Bolsonaro está derretendo?

Imagem: Elyeser Szturm

Por Julian Rodrigues*

Impressiona a desorientação, a superficialidade das análises feitas por jornalistas progressistas, intelectuais e dirigentes de esquerda, e pelos quadros e a base do campo democrático-popular.

Segundo as últimas pesquisas do Datafolha, 59% da população não quer que Bolsonaro renuncie. 33% avaliam o presidente como bom ou ótimo. E 25% acham o governo regular. É verdade que houve uma queda de dois pontos na avaliação positiva e de um ponto nos que acham o governo mediano. Sim! Cresceu em 6 pontos os que avaliam o governo como ruim/péssimo (de 33% para 39%).

È vero: a conjuntura mudou e continua instável. Demais da conta.

Há, presume-se, muita conspiração no “andar de cima”. A direita tradicional, os neoliberais, a burguesia não fascista se move para neutralizar Bolsonaro e assumir o protagonismo. O presidente passou de certos limites. Daí que a direita tradicional opera uma espécie de “oposição light” ao bolsonarismo, tentando isolar a alaneofascista do governo, e, claro, o próprio presidente e sua famiglia. A face mais visível dessa movimentação é a Rede Globo, o jornal Folha de S. Paulo e o agora todo opinioso Rodrigo Maia.

São três grandes blocos sociais e políticos: (a) extrema-direita, neofascismo, bolsonarismo; b) direita ultraliberal, não autoritária; (c) esquerda e centro-esquerda, campo democrático-popular. Esses polos expressam tanto classes e frações de classe como também suas representações políticas e institucionais. Em momentos de crise, a projeção política das forças sociais com a luta de partidos, na superestrutura não reflete precisamente a correlação de forças entre as classes.

Há uma aceleração evidente no cenário político nacional e mundial. A pandemia e a crise econômica abrem uma janela de oportunidades para o campo de esquerda realizar a disputa ideológica, no Brasil e em todo planeta. Se quase todos neoliberais agora são keynesianos desde criancinha, cabe a nós ir além de apresentar as supernecessárias propostas imediatas de intervenção estatal na economia e fortalecimento das políticas públicas. Uma crise desse tamanho abre espaço para a contestação radical não só do neoliberalismo, mas também do capitalismo. Tirar do index prohibitorum as palavrinhas socialismo e comunismo.

Voltando aqui, ao grão. Quem não faz boa análise, erra na luta. Respiremos. Não, Bolsonaro não foi neutralizado por algum general. Ou se foi, não sabemos detalhes e nem é fato consumado e consolidado. Não, Bolsonaro não vai cair amanhã. Não, Bolsonaro não está derretendo. Não, Bolsonaro não vai renunciar. Não, Maia não vai pedir impeachment (pelo menos por enquanto).

É impressionante a desorientação, o impressionismo, a superficialidade da leitura realizada por tantos dos nossos jornalistas progressistas, intelectuais de esquerda, vários dirigentes e pela grande parte dos quadros médios e da base do campo democrático-popular. Desaprendemos a fazer análise de conjuntura. [30 anos de apagamento do marxismo-leninismo na academia, nos movimentos sociais e partidos de esquerda fizeram um estrago gigantesco. Que déficit! Desculpem-me pela excessiva sinceridade].

Em outros artigos já tratei da “patologização” da política (sobre ficar xingando Bolsonaro e os filhos de malucos, ao invés de entender o neofascismo estruturalmente no contexto de uma ofensiva mundial). Também já critiquei a recorrente subestimação de Bolsonaro (e de toda estrutura que o elegeu e da base orgânica que o sustenta).

Sem quaisquer seguras informações de bastidores, mas cheios de fé e crença mágica, saímos, que nem cães adestrados, a reproduzir algum site caça-clique do campo progressista, ou mesmo chutões dejornalistões(bem-intencionados, mas equivocados) que dizem: “o presidente não governa mais” (lembremo-nos, desde fevereiro de 2019 circulava essa tese!). Ou então, reproduzimos notícias quaisquer: o ex-capitão está emocionalmente instável, chora muito. Pena faltarem matérias mais detalhadas – e fotinhas – para nosso deleite, que registrem Bolso batendo as mãozinhas na coxa e resmungando.

Em algum momento, um coro de ativistas progressistas começa a apostar (e a acreditar, o que é mais grave) que o presidente neofascista pode renunciar a qualquer momento, ou que vai recuar, ou não (oops), foi e já voltou, que confuso, etc e tal. Analisar e estudar a ofensiva bolsonarista nas redes, poucos dos “nossos” se propõem a analisar pesquisas, partir de dados científicos, refletir sobre como sair de uma defensiva estratégica, idem Destrinchar a composição do bloco bolsonarista, suas contradições, as relações do presidente com Donald Trump, o que de fato pensa a cúpula do Exército, as movimentações reais do rentismo, as nuances (se é que existem) no sistema de justiça, na grande mídia (Globo x Record/SBT, por exemplo), um gigantesco esforço que parece que poucos do nosso campo aceitam encarar.

Bolsonaro acabou mesmo?

É nítido que cresce uma espécie de “oposição light” ao Bolsonaro, impulsionada por parte dos ultraliberais (que não mudaram em nada seu programa, talquei?). Oposição que ganha musculatura na Câmara, no STF, em setores do próprio governo, na mídia hegemônica, e, sim, em parte das classes médias que agora fazem “panelaços”. Trata-se de uma parte do antigo eleitorado tucano-demista, que se bolsonarizou e agora começa a voltar para casinha.

O PT – maior expressão da esquerda e do progressismo – continua vetado. Não aparece no Jornal Nacional, nem na GloboNews. Vera Magalhães (neomusa antiBolso) veta descaradamente Lula no programa Roda-Viva da TV Cultura rotulando-o como presidiário em regime domiciliar (mentira!), que nem chega a ser um “player”.

O raciocínio que desenvolvo abaixo: (a) não subestima Bolsonaro, muito menos o bolsonarismo; (b) não maneja categorias psicológicas ou psiquiátricas; (c) procura separar ao máximo o desejo e a angústia da racionalidade analítica; (d) admite um profundo desconhecimento das movimentações internas das Forças Armadas; (e) rejeita a tutela militar sobre o Estado; (d) não acredita que Mourão seja adulto e Bolsonaro criança.

Fato. Os ultraliberais – supostamente democráticos (mas nem tanto) – estão sim, irritados com Bolsonaro. Todavia, entretanto, vamos nos recordar da vida real (e de viés). Foi essa mesma elite financeira, a direita tradicional, os “liberais”, a turma do PSDB-DEM e da Globo que viabilizaram a vitória do capitão neofaxio. Foram eles que derrubaram Dilma e rasgaram a Constituição de 1988.

Há, porém, nuances e contradições. Fechar o regime de alguma maneira sempre foi o objetivo da famiglia presidencial. Nunca esconderam isso. A aposta de Bolsonaro nessa crise é ousada, sim. Mas tem lógica (pior que a coronavírus é a devastação da economia). Mobiliza não só o empresariado, também dialoga com a classe trabalhadora, sobretudo com os setores precarizados. Ao mesmo tempo, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes seguram os recursos e a execução das medidas emergenciais – impulsionando a insegurança, fortalecendo o medo do desemprego e da fome, se à recomendação de isolamento social.

Fofocas, especulações e “pensamentos desejantes” cancelados, há de fato, um cenário de equilíbrio, com disputas cada vez mais acirradas entre o núcleo bolsonarista, governos estaduais, a maioria do Congresso, o STF, a Globo e setores financistas não autoritários. O que é mais importante assumir, reconhecer para nosotros todes: o campo democrático-popular ainda segue na defensiva, não é protagonista das grandes batalhas.

Palavras de ordem mais ou menos radicais, por si mesmas, não resolvem problemas das massas, muito menos mudam magicamente o cenário político. Podem até nos dar uma satisfação subjetiva, um gostinho de que “agora vai”. Sorry, consignas não tem o mesmo efeito daqueles feitiços irados do Harry Potter. “Fora Bolsonaro” está longe de ser um “Expelliarmus”.

A energia gasta no debate sobre adotar ou não uma frase radical, supostamente combativa seria melhor empregada na divulgação das propostas da esquerda para superar a crise econômica e a calamidade sanitária; focar esforços em ganhar a narrativa pública sobre a gravidade da pandemia e na adoção de medidas para superá-la. Adotar a palavra de ordem pela deposição urgente de Bolsonaro pode, contudo, energizar a base social da esquerda. E há uma espécie de clamor, para que todos sigamos nessa caminhada.

Entretanto, enxergar a nitidez nos desdobramentos segue no centro da discussão. Qual a ação prática objetiva quando assumimos essa consigna? Esperamos o quê? Faremos o quê?

Torço para que a maioria da esquerda (se optarmos mesmo pelo #forabozo) defenda novas eleições – #NemBolsonaroNemMourão – com a devolução dos direitos políticos de Lula. (Aliás, se Lula não puder ser candidato é porque não teremos reconquistado ainda uma democracia liberal. Muito importante nunca nos esquecermos desse “pequeno” detalhe).

Se é para propagar ideias que não estão na ordem do dia, que são meramente agitativas, que não embarquemos na ilusão do impixo, at least. Governo Maia/Mourão? Sem chance (nem neofascistas, nem ultraliberais).

P. S.: Mais Marx, Lenin, Gramsci e Mao: menos fígado, menos coração.

*Julian Rodrigues é jornalista, militante do PT e ativista LTBTI e de Direitos Humanos.