As palavras trocadas

Regina Gimenez, Mais poético que não é pedagógico nem praticável, 2023
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Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro de poemas de Laura Erber

“Escrevo com o que você me faz\ Quando não fazemos nada”

A carioca Laura Erber vive hoje em Haia, Holanda e, além de se dedicar à ficção, escreveu ensaios, textos para crianças e traduções ocasionais – traduziu Anne Carson (1950). É autora de excelentes livros de poemas, como Os corpos e os dias (2008), A retornada (2016), Mesa de inspecção de açúcar e tabaco (2018) e Theadoro Theodor (2018), além dos ensaios contidos em O artista improdutivo (2021).

Este As palavras trocadas, que reúne 19 poemas e Posfácio de Marcos Siscar, inicia-se com dedicatória que já sugere a ambiguidade da troca enquanto partilha ou equívoco: “Os poemas eram todos seus. Agora é o livro de um silêncio”.

Laura Erber embaralha as fronteiras entre poesia e prosa. Os três primeiros e o quinto textos são escritos em prosa, enquanto os outros quinze, em versos. Luisa Destri lembra que “há um efeito fragmentário provocado pela reunião de imagens que passam, ao longo do livro, por universos tão distantes quanto tartarugas e barricadas, jogos de cartas e pop art”.

Marcos Siscar entende que “as palavras são o objeto da troca, a evidência de que haveria partilha. Mas nessa linguagem estão em jogo igualmente a natureza da partilha e suas condições” – e a partilha aparece exposta “à possibilidade do desencontro, do erro, da manipulação”.

Em “Cinco minutos” a poeta escreve que “serei (…) um lagarto sorvendo toda a luz destas comarcas nos cinco minutos que me foram concedidos” e “desapareço de repente – você me perdoará por isso um dia – como uma luz afável que entrou sorrateira pela varanda com o assovio das folhas voadoras de um flamboyant”.

Para ela, “os dias terminam antes do cansaço” e “ninguém desmancha aqueles dois (…) Nem eles mesmos se contêm nem cabem dentro do jogo que jogaram” (“Jogadores de cartas”).

“Restos” associa o incêndio do museu às incertezas amorosas: “do museu nacional carbonizado/carregados pelo vento/o passado espalhado/feito cartas perdidas/do que não termina/por toda a cidade/assim também/nós dois/pedacinhos do real/incendiados/com o vento/chegamos/aqui/o resto sabemos/e não sabemos”.

“De volta” e “Circunstâncias da luz” tratam da lassidão, da quase imutabilidade das situações: “conheço o sal dos dias lentos”; “por inépcia/dificuldade/ou cálculo/as coisas mudam/bem devagar”.

Em “não sei livrar-me das palavras” a ternura prevalece – “uma paisagem é o que não se fecha (…) os teus dedos percorrem o céu vermelho/os meus ficam parados sobre o teu cabelo/para sempre” –, enquanto em “Atravessamos”, “pequenos reflexos sobre a água cegam, enchem de futuro/reluzindo a boca aos risos”.

Há mais ternura ainda em ‘mal começamos a voar”: “a gente vai se encontrar vai se abraçar tanto/vai/como quem chega de uma viagem/no porto/depois de dar a volta ao mundo/numa caravela…/olha que a vela/só estremece na brisa”.

No poema em prosa “Véspera”, o tema amoroso emerge com a delicadeza que caracteriza as odes produzidas por Laura Erber: “O reconhecimento mais ou menos completo de que tudo é assim porque é. Entre nós, quero dizer. É possível conhecer o chão que pisamos enquanto pisamos este chão ? A pergunta não é falsa, mas a voz que a sustenta não é de ninguém. Você entende? Uma biblioteca ideal seria feita dos poemas que deslizam entre as ações mais simples e o dialeto do vapor que sai do cafezinho. Sempre quente. Porque é assim. Mais ou menos como sustentar a voz no ar quando os pés perdem o chão. O que quero dizer? Você me entende quando digo que fomos convidados a existir aqui”.

As palavras trocadas têm duas epígrafes que se completam, a de Anne Carson (“O animal que trota/pode restaurar o vermelho/dos corações vermelhos”) e a de Hilda Hilst (“Colada à tua boca a minha desordem”). Ambas dão o tom nos poemas de Laura Erber, num intenso diálogo com o(a) leitor(a). Na feliz expressão de Marcos Siscar, “palavras são trocadas, mas também matam”, pois para Laura, o risco é o de permanecermos como “bandos de pássaros/presos na luz dos holofotes”.

*Afrânio Catani é professor titular sênior aposentado da Faculdade de Educação da USP. Atualmente é professor visitante na Faculdade de Educação da UERJ (campus de Duque de Caxias).

Referência


Laura Erber. As palavras trocadas. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2023, 64 págs. [https://amzn.to/4gi5n9f]


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