As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Em meio à irracionalidade, resgatar o bom senso

Imagem: Eugenio Barboza
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LEONARDO BOFF*

Perdendo a razão perdemos os critérios que orientam nossas práticas e os seres humanos demonstram comportamentos ensandecidos

Com a guerra na Ucrânia, movida pela Rússia, com o risco de uma hecatombe nuclear comprometendo a biosfera e a vida humana, com o predomínio do egoísmo em nível internacional no enfrentamento do Covid-19 e com ascensão do nazifascismo com sua onda de ódio e de violência e o pensamento reacionário e ultraconservador em várias partes do mundo, se está revelando a irracionalidade da razão moderna.

Perdendo a razão perdemos os critérios que orientam nossas práticas e os seres humanos demonstram comportamentos ensandecidos. Em momentos assim, temos que recorrer ao que é mais fundamental na vida humana: o bom senso crítico. O bom senso, crítico e não ingênuo, sempre foi o grande orientador antecipado de nossas práticas para que mantenham seu nível humano e minimamente ético.

Que é o bom-senso? Dizemos que alguém mostra bom senso quando para cada situação tem a palavra certa, o comportamento adequado e quando atina logo com o cerne da questão. O bom-senso está ligado à sabedoria concreta da vida. É distinguir o essencial do secundário. É a capacidade de ver e de colocar as coisas em seu devido lugar.

O bom senso é o oposto ao exagero. Por isso, o louco e o gênio que em muitos pontos se aproximam, aqui se distinguem fundamentalmente. O gênio é aquele que radicaliza o bom-senso. O louco, radicaliza o exagero.

Para concretizar o bom senso, tomemos dois exemplos de figuras arquetípicas: o mais próximo, o Papa Francisco, e o mais originário Jesus de Nazaré.

O eixo estruturador da retórica do Papa Francisco não são as doutrinas e os dogmas da Igreja Católica. Não que as preze menos. Sabe que elas são criações teológicas criadas historicamente. Mas elas provocaram conflitos e até guerras de religião, cismas, excomunhões, teólogos e mulheres (como Joana D’Arc e as tidas por “bruxas”) queimados na fogueira da inquisição. Isso durou por séculos e o autor destas linhas fez uma amarga experiência pessoal no cubículo onde se interrogavam os acusados no edifício severo e escuro da ex-Inquisição, à esquerda da basílica de São Pedro de quem o olha de frente.

O Papa Francisco revolucionou o pensamento da Igreja remetendo-se à prática de extremo bom senso do Jesus histórico. Ele resgatou o que hodiernamente se chama “a Tradição de Jesus” que é anterior aos atuais Evangelhos, escritos 30-40 anos após a sua execução na cruz.

A Tradição de Jesus ou também, como nos Atos dos Apóstolos se chama “o caminho de Jesus” se funda mais em valores e ideais do que em doutrinas. Essenciais para o Papa são o amor incondicional, a misericórdia, o perdão, a justiça dos oprimidos, a centralidade dos pobres e marginalizados e a total abertura a Deus-Abbá (Paizinho querido). Estes são os valores axiais que orientam suas intervenções e os revela concretamente em seus gestos de bondade, de cuidado, particularmente, para com os imigrados do Oriente Médio, de África, e agora da Ucrânia bem como as vítimas dos pedófilos por parte de alguns da própria Igreja.

Voltemo-nos a Jesus de Nazaré. Ele não pretendeu fundar uma nova religião. Quis nos ensinar a viver. Viver com fraternidade, solidariedade e cuidado de uns para com os outros e total abertura ao Deus-Abbá. Estes são os conteúdos de sua mensagem: o Reino de Deus e a misericórdia ilimitada de seu Deus de infinita bondade.

Como nos testemunham os evangelhos, evidenciou-se como um gênio do bom-senso. Um frescor sem analogias perpassa tudo o que diz e faz. Deus em sua bondade, o ser humano com sua fragilidade, a sociedade com suas contradições e a natureza com seu esplendor comparecem numa imediatez cristalina. Não faz teologia. Nem apela para princípios morais superiores. Nem se perde numa casuística tediosa e sem coração como o faziam e fazem os fariseus de ontem e de hoje. Suas palavras e atitudes mordem em cheio no concreto onde a realidade sangra e ele, face aos sofredores, consola-los, cura-os e até ressuscita-os.

Suas admoestações são incisivas e diretas: ”reconcilia-te com teu irmão” (Mt 5,24). “Não jureis de maneira nenhuma” (Mt 5, 34). “Não resistais aos maus” (Mt 5, 39), mas “amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt,5, 34). “Quando deres esmola, que a mão esquerda não saiba o que faz a direita” (Mt 6, 3).

Esse bom-senso tem faltado, não raro, à Igreja institucional (Papas, bispos e padres), especialmente em questões morais ligadas à sexualidade e à família. Aqui tem se mostrado severa e implacável. Sacrifica as pessoas em sua dor aos princípios abstratos. Rege-se antes pelo poder do que pela misericórdia. E os santos e sábios nos advertem: onde impera o poder, se esvai o amor e desaparece a misericórdia.

Como é diferente com Jesus e com o Papa Francisco. A qualidade principal de Deus, nos diz o Mestre e o repete continuamente o Papa, é a misericórdia. Jesus é contundente: “Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso” (Lc 6, 36).

O Papa Francisco explica o sentido etimológico da misericórdia: miseris cor dare”: “dar o coração aos míseros”, aos que padecem. Numa fala no Angelus de 6 de abril de 2014 diz com voz alterada: ”Escutai bem: não existe limite algum para a misericórdia divina oferecida a todos”. Pede que a multidão repita com ele: “Não existe limite algum para a misericórdia divina oferecida a todos”.

Dá uma de teólogo ao recordar a concepção de São Tomás de Aquino sobre a prática, da misericórdia: é a maior das virtudes “porque cabe-lhe derramar-se para os outros e mais ainda socorrê-los em suas debilidades”.

Cheio de misericórdia, face aos riscos da epidemia da zika abre espaço para o uso de anticoncepcionais. Trata-se de salvar vidas: “evitar a gravidez não é um mal absoluto”, disse em sua vista ao México. Durante a pandemia do Covid-19 fez apelos contínuos à solidariedade e ao cuidado, especialmente às crianças e aos anciãos. Gritantes foram seus apelos à paz no conflito bélico da Rússia contra a Ucrânia. Chegou a dizer: “Senhor detenha o braço de Caim. Uma vez detido, cuide dele, pois é nosso irmão”.

Aos novos cardeais diz com todas as palavras: “A Igreja não condena para sempre. O castigo é para esse tempo”. Deus é um mistério de inclusão e de comunhão, jamais de exclusão. A misericórdia é sempre triunfante. Jamais pode perder um filho ou filha que criou com amor (cf. Sab 11,21-24). Lógico, não se entra de qualquer jeito no Reino da Trindade. Passar-se-á pela clínica purificadora de Deus até as pessoas saírem purificadas.

Tal mensagem é verdadeiramente libertadora. Ela confirma sua exortação apostólica “A alegria do Evangelho”. Tal alegria é oferecida a todos, também aos não cristãos, porque é um caminho de humanização e de libertação.

Eis o triunfo do bom senso que tanto nos falta neste momento dramático de nossa história, cujo destino está em nossas mãos. O Papa Francisco e Jesus de Nazaré comparecem como inspiradores de bom senso, de misericórdia e de uma radical humanidade. Tais atitudes nos poderão salvar.

*Leonardo Boff é teólogo. Autor, entre outros livros, de Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal? (Vozes).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Sandra Bitencourt Airton Paschoa Armando Boito Ricardo Antunes João Carlos Salles Ricardo Fabbrini Claudio Katz Leonardo Boff Ricardo Musse Celso Frederico Lucas Fiaschetti Estevez Michael Löwy Eleonora Albano Eugênio Trivinho Bruno Machado Antonio Martins Marilia Pacheco Fiorillo Luís Fernando Vitagliano Juarez Guimarães Dennis Oliveira Fernando Nogueira da Costa Marilena Chauí Daniel Brazil Marcelo Módolo Plínio de Arruda Sampaio Jr. Fernão Pessoa Ramos Salem Nasser Eleutério F. S. Prado João Carlos Loebens Francisco Fernandes Ladeira Luiz Bernardo Pericás Anderson Alves Esteves Chico Alencar Henry Burnett Paulo Capel Narvai Érico Andrade Antonino Infranca Tadeu Valadares Benicio Viero Schmidt André Singer João Adolfo Hansen Ricardo Abramovay Manchetômetro Caio Bugiato Luiz Costa Lima Francisco Pereira de Farias Roberto Bueno Remy José Fontana Marcus Ianoni Priscila Figueiredo Luiz Renato Martins Luiz Eduardo Soares Gilberto Maringoni Daniel Costa Chico Whitaker Alexandre de Lima Castro Tranjan Eliziário Andrade Marcos Silva Eduardo Borges Bento Prado Jr. Luiz Roberto Alves Mário Maestri João Lanari Bo Julian Rodrigues Sergio Amadeu da Silveira José Machado Moita Neto Valerio Arcary Mariarosaria Fabris Anselm Jappe Bruno Fabricio Alcebino da Silva Flávio Aguiar Luis Felipe Miguel Lorenzo Vitral Francisco de Oliveira Barros Júnior Everaldo de Oliveira Andrade José Dirceu Paulo Sérgio Pinheiro Liszt Vieira José Geraldo Couto Ari Marcelo Solon Luiz Werneck Vianna Maria Rita Kehl Daniel Afonso da Silva Leda Maria Paulani Vladimir Safatle João Feres Júnior Roberto Noritomi Marcelo Guimarães Lima João Sette Whitaker Ferreira Bernardo Ricupero Luciano Nascimento Heraldo Campos Jorge Luiz Souto Maior Gabriel Cohn Annateresa Fabris Flávio R. Kothe Rafael R. Ioris Ronald León Núñez Ronaldo Tadeu de Souza Gilberto Lopes Carla Teixeira Fábio Konder Comparato Jean Marc Von Der Weid Alysson Leandro Mascaro Elias Jabbour Tales Ab'Sáber Slavoj Žižek Marjorie C. Marona Carlos Tautz Michael Roberts Walnice Nogueira Galvão Milton Pinheiro Andrew Korybko Vinício Carrilho Martinez Leonardo Sacramento Kátia Gerab Baggio Vanderlei Tenório Valério Arcary Ladislau Dowbor Boaventura de Sousa Santos Ronald Rocha Rodrigo de Faria Denilson Cordeiro Yuri Martins-Fontes Jean Pierre Chauvin Rubens Pinto Lyra Thomas Piketty André Márcio Neves Soares Luiz Carlos Bresser-Pereira Celso Favaretto Lincoln Secco Atilio A. Boron Gerson Almeida João Paulo Ayub Fonseca Manuel Domingos Neto Marcos Aurélio da Silva Tarso Genro José Micaelson Lacerda Morais Leonardo Avritzer Otaviano Helene Jorge Branco Luiz Marques Alexandre de Freitas Barbosa Dênis de Moraes Osvaldo Coggiola Henri Acselrad Renato Dagnino Berenice Bento Eugênio Bucci José Luís Fiori Afrânio Catani José Costa Júnior Antônio Sales Rios Neto Igor Felippe Santos José Raimundo Trindade Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Martins Samuel Kilsztajn Paulo Fernandes Silveira Paulo Nogueira Batista Jr

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada