de ser um octógono para os conflitos, que então se assemelhavam às lutas marciais em um vale-tudo da cintura para baixo. As regras devem ser respeitadas por todos e todas. A participação cidadã cobra coerência e veracidade das assertivas e narrativas. Fake news, mentiras, murcham fora do circo de horrores.

O povo dá provas de determinação, consciência e capacidade de combate para se adonar de seu destino, e o faz com alegria, entusiasmo e otimismo. A utópica caminhada atravessa o inverno. O horizonte se abre. A estrela brilha. A natureza floresce. É tempo de primavera. Quem vem lá.

A exemplo da canção Jenny dos piratas, de Kut Weill com letra de Bertolt Brecht, o povo brasileiro ensina o mundo ao anunciar a primavera, protestando qual a camareira do hotel que se torna uma pirata temível para se vingar das injustiças na Ópera dos três vinténs, escrita sob o temor do autoritarismo crescente que pavimenta o mal do nazifascismo, na Europa de priscas eras.

“Meus Senhores, hoje aqui me veem estes copos lavar, / E faço a cama a qualquer malandro fiel. / E dão-me uns cobres, e eu digo ‘obrigada’ a saltar, / E os Senhores nem sequer sonham com quem estão a falar. / Mas uma bela noite vai haver gritaria no porto / E hão de ver-me sorrir cá com os meus copos / E dirão: Por que é que sorri esta? // E um navio de oito velas / E cinquenta canhões / acostará ao cais”. Os donos do mundo não entendem ainda por que sorrimos nos últimos dias.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
2
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
7
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
8
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
9
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
10
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
11
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
12
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
13
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
14
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
15
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES