Deus, ó Deus, onde estás que não respondes!

image_pdf

Por LISZT VIEIRA*

Fragmentos sobre as origens religiosas e culturais do genocídio em Gaza

1.

Deus, um ser incriado, devia estar aborrecido e resolveu criar o Mundo em sete dias. O Mundo não se resume a nosso planeta Terra, inclui todo o universo, com o sistema solar e outros sistemas de outras galáxias. Depois de criar a natureza, pegou um pedaço de barro e criou o homem. Em seguida, tirou um pedaço da costela do homem e criou a mulher. Daí vem a ideia da inferioridade da mulher na cultura judaico-cristã.

Como Adão e Eva só tiveram dois filhos homens, como se desenvolveu a humanidade? Essa pergunta me inquietava na adolescência: a humanidade teria começado com incesto? Só muito mais tarde é que tomei conhecimento da existência de Lilit, com quem Adão teve vários filhos. Lilit era amante de Adão. Segundo as más línguas, Eva se consolava recebendo o arcanjo Gabriel. Quando soube de tudo isso, fiquei aliviado: a humanidade não começou com incesto, começou com adultério. Cá pra nós, é bem melhor.

Mas Deus não parou por aí. Escolheu um povo como seu preferido. O povo judeu é o povo escolhido por Deus e aquele território no Oriente Médio pertence aos judeus por direito divino. Mas os judeus ficaram séculos espalhados no mundo pela diáspora, constituíam apenas uma comunidade cultural e religiosa.

Um povo sem Estado, que se misturou pelo mundo afora, e passou a falar línguas diferentes. Por exemplo, na Europa Oriental, os judeus ashkenazi falavam yiddish, uma derivação do alemão arcaico. Na Espanha, os judeus sefarditas falavam ladino, uma língua românica que se desenvolveu a partir do espanhol medieval.

2.

Quando o Estado de Israel foi criado pela ONU em 1948, o Primeiro Ministro de Israel, Ben Gurion, líder do movimento Sionismo socialista, de tendência social democrata, declarou a um jornalista que lhe perguntou quais seriam os limites do território de Israel. Ele respondeu: Os limites do território de Israel serão determinados pela guerra. Como se vê, o atual Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de extrema direita, não está inventando nada.

Já lá se vão mais de 18 meses de massacre da população palestina em Gaza. Mais de 45 mil civis mortos, sendo que mais de 15 mil crianças foram assassinadas pelos bombardeios aéreos e ataques por terra do Exército de Israel. Além desse genocídio, o embargo no fornecimento de alimentos e água mata de fome e sede a população. Nem mesmo jornalistas e funcionários da ONU foram poupados, muitos já morreram em ataques considerados oficialmente de “erros”.

Tudo isso com apoio militar direto dos EUA e indireto da Europa, que olhou para outro lado e ignorou o genocídio. Somente agora, alguns países ameaçaram sanções econômicas contra Tel-Aviv, como Reino Unido, Canadá e Bélgica, segundo informa Le Monde Diplomatique em seu número de junho de 2025. Reação tímida tendo em vista que a própria existência do povo palestino está ameaçada.

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes!”, exclamava Castro Alves, indignado com o tráfico negreiro. Quando vejo tanta miséria e massacres me lembro do Paradoxo de Epicuro, também conhecido como o problema do mal. Segundo ele, tendo em vista o sofrimento e o mal que existe no mundo, Deus não pode ao mesmo tempo ser onipotente, onisciente e benevolente. Ele sugere que esses três atributos são mutuamente incompatíveis. Se Deus pode tudo e é bom, então ele não sabe que existe o mal no mundo. Se ele sabe tudo e é bom, então ele não pode acabar com o mal no mundo. E se ele pode tudo e sabe tudo, então ele não é bom.

Que Deus não é bom, não é novidade para quem leu o Antigo Testamento na Bíblia. Se não estou enganado, a ideia de que Deus é bom veio de cristianismo, não do judaísmo, com todo o respeito a essa e a todas as religiões que existem no mundo.

Mas os governos dos países ocidentais, capitalistas e de maioria cristã, preferem apoiar o genocídio de um povo a cumprir os mandamentos de sua religião. Palmas para a sociedade civil que vem se manifestando na rua, em vários países, em defesa da sobrevivência do povo palestino.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES