Ruy Fausto: a tensão entre lógica e política

Aleksander Mikhailovich Rodchenko: R is for Rodchenko

Por Pierre Dardot e Christian Laval*

Considerações sobre a trajetória intelectual e política, no Brasil e na França, de Ruy Fausto

O anúncio repentino do falecimento de Ruy Fausto, em Boulogne-Billancourt, na decorrência de um infarto no dia 1o de maio, foi para nós assim como para todos os seus numerosos amigos um choque de infinita tristeza. Ruy Faysto era, desde a sua criação, um seguidor fiel de nosso Grupo de Estudos sobre o Neoliberalismo e Alternativas (Groupe d’études sur le néoliberalisme et les alternatives – GENA) e um grande amigo com quem vivemos tão belas noites e momentos felizes tanto em Paris como em São Paulo, na companhia de todas aquelas e todos aqueles que o amavam por tudo o que ele fizera e escrevera em sua vida, e pela sua presença sempre calorosa, agradável e generosa.

Era um homem de sorriso e de cólera, de combate e de trabalho, de paixão e de conversa. Aquelas e aqueles que tiveram a oportunidade de dividir com ele estas ricas trocas de análises sutis, de anedotas vividas e de novas ideias, irão se recordar da arte irônica com a qual ele sabia combinar as lembranças de uma vida pessoal abalada pelas tragédias políticas da Europa e da América Latina, a história da filosofia no Brasil, os avatares do marxismo mundial, o olhar crítico sobre a esquerda brasileira e a história de seus engajamentos mais recentes pela renovação da esquerda francesa.

Ruy Fausto era múltiplo: brasileiro, francês, filósofo, poeta, músico, militante, jornalista e professor. São todos estes aspectos que, juntos, reviviam suas palavras, especialmente na cafeteria da BNF [Biblioteca Nacional da França], seu quartel general em Paris, onde nós nos cruzávamos com frequência.

Neste lugar onde ele sempre recebia, com a maior bondade, os jovens doutorandos e pós-doutorandos brasileiros que vinham estudar em Paris. Ele permaneceu, tanto em Paris como em São Paulo, este vigoroso elo entre o pensamento francês e o pensamento brasileiro, este laço que o havia verdadeiramente constituído intelectualmente desde sua juventude, especialmente graças a alguns de seus mestres, que ele sempre evocava com reconhecimento, como Gérard Lebrun enquanto este lecionava na Universidade de São Paulo – instituição à qual, apesar de seu exílio em Paris, ele continuaria profundamente afeiçoado. A França, assim como para outros jovens intelectuais latino-americanos de sua geração, foi sua terra de exílio. Ela lhe permitiu construir uma carreira no departamento de filosofia da universidade de Paris VIII, não sem dificuldades singulares em meio a intrigas profissionais das quais ele guardava uma dolorosa lembrança.

Filósofo engajado, homem de grande cultura, intelectual cosmopolita. Ruy Fausto não concebia o exercício do pensamento como um fechamento entre os muros da universidade. No mais distante da obsessão exegética, Ruy Fausto só praticava a filosofia quando em contato com o real das sociedades, em relação à vida dos homens. Lia os economistas, os sociólogos, os romancistas e os poetas.

Por vezes, ele expressava seu arrependimento por não ter tempo suficiente para se consagrar à leitura dos escritores. Quantos livros ele ainda tinha a ler! A Biblioteca Nacional não era para ele um abrigo afastado dos furores e dos tumultos, mas também um posto de observação sobre o mundo, um arsenal de armas políticas, e, com certeza, um lugar para continuar aprendendo. A sala K (filosofia) não será mais a mesma sem ele.

E seus trabalhos de alta erudição sobre Marx, os quais ele às vezes lamentava não serem tão lidos, mas que continuarão sendo incontornáveis, não contradizem este engajamento de uma vida. Ruy Fausto é o autor, dentre outras obras, de um livro que foi um marco: Marx: Lógica e Política: investigações para uma reconstrução do sentido da dialética (Editora Brasiliense, 1983). É preciso, antes de tudo, prestar atenção à data de publicação: estamos no meio dos anos 1980, nestes “anos de inverno”, como dizia Guatarri, quando era de bom tom, para muitos intelectuais, tratar Marx como um “cachorro morto”, segundo a expressão aplicada a Espinoza nos tempos de Lessing, ou a Hegel nos tempos de Marx, a qual reitera Jean Toussaint Desanti no começo do preâmbulo que ele deu ao livro de Ruy Fausto.

Como comenta em seu prefácio: “À moda marxista dos anos de 1960 sucede, com uma mesma pressa, a moda antimarxista dos anos de 1980”. É preciso lembrar que, de fato, o antimarxismo fazia receita dentre os autores medíocres (plumitifs) e os ensaístas procurando atenção (en mal de notorieté), em particular dentre aqueles promotores de uma “marca” denominada “nova filosofia”.

A abordagem de Ruy Fausto estava seguramente na contracorrente da moda intelectual que então prevalecia. Mas não se trata de maneira alguma, para ele, de restaurar a integridade da doutrina marxista e de se colocar como defensor severo (sourcilleux) de uma ortodoxia ameaçada. Observando a crise do marxismo, ele a associa de uma forma original à própria crise da dialética.

Ele pretende, acima de tudo, restituir à dialética seu sentido rigoroso e, para tanto, a praticar justamente na leitura meticulosa dos textos de Marx, principalmente os Grundrisse e O Capital, num tempo em que muitos de contentavam com a leitura dos Prefácios para emitir suas opiniões informadas. Mas o mais importante, para nós, está no que, no título do livro, vem na sequência do nome de Marx: “Lógica e Política”. Dois extremos reunidos por um “e”. De um lado a lógica da crítica da economia política. De outro, a prática política. É, ainda hoje, na tensão entre estes dois extremos que ele nos faz pensar. Hoje mais do que nunca. Eis a grande lição que ele nos deixou.

Ruy Fausto tinha uma experiência política a transmitir, e não apenas a sua, mas aquela dos revolucionários do século XX. A política é um assunto sério, de vida e de morte. Esse grand vivant sabia que o assassinato político de massa era uma ameaça sempre presente na Europa e na América Latina. Criança durante a Segunda Guerra Mundial, jovem adulto quando se impôs a ditadura no Brasil, exilado no Chile ele escapou por pouco dos militares no momento do golpe de Estado de Pinochet.

O trotskismo de sua juventude o vacinou de qualquer compromisso com o totalitarismo stalinista e seus duplos. Crítico intransigente das formas oligárquicas, dogmáticas e populistas da esquerda, ele manteve até o fim a esperança de que ela soubesse curar seus defeitos e se reinventar, no Brasil como na França. Leitor de Arendt, de Lefort e de Castoriadis, ele era daqueles para quem a verdadeira tradição revolucionária é a democracia posta até o fim. Internacionalista em ato, ele sabia que nada de bom poderia advir do nacionalismo. E assim que os tempos catastróficos do bolsonarismo chegaram, ele deu uma última lição de coragem ao se lançar na luta pública contra o novo fascismo que cai sobre seu país.

Apesar de suas múltiplas atividades, em especial a edição da revista Fevereiro e depois a revista Rosa (http://revistarosa.com/1/), a cujo lançamento ele dedicou profundos esforços nestes últimos meses, paralelamente a publicação de seus últimos livros sobre a esquerda, a revolução e o totalitarismo, ele participou com paixão à criação e às discussões do GENA. Nós tínhamos muito em comum, apesar da curta diferença de geração (à une courte génération près). Ainda tinha muitos projetos a realizar com o grupo francês. Em um e-mail, ele escrevia a um de nós no final do mês de março: “Espero que possamos fazer um trabalho coordenado França/Brasil. Sob múltiplas formas: revista, seminários, vídeos, podcasts etc.”. Todo o Ruy está aí. Aos 85 anos, seu futuro ainda era de ação, de coordenação dos laços da França e do Brasil.

Gostaríamos de dizer a todos os seus amigos, amigas e colegas brasileiros, que hoje sofrem cruelmente esta perda, que os laços intelectuais e amigáveis tão estreitos que nós pudemos estabelecer com a sua ajuda não se desfarão. Será nossa maneira de perpetuar, para além da morte, sua magnífica lição de vida.

*Pierre Dardot é pesquisador de filosofia na Universidade Paris-Nanterre.

*Christian Laval é professor de história da filosofia e de sociologia na Universidade Paris-Nanterre.

São autores, entre outros livros, de Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI (Boitempo).

Tradução: Daniel Pavan

Artigo publicado originalmente no site Mediapart (https://blogs.mediapart.fr/christian-laval/blog/020520/notre-ami-le-philosophe-ruy-fausto-est-mort)