As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A senha do 11 de agosto

Imagem: George Desipris
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIZ WERNECK VIANNA*

Com a sucessão presidencial de 2022, chegou o momento do ajuste de contas da sociedade com os malfeitos que lhes foram infringidos

Falta pouco para que nos livremos da miserável situação a que estamos expostos em longos três anos e sete meses, embora não haja como prever se vamos nos despedir dela em meio a graves perturbações ou sem elas. O retorno ao regime do AI-5, projeto in pettore dos que ainda detém as rédeas do poder, não é mais uma hipótese plausível e a sociedade demonstrou à saciedade sua rejeição ao fascismo e enfrenta seu destino pela via democrática do processo eleitoral. Nesse terreno inóspito ao bolsonarismo, ancorado no Centrão, é que ele joga sua última cartada com a a derrama de dinheiro entre os mais pobres que ora se inicia visando capturar seus votos, iniciativa de resultados imprevisíveis.

Tal iniciativa, formulada de afogadilho para efeitos eleitorais de curto prazo, não deixa de revelar, com independência das intenções dos seus atores, que se aposta também no caminho das urnas, em que pese o alarido promovido cotidianamente delas não serem confiáveis. De qualquer forma, num texto de análise como este, admitindo-se por hipótese, que essa turva orientação leve a sucessão a um desfecho favorável, não se teria uma nova edição do governo Bolsonaro, mas um inédito governo do Centrão, cogitação burlesca que povoa a imaginação dos seus mentores.

Essa hipótese, contudo, está bem longe de ser confiável, como evidente no levante da consciência democrática na defesa que se alastrou entre a inteligência e ponderáveis setores das elites econômicas dos valores e instituições que conformam o Estado democrático de direito, nos vigorosos manifestos lidos em 11 de agosto na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o dos juristas e dos empresários da FIESP, a que dezenas de outras, de vários estados da federação se acrescentaram replicando o inteiro teor do texto dado a público nesse simbólico dia de agosto subscrito por um milhão de pessoas e inúmeras entidades, entre as quais as mais representativas do capital e do trabalho e de movimentos sociais.

No caso, é de especial relevância o fato de que tal manifestação optou por estabelecer uma linha de nítida convergência com as manifestações de 1977 em oposição ao regime ditatorial da época, tanto no texto, como no lugar em que ambas vieram a público. Nesse sentido, bem mais do que um protesto tópico contra os descaminhos do atual governo e sua índole autocrática a poderosa manifestação dos dias de hoje se endereça à intenção de levar a cabo a democratização inconclusa da sociedade brasileira.

Essa é uma alvissareira oportunidade que não pode ser perdida, como a que deixamos de escapar das mãos por incúria política ao permitir a separação entre os temas da questão social com os da democracia política. A tentativa do PT de conduzir por cima, a partir de ações do Estado para fins de atender a agenda social, levou à desconsideração dos limites institucionais, e, mais grave ainda, a práticas nocivas na composição de suas articulações políticas que, em muitos casos, desrespeitou princípios incontornáveis da ética republicana.

Esse tipo infeliz de intervenção, na tentativa de acelerar o avanço de temas sociais, em especial no governo Dilma Rousseff, favoreceu a irrupção de um largo movimento de denúncias que tomou forma na chamada operação Lava Jato, cujas ações erodiram as bases de sustentação da coalizão liderada pelo PT, abrindo caminho para cavaleiros da fortuna na sucessão presidencial, vencida com folgas por Jair Bolsonaro.

O novo governo nasce sob a inspiração revanchista da falange autoritária derrotada pela larga coalizão democrática dos anos 1980, tendo como alvo as conquistas civilizatórias acumuladas nos governos de FHC e nos de Lula, particularmente nos terrenos das questões sociais e ambientais, numa versão predatória de capitalismo vitoriano que em política admite, ora de modo velado, ora abertamente, sua adesão ao fascismo, intervenção malévola até então rejeitadas por nossas instituições democráticas.

Agora, com a sucessão presidencial de 2022, chegou o momento do ajuste de contas da sociedade com os malfeitos que lhes foram infringidos, repondo-a nos seus trilhos naturais de busca de ideais civilizatórios. Não será tarefa fácil, seus adversários pretendem se opor com todos os recursos de que puderem dispor. Os feitos do último 11de agosto devem servir de régua e compasso em seus próximos passos. Eles nos fornecem a senha – avançar unidos em amplas alianças – para que voltemos ao leito das nossas melhores tradições, democracia sempre como eles bradaram em alto e bom som.

*Luiz Werneck Vianna é professor do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Autor, entre outros livros, de A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Revan).

 

⇒O site A Terra é redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.⇐
Clique aqui e veja como.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Bruno Machado Eleutério F. S. Prado Paulo Capel Narvai Carlos Tautz Afrânio Catani Tales Ab'Sáber Ricardo Antunes Elias Jabbour Daniel Afonso da Silva Jorge Luiz Souto Maior Eduardo Borges Anderson Alves Esteves Ricardo Abramovay Walnice Nogueira Galvão Antonino Infranca Milton Pinheiro Manuel Domingos Neto Anselm Jappe Eugênio Bucci Annateresa Fabris Francisco Fernandes Ladeira Lincoln Secco Roberto Noritomi Alexandre Aragão de Albuquerque Claudio Katz José Costa Júnior Leonardo Boff Lucas Fiaschetti Estevez Rubens Pinto Lyra Luiz Roberto Alves Antônio Sales Rios Neto Vanderlei Tenório João Carlos Loebens Roberto Bueno José Machado Moita Neto Otaviano Helene Jorge Branco Eleonora Albano Gabriel Cohn Leonardo Sacramento João Adolfo Hansen Plínio de Arruda Sampaio Jr. Leda Maria Paulani Heraldo Campos Rodrigo de Faria Sandra Bitencourt Benicio Viero Schmidt Fábio Konder Comparato Celso Frederico Atilio A. Boron Maria Rita Kehl Chico Whitaker Marcelo Guimarães Lima Bruno Fabricio Alcebino da Silva Marilia Pacheco Fiorillo Fernando Nogueira da Costa Chico Alencar José Raimundo Trindade Luciano Nascimento Marcos Aurélio da Silva Bento Prado Jr. Vladimir Safatle Priscila Figueiredo André Márcio Neves Soares Valerio Arcary Gilberto Lopes Armando Boito Flávio R. Kothe Paulo Sérgio Pinheiro Luiz Carlos Bresser-Pereira Ricardo Fabbrini Lorenzo Vitral Celso Favaretto Luiz Marques Mário Maestri Kátia Gerab Baggio João Paulo Ayub Fonseca João Feres Júnior Manchetômetro Denilson Cordeiro Alysson Leandro Mascaro Alexandre de Lima Castro Tranjan Eliziário Andrade Jean Marc Von Der Weid Vinício Carrilho Martinez Dennis Oliveira Leonardo Avritzer Luís Fernando Vitagliano Slavoj Žižek Antonio Martins Everaldo de Oliveira Andrade Henri Acselrad Marjorie C. Marona Alexandre de Freitas Barbosa Valério Arcary Gilberto Maringoni Airton Paschoa Luiz Costa Lima Thomas Piketty Paulo Martins Ronaldo Tadeu de Souza José Micaelson Lacerda Morais Érico Andrade Luiz Renato Martins Paulo Fernandes Silveira Samuel Kilsztajn Luis Felipe Miguel João Sette Whitaker Ferreira Paulo Nogueira Batista Jr Ronald León Núñez Andrew Korybko Renato Dagnino José Dirceu Rafael R. Ioris Sergio Amadeu da Silveira Jean Pierre Chauvin Marcos Silva Luiz Werneck Vianna Liszt Vieira José Geraldo Couto Fernão Pessoa Ramos Bernardo Ricupero Remy José Fontana Carla Teixeira Igor Felippe Santos Dênis de Moraes Daniel Brazil Eugênio Trivinho Henry Burnett Ari Marcelo Solon Luiz Eduardo Soares Tadeu Valadares Michael Roberts Francisco de Oliveira Barros Júnior Salem Nasser Juarez Guimarães Luiz Bernardo Pericás Julian Rodrigues André Singer Marcus Ianoni Francisco Pereira de Farias José Luís Fiori Michael Löwy Ronald Rocha João Lanari Bo Marcelo Módolo Daniel Costa Caio Bugiato Boaventura de Sousa Santos Berenice Bento Yuri Martins-Fontes Ricardo Musse Marilena Chauí Gerson Almeida Mariarosaria Fabris Tarso Genro Flávio Aguiar Ladislau Dowbor Osvaldo Coggiola João Carlos Salles

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada