Ninguém disse que seria fácil

Nabil Nahas, Eclipse, 1978.

Por VALERIO ARCARY*

Apresentação do autor ao livro recém-publicado

“Quem não age conforme pensa começa a pensar conforme age. Quem diz a verdade não merece castigo” (Sabedoria popular portuguesa).

Ninguém disse que seria fácil é um livro que foi sendo escrito aos poucos, ao longo dos últimos quatro anos. Estamos, desde 2016, em uma situação defensiva, embora com uma inflexão mais favorável a partir de meados de 2021. Uma situação defensiva se abre quando se acumulam derrotas dos trabalhadores e do povo oprimido que deslocam, qualitativamente, a relação social de forças.

A eleição de Bolsonaro, em 2018, deixou claro que a situação tinha evoluído de forma tão ruim que o cenário já era reacionário, porque a ofensiva estava nas mãos dos inimigos de classe. Derrotas nos deixam mais reflexivos. A militância de esquerda é um compromisso que estimula entusiasmo, mas desafia nossos limites.

Assim que a primeira nota sobre a relação entre militância e amizade foi publicada percebi que havia a possibilidade de um projeto. A recepção daquele texto me surpreendeu. Ativistas de diferentes correntes da esquerda brasileira se interessaram pelo artigo. Descobri que existia uma demanda de reflexão específica sobre o tema da militância socialista.

Embora tenha opiniões muito definidas, depois de quase cinquenta anos na estrada, as questões foram abordadas com distanciamento das minhas preferências programáticas, inclinações ideológicas e alinhamento político. O objetivo era ser útil, desconsiderando as filiações partidárias de cada militante. O nexo do livro foi a problematização da experiência de militância por ângulos muito variados, mas acredito que o fio condutor emerge com clareza. A militância socialista não é um compromisso indolor, mas traz imensas recompensas. Portanto, o resumo é simples.

A luta vale a pena.

A luta vale a pena por muitas razões. Em primeiro lugar, porque o mundo não vai mudar, se não houver quem lute por isso. Mas vale a pena, também, porque ao longo do caminho para transformar o mundo em que nos coube viver, nós mesmos nos transformamos. Gosto de acreditar que para melhor. O hino da esquerda mundial, A Internacional, registra nos versos do refrão uma ideia poderosa. Bem unidos façamos desta luta final, uma terra sem amos, a Internacional. Acontece que não sabemos quando será a hora da luta final. O engajamento na luta socialista exige a tempera de corredores maratonistas. Esta resiliência favorece um intenso amadurecimento, o sentido de responsabilidade e, mais importante, a solidariedade como vivência.

A aposta na militância é uma escolha compartilhada em que fazemos camaradas. O que são camaradas? Camaradas são aqueles que, na tradição socialista, compartilham uma visão de mundo comum, o igualitarismo, e uma prática de doação voluntária e despojada de seu tempo e energia para a vitória das lutas justas que abrem um caminho para uma maior igualdade social. A visão do mundo socialista se fundamenta, em primeiro lugar, no reconhecimento de que todos os seres humanos têm necessidades comuns, ainda que capacidades, preferências, temperamentos e vocações diferentes.

Ser socialista significa uma ruptura ideológica com a ordem do mundo. Ser socialista é uma adesão ao movimento dos trabalhadores e dos oprimidos, uma aposta no projeto de transformação anticapitalista, e uma aspiração internacionalista por um mundo sem dominação imperialista. Nas sociedades em que vivemos, ser socialista exige, portanto, uma escolha de classe. Não importa a classe social na qual nascemos. O que importa é a classe com a qual unimos nosso destino.

Essa escolha pelo ativismo é uma opção que incide em todas as dimensões subjetivas da vida. Acontece que nem todos os nossos amigos são camaradas, e nem todos os camaradas são amigos. Porque amigos podem ter visões de mundo diferentes. Amizades não devem ter como condição uma mesma visão de mundo. Por outro lado, e, talvez mais importante, podemos ser camaradas de militantes que não conhecemos tão bem.

Confiança em um projeto não é o mesmo que lealdade pessoal aos membros da mesma organização ou movimento. A confiança pessoal é diferente da confiança política. A primeira se constrói como intimidade pessoal. A segunda como a defesa de um programa comum. Quando somos, além de camaradas, amigos de alguém, estabelece-se um vínculo muito forte. Muito forte, mesmo. Mas é perigoso não saber distinguir a diferença dos dois laços. Porque a perda da confiança política não deve, necessariamente, contaminar a relação pessoal.

O que são adversários? Adversários são aqueles contra os quais lutamos em uma disputa. Não é possível viver sem ter adversários. Porque a vida é uma sequência de lutas. Mas os conflitos têm diferentes naturezas e graus de importância. Saber ponderar, calibrar, medir, avaliar a gravidade das diferenças, das polêmicas, dos debates e das rivalidades é indispensável. Porque nem todos os adversários são inimigos. Depende de qual é a natureza do conflito. Adversários podem ou não se tornar desafetos, ou seja, a disputa de ideias pode degenerar em antagonismo pessoal. Mas nem todos os nossos adversários são nossos inimigos.

O que são inimigos? Inimigos são os adversários que enfrentamos em lutas incontornáveis, porque correspondem a interesses de classe irreconciliáveis. As hostilidades com os inimigos são inevitáveis, pois eles são nocivos aos interesses da classe que representamos.

Na história da esquerda ocorrem rachas, separações e divisões em função de distintas percepções da situação política que, por sua vez, expressam diferentes pressões sociais e políticas. Diferenças sérias de projeto justificam rupturas políticas, mas não devem transformar necessariamente os antigos camaradas em inimigos.

Em qualquer coletivo humano há, com maior ou menor ardor, conflitos pessoais. Algumas pessoas são especialmente conflituosas. Refletimos pouco sobre a importância estratégica da paciência. No engajamento socialista, valorizamos muito a honestidade de caráter, a personalidade corajosa, o brilhantismo da inteligência, a erudição dos estudiosos e a paixão dos carismáticos.

Os oradores despertam entusiasmo, porque falam o que gostaríamos de ser capazes de dizer, e os agitadores nos representam em público. Os propagandistas são admirados porque explicam as ideias do programa que defendemos, e nos educam. A paciência é a primeira qualidade dos organizadores, aqueles que têm a habilidade necessária para nos manter unidos. São os facilitadores da ação coletiva que nos protegem dos nossos excessos, que nos ajudam a não brigar uns com os outros por qualquer diferença tática, que defendem a confiança mútua, indispensável para uma fraternidade de lutadores.

Quem se pensa sempre com razão não tem muita paciência para tentar entender o argumento dos outros. Camaradas assim podem ter qualidades extraordinárias, mas não se adaptam à militância em um coletivo. Ter paciência política é inteligência emocional.

Paciência política não é resignação. É resiliência, serenidade e equilíbrio. Paciência não é indiferença, nem frieza, nem mansidão. Paciência política é autocontrole, disciplina e comedimento. É domínio de si próprio, discrição e despojamento. É aceitar que cada um de nós é diferente um do outro, porém imperfeito à sua maneira. Ninguém é omnipotente. É uma reconciliação com nossas ilusões juvenis imaturas e intempestivas, e com as organizações igualmente imperfeitas.

Ser paciente é compreender que a dinâmica da luta de classes é condicionada por fatores que vão muito além de nossa vontade, que a urgência dos tempos da luta de classes pode nos desgastar, e a espera pode não ser breve. É acolher no coração a ideia de projeto revolucionário como uma aposta que se renova em cada luta na qual depositamos a esperança estratégica.

Não é possível uma militância sem a experiência da frustração pessoal. Não há como não sofrer decepções. Trata-se de articular a função da individualidade dentro de um coletivo. Há lugar para todos na luta contra o capitalismo. Mas encontrar o nosso lugar não é simples. Quando somos jovens, não nos conhecemos a nós mesmos. Não sabemos do que somos capazes. A própria militância nos ajuda nessa descoberta. Mas ninguém faz a si mesmo sozinho. Aprendemos uns com os outros.

Nunca podemos esquecer que a militância honesta precisa ser um ato de doação. Valorizar a cooperação e agradecer àqueles que lutam ao nosso lado não diminui ninguém, ao contrário, engrandece. O coletivo é sempre uma totalidade maior que a soma de cada um de seus militantes. A paciência política é o cimento que mantém a unidade de um coletivo.

*Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

 

Referência


Valério Arcary. Ninguém disse que seria fácil. São Paulo, Boitempo, 2022, 160 págs.