Da casa comum à nova cortina de ferro

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Por GILBERTO LOPES*

Reflexões sobre as origens do mundo atual.

Da casa comum à nova cortina de ferro

Estamos em dezembro de 2014 e, há um ano, os protestos do Maidan impuseram uma mudança de governo na Ucrânia. O ex-presidente da União Soviética (URSS) Mikhail Gorbachev, então com 83 anos, conversava com Pilar Bonet, correspondente do jornal espanhol El País em Moscou há 34 anos.

“Construir a casa comum europeia é mais urgente do que nunca”, disse Mikhail Gorbachev a ela. “Precisamos criar um sistema de segurança que inclua os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia e os países europeus”, diz ele com veemência, tendo em vista as turbulências na relação entre a Rússia e o Ocidente. Em março de 2014, a população da Crimeia e da cidade de Sebastopol aprovou sua adesão à Rússia num referendo.

Mikhail Gorbachev apoiou a política de Vladimir Putin para a Crimeia. “Tanto sangue russo foi derramado, tantos séculos de luta pela Crimeia, pela saída [da Rússia] para os mares!”, exclama ele. “Para mim, o principal é que as pessoas queriam voltar para a Rússia” (o resultado do referendo foi esmagadoramente favorável à ideia). “A Crimeia é russa e era uma ferida aberta que agora foi fechada. Em relação à Crimeia, no Ocidente, vocês devem dormir tranquilos”, disse Mikhail Gorbachev a Pilar Bonet.

Ele vê como um “sinal negativo” o adiamento do Diálogo de São Petersburgo, um fórum bilateral russo-alemão que reunia, a cada ano, políticos, intelectuais e representantes da sociedade civil dos dois países. “Se as sanções fossem suspensas agora, seria possível chegar a acordos sobre muitas coisas com a Rússia. Mas sem ultimatos, pois a Rússia não pode ser tratada dessa forma, sem a menor cerimônia”.

Mikhail Gorbachev está de acordo com Vladimir Putin quando este afirma que, após a Guerra Fria, os países ocidentais se comportaram como “novos ricos”. “Começaram a limpar suas botas na Rússia, como se ela fosse um capacho. Eles elogiavam Boris Yeltsin, enquanto o país estava prostrado”. “Não é tarde demais para revertermos juntos a situação, embora não se possa esperar nada da Ucrânia, que está disposta a tudo para ser admitida na OTAN e na União Europeia”.

A casa comum europeia

Muita água passou por debaixo da ponte desde a unificação alemã, a adesão à OTAN e a dissolução da União Soviética. Quase 35 anos.

Quando tudo isso ainda não tinha acontecido (mas já era iminente e inevitável), em julho de 1989, Mikhail Gorbachev discursou na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em Estrasburgo. Ele propôs levar adiante a construção da Casa Comum Europeia. Ofereceu-se para negociar com a OTAN a retirada dos mísseis nucleares de curto alcance. O desarmamento deveria ser, de acordo com o líder do Kremlin, o pilar da construção dessa casa comum.

Três anos depois, em abril de 1992, com a União Soviética já dissolvida, Mikhail Gorbachev discursou num colóquio na Sorbonne. O tema era “Para onde vai o Leste?”, organizado por Libération, El País, La Repubblica e outros meios de comunicação europeus. Ele propôs a criação de um Conselho de Segurança para a Europa. Dizia compartilhar a visão do general De Gaulle, “que concebia a Europa como o espaço entre o Atlântico e os Urais”, a fronteira natural entre a Europa e a Ásia, cerca de 1.700 km a leste de Moscou. Um enorme palco europeu.

Apenas um mês antes de sua conversa com Pilar Bonet, Mikhail Gorbachev tinha participado das comemorações dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989.

Mikhail Gorbachev adverte contra a tentação de promover uma nova Guerra Fria. Ele apela por um diálogo com Moscou. O presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata alemão Martin Schulz, também se manifestou. Ele reconheceu que, “gostemos ou não, a Rússia é uma potência chave, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Estamos comprometidos com a integridade territorial da Ucrânia, mas todos os canais de comunicação com a Rússia devem permanecer abertos”.

Os Estados Unidos nunca permitirão uma verdadeira Europa unida

Gaspar Méndez, economista e professor de geografia e história, escreveu no Diario de León em 15 de julho de 2022. As tropas russas cruzaram a fronteira ucraniana em 24 de fevereiro.

Ele cita o coronel da reserva do exército espanhol Pedro Baños, escritor especializado em geoestratégia, defesa e segurança, e o renomado jornalista norte-americano Robert Kaplan, colaborador regular de alguns dos meios de comunicação mais importantes dos Estados Unidos.

Se analisarmos a questão do ponto de vista dos interesses geopolíticos, “os Estados Unidos nunca permitirão uma verdadeira Europa unida, assim como não podem permitir que a União Europeia se una à Rússia, pois isso significaria um enorme prejuízo geopolítico e econômico”.

De acordo com o roteiro norte-americano, o arquiteto da construção europeia deveria ser a OTAN, e Gorbachev estava preocupado com a ampliação da aliança diante da iminente unificação da Alemanha. Como sabemos, esse foi o roteiro que se impôs.

O professor Gaspar Méndez acrescenta que as palavras de Gorbachev adquirem um valor renovado quando ele lembra que “nosso povo associa a OTAN à Guerra Fria, como uma organização hostil à União Soviética, como uma força que acelera a corrida armamentista e aumenta o perigo de guerra. Nunca aceitaremos confiar a ela o papel principal na construção da nova Europa”.

Um mundo unido em torno da Ucrânia?

Há um ano, em abril do ano passado, David Miliband, secretário de estado do Reino Unido entre 2007 e 2010, publicou na Foreign Affairs reflexões sobre “The World beyond Ukraine”. Ele contestou as afirmações do presidente ucraniano de que a guerra tinha unido o mundo em torno de seu país.

Essa não é a realidade, disse David Miliband. Cerca de 40 países, representando cerca de metade da população mundial, têm se abstido regularmente de votar em condenações da invasão russa. Dois terços da população mundial vivem em países que são oficialmente neutros ou apoiam a Rússia, incluindo algumas democracias notáveis, como Índia, Brasil, Indonésia ou África do Sul. “Sintoma de uma síndrome maior: raiva, ao perceber os duplos padrões do Ocidente, e frustração com o fracasso dos esforços para reformar o sistema internacional”. Em particular, a reforma do Conselho de Segurança da ONU.

O distanciamento entre o Ocidente e o resto do mundo, diz David Miliband, “é produto de uma profunda frustração – ira, na verdade – com a maneira como o Ocidente tem lidado com a globalização desde o fim da Guerra Fria”.

O artigo merece atenção especial, pelas muitas questões que aborda, pela posição particularmente importante que seu autor ocupou e pelo ponto de vista muito diferente do atual governo conservador britânico, que sonha em transformar a economia britânica numa economia de guerra.

A “cortina de ferro” avança para o leste

Semanas antes da invasão da Ucrânia, Mary Sarotte, uma acadêmica norte-americana da Universidade John Hopkins, publicou seu livro Not one inch. Ele trata das conversas em 1989, quando Gorbachev negociava com o chanceler alemão Helmut Kohl e com o presidente e o secretário de estado dos EUA, George Bush e James Baker, sobre a retirada das tropas russas da Europa Central e a adesão da Alemanha à OTAN. “Nem um centímetro” para o leste, tinha sido a proposta discutida nessas conversas, que Mary Sarotte documenta.

Comentando o livro, Carlos Tello, um ensaísta mexicano, escreveu na revista Milenio: “Já então o avanço para o leste era imparável. Os maiores defensores da expansão eram, de fato, os líderes e, em geral, os povos da Europa Central e Oriental. Vaclav Havel, depois de pedir que as tropas norte-americanas e russas deixassem o centro da Europa, mudou de opinião e expressou a Bill Clinton o desejo da República Tcheca de entrar para a OTAN. O mesmo fez Lech Walesa, da Polônia, temeroso do ressurgimento da Rússia”.

A nova “Cortina de Ferro” começava seu avanço para o leste. No Congresso dos Estados Unidos, no sábado, 20 de abril, quando foi aprovada uma nova ajuda à Ucrânia de pouco mais de 60 bilhões de dólares, o deputado Gerry Connolly proclamou: “A fronteira entre a Ucrânia e a Rússia é a nossa fronteira!”

É difícil não imaginar esse avanço para o leste como outro movimento da Operação Barbarossa, o ataque a Moscou que as tropas alemãs iniciaram em 22 de junho de 1941, com as consequências que conhecemos.

O que está em jogo nessa guerra

O Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, pode provocar uma guerra potencialmente catastrófica entre duas potências nucleares graças a sua postura abertamente hostil em relação à Rússia e seus esforços para encerrar os acordos de controle de armas existentes, disse o ministro das relações exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, no final de abril. As três maiores potências nucleares, Estados Unidos, Inglaterra e França, acrescentou ele, “estão entre os principais apoiadores do regime criminoso de Kiev e são os principais organizadores de provocações contra a Rússia”.

Uma visão diferente é a do primeiro-ministro britânico Rishi Sunak, um conservador, para quem “defender a Ucrânia contra as ambições brutais da Rússia é vital para a segurança da Inglaterra e de toda Europa”. “Se Vladimir Putin for bem-sucedido em sua guerra de agressão, ele não se deterá na fronteira polonesa”, disse Rishi Sunak, somando-se àqueles que afirmam que Moscou está envolvido numa guerra de conquista na Europa.

A verdade é que praticamente todas as análises militares do conflito com a Ucrânia indicam que a Rússia não está nem mesmo em posição de controlar toda a Ucrânia. Muito menos de levar a guerra para o território da OTAN, desencadeando um conflito nuclear.

O custo de perder a Ucrânia

O Institute for the Study of War (ISW), uma instituição criada em 2007 em Washington para ajudar a melhorar a capacidade dos Estados Unidos de executar operações militares, responder a novas ameaças e atingir seus objetivos estratégicos, promoveu dois estudos sobre “O alto custo de perder a Ucrânia”, publicados em dezembro do ano passado.

“Os Estados Unidos têm muito mais em jogo na guerra da Rússia na Ucrânia do que as pessoas imaginam”. A conquista da Ucrânia pela Rússia, diz o documento, escrito por Frederick W. Kagan, Kateryna Stepanenko, Mitchell Belcher, Noel Mikkelsen e Thomas Bergeron, “poderia levar o exército russo, maltratado, mas triunfante, à fronteira da OTAN, do Mar Negro ao Oceano Ártico”.

Contribuir para a defesa da Ucrânia com apoio militar “é muito melhor e mais barato para os Estados Unidos do que permitir sua derrota”, afirmam. “Argumentamos com força que os valores norte-americanos estão de acordo com os interesses norte-americanos na Ucrânia”.

Chama atenção a referência aos riscos de trazer os militares russos para a fronteira da OTAN. Uma das razões fundamentais pelas quais os russos explicam sua intervenção na Ucrânia é justamente o avanço da OTAN em direção às suas fronteiras desde o fim da Guerra Fria, apesar dos acordos para evitá-lo, sobre os quais Gorbachev discutiu com a Alemanha e os Estados Unidos quando a Alemanha se unificou.

Os mais de 200 bilhões de dólares investidos somente pelos Estados Unidos nessa guerra não deixam dúvidas sobre o que está em jogo. A estes recursos devem ser acrescentados os das nações europeias, principalmente Alemanha e Inglaterra. Como disse o Alto Representante da União para Assuntos Externos e Política de Segurança, Josep Borrell, “vocês defendem nossa própria segurança nas fronteiras orientais da Europa”.

Em 23 de abril, em Varsóvia, Sunak anunciou a maior ajuda militar de seu país à Ucrânia. Com um pacote avaliado em 620 milhões de dólares, incluindo mais de 400 veículos, 60 barcos e um número indeterminado de mísseis de longo alcance Storm Shadow, os britânicos pretendem ajudar a debilitar ainda mais a frota russa em Sebastopol e atacar a Crimeia.

Como aponta um entusiasta da guerra nas páginas do diário espanhol El País, o correspondente de “assuntos globais”, “a Europa arde com a guerra na Ucrânia e, diante de uma Rússia agressiva, muitos estão aumentando os gastos com defesa”. Estamos muito longe dos tempos de uma jornalista como Pilar Bonet.

Criar um mundo “horrível”

Nataliya Bogayova, em seu trabalho para o ISW sobre “The Military Threat and Beyond”, argumenta que, se a Rússia vencer na Ucrânia, ficará claro para os adversários dos Estados Unidos que estes podem ser influenciados, fazê-los abandonar seus interesses numa luta que, em sua opinião, poderia ser vencida. Uma vitória russa, diz o estudo, poderia encorajar outros a desafiá-los, fazendo com que seus adversários acreditem que podem quebrar sua vontade de defender seus interesses estratégicos. Criar um mundo “horrível”, baseado nas atrocidades cometidas pelos russos na guerra.

Não se trata mais da ameaça russa de invadir a Europa, mas do risco de que uma Rússia vitoriosa se mostre determinada a enfraquecer as posições dos Estados Unidos. Apoiar a Ucrânia não só evitará o fim de uma nação independente, “mas também causaria um golpe assimétrico na aliança russa e na coalizão anti-norte-americana”.

Em suas conclusões, Nataliya Bogayova afirma que uma vitória russa na Ucrânia “pode criar um mundo fundamentalmente oposto aos interesses e valores dos Estados Unidos”.

Um dos problemas com essa argumentação é que foram os Estados Unidos que levaram a guerra para todo o mundo, que estão em guerra há décadas, cujas atrocidades no Vietnã, ou Iraque, nos campos de tortura nesse país e em Cuba, deixaram imagens que são impossíveis de apagar.

De selvas e jardins

Para o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, o aliado mais próximo de Moscou, a Ucrânia é uma palco militar onde a nova ordem mundial é, em parte, decidida. Em discurso perante a Assembleia Popular, o parlamento de seu país, em 24 de abril, Lukashenko disse que essa é a última confrontação entre o leste e o oeste e, embora nenhum dos lados tenha se mostrado mais forte, a atual ordem mundial não sairá ilesa desse conflito.

Dois anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia, Borrell, falando à Rada ucraniana, disse: “O estado natural das coisas continua sendo a luta entre as grandes potências. No mundo de hoje, a geopolítica está ressurgindo e a Rússia não se esqueceu de sua própria ilusão imperial”. “A União Europeia já não está aqui para fazer a paz entre nós, mas para lidar com os desafios em nossas fronteiras”.

Temos que apoiar a Ucrânia “custe o que custar”, fazer o que for preciso para que a Ucrânia vença, disse Borrell. Aqueles que dizem que Putin deve ser apaziguado estão errados. “Em vez de buscar o apaziguamento, deveríamos lembrar das lições que aprendemos desde 2022, evitando repetir erros e redobrando nossos esforços nas áreas em que fomos bem-sucedidos”.

É verdade que a União Europeia não é a OTAN. Mas a OTAN se tornou o braço armado da União Europeia, liderada pelos Estados Unidos. E, no cenário de guerra, ela também é seu principal instrumento de política externa. Mesmo antes da guerra, a diplomacia foi praticamente excluída da mesa, se considerarmos que até mesmo os Acordos de Minsk, teoricamente negociados para encerrar o conflito, em 2014 e 2015, nada mais eram do que um dispositivo para ganhar tempo e armar a Ucrânia, conforme reconhecido pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo presidente francês François Hollande, que deveriam servir como garantidores das negociações entre a Rússia e a Ucrânia.

Levando a guerra a todos os lugares

Como disse Borrell, em vez de buscar apaziguamento, prepare-se para a guerra: “precisamos urgentemente reativar a indústria de defesa europeia. A capacidade de produção de nossa indústria já aumentou em 40% desde o início da guerra. Até o final do ano, atingiremos uma capacidade de produção de 1,4 milhão de munições. Teremos entregue mais de um milhão de projéteis à Ucrânia até o final do ano”.

Em setembro do ano passado, o secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg, foi convidado pelo Council on Foreign Relations (CFR) para falar na Russell C. Leffingwell Lecture em Washington.

Jens Stoltenberg reiterou que o apoio à Ucrânia “é algo que fazemos porque é de interesse para nossa segurança”. Questionado sobre o interesse da OTAN em abrir um escritório de contato no Japão, ele explicou que a segurança não é regional, mas global. Em sua opinião, uma vitória russa na Ucrânia incentivaria Pequim a usar a força. Para isso, eles estão fortalecendo suas alianças com o Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

Durante as perguntas, Lucy Komisar, jornalista independente em Nova York, referiu-se ao memorando desclassificado de uma reunião entre o então secretário de estado James Baker e o presidente da União Soviética Mikhail Gorbachev, na qual eles prometeram não avançar a OTAN “nem um centímetro” para o leste. E quando isso começou a acontecer, acrescentou ela, “George Kennan, um dos diplomatas mais brilhantes dos Estados Unidos, o arquiteto da visão de Washington sobre a Guerra Fria, previu o desastre que a ampliação provocaria. O que se tornou realidade, acrescentou Lucy Komisar, que perguntou a Jens Stoltenberg se ele estava satisfeito com os resultados.

“Não estou satisfeito”, disse Jens Stoltenberg. “Mas a culpa é da Rússia, que decidiu invadir outro país”. “E seja qual for a sua opinião sobre a ampliação da OTAN, isso não lhe dá o direito de invadir outro país”.

Jens Stoltenberg defende o direito de cada nação decidir se quer ou não entrar para a OTAN, sem que Moscou tenha direito de veto sobre essa decisão. Stoltenberg é o secretário geral da OTAN e seu papel não é decidir o que cada país fará, mas o que a OTAN deve fazer, de acordo com seus compromissos históricos e o cenário político em que atua. Mas Stoltenberg não é Kennan, o diplomata norte-americano que vislumbrou o cenário da Guerra Fria e soube ver o da pós-Guerra Fria, que é muito diferente da confrontação à qual chegaram Washington e seus aliados europeus, aos quais Stoltenberg serve e em cuja guerra aposta.

Na última década, a OTAN implantou o maior reforço da defesa coletiva em uma geração, diz ele. “Fortalecemos nossa presença militar na Europa Oriental e aumentamos os gastos com defesa. Com a adesão da Finlândia – e da Suécia – a OTAN está ficando maior e mais forte”.

E conclui: “Espero que a OTAN confirme nosso apoio inabalável à Ucrânia, continue fortalecendo nossa própria defesa e incrementando nossa cooperação com nossos parceiros europeus e do indo-pacífico para defender a ordem global baseada em regras”. Um sistema que “está sendo desafiado como nunca antes”.

A OTAN prepara-se para a guerra – que guerra?

Vladimir Putin perguntou quem define essas regras, desafiando diretamente o sistema, disse Borrell em sua conferência na Academia Diplomática Europeia em Bruges, em 13 de outubro de 2022. Em sua opinião, a Europa é um jardim, onde “tudo funciona”. “Cuidem do jardim, sejam bons jardineiros!” “Grande parte do resto do mundo é uma selva e a selva invade o jardim. Os jardineiros devem cuidar dele”, acrescentou, referindo-se aos alunos da Academia.

Defender uma ordem global baseada em regras? Sim, mas quais? As do jardim de Borrell?

Para o presidente Lukashenko, “a ordem mundial não sairá ilesa do conflito atual. Quando as tropas russas cruzaram a fronteira ucraniana, essa ordem ficou em pedaços. Sua reconstrução dependerá do resultado dessa guerra. Mas ela já não será a ordem herdada da Guerra Fria. Essa ordem foi pelos ares”.

Por enquanto, o Ocidente está apostando na guerra. Com a aprovação de 60,8 bilhões de dólares para a Ucrânia pelo Congresso dos Estados Unidos, Joe Biden anunciou que as armas começarão a chegar poucas horas depois. Elas fazem parte do pacote aprovado pelo Congresso, que se somará aos ATACMS, mísseis de longo alcance, já fornecidos secretamente à Ucrânia, com o objetivo especial de atacar a Crimeia.

“Os líderes europeus não estão discutindo o risco de uma nova guerra no continente. Eles estão se preparando para ela”, é o título do artigo publicado pela Bloomberg em 24 de abril.

Sunak fala em colocar a indústria de defesa inglesa em “pé de guerra”. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, disse que a Europa está numa situação de “pré-guerra”. A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von del Leyen, cita o “modelo finlandês” de defesa civil como exemplo. O novo presidente da Finlândia, Alexander Stubb, de direita, diz que está disposto a aceitar armas nucleares norte-americanas em seu território. A Finlândia precisa de dissuasão nuclear. Essa é a melhor maneira de garantir sua segurança, acredita ele. O ministro das relações exteriores da Polônia, Radoslaw Sikorski, diz ao seu parlamento que a Rússia deve temer a OTAN, que poderia derrotá-la no campo de batalha.

A OTAN faz uma demonstração de força à sombra da guerra da Rússia, diz o New York Times. Cerca de 90 mil soldados estão treinando entre a Lituânia e a Polônia, na fronteira com o enclave russo de Kaliningrado, para uma guerra entre as grandes potências.

De acordo com o ministro da defesa da Rússia, Serguei Shoigu, a OTAN já tem até 33 mil soldados, cerca de 300 tanques e mais de 800 outros veículos blindados perto das fronteiras da Rússia.

O que o mundo deve fazer?

Com que guerra Sikorski e seus parceiros da OTAN estão sonhando?

A Europa está se preparando para outra guerra, e o que o resto do mundo deve fazer? Deixar suas mãos livres para jogarem com a sorte do mundo? Para que nos levem à Terceira Guerra Mundial?

Que guerra será essa? Para defender os interesses de quem? Uma Europa cada vez mais conservadora fala de guerra como se entre a segunda (que eles também travaram contra a Rússia) e uma eventual terceira, o mundo não tivesse sido povoado de armas nucleares.

A irresponsabilidade dos “jardineiros” de Borrell parece não ter limites. Mas o mundo de hoje não é mais o mundo da Segunda Guerra Mundial. Portanto, as tentativas de terminar o que os alemães não conseguiram fazer há mais de 80 anos têm apenas um destino, se o resto do mundo não conseguir amarrar suas mãos.

Como lembrou o assessor do governo brasileiro para assuntos internacionais, o ex-ministro das relações exteriores Celso Amorim, um sistema de segurança baseado em alianças militares nos levou à guerra no passado. Ao discursar numa reunião do Conselho de Segurança russo em 24 de abril, Celso Amorim disse que, no mundo atual, a paz exige uma ordem robusta e legítima, e não uma ordem baseada em regras como seu fundamento.

Considerando o que o conflito representa para o Ocidente e para a Rússia, uma vitória militar total para qualquer um é pouco provável. A única solução negociada possível é aquela que não deixa vencedores e perdedores evidentes. Foi a construção da Casa Comum que deu início a esse debate sobre a segurança europeia no final da Guerra Fria. Uma solução que a elite ocidental preferiu descartar e que não pode ser construída com os conservadores que atualmente governam a Europa. Um cenário no qual a Rússia não seja o inimigo a ser derrotado, nem o Ocidente o executor da Operação Barbarossa, na qual se transformou. Isto é, uma realidade mais alinhada com a nova ordem mundial e menos com os sonhos do “fim da história” sobre a qual se pretendeu construir o cenário pós-Guerra Fria.

Quando essa acomodação for atingida, o mundo poderá então enfrentar o verdadeiro desafio sobre o qual a nova ordem internacional será construída. Uma ordem na qual teremos que reconhecer a decadência do Ocidente, o papel da China, o papel do Sul global e o de uma Europa não mais sujeita a uma extrema-direita, como é hoje, nem a uma OTAN, que é um instrumento da política de segurança dos Estados Unidos e de suas elites mais conservadoras.

A outra alternativa…

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor, entre outros livros, de Crisis política del mundo moderno (Uruk).

Tradução: Fernando Lima das Neves.


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