Positivismo verde-amarelo

Imagem: Rodrigo Souza
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Por VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ*

O que faz o Brasil, brasil?

Iniciamos com duas perguntas que se imiscuem: (i) Como foi que violentamos o artigo 225 da Constituição Federal de 1988 (Estado Ambiental) a ponto de nossa consciência permitir o genocídio dos Yanomami? (ii) O que faz o Brasil, brasil?

De pronto, diremos que são necessidades, incapacidades e desejos mórbidos. Necessidades extremas do povo pobre, negro e favelado – e nunca satisfeitas; incapacidade de pensarmos em unidade, como povo, e incapacidade histórica de formarmos governança com alguma elite cultural: seguindo-se a ideia de que portassem uma inteligência social. Daí resta-nos nossos maiores e piores desejos mórbidos: sadismo, psicopatia, autoflagelo, autofagia, canibalismo real e simbólico.

Será que alguma outra cultura é capaz de se sentir assim tão feliz em se vilipendiar, como nós?

Quem sabe daqui 500 anos a gente consiga explicar porque um palhaço, fantasia de crianças felizes (mesmo não estando inteiramente saudáveis) acabou na metamorfose de um bisonho Bozo da morte calculada. E quem sabe nesses mesmos 500 anos nós consigamos explicar porque esse Bozo arruinado sumiu até com o Zé Gotinha.

Na falta de vacina contra o desconhecimento, o Brasil, incluindo suas Universidades, especializou-se no “transplante histórico”: a decoreba de ontem é o sucesso da decoração da aula de hoje, de amanhã. Não é à toa que muitas pessoas ainda achem que o país foi achado, e mesmo que, já naquela altura, tanto lá quanto cá, já se soubesse que por aqui estávamos – e fazia muito tempo. O Brasil é um achado realmente, mas é de outro tipo.

Neste engodo em que se enreda nossa história, esta parece ser a questão central: O que há entre o 15 de Novembro, o 7 de Setembro e o 8 de Janeiro? Como se diz, há muito mais entre o céu e a Terra do que qualquer vã (ou notória) filosofia possa imaginar. Contudo, e com certeza, veremos o 4 de Julho.

A descrição do(s) golpe(s), suas sucessões ou suas tentativas, desde 2013-16, será equivalente a contar o que foi a ditadura de 1964, a Escravidão, o plantation capitalista. Levará décadas, com coleções reunindo monumentos de todas as áreas, começando pelo direito e pela medicina. Iremos da fabricação/revelação do bolsonarismo, e do cesarismo de Estado a partir de 2017, ao fascismo nacional (colorido) e suas bizarras sátiras da humanidade.

Das histórias de quem entra definitivamente nas entranhas do poder (Damaris, Moro, Mourão, o astronauta), chegaremos às duas vezes seguidas em que o povo de São Paulo preferiu o fascínio ao professor. Será um relato muito além de quem conta do 01 ao 04, pois nos contará sobre pastores vendendo máscaras invisíveis contra a Covid-19 (por mil reais), e também contará quem são e o que pensam os “transvacinados”: os mesmos que estão ajudando piamente a Pólio voltar à ativa, depois de erradicada.

Entre mínions e bots, iremos aprender que Pasárgada sempre foi um luxo para muitos de nós. Viver entre Alienistas, diria Machado de Assis, pedindo por “intervenção alienígena”, com celular em punho e invocando o sideral artigo 142, levou milhões à defesa da democracia parlamentar, rudimentar. A planejada penúria neonazi nos levaria a embarcar nos piores assentos do governo de coalizão – sentados na porta do desembarque, sentimos toda a colisão possível e seguiremos sentindo, por muitos anos.

Curiosamente, a maioria de quem acusava a existência de outro Luís Bonaparte nas terras de baixo (golpe tabajara), teve que se contentar com Bobbio e os superpoderes dos tribunais superiores – os mesmos kaisers do Judiciário, sentados em suas castas, que prenderam em segunda instância (ou primeira, na desconsideração de recursos auriculares) e assim pavimentaram 2018. Do seminal Golpe à Constituição, com emenda de reeleição e reserva do possível – e impossível de alcançar a dignidade dos miseráveis –, passeamos por Honduras e Paraguai. Aprendemos, e como aprendemos, sobre a imposição do impeachment nos moldes de Pinochet.

Entretanto, arrependidos do faschio, olhamos para os nossos vizinhos: Bolívia, Equador. Em defesa da democracia, sempre mais do que imperfeita, fomos estudar, reler, interpelar a primeira regra: a primeira regra da democracia é exatamente a obrigação de seguir as regras do jogo (sem tergiversar as quatro linhas). Em suma, descobrimos aqui do lado um santo remédio (Estado de coisas Inconstitucional), relemos a Constituição, olhamos a realidade e, insatisfeitos, transformamos a exceção em regra…de novo. Algo que aprendemos muito bem, desde a reeleição, mas agora para combater a criatura dos criadores de oportunismos. Muitos acreditaram em lavar a alma, e acabaram presenteados com a Vaza Jato.

De tanto apanhar na vida real, passamos a viver entre a distopia de Gilles Deleuze (da Sociedade de Controle) e o virtual de Pierre Lévy: aquele que se inspirou em Neuromancer e nos zapatistas, e sempre foi contrário aos neoludistas. Se bem que, ao menos neste quesito, embasbacados com tantas peripécias tecnológicas (atolados na pandemia e no pandemônio), acabamos por criar um vício novo: fala-se na aquisição e posse permanente de um certo tipo de “kit babaca”.

Como sempre, festejamos todos os dias a miscigenação, esquecendo-nos do estupro coletivo da história negra e pobre, e dos massacres indígenas. Festejamos a fartura, com milhões vivendo na fome aguda; por isso, não causa espécie aquele que festeja a tortura. Festejamos a terra do gigante adormecido, do país do futuro, aquele em que “plantando, tudo dá” – e dá mesmo, deu até uma convivência única entre capitalismo e escravidão.

Quem diria que, no século XXI, sob a Stasi social, uma fênix daria à luz ao pós-moderno capitão do mato – se bem que, trata-se de um capitão excluído das forças simplesmente porque é incapaz de não ser pré-moderno: é o cara pré-histórico que faz a política do neandertal. Isto é, um tipo repelente à evolução das espécies e que, portanto, edifica-se como a própria sátira do “não-ser”, ora como farsa, ora como tragédia. É o cara que aplica a seleção natural, por fome, contra os já miseráveis sobreviventes dele mesmo.

De placebo em placebo, o país “à beira do abismo” veio caminhando em passos firmes, sempre adiante da ficção. Nossos lemas e slogans não tem fim, afinal, nossa gloriosa República começou com um golpe militar. Ou seja, definitivamente, provamos que a ficção copia a realidade. Adoramos o improviso, a gambiarra, a quebra de regras; no entanto, sempre dentro do mesmo paradigma. Nesse momento, transformamos, ainda mais agudamente, a necropolítica em necrofascismo.

Na Política, desmilinguida, preferimos a política (minúscula), de modo mais especial quando há dúvida no esplendor das margens plácidas de algum arête (areté); ao invés de seguirmos navegantes pelo céu de brigadeiro, preferimos a tempestade perfeita do aríete, o famoso pé na porta. É claro que, para nós, “navegar não é preciso”.

A metáfora do país diria que sempre renascemos, ainda que fora do Renascimento. Não conhecemos a bricolagem, porque detestamos a techné, mas seguimos firmes e fortes no desejo incontido de dar jeitinho em tudo – inclusive, e especialmente, em nós mesmos. E vivemos dormindo em berço esplêndido, no lusco-fusco. O que, por fim, também nos garante que buscamos por eterna iluminação, desde que sempre esteja ausente qualquer Iluminismo.

Nossa ciência continua fazendo o que sabe fazer de melhor: exportar cérebros. Por aqui nada se cria, tudo se copia. Nossa “inovação” não pode inovar muito, porque a criatividade (não-nefasta) provoca sérias críticas e a crítica, por si, convulsiona, revoluciona. É mais fácil repetir, replicar, mimetizar mantras, estamos habituados ao monolito do senso comum e das teses amareladas pelo mau uso. “Deixar como está, para ver como é que fica” é o suprassumo do conhecimento, também na academia. E ficamos assim, copiando uns aos outros e, não-raras vezes, no que temos de pior. Também por causa disso a vacina nos transforma em “jacarés”.

A conclusão parcial, no tempo em que escrevo, nesse 14 de fevereiro de 2023, nos diz que o Brasil não é muito acessível aos alemães. Desde o histórico 7×1, vivemos em pesadelos. Porém, o ponto alto da descoberta, ainda sonâmbulos, foi a revelação (pelas mãos da teologia da prosperidade) que nosso positivismo verde-amarelo não é cartesiano. Aliás, entre Ordem e Progresso, não preferimos nenhum.

É certo que, por aqui, “tudo que é sólido sempre desmanchou no ar”. Só não nos contaram que não haveria lógica alguma. Por enquanto está valendo a máxima do “penso, logo desisto”. Não foi por essa razão (sic) que a “cidadania” de 2018 se orgulhou de sua ignorância formal, abençoando-se no próprio analfabetismo disfuncional?

Como diz o povo, o Brasil precisa de Ciência. Só que ainda estamos à espera da NASA inventar uma – de preferência que explique porque fazer sátira de si mesmo traz tanto prazer.

Enfim, até que se prove em contrário, começamos com o exemplo de Portugal, primeiro nos escravizando, depois constituindo e inibindo fuzis com cravos, com a geringonça, e por enquanto estamos no berço do centrão. Longe do centro do mundo, agora lutamos para deixar vago aquele lugarzinho reservado aos párias da humanidade. O que é um ótimo começo, e é muita coisa para uma jornada de apenas 45 dias.

Agora, diga você: Se o Brasil não é para amadores, é para quem?

*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar.

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