Cultura soberana nacional e histórica da ideologia do colonialismo

John Hilliard, Extensão Branca, 1974
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Por LUIS EUSTAQUIO SOARES

Trechos, selecionados pelo autor, do primeiro capítulo do livro recém-lançado

As gentes graves e as gentes frívolas

É questão povo, esse terceiro excluído, está presente nos fundamentos econômico-culturais e estéticos da produção literária de Machado de Assis, por exemplo, , quando, de modo metaficional, em Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador, Brás Cubas, assim interpela o leitor suposto do romance:”Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião (MACHADO, 1977, p.23).

Machado, ao revés, soube antecipar a relação da praxis povo com as forças que a capturam, como as que dizem respeito à emergência da cultura de massa, já presente, ainda que em esboço, nos folhetins da segunda metade do século XIX.O escritor carioca soube, a partir da metaficção, assinalar o que conta realmente para a produção literária, para a recepção estética e também em perspectiva para o povo: não ocupar o lugar do frívolo, o que só se efetiva não levando a sério a classe que se apresenta como tal, a oligarquia, representada na obra sobretudo por Brás Cubas.

A transversalidade histórica da ideologia do colonialismo torna onipresente, sempre atualizada, a relação entre o frívolo e o grave, impossibilitando a objetivação da realidade em sua totalidade dinâmica e contraditória no tempo e espaço, inseparável, em diálogo com Caio Prado Junior, do desafio irrecusável de constituição da unidade nacional soberana.

Os voos metafísicos, encarnados no próprio estilo aristocrático do de personagens da ficção machadiana como Félix, Estácio, Jorge, Brás Cubas, estão desacoprados do “chão nacional” e ricocheteiam na invenção da filosofia do Humanitismo, levada a cabo pelo ensandecido personagem machadiano, Quincas Borba, que assim a definirá: “princípio da vida e reside em toda a parte (Machado, 1982, p. 16), razão por que, “existe também no cão, e este pode assim receber o nome de gente, seja cristão ou muçulmano…” (Machado, ‘1982, p. 16).

Existe, sobretudo, diria, no cão porque não obstante o Humanitismo de Quincas Borba ser um delírico metafísico, evoca de modo intertextual e metaficcional ao filósofo da Grécia antiga, Diógenes, o kynikós, isto é, semellhante a um cão, à filosofia cínica e, por meio desta, ao cinismo instalado no próprio ato de inventar uma filosofia sem lastro nas relações sociais de produção, logo antirrealista.

As metafísicas das epistemologias do “grave”, entretanto, na era do colonialismo financeiro lastreado no sistema dólar ( não esqueçamos da cachorrinha intitulada Miss Dólar, que dá titulo a um conto homônimo do livro Contos Fluminenses de 1870) assumiram obviamente outros nomes cínicos, dissimulados de graves, variações do Hamanitismo: estruturalismo, pós-estruturalismo, estudos culturais, estudos de testemunho, pós-colonialismo, decolonialismo, ancestralidade; apresentadas, todas, em suas respectivas épocas, como sérias e insubstituíveis, para as frívolas pesquisas acadêmicas brasilerias; e frívolas porque perderam o “fio da história”: a emancipação nacional político-econômica, integrando soberanamente os diversos Brasis.

A perspicácia kynista do narrador machadiano, com o Quincas Borba e o seu Humanitismo, antecipou aquilo que dá amálgama à continuidade no tempo e no espaço da ideologia do colonialismo, a saber: a relação entre colonialismo e imperialismo, assim apresentada por Caio Prado Junior: “Observamos aqui muito bem a ligação do imperialismo com o nosso sistema colonial, fundado na exportação de produtos primários, pois é por meio da exportação da colônia que provém os recursos com que o imperialismo conta para realizar os lucros que são a razão de ser de sua existência” (JUNIOR, 1972, p. 75).

A condição de dependente de uma metrópole imperialista impõe a violência da estrutura colonial de produção como transversal à história brasileira, violência cujo efeito objetivo diz respeito ao fato de que a relação entre o frívolo e o grave, apresentada e vivida alienadamente como idílica, sob o signo dos “negócios miúdos” e dos grandes voos metafísicos, é na verdade marcada pela mais cínica e descarada violência e capricho, inclusive epistemológicos, como de resto destacou Roberto Schwarz em “O sentido histórico em Machado de Assis” (2001), ao analisar o capítulo “A flor da moita”, detendo-se na relação entre Brás Cubas e Eugênia: “O leque dos destinos disponíveis, de amplitude vertiginosa e catastrófica para a parte pobre, é, para parte proprietária, o campo das opções ao exercício do capricho”(SCHWARZ, 2001, p. 89).

Machado de Assis foi um escritor consciente e lúcido que soube incorporar em seu estilo a ficcionalização crítico-irônica da ordem dominante, perspectivando-a como um anteparo poderoso para a constituição de uma sociedade emancipada do jugo dos estilos de vida colonizados das classes dominantes, tomando de “assalto”, nas suas “aparências fora de lugar” (não que haja um lugar próprio), a realidade concreta, baseada em relações escravistas de produção.

A impostura e a violência, encenadas ironicamente no estilo machadiano, estão correlacionadas à ambiguidade irônica e dialetizada, em Memórias póstumas de Brás Cubas, entre ( no ambito da recepção romântica da época, preâmbulo da cultura de massa do contemporâneo) o leitor frívolo e o leitor grave, particularizando de modo singular o que tem sido transversal à história do país subsumido a diferentes ideologias do colonialismo, precisamente porque jamais foi soberano, sob qualquer ponto de vista; precisamente porque, em uma estrutura de dependência, marcada pela relação desigual entre metrópole e periferia, sempre ocupou o sítio histórico da dependência, amalgamando, pela farsa e pela tragédia, “caras” sérias e “caras ingênuas”.

Recordações de Isaías Caminha, de Lima Barreto

Uma estrutura de dependência pode também ser objetivada pela relação entre o frívolo e o grave, sendo que o lugar do dependente é adjetivável pelo primeiro termo, enquanto a metrópole via de regra é representada pelo segundo.

É essa relação, a partir de outro enfoque, que também pode ser analisada em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, narrativa que tem como protagonista um narrador nem grave e nem frívolo, uma vez que soube identificar a dominância da impostura, do capricho e da violência no interior das relações laborais entre os “donos da imprensa” e seus funcionários avassalados, como é possível observar na seguinte passagem da narrativa: “No jornal, o diretor é uma espécie de senhor feudal a quem todos prestam vassalagem e juramento de inteira dependência: são seus homens” (BARRETO, 1994, p. 111).

Dilatando a relação entre frívolo e grave de Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador-personagem de Recordações do Escrivão Isaías Caminha soube evidenciar o seguinte: (i) que a relação entre senhor e vassalo tem sido a regra e, assim, a própria estrutura material da ideologia do colonialismo; (ii) razão por que também ocorre entre os proprietários da “imprensa” e seus funcionários; (iii) encarnando-se potencialmente em todos os tipos que possam ocupar o papel de senhor, de chefe, de patrão e também de homem, branco e assim por diante.

Entretanto, Lima Barreto (assim como Machado de Assis) não essencialiva as relações sociais, quaisquer que fossem. Historicizava-as, pois sabia, no caso do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915), que eram e são a consequência trágica da prevalência de uma estrutura colonial de produção, tendo a questão da terra como central, como assinalou Astrogildo Pereira no seguinte trecho do livro Crítica impura (1963):

“Combatia o latifúndio e reclamava a reforma agrária como condição indispensável ao livre desenvolvimento da economia nacional Tratou disso mais de uma vez, sobretudo no artigo-manifesto a que deu o título de “No ajuste de contas…” e no artigo que escreveu sobre o Problema Vital, de Monteiro Lobato. Vital, para este último, era o problema da saúde. Para Lima Barreto, o problema da saúde estava ligado e dependia mesmo do problema da terra, este, sim, um problema vital” ( PEREIRA, 1953, p. 45).

Romances como Triste fim de Policarmo Quaresma e Numa e Ninfa (1915), para além de comentários da imprensa, têm como tema central precisamente a questão da terra, com o destaque para a situação de miséria dos trabalhadores rurais, para a primeira narrativa; e para uso da sátira ferina contra os burocratas do Estado comprometidos com latifundiário em detrimento do tralhador rural, no que diz respeito à segunda obra citada.

É por isso que o romance Recordações do escrivão Isaías Camianha, em seu enredo, tornou-se, para esta livro, uma questão metodológica, pois não separou o racismo estrutural brasileiro da estrutura colonial de produção, motivo pelo qual será analisado, na relação com as outras obras deste livro, tendo como referência as seguintes perguntas: como o racismo estrutural se fundamenta no período histórico de uma estrutura colonial imperialista de produção? Como o capricho, a impostura e a violência são retomados nas relações entre o frívolo e o grave na era do capital monopolólico?

Memórias do cárcere,de Graciliano Ramos

São em certo sentido o capricho, a impostura e a violência que Alfredo Bosi, em Dialética da colonização, idetificou, não sem uma dimensão caricatural, no cabra “maior abandonado”, Fabiano, de Vidas Secas (1938).

A esse respeito escreveu: “A figura de Fabiano, o cabra de Vidas Secas, não é um mito literário inventado por Graciliano Ramos. A sua conduta oscilar – entre o mais humilhado conformismo e surtos de violência…, até que um dia certas condições de emprego, de vizinhaça, ou de grupo familiar puderam reconstituir aquele tecido de signos de vida popular” (BOSI, 1992,P51-52).

Ora, não são esses signos de vida popular e também de vida em sociedade que a ditadura do Estado Novo – pela tortura – tentara de todas as formas corromper e destituir, a fim de impor ao país uma estrutura colonial de produção típica do periodo em que os tambores de guerra interimperialista anunciavam o advento da Segunda Guerra Mundial?

Não será Memórias do Cárcere o testemunho agônico e trágico da condição de dependência do país em época de guerra interimperialista ou mesmo de crise mundial do capital, período em que o perfil ao mesmo tempo caprichoso, violento e impostor concentra-se nos rostos graves dos militares dedicados a condenar o país e seu povo à estrutura colonial de produção que as metrópoles monopólicas exigem, impõem?

O que é ser frívolo ( e logo torturável ) em um contexto como esse? É ser brasileiro? É se envolver, como comunidade de destino, com o brasileiro, na contramão da estrutura colonial de produção vigente?

Reside nesse aspecto este doloroso depoimento do narrador, presente no volume dois da obra: “Somos animais desequilibrados, fizeram-nos assim, deram-nos almas incompatíveis. Sentimos em demasia, e o pensamento já não existe: funciona e para. Querem reduzir-nos a máquinas. Máquinas perras e sem azeite” (RAMOS, 1998, p. 215).

Entretanto, embora as ditaduras tenham como objetivo desumanizar, suprimir e transformar a tudo que respira – e diz não – em peça de sua maquinária de moer gentes, em Memórias do Cárcere, segundo Hermenecildo Bastos de Memórias do cárcere: literatura e testemunho: “A mistura de vida e obra leva à retomada dos “fatos” da ficção e sua revisitação pelo personagem-autor (que rouba, assim, o papel dos outros personagens). Trata-se de resgatar um núcleo de experiência comum a Graciliano Ramos autor-personagem e seus personagens de ficção. É o caminho para a identidade, a qual, como vimos, se processa por meio da diferenciação. O núcleo de experiência é o Nordeste e o Brasil, a exploração, a violência, a impossibilidade de mudar a realidade” (BASTOS, 1998, p. 22).

E não será essa experiência comum de que tratou Hermenecildo Bastos no fragmento acima, na relação entre vida e obra, a instância que representa a diferenciada identidade nordestina e brasileira, quando, pela memória, ainda que do cárcere, resiste à condição de frívola e grave, humanizando-se não obstante a turtura e o arbítrio da prisão sem formalização de culpa e sem o devido processo legal?

A questão de método, para este livro, com a presença de Memórias do cárcere como objeto de estudo, não é outra, pois, senão esta: o “cárcere” da estrutura colonial de produção na relação com o cárcere enquanto tal, evidenciado pelo arbítrio da prisão sem julgamento, da tortura e da repressão contra todo aquele que ouse sequer desejar a soberania nacional.

No que se refere à “prisão histórica” imposta por uma recorrente estrutura colonial de produção, outro aspecto que não pode ficar de fora é este, a saber: as tipicidades humanas brasileiras são o efeito objetivo, ainda que contraditório, da condição de país dependente, sem soberania.

O problema fundamental é a estrutura colonial de produção e, em sua fase imperialista, o fato de setores das Forças Armadas muitas vezes serem usados como verdadeiro exército de ocupação.

A esse respeito, Nelso Werneck Sodré em História militar do Brasil escreveu o que segue: “ O grande esforço do imperialismo, sem dúvida alguma, vem sendo desenvolvido nesse sentido: o de transformar as Forças Armadas em tropa de ocupação, a seu serviço” (SODRÉ, p. 2010, 487).

Não essencializar não significa nem de longe ocultar a violência. Pelo contrário, as tipicidades que ocupam a linha de frente da defesa ditadorial da estrutura colonial de produção atuam a partir dos piores aspectos da ideologia do colonialismo, encarnando seus estereótipos mais deploráveis, a fim de justificar a violência, a impostura e o capricho exercidos arbitrariamente contra as brasileiras e brasileiros que estejam, conscientes ou não, em defesa da soberania nacional; contra a população, camponeses, operários, quaisquer como se evidenciou com a operação Lava a Jato, que, para combater o desenvolvimento tecnológico-industrial do país, encarcerou empresários, além Lula, jogando os arrivistas chantageados do mundo da política, contra Dilma Rousseff.

Irmão Juazeiro, de Francisco Julião

Outra não menos relevante questão de método é esta: as relações de produção de estilo colonial são mundiais, incluindo metrópoles e países dependentes. É preciso analisá-las nesse contexto, o que significa o seguinte: é indispensável ampliar o zoom geopolítico para uma escala planetária, a fim de não incorrer no erro de fixar o problema das relações sociais autoritárias internamente, na suposição de que o país esteja isolado do mundo.

É preciso sempre lembrar que o Brasil surgiu como país no contexto de relações coloniais planetárias e como tal é parte do mundo, estando marcado pela divisão social e desigual do trabalho, assim como pelas trocas comerciais não menos desiguais.

Entretanto, o país possui a sua própria história, na relação dialética com a estrutura colonial europeia e estadunidense, sendo uma questão igualmente de método investigar a especificidade do caso brasileiro, sem deixar de compará-lo com outros casos e culturas.

Irmão Juazeiro (1960), de Francisco Julião, segundo Fabio Lucas em O caráter social da literatura brasileira (1976): “versa sobre a oposição entre os eiteiros e os latifundiários do interior de Pernambuco. Os donos das terras aproveitam-se destas e dos esforços dos camponeses. Estes contudo são os que revelam amor à terra e ao cultivo do solo” (LUCAS, 1976, p.82).

É obra dividida em vinte um capítulos em que o verdadeiro personagem é a terra na sua dupla dimensão, considerando a estrutura colonial de produção, a saber: a que diz respeito à perspectiva dos camponeses e a dos proprietários.

A relação entre o latifúndio e o eiteiro é o trágico tema do romance. O primeiro segue ao mesmo tempo como grave e frívolo as mutações e caprichos das demandas da Metrópole, considerando a permanência de uma estrutura econômica agrário-exportadora, entrecortada por ciclos de produção efêmeros.

A frivolidade é também como a do cárcere, impessoal, estando determinada pela condição objetiva de sem-terra, como é o caso, por exemplo, de Zuza Genuíno, expulso de seu sítio porque “[…] O capitão precisava de cercar mais terra. O gado estava aumentando. O lucro era grande e o trabalho nenhum” (JULIÃO, 1960, p. 28).

A Metrópole exige gados, quer comer carne bovina. Demanda. O latifúndio obedece. Expulsa o meeiro […] cuja vida era aquele pedaço de terra, aquela casa, aquela chã, aqueles pés de pau, a sombra daquele velho juazeiro (JULIÃO, 1960, p.28).

A questão de método do romance é fundamentalmente esta, retomando o diálogo com Lima Bareto: sem reforma agrária e o fim do latifúndio, a estrutura colonial de produção e com esta a ideologia do colonialismo persistirão, ainda que com novas formas, considerando por exemplo a fase atual do agronegócio.

Fundamentalmente, de qualquer maneira, a aliança entre o latifúndio e o imperialismo estará sempre presente, sempre ávida de condenar o país ao “carcere” de sua condição dependente, retroalimentando a ideologia do colonialismo, a partir da humilhação, abandono e violência sem fim contra os “sem-terra” e seus descendentes afavelados nos grandes centros urbanos, tema dos próximos romances de Ivan Ângelo escolhidos para a análise da transversalidade da ideologia do colonialismo, à brasileira, no tempo e no espaço.

A festa e A casa de vidro, de Ivan Angelo

Em A festa (1976) e A casa de vidro, de Ivan Angelo, todo esse pesadelo histórico acumulado com a perversão de Brás Cubas, com a situação de Eugênia, de Prudêncio, de Dona Eulália, Marcela, para dialogar com MPBC; com o errante e sem lugar Isaías Caminha, com o drama humano impessoalizado e matável das “memórias do cárcere”, assim como a vida dos meeiros expulsos de suas (não)terras, em Irmão Juazeiro, transforma-se em redemoinho histórico e urbano, em um regime de exceção civil-militar manietado já plenamente pelo ultraimperialismo estadunidense.

Nas duas narrativas, o grave é frívolo e este é aquele e todos são suspeitos, sobretudo se envolvem com os desterrados típicos de Irmão Juazeiro, não sendo por acaso que o próprio Francisco Julião tenha se transformado em personagem de A festa.

Um dos personagens desta última narrativa citada, Marciolínio de Mattos, pode bem ser interpretado como o futuro de Genuíno Zuza de Irmão Juazeiro, sendo assim retratado ou reeditado em flash-back, ao estilo de um Boletim de Ocorrência policial: “que seu pai, Divino de Matos, era capanga do coronel Horácio Mattos, homem forte da República no sertão da Bahia, respeitado por lampião; que o mesmo tomou parte nas guerras do coronel contra a Coluna Prestes nos lugares Olho d´Água, Riacho d´Areia, Roça de dentro, Maxixe e Pedrinhas…” (ÂNGELO, 1976, p. 19).

A narrativa é construída a partir de retalhos da história do Brasil, de seus fundamentos político-econômicos coloniais e a imprensa funciona como um embuste total, a serviço das forças de repressão. Casa de vidro é uma narrativa em que a casa de vidro se apresenta como ao mesmo tempo uma redoma arcádica fora da história e um imenso cárcere, sendo que os dois lados têm como pano de fundo especular a Inconfidência Mineira.

Os desterrados da narrativa já não lutam por terra, como Irmão Juazeiro e A festa. Tornaram-se favelados e como tais são objetivamente matáveis porque frívolos e frívolos porque matáveis.

A questão de método dessas duas narrativas está relacionada ao fato de terem sido escritas no período do regime de exceção, pós-64; e muito especialmente por focarem em dois traços da ideologia da colonização brasileira, quais sejam: a metáfora da festa, sob a forma biopolítica de estilos de vida, para aqueles que podem viver relativamente bem ou muito bem em uma estrutura colonial de produção dominantemente determinada por EUA; e a metáfora da “casa de vidro”, para a narrativa de título homônimo.

No que diz respeito a esse último aspecto, o que a narrativa evidencia, em perspectiva histórica de longa duração ( a Inconfidência Mineria) é a retomada do problema arcádico na interface com a soberania nacional, replicados pelo jogo especular entre o passado e o presente, com as personagens projetando ora a impostura e a violência, ora a condição brasileira, cujos signos se tornam populares, socializam-se, com a simples dignidade laboral e o princípio de esperança que não deixa de ser metodológico por si mesmo, de conquista de soberania nacional plena.

*Luis Eustáquio Soares é professor titular do Departamento de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autor, entre outros livros, de A sociedade do controle integrado (Edufes) [https://amzn.to/3YO7Gcn]

Referência


Luis Eustáquio Soares. Cultura soberana nacional e histórica da ideologia do colonialismo:Machado, Barreto, Gracialiano Ramos, Francismo Julião e Ivan Angelo. Vitória, Edufes, 2026. [https://edufes.ufes.br/items/show/808]

Bibliografia

ÂNGELO, Ivan. A festa: romance: contos. São Paulo: Vertente Editora, 1976.

ÂNGELO, Ivan. A casa de vidro. São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1979.

Machado de. Obras Completas. v. 29: Crítica literária. Rio de Janeiro: W.M. Jackson, 1962.

BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1984

JULIÃO, Francisco. Irmão Juazeiro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1960.

PRADO JUNIOR, Caio. A revolução brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1972

RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: Record, 1998.

SODRÉ, Nelson Werneck. História militar do Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

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