A decadência institucional dos EUA

Imagem: Valéria Posssos

Por TADEU VALADARES*

O establishment democrata se vê reduzido, por vontade e cegueira próprias, ao surrado projeto do mais do mesmo, só que aperfeiçoado

“And now our government / a bird with two right wings / flies on from zone to zone while we go on having our little fun & games / at each election / as if it really mattered who the pilot is / of Air Force One (They´re interchangeable, stupid!)” (Lawrence Ferlinghetti, Bird With Two Right Wings)

A decadência institucional dos EUA, fato incontestável, interage com as outras faces internas da crise geral que se agrava, processo que vem de longe, ao menos dos anos 70. O declínio até agora relativamente suave da república imperial – transformada no que os americanos conservadores pejorativamente chamavam, olhando para a América Latina, república bananeira – tende a ganhar ritmo, China mediante. Promete seguir aos saltos e sobressaltos, aos trancos e barrancos. Talvez já seja  processo irreversível. Ao menos, assim me parece.

O extremismo tout court do partido que já se inspirou em Lincoln, aliado ao outro, mais completo ainda, personificado por Trump e sua barbárie, cristalizou-se ao gerar uma polarização sem saída. De um lado, os republicanos; de outro, todos os demais. Isso porque a extrema direita republicana – o centro à Yates hoje quase inexiste – amalgamou, no outro extremo ideológico, o partido democrata e a todavia frágil esquerda que, com Bernie Sanders e os mais jovens que animam o movimento, afinal ganhou expressão perdurável.

Enquanto isso, o establishment democrata se vê reduzido, por vontade e cegueira próprias, ao surrado projeto do mais do mesmo, só que aperfeiçoado (?). E, sim, trata-se do mesmo que é proclamado, por artes da retórica, como o novo coveiro do velho republicanismo-trumpismo, um novo como última floração da estratégia fracassada dos Clinton. Essa, a essência da aposta Biden-Kamala, acrescida de toda a falsa civilidade do mundo imperial.

Apesar de eleitoralmente derrotado, o movimento extremista, suas duas alas principais se reforçando reciprocamente, enfileira demonstrações cotidianas de força, mostra seu poder de bloqueio, explora novos limites autoritários, de imediato ultrapassados. Não se percebe, nisso que conforma o noticiário cotidiano, nada que indique serem as falas e os gestos de Trump e da liderança do que já foi grande, mas que hoje é apenas partido velho, limitado exercício conjuntural, manobra tática, prefácio, no mundo da razão abstrata, diria o fenomenólogo do Espírito e da consciência infeliz, ao segundo momento dialético, bem menos destrutivo.

Ao contrário, a Gestalt republicana que emerge do turbilhão que são os EUA irrompe como figura de bem urdida estratégia de mobilização permanente da extrema direita, ou seja, febre alta, termômetro quebrado, patologias sociais à solta, caos duradouro. A meta que orienta essa demência organizada lembra a que nos infelicita… Mas, dada a impossibilidade de que o show, apesar de continuar, mude a realidade definida em novembro passado no plano eleitoral, os republicanos recorrem a um duplo movimento, a algo com duplo caráter (ou falta de…): o de garantir, pelo recurso à selvageria explícita, o retorno do partido à Casa Branca, quatro anos mais; e o de ao mesmo tempo manter incólumes as relações passionais do Führer com suas bases zumbis.

Se esse é o panorama visto da ponte do tempo longo, no curtíssimo prazo a determinação da correlação de forças no Senado depende dos resultados das eleições de 5 de janeiro na Geórgia. O placar da disputa pelas duas vagas definirá quem dominará a câmara alta, se os republicanos, como agora, ou os democratas, nesse caso pelo voto de Minerva a ser sistematicamente exercido por Kamala Harris. Na câmara de representantes, mensagem telegráfica aos esquecidos, os democratas mantiveram a maioria, mas em algo saíram diminuídos. Da Suprema Corte, melhor nem falar. Para completar, no que toca a governos estaduais, as eleições foram favoráveis aos candidatos que, em ambos os partidos, se dividem em conservadores, reacionários e arquirreacionários.

Não vejo como a dinâmica dessa realidade problemática, cujo impossível equilíbrio perfeito tende ao catastrófico, venha a mudar substancialmente, em benefício do partido democrata, durante o mandato de Biden. Que incentivo existe para que os republicanos voltem aos anos dourados dos entendimentos entre cavalheiros, tempos míticos que afinal, bem examinados, se revelam muito mais nostalgia da imaginação do que precisa matéria de memória histórica?

Sabemos, surpresa e milagre acontecem. Surpresa, sem dúvida; milagre, abolição das leis da natureza newtoniana ou da história algo filosófica, diria um spinozista, muito mais difícil de ocorrer, para não dizer impossível. Mas se ao menos por sobriedade deixamos uma e outro em segundo plano, a proposta de Biden – reconciliação pragmática no âmbito do legislativo em leal diálogo com o executivo, entendimento racional entre republicanos patrióticos e democratas iluministas, governo de união em última instância – no mínimo desperta saudável ceticismo.

Esse voto do coração generoso, essa composição instável entre os contrários, vai de encontro ao curso real do mundo que vibra e se impõe no interior do que os de Washington DC simplesmente chamam Beltway, espaço viciado, a mais não poder, em política de poder. A volta ao que não foi equivale a alicerçar o futuro recorrendo a proclamação, sempre atual, da urgência do “bem comum”, sem se saber nem mesmo de maneira aproximada como superar a distância entre o dever ser ético-moral e a frieza do ser histórico, inevitavelmente permeado pelo realismo que remonta a Maquiavel.

Para vingar, a angélica proposta de Biden pede muito mais do que o acontecimento que é surpresa. Exigirá a milagrosa suspensão das leis naturais do cálculo político, cuja tendência própria e predominante, nessa era de polarização de longo fôlego em que ingressaram os EUA, é impiedosamente diluir os discursos e corroer as práticas fundadas em votos piedosos. Tempos interessantes nos aguardam a todos.

*Tadeu Valadares é embaixador aposentado.