A teatralidade cotidiana

Imagem: Steve Johnson
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Por PAULO VITOR GROSSI*

A vida cotidiana tornou-se um palco permanente onde a encenação do eu, estimulada pelas redes sociais, suplanta a autenticidade, transformando a existência em uma performance editável e ansiosa

1.

É a espetacularização dos seres, a encenação forçada e compulsória com as mais diversas tentativas nas redes sociais, onde o que importa é a aparência, o se mostrar. Atinge passivamente muitas camadas humanas, é o visual regendo, sendo a lei, a superioridade social do exterior.

Bastaria aparecer, isso de ser visto, visualizado, não importando tanto o que o sujeito é por dentro, na verdade; isso é um modelo, ao igual que tantos outros utilizados pela antropologia social, colocando o personagem de si, o socialmente exibido como troféu e sucesso. O vencer na vida não é realista nesse contexto, não convida ao pensamento, gerando, assim, vergonhas e medos sociais quando esse ideal não é alcançado pela fatia dos que não o atingem de forma satisfatória.

Os padrões de uma sociedade de imagem são cinematográficos, foram feitos de enfeite; usamos como referência modelos do inatingível. Esse sentir carregado de insuficiência dói, atrai para si as mais estranhadas patologias, é a culpa que recai através do conflito fundamental do medo da falta, do errar, de incentivo à autonomia e à criatividade na resolução de conflitos, a dependência do julgamento do outro, e, acima de tudo, do meio, o ambiente envolvendo o campo físico da existência.

O corpo abarca os sintomas corporais, o que na clínica psicanalítica se observa devido à grande incidência de manifestações patológicas. Temos cada vez mais nomes, a lista só aumenta. Fato é que os sintomas se apresentam até sem as manifestações no plano psíquico, no aparente, as dignas de nota. Os sinais vazamento pelos atos e ocorrências das pessoas. 

Isso se torna teatral. Essa preocupação com a estética, às vezes buscando um padrão claramente irreal, é capaz de existir à vontade não somente no ilusório que é o virtual, também na vida real. Pessoas ali se imaginando na melhor versão de si que será divulgada. Isso é, o que acham que cabe ao agrado do grupo, doa a quem doer. Toda essa preocupação oculta algo, em geral um vazio, falhas interiores, motivos desesperados para preencher vazios, ou pertencer a algo, seja ele o que for. É um retrato ruim de um aspecto que acaba sendo deletério, cabe ao sujeito pensar a respeito e dar sua opinião.

2.

“E se a pessoa já não tem aquele perfil?”. Muito provavelmente uma tentativa para se reagrupar, achar então um novo sentido ou função no meio, mudar de vida. Porém, a pessoa sabe algo de si, ela entende até mais ou menos onde pisar. Um perfil é uma criação da mente, a mente está ali. A alegoria da foto ideal, ser para sempre essa foto, essa coisa estática, é ainda pura impressão. Isso se dá como se o tempo não passasse, como se a forma fosse imutável. Algo no campo fantasioso, não acham?

Esse deslocamento para o foco da vida física é perigoso, você hoje não é o mesmo de ontem, fica difícil se manter o mesmo, sempre bem, sempre bonito ou legal na foto. Nosso corpo não foi projetado para parar no tempo, ele se desloca como se desloca todo o movimento no Universo, está sempre reagindo e se inteirando do seu meio. A crise pode ser ideológica, temos que conjecturar. O desbalanceamento está também para a vida sentimental, desestabiliza a sua existência.

A ostentação é finita demais, às vezes é só uma vontade tola, não muito além de uma notícia lida rápida, já passando para outra postagem. Vai doer se a expectativa for maior do que aquilo que oferece, vai soar como o fim para si mesmo, não é, se perceber definitivamente que uma hora ou outra você envelhece, ou não sai na melhor das poses, aquele perfil que almeja. O que a falta de atenção não mostra é o desinteresse pela realidade, focamos nisso porque o mundo dos perfis é o mundo do editável, não é como a vida de verdade. No real, você é o que é.

Interpretações plurais de si para o mundo, a mente relegada a um padrão distorcido, vivendo no piloto automático. Quando os indivíduos, grupos inteiros, países se voltam para padrões criados pela publicidade em detrimento do seu eu, deles mesmos; a sua visão foi deturpada, o sentimental de lado, isso afeta negativamente o seu psiquismo. As pessoas precisam ser sinceras com elas mesmas, externar essa sinceridade.

Você é o que você é, isso é bom porque expõe a sua individualidade, suas características, a diferenciação dentro do ambiente. Seus atos devem ser executados de forma a se reconhecer; se forem executados e o sujeito não se reconhecer, respostas físicas e mentais não usuais se manifestam. O tempo de resposta a essas situações únicas sempre varia, ainda assim os efeitos reverberam bastante, destoam da unidade egoica coesa, essa sim a ideal! Quero dizer que você pode sofrer, nem sempre vai ser legal. Não deixa chegar a esse ponto de achar mais legal o virtual que o vivo.

3.

“O que você quer dizer com teatralidade e sociedade de imagem tem a ver com as redes sociais?” Muito, tem muito a ver, totalmente pareado, fique por aqui e destrinchando isso!

A teatralidade humana, falamos dessa capacidade de expressão, de representar emoções, atitudes e papéis de forma consciente ou inconsciente, de maneira semelhante ao que ocorre no teatro, e como a maioria de nós pode atestar, é vista nas redes sociais. Mas aqui a peça é a vida, a sua, a minha, de todos nós. Então como correlacionar com as redes sociais? Envolve a dramatização de situações, envolve exacerbar, explorar cada ato, em que as pessoas desempenham papéis sociais, assumem comportamentos que não são necessariamente autênticos, e muitas vezes utilizam a comunicação verbal e não verbal de forma exagerada ou estilizada.

O mundo é esse teste, e as pessoas acabam vestindo suas carapuças para serem vistas pelos outros, sendo ou não da forma que imaginam, mas que seja algo! Vocês percebem isso no dia a dia ao se deparar com perfis, com a forma como são apresentados uns aos outros nas escolhas dentro das redes sociais, a interação, tudo no campo virtual.

Esse conceito está relacionado a uma forma de interação social, visa impressionar, persuadir ou manipular a percepção dos outros, seja em contextos formais ou informais, depende da ocorrência. A teatralidade humana é vista como uma expressão da complexidade das relações sociais, interações cotidianas onde as pessoas “encenam” ou “interpretam” papéis diferentes em situações diversas.

Erving Goffman, sociólogo canadense que estudou amplamente as interações sociais, descreveu essa ideia no seu livro A representação do eu na vida cotidiana (1985), onde ele compara as interações sociais à atuação em um palco, as pessoas desempenham papéis e vestem certas identidades dependendo do contexto em que se encontram. Ou seja, o homem se serve de uma linguagem teatral como estrutura de exposição dos conteúdos, o homem em sociedade geralmente utiliza formas de representação para se mostrar a seus semelhantes.

O autor vai além, ao expor que quando um indivíduo se apresentar diante de outros, terá muitos motivos para procurar controlar a impressão que estes recebem da situação. Vocês podem imaginar até os trejeitos! Serão técnicas comuns que as pessoas empregam para manter tais impressões, bem como algumas das contingências habituais associadas a seu emprego.

Não convém aqui discutir o conteúdo específico de qualquer atividade apresentada pelo indivíduo participante, ou o papel por ele desempenhado nas atividades interdependentes de um sistema social, apenas podemos delinear e deixar que você mesmo enxergue isso no seu cotidiano.

Os exemplos sempre serão de acordo com a criatividade das pessoas. Somente nos ocupamos dos problemas dramatúrgicos do participante ao representar a atividade perante os outros. As questões que envolvem a montagem e a direção da peça são às vezes triviais, mas muito gerais. Parecem ocorrer em todo lugar na vida social, oferecendo uma dimensão definida para a análise sociológica formal.

“E olha que Erving Goffman não tinha um celular na mão… apenas sutilezas!”

4.

Já a sociedade de imagem é o contexto social em que a produção midiática se desenrola, com consumo e circulação de imagens que se mesclam ao corpo e à mente das pessoas, desempenhando esse papel central na construção da realidade, do viver, das identidades e das relações sociais do nosso tempo. A imagem visual pode deter esse poder de caráter sedutor sobre a percepção dos envolvidos, influenciando assim levianamente como eles se veem e como são vistos uns pelos outros.

Muito longe do ideal clássico de beleza, a imagem no século XXI passa pela dominação dos principais veículos de informação, comunicação e identidade, gêneros, grupos, eles e seu molde do inalcançável. Nesse cenário de irrealidade, as imagens não são apenas reflexos de um culto ou outro, frequentemente se tornam a realidade do indivíduo forçado a se enquadrar nos moldes do momento, nas trends e revelações do instantâneo, fazendo então esse indivíduo julgar ser mais importante a imagem do que o conteúdo, a verdade subjacente.

Toda a temática da sociedade de imagem está profundamente ligada ao culto à aparência, à busca pela perfeição visual e ao uso de imagens e vídeos, shorts e reels para a construção de um status e poder social dentro do contexto virtual, seus padrões muitas vezes até saindo dali e sendo disseminado no mundo físico, a propaganda é parte disso. Você pensa que um short do YouTube é algo bobinho, mas entenda que um vídeo curto pode influenciar pessoas, e toda essa rapidez não deixa muito espaço para interpretações realistas e mais profundas, serve para entreter por enquanto, repetir, e se soma a esses enquanto ligeiros.

Em um campo onde as imagens são rapidamente compartilhadas e divulgadas, o conceito visual se expande para além da representação, passando a incluir a construção de narrativas pessoais e coletivas, muitas vezes através de plataformas digitais. Quem nunca deu umas risadas com um conhecido que caiu nessa fake news tal, ou compartilhou algo sem saber o real sentido?

Os cliques são fáceis de dar, as pessoas até esbarram neles toda hora. Essas imagens podem ser manipuladas, idealizadas e descontextualizadas, o que induz distorções, influenciando assim a maneira como as pessoas se comportam, se relacionam e se percebem, criando, por exemplo, pressões estéticas e sociais, interpretações equivocadas. Mas estamos falando do mundo virtual, as coisas são editáveis, a vida não é editada, ela acontece no presente. É de se espantar, porém muitos são os que confundem realidade com ficção, embaralhando a mente, querendo ou tentando ser o que não podem ser.

Você certamente conhece alguém do seu convívio que coloca um filtro na postagem, recorta a melhor parte de um reel e divulga, exibe a melhor versão no Instagram. Nunca a inteligência artificial vai substituir a mão que a criou, que toca o rosto e se ajeita, a menos que essa mão, esse ser de carne e osso entre na fantasia e não saia de lá. Estamos inseridos nessa cultura, é a realidade do século XXI, o que fazemos aqui é relatar todos esses aspectos que são aparentes.

Nessa época, ao promover uma cultura de superficialidade, em que a aparência ganha mais destaque que nossas características intrínsecas, induz a mal-entendidos, distanciamento físico, emocional. Felizmente, comentar e desvelar alguns mistérios faz com que as pessoas se sintam mais leves e à vontade para lidar de forma humanizada com as novas tecnologias. Não se esqueça de você, sua singularidade, sua existência é especial, única do jeito que é!

*Paulo Vitor Grossi é terapeuta neuropsicanalista.

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