Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
Sob a aparência de métricas neutras, o sistema premia a conformidade e transforma o conhecimento em capital simbólico, gerando intelectuais performáticos
1.
Os sistemas de avaliação da produção científica nasceram com o propósito declarado de garantir qualidade, transparência e racionalidade na distribuição de recursos públicos. No Brasil, a consolidação desse modelo ocorreu sob coordenação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), especialmente por meio do sistema Qualis. Ele estratifica periódicos e organiza a hierarquia simbólica da publicação acadêmica.
Porém, o iniciado como mecanismo técnico de classificação converteu-se, ao longo do tempo, em dispositivo estruturante da própria vida intelectual. Avaliar deixou de ser apenas mensurar produção; passou a governar comportamentos, orientar agendas, definir carreiras e moldar subjetividades. Suas métricas passaram a ser vistas como poder simbólico e, em contrapartida, geram produção de conformidade.
A questão central a ser tratada aqui não é moralista – não pretendo denunciar indivíduos vaidosos ou pareceristas censores. A questão é estrutural: qual tipo de intelectualidade emerge quando o sistema de incentivos transforma citações em capital e periódicos em ativos reputacionais?
Infelizmente, o campo científico virou espaço de poder. A sociologia da ciência já nos alertava para isso. Pierre Bourdieu descreveu o campo científico como um espaço de disputas por capital simbólico, no qual reconhecimento e autoridade são recursos escassos. Robert K. Merton, por sua vez, identificou o “efeito Mateus”: quem já é reconhecido tende a acumular ainda mais reconhecimento.
O sistema contemporâneo de avaliação intensifica esses mecanismos. Ao atrelar progressão funcional, financiamento e prestígio à publicação em determinados estratos de revistas academistas, ele formaliza a competição simbólica.
O paper, publicado com muito atraso, deixa de ser apenas contribuição intelectual e passa a ser unidade contábil. A citação deixa de ser apenas diálogo crítico e passa a ser índice de valorização. O currículo torna-se portfólio.
2.
Do ponto de vista econômico, o sistema pode ser descrito como um mecanismo de incentivos, baseado na função objetivo do pesquisador: maximizar pontuação e reputação. O professor universitário, em geral, sofre restrição orçamentária, tem tempo limitado, exigências administrativas e carga didática.
Para sua carreira docente, baseada em publicações academistas no sentido de obter titulações, além de defesa de teses originais, há um preço relativo: publicar em periódico A1 rende mais pontos diante o mesmo texto ser publicado em periódico B2. Daí o esnobismo de quem estabelece uma rede de interesses mútuos tipo A1.
A expectativa racional passa a ser o acadêmico alinhar sua pesquisa às agendas dominantes para aumentar a probabilidade de aceitação. O efeito resultante tende também a produzir fragmentação da pesquisa em várias publicações.
Salami science (ou “ciência do salame”) é a prática antiética de fragmentar uma grande pesquisa em vários artigos científicos menores e superficiais, em vez de publicar um único estudo robusto. O objetivo é aumentar, artificialmente, o número de publicações do autor, priorizando quantidade sobre qualidade.
Há também convergência temática em certas linhas de pensamento filiadas a notórios pensadores. Percebe-se nelas a endogenia de citações. Novatos buscam estratégias de inserção em redes já consolidadas.
O sistema premia a previsibilidade metodológica. Inovação radical, como uma teoria alternativa, eleva risco de rejeição. A consequência não é necessariamente mediocridade, mas conformidade – e não a busca de revolução científica.
O parecer “cego” leva à reprodução paradigmática e afasta qualquer teoria alternativa. O modelo de peer review anônimo é concebido como mecanismo de neutralidade. No entanto, em campos densamente conectados, a anonimidade é relativa: estilo, bibliografia e tema revelam autoria claramente.
Mais relevante, contudo, é o fato de todo parecer partir de pressupostos teóricos. Não existe avaliação epistemologicamente neutra.
Em áreas como Economia, onde há forte hegemonia metodológica, a avaliação tende a funcionar como filtro paradigmático. Trabalhos questionadores do núcleo dominante, inclusive em correntes heterodoxas, enfrentam barreiras adicionais, não necessariamente explícitas, mas estruturais.
O resultado é a estabilização de um consenso metodológico. Ele se reproduz por meio das próprias métricas capazes de o legitimar.
3.
A financeirização simbólica da ciência é uma analogia instrutiva com a financeirização da economia. Assim como títulos financeiros passam a ser avaliados por indicadores de curto prazo, a produção intelectual passa a ser avaliada por métricas quantificáveis de citação de certos títulos acadêmicos.
O fator de impacto equivale a um rating. A citação equivale a rendimento. O periódico de alto estrato funciona como bolsa de valores simbólica. A produção científica entra em um circuito autorreferencial: cita-se para ser citado, publica-se para manter visibilidade, participa-se de redes para preservar posição.
O conhecimento passa a circular como fosse capital. Essa dinâmica não elimina a produção de qualidade, mas altera seu horizonte temporal e seu critério de legitimidade. Fica rarefeita.
Os efeitos subjetivos são lamentáveis. Sistemas moldam subjetividades. Quando a sobrevivência profissional depende de métricas, forma-se o intelectual performativo, orientado a resultados mensuráveis, atento só à visibilidade academista, estrategicamente alinhado às correntes dominantes e avesso a riscos epistemológicos elevados.
A vaidade não é causa, mas efeito. O narcisismo acadêmico não é apenas desvio individual, mas sim incentivo institucional internalizado. Quanto a quem perde, quando a métrica vira fim, há perdas difusas. Pesquisas de longo prazo, de maturação lenta, diminuem. Abordagens transdisciplinares – a nova fronteira metodológica da ciência econômica – são difíceis de classificar.
Pior é desestimular uma produção com foco local e impacto social relevante, mas de baixa circulação internacional por conta do desinteresse neocolonial em estudo de caso nacional. Há linguagens científicas não hegemônicas.
A padronização métrica favorece centros e consolida hierarquias globais. Países periféricos internalizam critérios definidos externamente, reforçando dependência cognitiva. A avaliação transforma-se, assim, em mecanismo de reprodução da divisão internacional do trabalho científico sob domínio do centro do capitalismo.
O problema não é avaliar. Universidades públicas precisam prestar contas. O problema é reduzir qualidade a proxies quantitativos estreitos. Possíveis direções para reformar ou repensar o sistema de avaliação incluem ampliar critérios qualitativos, reconhecer o maior impacto social em público de redes digitais e a inovação teórica, valorizar livros e produção de longo fôlego, reduzir peso absoluto de estratificações rígidas e diversificar comissões avaliadoras em termos epistemológicos.
Mais profundamente, é necessário reconhecer essa avaliação ser um “ato político”, ou seja, deve ser uma ação coletiva mais plural em termos de diversidade de pensamentos. Toda métrica carrega uma teoria implícita daquilo considerado conhecimento valioso.
A avaliação acadêmica é instrumento necessário de organização institucional. Mas, quando se converte em mecanismo autorreferencial de acumulação simbólica, passa a moldar o conteúdo do próprio pensamento.
O risco não é só produzir intelectuais “cheios de si”. O risco é também produzir intelectuais cheios de métricas.
A economia política da avaliação acadêmica revela: sob a aparência técnica da quantificação, operam relações de poder, disputas paradigmáticas e estruturas de dependência. Avaliar é escolher. Escolher é exercer poder.
A questão decisiva, portanto, não é se deve medir. É qual tipo de re-evolução científica estimular – e não só conservar uma ciência a serviço de interesses dominantes. Entre regulação e liberdade intelectual, opto por esta.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]






















