Como dois e dois são cinco

Marcelo Guimarães Lima, Tríade, digital art / arte digital, 2022

Por MARCELO GUIMARÃES LIMA*

A chapa Lula-Alckmin

Na foto: à esquerda o líder político que levou um golpe. Ao seu lado, o político que torceu e trabalhou com gosto e energia pelo golpe. A conclusão seria, talvez, que 1+1 = 3, como 2+2 = 5, ou seja, há um outro elemento, não aparente na equação (como na foto), que permite entender, aceitar a incongruência como seu contrário.

“Tudo como dantes no quartel de Abranches”, no dizer da vox populi. Cito aqui um interessante esclarecimento sobre esta conhecida expressão: “Tudo como dantes, «quartel-general em Abrantes» é como regista Orlando Neves, no seu Dicionário de Expressões Correntes [Editorial Notícias, Lisboa], que assim se lhe refere: “Diz-se do que permanece sempre na mesma, sem alteração”. “Respondia com esta frase o povo quando [em Portugal] perguntado sobre como iam as coisas, no tempo da primeira invasão francesa [1807]. De facto, Junot instalara, calmamente, o seu quartel-general em Abrantes. Em Lisboa, nada se fazia com intenção de se opor ao avanço do general francês. Ninguém lhe ousava resistir. D. João VI, então regente, não tomava qualquer medida no sentido de evitar a progressão de Junot para Lisboa. Daí que, quando alguém perguntava o que se passava, a resposta fosse a frase em título”.[1]

Herdamos dos portugueses uma certa propensão ao quietismo? Como todos sabem, o quietismo moderno é a doutrina difundida no século XVII da passividade da alma cristã frente a Deus como passaporte para o reino dos céus. Doutrina combatida pela Igreja, mas que teve numerosos e importantes adeptos no seu tempo. Mas é injusto, creio eu, transferir responsabilidades atuais para os antepassados.

Na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista Mônica Bergamo nos informa sobre o tema da proposta (ou já consolidada) chapa Lula-Alckmin.[2] O “santinho” reproduzido aqui circula nas redes do PT, segundo a jornalista. Cabe perguntar se o mesmo está circulando entre a rapaziada do PSDB. Afora o próprio Geraldo, sorridente na foto, quem mais na direita se entusiasma com a proposta chapa presidencial ou presidenciável? Assumindo que, de fato, o senhor Alckmin está muito contente com a proposta, pois eu ainda não li declaração pública do mesmo sobre o assunto. Distração minha?

No texto da jornalista, o assunto aparece discutido entre petistas e na esquerda. Afora algumas manifestações de desagrado com perspectiva da união deste “estranho casal”, não conheço outras reflexões mais aprofundadas vindas da direita nacional. Mas seguramente é responsabilidade minha pois eu evito ler os estadões, globos e folhas do país cujas considerações na maior parte são verdadeiras ofensas cotidianas dirigidas à inteligência dos brasileiros: somos um país de parvos de acordo com os donos dos sistemas de comunicação no Brasil e, como tal, somos nós, os brasileiros, gente desprezível e desprezada pela nossa classe dominante cujo horizonte moral e intelectual me lembra o dos chamados “gusanos” de Miami, por coincidência, a meca da nossa elite inculta e brega.

Os “gusanos” (vermes), os cubanos antirrevolucionários exilados na Flórida, foram assim chamados pelo povo cubano pois constituíam um grupo que militava em várias frentes, inclusive com o recurso ao terrorismo, contra o seu país de origem com o patrocínio do poder norte-americano.

Onde é mesmo que a gente tem cidadãos influentes de um país trabalhando contra os interesses da nação e a favor dos interesses de um poder estrangeiro? Hum, acho que não é na Rússia atual, nem talvez na China, com todas as dificuldades e contradições do status quo mundial. Qualquer analogia com a chamada elite brasileira talvez não seja propriamente mera coincidência.

Segundo a jornalista, Fernando Haddad é um dos principais articuladores da união proposta. Fernando Haddad é, sem dúvida, um político experiente, um intelectual, um competente ex-ministro, etc. Deve ter suas razões. É também um conciliador nato, ou me dá a impressão de ser tal. Derrotado por Bolsonaro na eleição passada, foi publicamente elegante com o vencedor e foi respondido com patadas. Demorou um pouco em chamar o golpe pelo nome, segundo as fontes jornalísticas na época, que devem ser sempre tomadas cum grano salis, certamente.

Quem seriam os demais articuladores, digamos, na direita, por exemplo? Não sei. E a razão geral da proposta é a criação de uma frente ampla contra Bolsonaro. Que dizer de um argumento aparentemente simples, autoexplicativo, cristalino? Que malgrado toda a aparente boa vontade, o espírito conciliador pelo bem maior contra o mal igualmente maior, há algo de paradoxal, penso eu, na proposta, tanto na ideia, como na foto. União com os golpistas de ontem para derrotar um (des) governo fruto do golpe.

Panta Rei, dizia o grande Heráclito, tudo flui, tudo muda no universo, exceto a mudança ela mesma. No Brasil, o grande filósofo grego diria talvez: tudo muda, exceto a burguesia brasileira e sua “índole” antipopular, seu tacão de ferro e seu ativismo golpista. É necessário lembrar que o inacreditável Bolsonaro, capitão do baixo clero parlamentar, é presidente pois a elite quis assim?

Já escrevi outras vezes e repito aqui: Bolsonaro é o retrato de Dorian Gray da elite brasileira, nem mais nem menos. Não há como fugir deste fato, desagradável, mas historicamente provado, que poderíamos talvez denominar, por analogia com formulações recentes, de “golpismo estrutural” contra o qual o espírito conciliador, a bela alma republicana, a vontade apaziguadora, a boa vontade dos bem-intencionados, enfim, o “quietismo” político pouco ou nada pode.

Cito a jornalista: “Segundo interlocutores, Lula já afirmou que, com o tucano de vice, poderia dormir tranquilo: Alckmin, que foi quatro vezes governador, teria experiência e estatura política. Ajudaria a governabilidade. E não transformaria a vice em um centro de conspiração e sabotagem para desestabilizar o governo”.

Ou seja, Alckmin não mais apoiaria um golpe contra o PT, como fez no passado recente. Tudo muda, dizia Heráclito, exceto talvez para alguns brasileiros generosos, a crença numa república imaginária. A república dos gatos escaldados que, malgrado seus infortúnios passados, não temem água fria.

*Marcelo Guimarães Lima é artista plástico, pesquisador, escritor e professor.

 

Notas


[1] In: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/tudo-como-dantesquartel-general-em-abrantes/3354.

[2] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2022/02/santinho-da-chapa-lula-alckmin-ja-circula-nas-redes-do-pt.shtml.