Um juízo carente de fundamentos

Imagem: Javier Gonzales
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Por CARLOS OMINAMI*

Réplica ao artigo de Mário Maestri

Caríssimo,

Não creio que o presente momento na América Latina, com tantos desafios que temos pela frente, seja adequado para travarmos um debate sobre a nossa trajetória política pessoal, cujos desfechos são facilmente verificáveis, tanto pela forma como pelo conteúdo, incidentes sobre as lutas democráticas e libertárias das últimas décadas.[i]

Fizemos, como tantos outros em todo o mundo – depois da queda do regime soviético – as nossas escolhas “pela esquerda”. E aí estão os, ao mesmo tempo, precários, mas também grandiosos resultados das lutas travadas pela esquerda na América Latrina. Com nossas  matizes diversas, estamos voltando à cena política e inclusive estamos conseguindo ter notícias, uns dos outros.

Registro com surpresa e perplexidade, de outra parte, a comparação que fazes da minha ação como Ministro de Economia da Concertação, no Chile, ao desempenho do Ministro Guedes no Brasil, pois considero tal analogia uma ofensa à minha trajetória como homem de esquerda. O teu juízo é muito injusto e carente de fundamentos, em relação a quem – num momento extremamente delicado daquela complexa transição – empenhou-se de corpo e alma, para apressar a quebra do poder político da ditadura e abrir novos tempos, como estes, da vitória (que desprezas) do Presidente Boric, construída sobre os escombros do regime assassino de Pinochet.

Em todo o caso, fico feliz em saber que estás – embora ausente – vivo e corajoso, porque nestes últimos 48 anos de luta não soube absolutamente nada de ti, embora tenha me encontrado com dezenas de companheiros nossos, saídos da clandestinidade. São companheiros dotados de diversas opções de resistência e em em diferentes caminhos, mas participando das lutas sem a petulância de “julgar”, mas buscando entender os percursos de cada um,  guiados pelos exemplos dos nossos melhores.

Receba as minhas saudações cordiais.

*Carlos Ominami, economista, foi ministro da economia do Chile.

 

Nota


[i] Resposta ao artigo publicado no site A Terra é Redonda, em 25 de dezembro de 2021.

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