Aristocratas e plebeus

Imagem: Paulo Durandetto

Por MÁRIO MAESTRI*

Tréplica ao artigo de Carlos Ominani

Prezado senhor Ominani,[i]

Vacilei no endereçamento protocolar da presente. Porém, sua responsa reafirmou a triste certeza que o meu querido camarada Chino, dos anos 1973, se transformara no político tradicional Carlos Ominami, dos anos 1980, em tudo contrário ao que fomos, quando da Unidade Popular. A razão que o senhor dá de sua metamorfose explica, não justifica. Com a “queda do regime soviético”, teria apenas procedido “como tantos outros em todo o mundo”. O que é correto. No Brasil foi o mesmo.

Em 1989-91, aquele tsunami histórico e o anúncio do “fim da história”, da morte do “socialismo”, da “obsolescência do marxismo”, da eternidade do capitalismo ensejaram um desenfreado “salva-se quem puder”. Multidões de militantes, sindicalistas, intelectuais, etc. de esquerda se reconverteram à social-democracia e ao social-liberalismo. É doce sentar-se à mesa dos vitoriosos, enquanto os derrotados são atirados aos leões. Ao trocar de trincheira, alguns despiram a antiga camisa, outros seguiram se dizendo “homens de esquerda”, para melhor prestar seus serviços.

A caracterização da Concertación como a continuidade soft do neoliberalismo pinochetista não foi minha, mas do nosso ex-camarada, o magnífico historiador Gabriel Salazar. Repito o que ele propôs. “Então, eles tiveram que procurar políticos dispostos a administrar o modelo neoliberal sem mudá-lo muito. (…) o Partido Democrata Cristão, o Partido Socialista, o Partido Radical … todos aqueles que tinham sido de centro-esquerda agora aceitaram administrar o modelo neoliberal.” Sua resposta devia ter impugnado o proposto caráter neoliberal da Concertación e seu desempenho como ministro de Patricio Aylwin, apoiador do golpe de 1973. Mas talvez, “nestes últimos 48 anos”, o senhor se esqueceu ou não leu “absolutamente nada” do Gabriel Salazar.

 

Será que exagerei?

Mas passamos à formulação, agora minha, que lhe causou “surpresa e perplexidade”. Eu afirmei. “Bem, e o que tem a ver meu antigo querido camarada e amigo Carlos Ominami nesta história. Muito, mas muito mesmo. Ele foi nada menos que o ministro da Economía, Fomento y Reconstrucción, de 1990-92, de Patricio Aylwin. Mutatis mutandis, e exagerando um pouco, ele foi o Guedes chileno! Foi um dos grandes articuladores do prosseguimento da política de terra arrasada neoliberal no Chile. (…) Entre outras coisinhas, implementou ativamente a privatização das novas minas de cobre chilenas. E, como bom político burguês, procurou financiamentos eleitorais onde não devia”.

Tratando-se de momentos históricos diversos e duas nações distintas, Brasil e Chile, com suas semelhanças essenciais e particularidades nacionais, temporais e outras, cerquei minha comparação com ressalvas precaucionais: “mutatis mutandis” e “exagerando um pouco”. Sinceramente, não sei se elas são totalmente devidas. Em todo caso, o senhor deveria ter deixado de lado a comparação explicativa, destinada ao leitor brasileiro, e ter impugnado firmemente as afirmações do parágrafo sobre sua trajetória política, como ministro, como candidato, como cidadão, registrando meu engano.  Mas o senhor silenciou sobre elas, ensaiando mera indignação retórica.  E não conseguiu ler o que realmente eu disse.

A maravilhosa vitória eleitoral chilena recente, como todas as outras, às quais me referi, não foi devida, no essencial ao candidato, que, como também lembrei, no passado, ao se elegerem, as traíram miseravelmente, com as desculpas de sempre, com destaque para a tal de governabilidade. Deveram-se, todas, ao esforço titânico e incansável da população chilena e dos trabalhadores, com os quais tanto aprendi, e me esforcei em contribuir ainda que microscopicamente às suas lutas.

 

O aristocrata e o plebeu

Estou, sim, senhor Ominami, “vivo”. Ainda. Se mudar de situação, lhe aviso. E jamais me senti “corajoso”. Apenas, como incontáveis companheiros e companheiras, não abandonamos a luta, mesmo quando sentimos medo, o que é humano. E, sobretudo, tentamos nos manter em nossa trincheira, mesmo ao ser arrasada. Quanto à “petulância” em criticar os inimigos de classe, são os ossos do ofício dos que tentam se manter fiel ao mundo do trabalho e ao socialismo. Procura de coerência paga com  infindáveis problemas de toda a ordem. No meu caso particular, minha profissão, como historiador, exige-me também que analise e me pronuncie. Não o fazer, seria como um tenor que mantem a boca fechada.

Inicialmente, me surpreendeu que não tenha tido notícias minhas desde 1973. Ao escapar à repressão, minha primeira preocupação, nas semanas, meses e anos seguintes, foi saber a sorte de nossos camaradas, se estavam vivos ou mortos. Entre eles, saber o que passara com o camarada Chino, com o Pelado, com o Lucho, com os Flacos … Mas pensei melhor: um político burguês de alto coturno quer, é mesmo, se esquecer de seus companheiros esquerdistas, agora, opositores, ainda que liliputianos, do colaboracionismo neoliberal.  Mas aí, com sua permissão, comecei a duvidar da sua formulação.

O senhor não soube, na França, o que fazíamos, na Bélgica, um grupo para lá de nutrido de seus ex-camaradas miristas, muitos militantes do Pedagógico? Não encontrou jamais Marco Aurélio Garcia,  também rio-grandense, nosso ex-camarada no MIR, bem informado sobre o que nós fazíamos. E podia seguir por esse caminho. Mas “no nos saquemos la suerte entre gitanos” – como dizíamos em Santiago. O sentido da mensagem é claro, ainda que rasteiro.

O senhor, de quadro estudantil da esquerda revolucionária, se reconstruiu em “aristocrata” de destaque da política burguesa chilena. Conhecido por todos! E eu segui sendo o que éramos, quando jovens, na Universidad de Chile, em inícios dos anos 1970: meros militantes revolucionários de base. Militante plebeu, perdido entre tantos, daqueles que, deo gratia, jamais procuraram uma boquinha nos governos que contribuíram à destruição neoliberal da América Latina! Ficamos, portanto, assim, cada macaco contente em seu galho! Cada um com sua tribo. Sem se misturar.

*Mário Maestri é historiador. Autor, entre outros livros, de Revolução e contra-revolução no Brasil: 1500-2019 (FCM Editora).

 

Nota


[i] Resposta ao artigo publicado no site A Terra é Redonda, em 31 de janeiro de 2021.