Dois pesos, duas justiças

Imagem: Matheus Natan
image_pdf

Por MÁRCIO MORETTO RIBEIRO*

O STF age com cautela ao julgar Bolsonaro, mas o sistema penal trata pobres e negros como culpados antes mesmo do julgamento. A disparidade escancara uma justiça de dois pesos: para uns, direitos; para outros, violência e esquecimento

1.

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal decretou a prisão domiciliar preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro. Réu por tentativa de golpe de Estado e por violar reiteradamente medidas cautelares impostas em julho, Jair Bolsonaro segue sendo julgado com amplo acesso à defesa, tempo para responder às acusações e proteção contra o encarceramento comum.

Enquanto isso, centenas de milhares de brasileiros seguem presos por anos sem julgamento, submetidos a um sistema que naturaliza a prisão preventiva, ignora o devido processo legal e reserva as garantias constitucionais apenas a uma parcela da população. A disparidade entre esses dois tratamentos judiciais escancara a seletividade racial e social da justiça penal no Brasil.

Enquanto figuras públicas como Jair Bolsonaro são julgadas com todas as garantias legais, casos extremos de abuso penal contra os mais vulneráveis seguem sem reparação. Um dos mais emblemáticos é o de Rafael Braga, que só ganhou visibilidade porque foi o único condenado de forma definitiva nos protestos de junho de 2013.

Negro, jovem, catador de recicláveis e em situação de rua, Rafael foi abordado no centro do Rio de Janeiro carregando dois frascos de desinfetante. Bastou a palavra dos policiais que o prenderam para que fosse condenado por portar artefato explosivo, mesmo com laudo pericial indicando que os frascos tinham “mínima aptidão” para combustão. A condenação foi rápida, sem provas robustas, sem testemunhas independentes e com pedidos da defesa sistematicamente ignorados.

Se casos como o de Rafael Braga ganharem visibilidade pontual, tantos outros permanecem invisíveis. Em 2024, o Brasil chegou a registrar cerca de 645 mil pessoas em celas físicas e outras 115 mil em prisão domiciliar. Um estudo do CNJ apontou que até 25% da população carcerária eram presos provisórios, ou seja, ainda aguardavam sentença definitiva, com elevado déficit de vagas e superlotação crônica. Dessa forma, centenas de milhares passavam meses ou anos confinados sem julgamento, enquanto o sistema penal se mostrava lento e inacessível à maioria.

Mesmo quando não são presos, muitos negros e pobres perdem a vida antes de qualquer processo legal. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025, confirma que houve mais de 6 mil mortes decorrentes de intervenção policial em 2024, o que representa mais de 17 vítimas por dia em todo o país. Em São Paulo, o cenário é ainda mais grave: foram 813 mortes por policiais, um aumento de quase 61% em relação ao ano anterior.

2.

Em fevereiro de 2025, a Procuradoria-Geral da República denunciou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa e abolição violenta do Estado democrático de direito. A denúncia se baseia em um vasto conjunto de provas reunidas pela Polícia Federal: reuniões gravadas em vídeo nas quais se discutia abertamente a minuta de um decreto golpista, trocas de mensagens com militares e aliados civis, e articulações com setores das Forças Armadas para deslegitimar o resultado das eleições de 2022.

Também pesam contra ele depoimentos de ex-ministros e generais, além de ações concretas para desacreditar o sistema eleitoral e mobilizar apoio internacional. Diante da robustez das evidências, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal aceitou por unanimidade a denúncia, tornando Bolsonaro réu em março de 2025. O processo tramita com todas as garantias legais preservadas.

Mesmo com a gravidade das acusações, Jair Bolsonaro continuou em liberdade durante toda a investigação e o início do processo. Isso incluiu o episódio em que, em fevereiro de 2024, passou dois dias na embaixada da Hungria, logo após ter o passaporte apreendido. A atitude foi amplamente interpretada como uma tentativa de fuga ou de buscar asilo de forma informal. Ainda assim, nenhuma medida restritiva foi adotada naquele momento.

As medidas cautelares só foram impostas em julho de 2025, após a atuação pública de seu filho Eduardo Bolsonaro, que, a partir dos Estados Unidos, articulou uma campanha política internacional com o objetivo declarado de influenciar o processo judicial brasileiro.

Eduardo Bolsonaro pediu sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e buscou mobilizar lideranças conservadoras estrangeiras em defesa do pai. Parte dessa operação foi financiada pelo próprio Jair Bolsonaro, que enviou recursos diretamente a Eduardo para viabilizar sua permanência e articulação política no exterior.

Diante desses fatos, o ministro Alexandre de Moraes impôs uma série de medidas cautelares: tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno, proibição de uso de redes sociais e impedimento de contato com outros investigados. As medidas seguiam o princípio da menor restrição possível à liberdade, aplicado com frequência a réus de alta visibilidade.

3.

A prisão domiciliar preventiva decretada pelo STF foi resultado do descumprimento reiterado das medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro. A Constituição garante que a prisão antes do trânsito em julgado deve ser exceção, e por isso o STF havia optado inicialmente por alternativas à prisão tradicional.

No entanto, Jair Bolsonaro violou frontalmente essas condições. Continuou a se manifestar politicamente por meios indiretos, utilizou interlocutores para divulgar vídeos e declarações e, por fim, participou por telefone de uma manifestação pública em sua defesa, cuja gravação foi divulgada por aliados nas redes sociais. Esse episódio foi considerado a gota d’água pelo Supremo.

Enquanto réus pobres, negros e sem acesso a uma defesa qualificada são rapidamente condenados, muitas vezes com base apenas em depoimentos policiais, figuras políticas poderosas contam com tempo, estrutura e garantias que raramente se estendem à população encarcerada.

Nas periferias, nem mesmo o julgamento é garantido: muitos jovens negros são executados sumariamente por policiais nas ruas, sem chance de defesa ou investigação adequada. A defesa do devido processo legal só é efetiva quando vale para todos. Que os julgamentos amplamente acompanhados de figuras de Jair Bolsonaro, e Lula antes dele, sirvam para sensibilizar a sociedade sobre a importância de que essas garantias sejam acessíveis a todos independentemente da cor da pele ou da classe social.

*Márcio Moretto Ribeiro é professor de Políticas públicas na EACH-USP.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
9
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
12
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
13
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
14
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
15
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES