Moradias populares

Imagem: Inga Seliverstova
image_pdf

Por SAMUEL KILSZTAJN*

Quanto menor a classe de rendimento, menor é a participação de moradores em domicílios alugados

Até os anos 1940, construir imóveis populares para alugar era um investimento privado altamente rentável no Brasil. A oferta de unidades residenciais era elevada e a maior parte da população pobre habitava em moradias alugadas. A lei do inquilinato, regulamentando o mercado de aluguéis, e o congelamento dos valores dos aluguéis no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, constituíram fatores fundamentais para a retração da construção de habitações populares para aluguel. Os investimentos começaram a se dirigir para o desenvolvimento da indústria que, por sua vez, atraiu habitantes da zona rural. A decorrente aceleração no processo de urbanização exacerbou o problema da moradia nas cidades, que já enfrentavam a estagnação da oferta de domicílios populares para aluguel.

Na segunda metade dos anos 1950, para o megaprojeto de construção de Brasília, contou-se com a migração da população nordestina, que construiu a cidade, mas não tinha onde morar. São inúmeras as atrocidades e mortes silenciadas dos candangos que construíram a capital no Planalto Central, a exemplo do massacre de 8 de fevereiro de 1959. Para cumprir o cronograma, o andamento das obras era agilizado sem muita preocupação com a segurança dos peões, que podiam ser prontamente substituídos por novos contingentes de nordestinos. Quando um dos trabalhadores caía do alto de um dos prédios em construção, os demais desciam correndo, mas, quando chegavam ao rés do chão, já não encontravam o corpo, que havia sido removido sem deixar vestígios.

A situação agravou-se durante a ditadura militar, com a criação do Sistema Financeiro de Habitação, um modelo de financiamento à habitação acessível somente às classes de renda mais elevada, com condições de acesso ao crédito. O crédito imobiliário na década de 1970 promoveu o aquecimento da indústria da construção civil que, por sua vez, foi responsável pela atração de mais trabalhadores para empregos sem exigência de qualificação específica. As cidades recebiam enormes levas de trabalhadores para a construção civil que, no entanto, mais uma vez, não tinham onde morar.

Para garantir o sistema habitacional das camadas privilegiadas da população, o Estado fez vista grossa, tolerou ocupações irregulares da terra urbana através de invasões de mananciais, grilagens e loteamentos clandestinos, que viabilizavam a provisão não capitalista de habitações para os trabalhadores urbanos recém-chegados do campo.

A pesquisa que realizamos no Laboratório de Economia Social – LES da PUC-SP sobre as condições habitacionais da população, “Aluguel e rendimento domiciliar no Brasil”, publicada na Revista de Economia Contemporânea da UFRJ, indicou que é extremamente precária a oferta de moradias para locação, bem como o acesso ao crédito para as famílias de baixa renda. Quanto menor a classe de rendimento, menor é a participação de moradores em domicílios alugados. Além disso, quanto menor o rendimento das famílias, maior é a participação do valor do aluguel no orçamento familiar.

Dada a precária oferta de moradias populares, o pagamento de aluguel para as camadas pobres da população é praticamente proibitivo. Isto naturalmente explica a baixa participação de moradores das camadas mais pobres da população em casas e apartamentos alugados; e a busca de alternativas que extrapolam o mercado imobiliário, que faz com que os pobres tenham que recorrer a favelas, ocupação de imóveis ociosos, domicílios improvisados, cortiços, ocupação ilegal de terrenos, invasões de mananciais, autoconstrução, aquisição de posse de domicílios não regularizados e outras formas de moradia, que inclui a ocupação das calçadas das grandes cidades.

Enquanto realizávamos nossa pesquisa sobre habitação popular, Miloon Kothari, relator especial das Nações Unidas para questões de direito à moradia, em visita ao Brasil, declarou que os movimentos que promovem ocupações são legítimos; e que irregular é o governo brasileiro, que não cumpre o compromisso assumido em pactos internacionais e está violando o direito à habitação. Miloon Kothari afirmou ainda que o governo deveria reconhecer que não há alternativas para os movimentos que promovem as ocupações.

Durante os primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Anacláudia Rossbach, que havia participado ativamente da equipe de trabalho do Laboratório de Economia Social e atualmente é diretora dos programas da América Latina e Caribe no Lincoln Institute of Land Policy, prestou assistência técnica para o desenvolvimento e implementação da política brasileira de habitação, o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC,  para melhorar a infraestrutura em favelas; e para o modelo de subsídio habitacional Minha Casa, Minha Vida.

Milhões de moradias populares foram construídas, acolhendo muitas famílias que viviam em áreas de risco e viabilizando a melhora significativa da vida de milhões de pessoas, além de ampliar o mercado secundário de imóveis e a oferta de moradias populares para aluguel. Contudo restam enormes desafios a serem enfrentados. Existem hoje milhares de imóveis vazios e ociosos – casas sem gente, gente sem casa.

Em São Paulo, a Ocupação 9 de Julho, administrada pelo Movimento dos Sem Teto do Centro – MSTC, constitui hoje um símbolo da luta pela moradia. O prédio do INSS ficou ocioso por 21 longos anos. Abandonado desde 1976, vazio e degradado, foi ocupado pela primeira vez em 1997. Depois de vários desalojamentos, foi recuperado em 2016. Os moradores da Ocupação 9 de Julho organizam eventos culturais e almoços comunitários aos domingos que legitimam o movimento e ajudam a demover o estigma de que seus moradores são transgressores, porque, fora da lei está o governo, que não provê habitação popular.

O majestoso Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do Governo do Estado de São Paulo, abriga hoje o Museu das Favelas. O museu é um manifesto que certifica o valor da cultura desenvolvida pelos moradores das favelas, pessoas que, marginalizadas pelo sistema, são impelidas a resistir, afirmar a sua autoestima, viver, inovar e criar. O museu abre espaço para que as memórias viscerais e vivas das favelas sejam compartilhadas, reconhecidas e fortalecidas. Sua intensa programação inclui exposições, oficinas, apresentação de pesquisas sobre moradores da periferia, rodas de conversa, lançamento de livros e saraus literários.

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos. [https://amzn.to/46zWlyv]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
Os Estados Unidos estão às cegas
12 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Trump não é um novo imperialista, mas o sintoma de uma potência às cegas: onde o capital financeiro desterrou as elites e a política virou um espetáculo vazio de projeto
4
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
5
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
6
Se armar para salvar o capitalismo financeiro!
13 Jan 2026 Por MAURIZIO LAZZARATO: O rearmamento europeu não é um projeto de defesa, mas um mecanismo financeiro desesperado: a criação de uma nova bolha de capitais para salvar um sistema que só conhece a reprodução através da guerra e da destruição
7
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
8
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
9
Marx e o Estado
16 Jan 2026 Por ARI MARCELO SOLON & ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN: Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Rafael Padial
10
O agente secreto
14 Jan 2026 Por ANDRESSA ANTUNES & MAURO FRANCO NETO: O filme opta por uma violência oblíqua e um passado fragmentado, revelando como o autoritarismo se entranha no cotidiano através de micropoderes e corrupção ordinária
11
Marx, Kepler
12 Jan 2026 Por RODRIGO NAGEM DE ARAGÃO: Marx viu em Kepler um espírito revolucionário: aquele que desvela a essência por trás da aparência, gesto que ele próprio repetiu ao expor as leis do capital
12
Os últimos intelectuais
09 Jan 2026 Por EMIR SADER: A academia, ao engolir o intelectual público, trocou a praça pelo campus e a língua comum pelo jargão — e, com isso, silenciou-se uma voz essencial para o debate democrático
13
A mídia de massa no capitalismo
16 Jan 2026 Por LEOJORGE PANEGALLI: A indústria cultural gerencia o cansaço do Eu e a fantasia do herói, mas seu sucesso também expõe uma fome subjetiva por narrativas de resistência coletiva e justiça, traindo um impulso revolucionário adormecido
14
Irã – crise econômica e manifestações
13 Jan 2026 Por JOÃO SANTIAGO: Uma rebelião alimentada pela inflação e pelo desespero desafia o regime dos aiatolás em escala inédita, sob o olhar cínico de potências estrangeiras e a sombra de um vazio de poder
15
A Venezuela e a tradição internacionalista
14 Jan 2026 Por VALERIO ARCARY: A esquerda deve posicionar-se diante de dilemas históricos escolhendo o campo que enfraquece o imperialismo, sem jamais confundir aliança militar com submissão política
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES