Adir Sodré (1962-2020)

Adir Sodré, desenho: Didí e Anselmo. Coleção particular
image_pdf

Por ANSELMO PESSOA NETO*

Comentário sobre a vida, a obra e a morte do artista plástico

Os dados civis de Adir Sodré, ovvero, Didí Sodré, não falam de sua arte, diria quem matou o autor. Eu estou do lado oposto dessa “razão teórica”. Quem morreu foi Adir Sodré, não foi a sua arte. Essa efeméride é para Didí Sodré, não para a sua arte. Mas a arte é do Adir, é por causa da arte do Adir que o Didí está aqui. E que bosta falar do amigo morto, e ainda teria que esquartejá-lo? Separá-lo em partes? Talvez com outros artistas fosse um exercício possível (não conheço nenhum deles), mas com o Adir/Didí, não.

Didí era do Mato Grosso, de Rondonópolis, mas isso era só um dado na sua carteira de identidade. Didí era cuiabano, Didí era do Pedregal! Nem Didí, nem a sua arte, poderiam ser alguma coisa sem o Pedregal: Didí e o Pedregal são coisas indivisíveis, mesmo sabendo que o Didí mudou muito e que o Pedregal do Didí não existe mais. A consciência de se saber do Pedregal, isso Didí nunca perdeu. Nunca perdeu o sentido da vida dura que é ser do Pedregal.

Didí encarnou mil personagens, da sexóloga Olga Del Volga às puramente travestis Divine e Roberta Close. Encarnou os seus retratados todos, do colecionador Gilberto Chateaubriand ao poeta e crítico Ferreira Gullar, mas todos eles e elas pagavam o pedágio de colocarem os pés no Pedregal. A Nina Hagen de Adir Sodré é uma Nina Hagen do Pedregal. É uma Nina Hagen deslumbrada, autoconsciente do seu deslumbramento, querendo immedesimarsi, se fundir, ser só deslumbramento, mas o Pedregal grita presente!, e a mágica fica a meio caminho.

Em linguagem que o Didí conhecia, mas que rejeitava por uma questão de estilo (ele era artista) o nome disso seria consciência de classe. Didí estudou história, tinha um irmão poeta, cantor e livreiro — e que nós chamávamos, para chatear o Didí, de o artista da família: Antonio Sodré. A morte do Antonio Sodré anunciou a morte do Didí Sodré, mas nenhum de nós quis acreditar nisso, apesar da dor que ela provocou nele e que ele já dizia ser insuportável.

Menino fudido do Pedregal, com 14 anos, não sei como, vira aluno do Ateliê Livre da Universidade Federal de Mato Grosso. A coordenadora do Ateliê é a pintora Dalva Maria de Barros. A madroeira das artes plásticas do Mato Grosso, dos Matos Grossos, é Aline Figueiredo, esposa de Humberto Espíndola, o nosso Siron Franco do Mato Grosso — isso era nós que dizíamos, nós mato grossenses que viemos para Goiânia e que víamos, vemos, o mundo a partir do coração seco, na época da seca, cheio de água, na época da chuva, do Brasil. Quando Mato Grosso se dividiu em dois, acertamos melhor ainda os ponteiros: Humberto Espíndola é o Siron do Mato Grosso do Sul e Adir Sodré é o Siron do Mato Grosso.

Pronto, tem pra todo mundo! E Aline é a grande animadora das artes nos Mato Grossos. É difícil não dever para todo mundo e o Didí sabemos disso. O Pedregal é quase ao lado da UFMT, dá para ir a pé. Mesmo do Pedregal que ainda existe hoje. Não sei se os Adis de hoje continuam indo. Pedregal e universidade. Dois mundos que os dois irmãos souberam integrar. Adir tornou-se um artista de sucesso precocemente, em relação a nosostros. Enquanto ainda cursávamos a graduação, ele já estava ganhando dinheiro e já era famoso. E já ajudava deus e o mundo! Saia distribuindo os seus quadros para nós amigos fazermos dinheiro. A família Sodré passou a viver do Adir também muito cedo. Adir Sodré era um louco muito sério. Sabia o peso do estômago vazio. E disso não descuidava, nem do seu, nem dos estômagos do seu entorno.

Era um estudante de história de esquerda e continuou de esquerda. Tinha uma perfeita noção da divisão em classes da sociedade. Entrava, como pintor, nas casas da alta burguesia, e o Pedregal entrava junto. Sua arte erótica queria falar de opressão. Os grandes mestres que ele mimetizava, Matisse, Picasso, Manet, Tarsila do Amaral, Guignard, nos seus quadros, queriam falar de desigualdades. Adorava os happenings, era o momento em que ele dizia para o público que ele e a arte dele eram uma coisa só. Ele pintava e se pintavacom a vitrola esgoelando. Música, música, música.

Descobria e nos apresentava, nos presenteava, com as suas descobertas. Saiu distribuindo o vinil de Aguilar e Banda Performática. Ele ouvia, nós ouvíamos, na maior altura. Como em tudo era totalmente eclético: da MPB, quando ainda se dizia assim, ao Rock ‘n’ roll visceral. Dos sertanejos bregas, aos nossos compositores e cantores nativos. Dava notícia de tudo o que acontecia no mundo e nas artes, sua casa tinha sempre muitas revistas e livros de arte, mas nunca o vi lendo um livro de forma ordenada, isto é, do começo ao fim, página depois de página. Ele abria os livros. Lia um parágrafo e podia dar aulas sobre aquele autor ou artista. E dava. Uma capacidade de apreensão do conhecimento que eu sabia que existia em teoria, mas que vi se realizando nele. Queria basicamente ouvir música, pintar, conversar com os amigos. Ficar sozinho em casa.

Do seu casamento com Márcia nasceu Nina, Dj que o enchia de orgulho. Ainda vi ele e a Márcia juntos. Todos nós nos casamos mais ou menos na mesma época, mas quando Nina nasceu já nos tínhamos afastados muito. Não conheço Nina, mas sei do profundo amor e orgulho que ele nutria por ela. E tinha o Heitor e o Pimpo. Na verdade, eles eram três. Eu sou o quarto porque Heitor e Pimpo levaram Didí para Barra do Garças. Na época em que se escrevia pelos correios, em um período nos escrevíamos todo dia. Eu em Goiânia, ele em Cuiabá. Quando eu viajava, as suas cartas desenhadas mesmo assim chegavam praticamente todo dia.

Quando Drummond falou para não nos afastarmos muito, ele já sabia que íamos nos afastar. Era um pedido para que não acontecesse o fado. Talvez pela consciência política dele, daquele jovem ambicioso e de grande carreira pela frente, que enfrentava São Paulo e os grandes salões de artes destemidamente, a partir de um certo momento isso se arrefeceu. Ficou mais quieto em Cuiabá. O mundo das artes mudou, ao chamado “Como Vai Você, Geração 80?” o Didí não vai responder mais. Mas o artista Adir Sodré vai ficar a cada dia mais presente. O seu anticonformismo está gravado em todas e cada uma de suas telas e desenhos. Nem o tempo irá apagar. O Didí também ficará conosco. Ele não se divide.

*Anselmo Pessoa Neto é professor de litaratura italiana na UFG. Autor, entre outros livros, de Paisagens do neorrealismo (UFG).

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
6
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES