Alciphron & Siris

Imagem: Berry Bicke
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Por JAIMIR CONTE*

Apresentação pelo tradutor dos dois livros recém-editados de George Berkeley

George Berkeley (1685-1753) é hoje mais conhecido por suas obras da juventude, especialmente pelo Tratado sobre os princípios do conhecimento humano (1710) e pelos Três diálogos entre Hylas e Philonous (1713), do que por quaisquer outros de seus escritos posteriores. Estas duas obras concentram os seus principais argumentos sobre diversas questões ontológicas, epistemológicas e metafísicas que continuam a ser objeto de grande interesse filosófico. É nelas que se encontram sua engenhosa negação da existência da “matéria” e sua consequente defesa do idealismo, sintetizada no princípio esse est percipi – ser é ser percebido –, pelo qual ele é frequentemente lembrado.

Durante a vida de George Berkeley, no entanto, seus primeiros escritos publicados não despertaram o mesmo interesse que as duas últimas grandes obras: Alciphron (1732), e Siris (1744). Estas obras da maturidade, mais do que as anteriores, contribuiriam para a fama que ele desfrutou em seu tempo. Posteriormente, porém, esse interesse foi suplantado pela maior atenção dada aos primeiros escritos. Nas últimas décadas, elas voltaram a ser objeto de muitos estudos e artigos, e também a receber novas traduções.

Embora aparentemente muito diferentes entre si, Alciphron e Siris têm em comum a defesa da religião cristã. Essa preocupação, na verdade, é uma marca constante em outros escritos de George Berkeley. Ela está presente nos Princípios e nos Diálogos, cujo objetivo explícito é a refutação do ceticismo e do ateísmo, que ele via como uma ameaça para a filosofia e para a religião.

O grande interesse de George Berkeley pela religião levou-o também a seguir a carreira eclesiástica. Em 1734, foi nomeado bispo anglicano, assumindo, no extremo sul da Irlanda, a diocese de Cloyne, razão pela qual quando hoje se menciona o seu nome ele é lembrado como filósofo irlandês e Bispo de Cloyne.

Alciphron

O título completo do Alciphron (Alciphron: ou o filósofo minucioso, em sete diálogos, contendo uma apologia da religião cristã, contra aqueles que são chamados livres-pensadores), segue o espírito dos títulos completos dos Princípios e dos Três diálogos. Ele deixa claro o fundo apologético da obra, que se insere na longa tradição da apologética cristã, dirigida expressamente contra os “livres-pensadores”, considerados promotores do ceticismo moral e inimigos do cristianismo. O ataque visava figuras particulares do seu tempo, dentre os quais John Toland (1670-1722), Anthony Ashley-Cooper, o terceiro Conde de Shaftesbury (1671-1713), Anthony Collins (1676-1729), Francis Hutcheson (1694-1746) e Bernard Mandeville (1670-1733), e remonta a alguns ensaios publicados anonimamente no The Guardian durante a permanência de George Berkeley em Londres em 1713, em especial aos ensaios “Filósofos minuciosos”, e “Uma visita à glândula pineal” (razão pela qual estes ensaios foram incluídos neste volume.)

Alciphron, a mais extensa das obras de Berkeley, foi escrito entre os anos de 1729 e 1731 durante sua prolongada permanência em Rhode Island, na América do Norte, enquanto ele aguardava um subsídio financeiro prometido pelo Parlamento Inglês para o seu plano de fundar um colégio missionário no Arquipélago das Bermudas. O projeto Bermudas, anunciado em 1724 num panfleto intitulado “Uma proposta para melhor abastecer as Igrejas em nossas colônias estrangeiras e para converter os americanos selvagens ao cristianismo”, visava introduzir as artes e o ensino na América, acerca da qual em 1725 George Berkeley escreveu o poema Uma profecia, em que vaticinava: “rumo ao oeste o império se encaminha” (Versos sobre a América, 7, p. 373).

Convencido de que a Europa vivia uma decadência moral e espiritual, e de que a América oferecia esperança de uma nova idade do ouro, George Berkeley obteve do Parlamento britânico a promessa de financiamento do seu projeto. Em setembro de 1728, após casar-se com Anne Forster, ele viajou para o Novo Mundo. Desembarcou em Newport, onde adquiriu uma fazenda para servir de base para o plano de estabelecer um colégio nas Ilhas Bermudas para os filhos dos colonos e americanos nativos. No entanto, após passar três anos esperando a subvenção prometida, e já tendo consumido uma boa soma de sua fortuna, parte da qual havia herdado alguns anos antes de Esther Vanhomrigh, a escritora “Vanessa”, correspondente de Jonathan Swift, Berkeley foi obrigado a abandonar os planos e retornar à Grã-Bretanha em 1731.

Algumas alusões logo no início do primeiro diálogo situam a obra no contexto do fracasso do Projeto Bermudas. Díon, o personagem narrador dos diálogos, encarrega-se de informar por escrito ao amigo Theages, que permaneceu na Inglaterra, sobre o “empreendimento” que o levou àquela “remota região do país” e sobre o “fracasso” do seu projeto, que lhe acarretou “uma grande perda de tempo, de esforços e de dinheiro” (Alc. 1.1: 31). As descrições que se encontram na abertura do segundo e quarto diálogos remetem a determinados cenários da ilha de Rhode Island, próximos a Newport, onde Berkeley se encontrava durante a composição da obra e onde ele situa o desenrolar dos diálogos entre os vários personagens. O Alciphron pode ser considerado, assim, como uma das primeiras obras filosóficas escritas na América.

A primeira edição do Alciphron, em dois volumes, foi publicada em Londres pelo editor Jacob Tonson, e em Dublin, pelos livreiros G. Risk, G. Ewing e W. Smith, em fevereiro de 1732, pouco tempo depois do retorno de Berkeley da América, ocorrido em outubro de 1731. O primeiro volume incluía a “Advertência”, o “Sumário” e os Diálogos 1 a 5; o segundo volume continha os Diálogos 6 e 7, e a republicação do Ensaio para uma nova teoria da visão, publicado pela primeira vez em 1709. A edição não informava a autoria das obras, mas, como Berkeley já era conhecido como o autor do ensaio sobre a visão, a omissão do seu nome aparentemente não visava dificultar a identificação da autoria do Alciphron.

No mesmo ano de 1732 foi publicada em Londres uma segunda edição, novamente em dois volumes e com a mesma distribuição dos textos, mas já com algumas pequenas modificações textuais. Em 1752, ainda em Londres, foi publicada a terceira edição, com uma revisão final, cuja modificação mais significativa foi a supressão dos parágrafos 5 a 7 do sétimo diálogo (inseridos neste volume em Apêndice). De forma diferente das edições anteriores, a terceira saiu num único volume e sem a inclusão do Ensaio sobre a visão. O volume mais uma vez não identificava o nome do autor.

Alciphron despertou atenção imediata e maior interesse que as primeiras obras de Berkeley. Seu sucesso pode ser avaliado pelas sucessivas edições que teve e pelas reações críticas que despertou. (Berman, 1993, p. 2). Além das várias edições em inglês, a obra recebeu uma tradução imediata para o holandês (Leyden, 1733) e outra para o francês (La Haye, 1734). Em 1753, mesmo ano da morte de Berkeley, apareceu a primeira edição póstuma. Em 1757, 1767, 1777 foram publicadas novas edições, o que indica que, no decorrer daquele século, a obra continuou a ser relativamente popular.

Parte do sucesso do Alciphron talvez se explique pelas qualidades literárias e estilo da obra, composta na forma de diálogos filosóficos, segundo o modelo platônico. Embora os Três diálogos entre Hylas e Philonous, publicados em 1713, rivalizem em beleza e sutileza filosófica, e por si só já fariam de George Berkeley um mestre da escrita elegante na forma de diálogos, do ponto de vista literário pode-se considerar Alciphron, como T. E. Jessop o descreveu, a melhor das grandes obras de Berkeley. Segundo Jessop (editor da edição moderna das obras completas de George Berkeley), como obra de arte Alciphron é uma obra suprema no conjunto total da literatura filosófica inglesa, e talvez suprema também na literatura apologética religiosa. (Luce & Jessop, Works, 1950, v. 3 p. 2).

Os sete diálogos que compõe a obra, estruturados em breves capítulos, estão escritos como se fossem uma carta de Díon, o personagem narrador, que raramente entra na discussão, dirigida a seu amigo Theages, que se encontra na Inglaterra.

O primeiro diálogo introduz os protagonistas dos diálogos e a seita dos livres-pensadores ou filósofos minuciosos. Estes são representados por Alciphron e seu aliado Lysicles. Alciphron é caracterizado como um livre-pensador ilustrado e minucioso que argumenta, no primeiro diálogo, que a religião é apenas uma impostura dos sacerdotes para fins políticos. Lysicles é caracterizado como alguém dotado de um “espírito vivaz e de uma visão geral das letras”, que se tornou amigo de libertinos e livres-pensadores, em prejuízo de sua saúde e de sua fortuna. (Alc. 1: 32). Euphranor, um agricultor que passou pela universidade, e seu amigo e aliado cristão Crito, são os outros dois protagonistas dos diálogos, que, modo geral, representam as ideias de George Berkeley. Eles enfrentam os livres-pensadores e argumentam, no primeiro diálogo, a favor da utilidade e necessidade da religião para a moralidade.

No segundo diálogo o personagem Eufranor procura enfraquecer a tese defendida por Lysicles – tomada de empréstimo da Fábula das abelhas, de Mandeville, cuja quinta edição tinha sido publicada em Londres em 1728 –, de que os “vícios privados trazem benefícios públicos”. A hipótese da utilidade do vício proposta por Mandeville é atacada por Eufranor e Crito porque ela não forneceria uma motivação para agir em benefício público, apenas para buscar o prazer e satisfação do interesse próprio.

No terceiro diálogo, os porta-vozes das ideias de George Berkeley dirigem suas críticas contra as teorias éticas de Shaftesbury e Hutcheson. Eles sugerem, opondo-se à tese da existência de um “senso moral” que nos faria perceber a beleza abstrata da virtude e que serviria de fundamento para a conduta humana virtuosa, que as únicas motivações efetivas para agir são as expectativas de recompensas ou punições futuras. Como resultado, defendem a necessidade de acreditar na onipresença de Deus e em seu governo moral nesta vida, bem como na vida futura.

O quarto diálogo retoma e expande a concepção metafísica de George Berkeley desenvolvida no Ensaio sobre a visão, segundo a qual a Mente é o princípio original que dirige tudo. Nele, através do personagem Eufranor, Berkeley desenvolve uma prova da existência de Deus com base num argumento analógico, ao tratar a existência de Deus ou mente infinita da mesma maneira como tratamos a existência de uma pessoa ou uma mente finita. Do mesmo modo como reconhecemos que existem outras pessoas ou mentes finitas independentes da nossa porque elas nos falam e se comunicam conosco, nós também poderíamos reconhecer a existência de Deus pelas suas marcas, que nos são inteligíveis, mediante a linguagem visual da natureza através qual ele nos falaria continuamente. A interpretação teísta do universo promovida pelo diálogo pretende demonstrar, assim, que cada vez que abrimos os olhos “vemos”, literalmente, Deus.

No quinto diálogo a discussão avançada por Eufranor volta-se para o teísmo em sua forma cristã. Apesar de reconhecer os defeitos do clericalismo, a variedade de religiões, os conflitos teológicos e outras falhas ligadas à religião cristã, ele passa a ilustrar como o cristianismo e suas instituições são moralmente excelentes e úteis; como, mais do que outras formas de fé, ele torna as pessoas mais virtuosas e mais felizes, trazendo benefícios não apenas para os indivíduos, mas também para as nações.

O sexto diálogo, o mais longo de todos, passa do tema anterior sobre a utilidade da religião cristã para um debate sobre a natureza divina do cristianismo. Os protagonistas do diálogo discutem sobre as evidências a favor da verdade do cristianismo. A religião cristã é apresentada como a revelação consumada de Deus aos homens, que se prenuncia em suas marcas visíveis na natureza. O diálogo acaba sugerindo que a aceitação da revelação divina, como o seria a aceitação da ciência natural, é uma questão de fé. De qualquer modo, os efeitos da fé genuína produziriam probabilidade e certezas práticas que já seriam suficientes, contra toda dúvida, como base para a religião.

No sétimo e último diálogo, os protagonistas passam da discussão anterior acerca das evidências morais a favor do cristianismo para uma discussão sobre a credibilidade da fé cristã. Segundo os livres-pensadores, por envolver os mistérios da fé, o cristianismo não poderia ser justificado por nenhuma evidência, por mais provável que esta fosse.

O livre-pensador Alciphron, que se apoia na ciência e exige uma demonstração estrita da verdade do cristianismo, exige assim que se abandone o uso de palavras ininteligíveis como “graça”. Contra essa posição, Euphranor defende os mistérios da fé recorrendo ao nosso uso da linguagem. Isso conduz o diálogo a uma discussão acerca da relação entre “fé” e “ciência” e acerca do significado e utilidade da linguagem mesmo quando as palavras não sugerem ideias. Eufranor argumenta que, se a religião emprega noções misteriosas às quais não corresponde nenhuma ideia ou acerca das quais não podemos formar uma ideia – como “graça”, “trindade”, “encarnação”, “pecado original” e “livre arbítrio” –, a ciência também emprega conceitos, como “força”, raiz quadrada de um número negativo, e outros termos teóricos, que não sugerem ideias.

Dada a discussão levantada no último diálogo, Alciphron acaba sendo, assim, uma fonte fundamental das visões de George Berkeley sobre a linguagem em geral. Opondo-se à tese semântica de John Locke (1632-1704) segundo a qual toda palavra significativa deve representar uma ideia, Berkeley pode ser visto como um defensor de uma doutrina do significado mais ampla do que a teoria ideacional lockeana. O significado das palavras não poderia apenas ser atrelado a ideias que podemos conceber distintamente, mas sim ao lugar que elas ocupam em um sistema de signos relacionados com a prática ou com a experiência.

A esse respeito, alguns intérpretes contemporâneos vislumbram em Berkeley, em particular no sétimo diálogo do Alciphron, uma antecipação da teoria emotiva do significado (Belfrage 1986; Berman, 1993), outros uma antecipação da teoria do significado como uso, semelhante à do segundo Wittgenstein. (Flew, 1974). Tal aproximação que se justificaria na medida em que George Berkeley nos incentivaria a abordar a linguagem da perspectiva de suas múltiplas funções e da sua conexão com a atividade humana. (Roberts, 2017; Pearce, 2022).

Como se pode ver num rápido levantamento dos estudos contemporâneos sobre a filosofia de George Berkeley, Alciphron tem suscitado renovado interesse entre os seus intérpretes. Apesar de seu acentuado caráter moral e apologético, os diálogos colocam questões filosóficas que extrapolam o âmbito religioso. Como uma obra clássica da tradição filosófica que é, Alciphron trata de diversas questões permanentes e vivas, que continuam a despertar grande interesse. Sua importância reside tanto nas visões avançadas sobre determinadas questões quanto na maneira dialogal exemplar e elegante de abordar abordá-las.

Siris

Siris, a última grande obra filosófica de George Berkeley, foi publicada em 1744. Ela obteve um grande êxito em sua época, tornando-se imediatamente um verdadeiro best-seller. No decorrer do mesmo ano foram publicadas várias edições consecutivas, em Dublin e em Londres. No ano seguinte passou a ser lida com grande interesse em toda a Europa, recebendo traduções parciais em holandês, alemão, e uma tradução integral em francês.

O título deriva da palavra grega Σεὶρις, diminutivo de σεὶρα: pequena corda ou cadeia. Berkeley emprega este termo tanto para se referir ao encadeamento literário estrutural da obra – descrita pelo título completo como uma “uma cadeia de reflexões e investigações filosóficas acerca das virtudes da água de alcatrão e diversos outros assuntos relacionados entre si e derivados uns dos outros” –, como para designar a própria estrutura do mundo, onde se poderia perceber admirável conexão e encadeamento entre todas as coisas, o que revelaria a unidade viva da Natureza.

Uma das ideias centrais desenvolvida em Siris, tomada de empréstimo de Jâmblico e dos Platônicos, é que “não há nenhum salto na natureza, mas uma Cadeia ou Escala de seres que se eleva por gradações moderadas e ininterruptas dos seres inferiores aos mais elevados, cada natureza recebendo sua forma e sendo aperfeiçoada pela participação em uma superior” (Siris, § 274).

Siris é uma obra de difícil interpretação. Apresentado com o objetivo de defender as virtudes medicinais da água de alcatrão, o livro na verdade trata de diversos assuntos, que vão desde a alquimia à medicina, da física à metafísica, da ciência à teologia e à filosofia platônica.

A obra apresenta uma cadeia de reflexões que pretende conduzir o leitor de um extremo a outro da cadeia dos seres: das coisas sensíveis mais grosseiras ao ser puramente espiritual do qual emanaria o todo. “Nessa cadeia, cada elo leva a outro. As coisas mais baixas estão conectadas às mais elevadas.” (Siris, § 303). Assim, do alcatrão – base para a preparação da água de alcatrão apresentada no início da obra como uma panaceia universal –, Berkeley passa em seguida para as resinas; das resinas para o espírito vegetal; do espírito vegetal para o espírito etéreo que animaria todas as coisas no mundo sensível e constituiria um princípio universal da vida; o espírito etéreo, por sua vez, encaminha as reflexões de Berkeley para os espíritos finitos e, finalmente, para o próprio Deus.

Em seus parágrafos finais, Siris culmina numa reflexão metafísica e especulativa abertamente platônica sobre a unidade primordial, o τὸ ἕν, ou o ser Uno dos platônicos, considerado por Plotino como anterior ao próprio espírito de Deus. Uma visão que, segundo George Berkeley, não apenas não conduz ao ateísmo, como é compatível com a doutrina cristã e já comporta, sob a forma das três hipóstases divinas, uma ideia exata da Trindade.

Assim, o desenvolvimento inicial de uma argumentação de natureza químico medicinal, com o objetivo de defender as virtudes terapêuticas da água de alcatrão (uma mistura preparada com base na resina de pinus), com parágrafos dedicados à química dos ácidos e dos sais, converte-se, em seguida, num tratado sobre tópicos distintos, com reflexões acerca da natureza, sobre filosofia mecanicista, sobre a alma e a divindade, visando estabelecer a ligação do mundo com a Santíssima Trindade.

Ainda que não seja anunciada de forma tão explícita como em Alciphron ou nas obras precedentes, a intenção apologética de Siris torna-se, então, evidente. Ao argumentar que a natureza é o efeito de uma causa inteligente, Berkeley não apenas salienta a necessidade de um Espírito como causa última, mas pretende também levar a mente o leitor, gradativamente, à contemplação de Deus.

Embora Siris mantenha as bases do idealismo de Berkeley, é uma obra que possui um estilo muito diferente dos Princípios e do Diálogos, sendo fortemente marcada por influências neoplatônicas. Apesar disso, Siris permanece uma fonte importante para entender a filosofia de Berkeley, uma vez que “o livro está repleto de passagens em que as principais teses das obras anteriores são reiteradas, muitas vezes com argumentos mais elaborados: o empirismo em sua forma estrita, a conformação da filosofia natural a esse empirismo, a visão nomológico-dedutiva da explicação nesse domínio do conhecimento, a crítica ao mecanicismo cartesiano, a interpretação instrumentalista das forças, a transferência para a metafísica e teologia do estudo das causas reais dos fenômenos, o caráter espiritual dessas causas etc.” (Chibeni, 2010, p. 405).

Como se pode ver, e apesar das informações “científicas” apresentadas em Siris parecerem completamente ultrapassadas, apesar dos seus conhecimentos de química e física evocados terem sido em sua maior parte suplantados ou mesmo consideradas errados (Jessop, 1953, p. 7), da mesma forma que em relação a Alciphron, há muita coisa interessante em Siris para o estudioso da filosofia em geral e para o interessado na filosofia de Berkeley em particular. E este interesse pode aumentar ainda mais quando o leitor e intérprete contemporâneo consegue deixar de “considerar Berkeley interessante apenas na medida em que ele tem algo relevante a dizer sobre os problemas com os quais nós estamos preocupados, e apenas na medida em que ele é capaz de resolver o que nós consideramos problemas filosóficos significativos” (Bradatan, 2022, p. 16).

*Jaimir Conte é professor de filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Referência


George Berkeley. Alciphron ou O filósofo minucioso / Siris. Tradução: Jaimir Conte. São Paulo, Unesp, 2022, 582 págs (https://amzn.to/3OELoV4).

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