Por EMILIANO JOSÉ*
O relatório da USAID é explícito: trata-se de expandir mercados para os EUA. Na Amazônia, isso significa converter biodiversidade em negócio e comunidades nativas em consumidores do império
1.
Confesso: esse mergulho no documentário produzido por Bob Fernandes, com as entrevistas, deixam mais perguntas que certezas em meu espírito, dúvidas, muitas, e eu não vou respondê-las – seria pretensioso e arriscado. E me alegro: a dúvida é fonte de enriquecimento. As dúvidas, minhas. Nem de Bob, nem das entrevistadas ou entrevistados. Certezas, muitas vezes, congelam o conhecimento.
Todo o trabalho jornalístico de Bob Fernandes, nesse caso, envolve a tentativa de vasculhar como o imperialismo trabalha para capturar corações e mentes mundo afora, especialmente, aqui, no continente latino-americano. Capturar corações e mentes de modo a garantir o domínio do neoliberalismo.
Sobretudo, nesse trabalho, enfrentar, e nós já falamos disso em capítulos anteriores dessa série, a ascensão das forças políticas reformistas, progressistas e de esquerda na América Latina, a chamada “onda rosa”, cujo início poderíamos datar em 1999, com a ascensão de Hugo Chávez. Curioso, isso: a virada da política do império, de certo modo uma virada, se dá agora tendo a Venezuela como foco.
O sequestro do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele, Cília Flores, inaugura uma nova forma de atuação dos EUA, uma espécie de pirataria, infensa a quaisquer normas internacionais, e creio ter dito isso no último capítulo. Não digo quanto a agressão a países, prática comum do império norte-americano, mas à prática de um terrorismo-pirata, embora, com traços distintos, tenha acontecido também com o Panamá.
Digo dessa nova fase para seguir adiante nessa tentativa de revelar o documentário de Bob Fernandes. A atitude violenta dos EUA não deixa de lado todo o trabalho de construção política, ideológica, cultural da principal nação imperialista dos dias atuais. Sempre foi assim. E nessa quadra histórica, há uma guerra incessante de discursos.
Até porque, Donald Trump trabalha com o imprevisto, e não por que seja tresloucado. Fala em atacar o México, num dia. A Colômbia, noutro. Em seguida, vai anexar a Groelândia. Depois, sufocar Cuba. Não o fará. Ao menos não pode atacar, realizar atos terroristas em todos esses países. Nas últimas horas, a ideia fixa é a Groelândia.
O discurso aparentemente desencontrado dele vai naturalizando possíveis novas ações de impacto – a mídia empresarial naturaliza tudo isso. Donald Trump parece se divertir ao deixar a mídia empresarial à beira de um ataque de nervos. Quer apoiá-lo, está evidente, mas ele a desconcerta, e ela não saber como agir em algumas situações, sobretudo porque ele faz disparos a cada minuto.
2.
Ingressamos, com ele, numa era de absoluta incerteza, salvo a de que o imperialismo continua imperialismo, e nesse momento quer mostrar armas, sem muitas mediações. Não pode tudo, como às vezes quer fazer parecer, mas faz ameaças a torto e a direito, inclusive contra aliados, como no caso da Groelândia, colocando a Europa numa situação ainda mais deprimente, obrigada agora a fazer jogo de cena, como se fosse, e pudesse, resistir a um possível ato de força dos EUA.
O diálogo entre Bob Fernandes e a professora Camila Vidal é muito rico. É uma entrevista, e eu chamo diálogo, pedindo licença. No último capítulo, ela falava do eixo do mal. Imaginem, os EUA se arrogam o direito de amaldiçoar países, inclusive nominar quais nações podem ser consideradas democráticas, e isso num momento em o governo norte-americano assume feições nitidamente fascistas.
O eixo do mal na América Latina era constituído, no relatório da USAID, por Venezuela, Cuba e Nicarágua. Dissecando o relatório, Vidal fala em três frentes dos EUA na América Latina. A frente da atuação, da segurança, de modo a enfrentar as ameaças comunistas – entenda-se aqui a China e a Rússia.
Segundo, a frente da prosperidade, e tal conceito, penso, deva traduzir-se como a criação de condições favoráveis aos negócios das empresas norte-americanas na região, nunca à situação de vida das populações empobrecidas.
Em terceiro lugar, e aí é possível olhar com desconfiança, senão com ironia, o fortalecimento de instituições democráticas – e aqui, no olhar do império, só podem ser instituições presentes em governos de extrema-direita, parceiros dos EUA, como a Argentina, o Equador, El Salvador, Peru e agora Chile, com a vitória de um pinochetista, para citar alguns.
A quarta frente seria a avaliação permanente sobre a receptividade da liderança dos EUA no continente. Talvez, primeiro, a sensação do império da perda de prestígio, Segundo, a necessidade de voltar a ter o domínio. Se puder, conquistar hegemonia. Se não conseguir, seja então pelo caminho do porrete, e Donald Trump tem preferido este método, como revelado pelo episódio da Venezuela.
3.
No caso brasileiro, a professora Camila Vidal distingue duas frentes de atuação dos EUA, mapeadas pela USAID. Desde a década de 1980, a frente da Amazônia, cuja ênfase não diminuiu, para o império uma área de imensas possibilidades.
E a frente da Educação, de muita importância, cuja prioridade cresceu ainda mais de 2008 até os dias atuais. Lembrava, em texto anterior, das imensas movimentações estudantis nossas, de 1968, onde combatíamos o chamado Acordo Mec-USAID, voltado à privatização do ensino brasileiro. A voracidade da conquista dessa área não tem limites. Creio importante ressaltar o significado de tal esforço, cuja dupla face é evidente.
Primeiro, é um grande negócio, porque uma necessidade. A população com alguma renda não mede esforços para garantir ensino aos filhos, de modo especial ensino superior, do que a área privada não tem o que reclamar: já ocupa mais de 80% do espaço.
E segundo, cumpre também, dominado pela visão privatista-consumista, uma função ideológico-cultural evidente, a plasmar uma visão de mundo de acordo com os padrões norte-americanos.
Camila Vidal, no entanto, tem uma convicção: o principal papel da USAID é a Amazônia. Essa centralidade viria, na visão dela, desde 1980. Tal atuação ocorreria com a anuência, cooperação, parceria das entidades governamentais brasileiras, federais e locais, política considerada equivocada por ela: o país está recebendo uma entidade estrangeira, atuando numa região estratégica para o País e para o mundo, onde existe uma impressionante biodiversidade, entregando-a de mão beijada.
Outra vez, a dupla face: trata-se de um grande negócio e uma movimentação numa região fundamental para a manutenção da humanidade, sem qualquer exagero. Uma entrega a afetar seriamente a soberania brasileira.
O projeto da USAID já apoiou a comercialização de 230 produtos “sustentáveis” da Amazônia, a gerar lucros e mais lucros. A USAID, na atuação dela na região, facilitou 108 contratos comerciais. Engodo a ideia de qualquer atitude preservacionista por parte da USAID.
O relatório de que trata Camila Vidal é transparente, justiça se lhe faça. Nele, afirma-se a necessidade de promover a prosperidade americana por meio de investimentos capazes de fazer expandir mercados para as exportações dos EUA, criar condições para as empresas norte-americanas e apoiar as sociedades de perfil mais democrático – a professora acentua: essa última parte é acrescentada para disfarçar a pilhagem. Em síntese, os EUA estão cuidando de negócios na Amazônia.
O relatório da USAID não deixa tal operação na obscuridade. É bastante explícito com relação aos interesses por detrás dela, de empresas norte-americanas. De acordo com a professora, a destacar principalmente duas empresas, na realidade. Na verdade, como ela define, uma empresa e uma corporação voltadas ao que a USAID chama, e eu diria de modo inapropriado, de conservação da Amazônia.
As duas, Google e Mineração Rio do Norte. Até onde Camila Vidal pôde pesquisar, o papel da Google seria o de fornecer computadores, ajudar as comunidades nativas na manipulação das máquinas, permitir a tais comunidades o acesso à Internet. A Rio do Norte, gigante na extração de bauxita. As duas, como já visto, com o apoio da USAID.
4.
E se é verdade, e crucial, e principal, o interesse econômico, toda a operação tem a ver com dominação ideológica e cultural, e aí, como se pode depreender, a USAID ocupa papel essencial. Nada disso certamente escapa à argúcia, ao olhar intelectual e político da professora Camila Vidal, estudiosa das estratégias de dominação dos EUA.
A Mineração Rio Norte não se esconde, não tem quaisquer razões. Sempre contou com a anuência dos governos brasileiros. Revela, nos materiais de divulgação: produz mais de 12 milhões de toneladas de bauxita por ano. O mineral é utilizado na produção de alumínio metálico e, também, para a fabricação de cimentos especiais, tijolos refratários, tintas e produtos químicos, como o hidróxido de alumínio.
Mantém uma capa preservacionista. É possível acreditar que a extração de bauxita durante quase meio século na Amazônia se faça sem destruição do meio-ambiente, sem profunda agressão à natureza? São perguntas quase inocentes, absolutamente necessárias diante de ação da Mineração Rio Norte, sempre com os olhares complacentes das autoridades brasileiras.
A professor Camila Vidal pergunta: “Será que a gente quer as nossas comunidades nativas envolvidas no mundo do Google? E qual o real interesse de uma mineração na Amazônia?”. Claro, Camila Vidal sabe as respostas. Quem deveria se perguntar, a sério, seriam as autoridades brasileiras, sobretudo em nome e na defesa da soberania nacional e no caso concreto em nome da preservação da Amazônia.
Ela lembra: durante os anos do governo de Jair Bolsonaro, os rios amazônicos viram as águas invadidas por toneladas de mercúrio e simultaneamente uma quantidade incalculável de ouro foi levada para fora do País, ilegalmente. A extração de ouro, majoritariamente feito de modo ilegal, cresceu 37% entre 2019 e 2024.
Pode ser, e aí sou eu comentando, tenha havido alguma contenção em tudo isso, com a chegada do governo Lula, esperemos que sim.
O fato: até agora a Amazônia tem sido uma fonte de ouro para o capital internacional, e não se trata apenas do ouro propriamente, embora também dele, como já dito, e dele, ouro, falaremos um pouco mais adiante. Na Amazônia, e já tem tempo, o imperialismo norte-americano e a rigor todo o capital internacional, descobriu o mapa da mina. E que mina.
*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA) [https://amzn.to/46i5Oxb]
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