Por RAQUEL NAVEIRA*
Amoreira
No solo seco
Cresceu o pé de amora
E agora
O sol se levanta entre suas ramas,
Mais uma vez
Ele vem
Sem demora.
As folhas são dentadas,
Pilosas,
Gotejam hormônios,
Sangue da flora,
Fibra da seda
E têm formato de coração.
Quando uma amora cai
É chuva preta
Espalhada pelo chão.
Senhora da sabedoria
E da intuição,
Sou o pássaro pousado
No mais alto galho,
Aquele que a adora
Que suga seus licores
A cada aurora.
África
África,
Tão exótica na forma:
Os imensos embondeiros,
As resinas de acácia
E, nas planícies,
Os ungulados,
As placas de búfalo,
As patas de elefantes,
O satãs rebelados.
África,
Tão rica:
Os rios em delta,
Os lagos brancos,
Os oceanos largos
E, no deserto,
As pirâmides colossais
Observando os séculos.
África,
Tão melancólica no fundo:
Gemente,
Dolorosa,
O choro engolido
Pela areia ardente,
Pranto da prole desgraçada
Que nutriu com seu sangue
A América.
África,
Tão grotesca:
O cavalo do beduíno,
O guizo das cascavéis,
O sudário do Saara
Amortalhado de suplícios,
O canal de Suez
Amarrando os seus pés.
África:
Forma e fundo,
Alimária do mundo.
Café
Dê-me café,
Quero escrever.
Uma xícara desse tônico
E terei forças renovadas,
Encontrarei a palavra perdida
Que caiu como folha
Da árvore da vida.
Dê-me café,
Quero escrever.
Sou aristocrata,
Poeta,
Basta o aroma
E cantarei a luta de amor e fé
Nesta página aberta.
Dê-me café,
Quero escrever.
Estímulo para meu cérebro,
Investigarei pensamentos,
Sentimentos,
Decretos divinos
E registrarei tudo
Com dedos ágeis sobre as teclas.
Um pouco mais
Dessa infusão das Arábias
E não terei mais sono,
Revelarei segredos,
Juntarei letras em estranhas galáxias
E mergulharei num outro universo.
Dê-me café,
Quero escrever
Até morrer.
Camões em Macau
Macau,
Entreposto português na China,
Às margens do rio das Pérolas
Que adornam a fronte da deusa A-má
Refletida no mar de espelho,
Azul, manchado de vermelho.
Camões,
O poeta,
O soldado,
O aventureiro,
O exilado,
Desce da nau,
Sobe à colina,
Ali encontra uma gruta entre rochedos,
Um refúgio
Para armar sua rede,
Guardar a espada
E afiar a pena;
Escreve então um longo poema
De heróis trágicos,
De deuses mitológicos,
Paixões,
Intrigas,
Batalhas e cobiças,
Salvou a si mesmo
E ao nosso idioma.
Lá embaixo, na ilha,
O calor é sufocante,
Sopram os tufões,
Há jogatina,
Licores,
Cavalhadas,
Amigos vadios
E saiotes de meretrizes,
O poeta perde a fibra
E o fôlego,
Afoga-se em tormentas
Nadando a vau.
Naufrágio…
Salta do barco,
Braçadas,
Mais braçadas,
O manuscrito colado ao corpo,
Dinamene,
Escrava de quem era escravo,
Engolida no turbilhão,
Terra firme,
Desmaia agarrado ao couro do gibão,
Febre,
Ânsias,
Ardência,
Dói seu coração.
Macau
Foi seu destino,
Rolar como um calhau,
Bastava-lhe amor,
Mas os erros,
A violência,
Os duros fados
Se conjuraram aos desígnios
De um terrível anjo mau.
Perfumista
Emocionei-me quando ele disse:
“ De todos os perfumes,
Prefiro o seu.”
Eu me perfumei
Em segredo,
Com intensidade,
Para esse momento;
Usei essências florais,
Rosas, jasmins,
Notas de baunilha,
O perfume penetrou na minha pele,
No meu coração,
Fixou-se no fundo,
Deixando no vento
O rastro da recordação.
“– Também amo seu cheiro”, eu disse,
De tabaco seco,
Noz-moscada e canela,
De madeiras vindas de distantes ilhas
Para o sonho dessa hora,
Toda azul,
Desse baile de aromas,
No castelo de Versalhes
Ou num jardim
À beira do Nilo.
Nunca houve ciúme,
De todos os perfumes
Espalhados pelos ares,
Trazidos a lume,
Ele prefere o meu.
*Raquel Naveira é escritora, professora universitária e crítica literária. Autora, entre outros livros, de Fiandeira (Life editora). [https://amzn.to/4oYbuCJ]
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