EUA ou China?

Foto de Christiana Carvalho

Por GILBERTO LOPES*

Não nos façam escolher, dizem países asiáticos.

Foram necessários quinze anos para negociar os termos da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), um sinal dos desafios da reconciliação da economia chinesa com as regras liberais do comércio internacional. Os funcionários norte-americanos apostavam que esses termos obrigariam a China a submeter-se às regras do mercado e a integrar-se na ordem econômica global. “Mas essas esperanças”, disse Yeling Tan, professora de ciências políticas na Universidade de Oregon, “soam hoje como uma ilusão”. Seu texto – um ensaio premiado, intitulado “How the WTO changed China” –, publicado na edição de março-abril da revista Foreign Affairs, dá o tom de desapontamento que predomina do lado norte-americano, vendo frustradas suas esperanças.

Talvez o mesmo tom que o presidente Joe Biden adotou na primeira conversa telefônica com seu colega chinês, Xi Jiping, na quarta-feira passada, 10 de fevereiro. A lista de queixas é conhecida: as práticas econômicas de Pequim, que Washington considera desleais e contrárias às regras da OMC; os direitos humanos, que afirma serem violados em Hong Kong e Xinjiang; as tensões no mar do Sul da China. E as relações com Taiwan, um problema de integridade territorial para Pequim, que alertou contra qualquer tentativa de ignorar o princípio essencial da sua política internacional: a existência de “uma só China”. Embora a administração Trump não a tenha ignorado, aumentou o nível de contato oficial com Taiwan, num perigoso caminho de testar aos poucos até que ponto se manterá a frágil corda das relações com Pequim.

Combinar contenção e colaboração, parece ser a opção com a qual se defronta a administração Biden em suas relações com a China, sugeriu Linda Thomas-Greenfield, nomeada por Biden para assumir a representação norte-americana na ONU. A embaixadora designada utilizou um tom considerado “combativo” durante a sessão de confirmação de sua nomeação no Congresso dos EUA no mês passado. Descreveu a China como um “adversário estratégico”, cujo desprezo pelos direitos humanos e pela democracia “ameaça o nosso modo de vida”.

Balança de poder

“A ascensão global da China e o declínio relativo dos Estados Unidos está gerando mudanças fundamentais na balança internacional de poder”, estimaram três especialistas em política internacional: Li Xing, diretor do Centro de Investigação sobre Desenvolvimento e Relações Internacionais da Universidade de Aalborg (Dinamarca); Javier Vadell, coordenador do doutorado em Relações Internacionais da Universidade Católica de Minas Gerais (Brasil) e Gonzalo Fiore Viani, advogado e analista político argentino. Em artigo publicado na semana passada no portal Agenda Pública, são feitas duas questões. A primeira é se a mudança de presidente nos Estados Unidos alterará de alguma forma o equilíbrio internacional de poder, se restabelecerá a ordem anterior à administração Trump. A outra é quem pagará os custos da manutenção de tal aliança, se os Estados Unidos pretendem recuperar seu papel de liderança no mundo.

A redefinição destas relações será um aspecto central das políticas da nova administração norte-americana, como ficou claro na primeira conversa entre Biden e Xi, ou na sessão de confirmação da nova embaixadora dos EUA na ONU. Alguns aspectos desta mudança no equilíbrio de poder no cenário internacional foram ressaltados pelos três autores citados, incluindo o acordo de investimentos sino-europeu recentemente aprovado; o papel da China como principal parceiro comercial da União Europeia (UE); a formação, na região Ásia-Pacífico, da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, que inclui aliados americanos como a Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul), em contraste com o fracasso da Parceria Transpacífica (TPP), promovida pelos Estados Unidos; ou o papel da China, como o “maior financiador do mundo, ultrapassando o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento, e o ator mais importante nos investimentos em infraestrutura para os países em desenvolvimento”. O encerramento das negociações, em 30 de dezembro do ano passado, sobre o acordo de associação entre a UE e a China (que começou em 2013) foi anunciado numa videoconferência, com a participação do presidente Xi Jinping, da chanceler alemã Angela Merkel, do presidente francês, Emmanuel Macron, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

De acordo com dados da UE, os investimentos europeus na China superam os 140 bilhões de euros, enquanto os investimentos chineses na UE atingem 120 bilhões. O RCEP é um acordo de livre-comércio entre os estados membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, formada por Mianmar, Camboja, Filipinas, Laos, Singapura, Vietnã, Tailândia, Brunei e Malásia), e cinco estados da Ásia e Oceania com os quais a Associação tem tratados de livre-comércio: Austrália, China, Coreia do Sul, Japão e Nova Zelândia.

Um tratado que o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, descreveu como “uma vitória do multilateralismo e do livre-comércio”, de “grande importância para a China pelo que representa para a extensão e consolidação de sua influência em países na sua órbita geográfica mais próxima”. Há outras abordagens que destacam as fraquezas da posição chinesa como, por exemplo, o artigo de Richard Aboulafia, conselheiro de várias empresas aeroespaciais, publicado na Foreign Affairs, no qual  aponta os possíveis efeitos catastróficos para a indústria aeronáutica chinesa de uma resolução de última hora da administração Trump, proibindo a exportação de tecnologias que possam ter utilização militar. Uma decisão que ameaça – na opinião da Aboulafia – deixar em terra os aviões chineses. Atualmente – afirmou – “a indústria aeronáutica chinesa só funciona se empresas estrangeiras venderem-lhe  equipamentos necessários para seus aviões decolarem”. Isto evidencia a complexidade destas relações e ilumina detalhes particularmente importantes que nem sempre recebem a atenção do público.

Não nos façam escolher!

Com quase todos os países do leste e sudeste da Ásia comprometidos com os Estados Unidos em questões de segurança, mas tendo a China como seu principal parceiro comercial, cada passo nessas relações acaba movimentando todo o cenário. A recente perda econômica da Austrália como resultado de seu choque político e comercial com a China é uma lição sobre o que pode acontecer caso se decida pelo alinhamento com uma das duas potências. “Em nenhum lugar do mundo, as rivalidades econômicas, estratégicas e militares entre os Estados Unidos e a China estão correndo maiores riscos do que nas onze nações do sudeste asiático. Uma rivalidade que se intensificará em 2021”, observou o colunista Dominic Ziegler, num artigo para o The Economist.

A confrontação com a China, caminho escolhido pelo governo australiano no caso da Covid-19, “foi uma decisão maluca e um erro evitável, cujo resultado representa um risco desnecessário para os interesses econômicos da Austrália”, segundo o Dr. Iain Henry, professor no Centro de Estudos Estratégicos e de Defesa da Australian National University. Com a confrontação em pleno andamento, há um número crescente de análises na Austrália que retomam antigas lições, obrigando o país a equilibrar-se entre duas potências. Desde a Guerra da Coreia, quando os Estados Unidos invadiram o Norte e a China destacou suas tropas para as contê-los. Depois, diante da gravidade da situação no terreno, a administração Truman chegou a discutir a possibilidade de deter a ofensiva chinesa com a bomba atômica, já utilizada na guerra contra o Japão.

O governo australiano de Robert Menzies permaneceu “em cima do muro”, desencorajando uma escalada do conflito, mas sem criticar uma superpotência cuja proteção procurava, lembrou Frank Yuan, doutorando na Universidade de Sidney, num artigo publicado pelo Löwy Institute. Mas, acrescentou Yuan, além de recordar as batalhas que travamos, devemos lembrar também das que evitamos. A China é a fonte de mais de um terço dos dólares que a Austrália recebe por suas exportações. Uma guerra comercial com a China poderá custar-lhe 6% do seu Produto Interno Bruto. Estarão os Estados Unidos em condições de compensar essas perdas? Assim, não é surpreendente ver a posição predominante na região, de Singapura à Coreia do Sul, exigindo que as potências não os obriguem a escolher, como o presidente sul-coreano Moon Jae-in afirmou na sua primeira conferência de imprensa de 2021.

Como eram as coisas antes

“A América está de volta!” Assim começou a mensagem do presidente Joe Biden aos aliados da OTAN em seu discurso na Conferência Virtual de Segurança de Munique, no sábado, 20 de fevereiro. “Estamos no meio de um debate fundamental sobre o futuro e a direção do nosso mundo”. Na opinião do presidente, estamos num ponto de inflexão entre dois mundos: aqueles que argumentam “que a autocracia é o melhor caminho a seguir” e os que compreendem que “a democracia é essencial para enfrentar esses desafios”. “Devemos evitar os abusos econômicos e a coação por parte do governo chinês que minam os fundamentos do sistema econômico internacional”. “Devemos preparar-nos juntos para uma competição estratégica a longo prazo com a China”, disse Biden, convocando seus aliados na Europa e na Ásia a “defender nossos valores comuns e impulsionar nossa prosperidade no Pacífico”. Esse será, disse ele, “um dos esforços mais importantes que empreenderemos”.

Os Estados Unidos devem renovar suas vantagens para enfrentar os desafios atuais a partir de uma posição de força, modernizar suas capacidades militares e revitalizar sua rede de alianças e parcerias no mundo, disse Biden. Não se trata, no entanto, de “colocar o Oriente contra o Ocidente”. Não podemos e não devemos voltar aos blocos rígidos de oposição da Guerra Fria, disse ele. Mas a Rússia ainda é vista por Washington como uma ameaça. O Kremlin ataca nossas democracias, usa a corrupção “para minar nosso sistema de governo”, disse o presidente norte-americano, para quem “a defesa da soberania e integridade territorial da Ucrânia continua sendo uma preocupação vital”.

Movam o traseiro

Os objetivos foram estabelecidos, mas as capacidades para atingi-los parecem deterioradas. Para conter efetivamente a China, os Estados Unidos devem primeiro resolver seus problemas internos, reconstruir sua economia doméstica e sanar as profundas divisões sociais que surgiram recentemente no país, afirmava um artigo publicado no Boston Globe na véspera do discurso de Biden em Munique.

A crise causada pelas baixas temperaturas no Texas tinha assumido uma dimensão catastrófica. As imagens de pessoas fazendo fila com temperaturas congelantes para comprar um botijão de gás, com casas sem eletricidade durante dias, eram desoladoras. A crise continua, com quase dois milhões de pessoas ainda sem energia elétrica, canos congelados estourando nas casas, telhados ruindo e ruas inundando, enquanto sete milhões de texanos eram advertidos para ferverem a água antes de consumi-la, diz Heather Cox Richardson, professora de história no Boston College, na sua coluna de 17 de fevereiro passado.

No artigo ela relata como as teorias neoconservadoras foram impostas nos Estados Unidos, como durante a administração Reagan (1981-89) os regulamentos sobre serviços públicos foram abolidos; como, pouco a pouco, se difundiu a teoria de que o governo federal era uma ameaça à liberdade. Heather Cox reproduz o que, no meio da crise, o prefeito da cidade de Colorado, Tim Boyd, publicou no Facebook, dirigindo-se aos seus cidadãos: “A cidade e o condado, juntamente com os fornecedores de energia ou de qualquer outro serviço, não lhes devem NADA! Estou farto, cansado de pessoas que vivem esperando uma maldita esmola”.

Na sua opinião, a crise foi o triste resultado dos governos socialistas que alimentaram a ideia de que alguns devem trabalhar enquanto outros esperam por esmolas. “Movam o traseiro e cuidem de sua própria família”, publicou. “Só os fortes sobreviverão”. Com as pessoas congelando, com os serviços de eletricidade colapsados, surgiram os protestos. Boyd demitiu-se. Além de arrumar a casa, Biden enfrenta outro problema: lidar com os custos que uma confrontação com a China poderia ter para seus aliados. O caso da Austrália, que assumiu as acusações de que a China era responsável pela expansão da Covid-19, deixou evidentes os riscos – e os custos – de tal confrontação, que Washington dificilmente está em condições de compensar.

No radar da OTAN

Não é apenas o sudeste asiático que está sendo afetado pelas tensões entre os Estados Unidos e a China. A China está entrando gradativamente no radar da OTAN. “Reconhecemos que a crescente influência e políticas internacionais da China apresentam tanto oportunidades como desafios que devemos enfrentar em conjunto na Aliança”, dizia a declaração da OTAN divulgada em Londres, em dezembro de 2019, que coloca a China no foco estratégico da OTAN.

Para o Comitê Político da OTAN, num documento datado de 20 de novembro do ano passado, a emergência da China desde o final do século passado representa uma mudança no cenário internacional “comparável ao colapso da União Soviética”. E lamenta que muitos membros da OTAN continuem vendo a China mais através da lente das oportunidades econômicas do que como um desafio de segurança.

A China já não desempenha apenas um papel central nos assuntos de segurança  Indo-Pacífico, mas surge como um ator na periferia da Europa, indica um documento publicado em dezembro passado pelo The International Institute for Strategic Studies e pelo Mercator Institute for China Studies. “As ambições de Pequim de transformar-se numa potência global e reformar a ordem global desafiam os interesses e a segurança europeus e americanos”, afirmam. Para seu secretário-geral, Jens Stoltenberg, nessa confrontação, estão em jogo a liberdade, a herança comum e a civilização dos seus povos, baseadas nos princípios da democracia, da liberdade individual e do estado de direito, princípios que podem ser ameaçados se a OTAN continuar a não enfrentá-los.

América Latina

Com o olhar voltado para o Oriente, a América Latina não aparece no debate. Mas a região não está totalmente fora dos olhares. Para Benjamin N. Gedan, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional para a América Latina, se os Estados Unidos enfrentam dificuldades em suas relações com a China, ou nos cenários asiáticos e europeus, sua situação está bem melhor na América Latina, onde sua popularidade está em alta. A capacidade dos Estados Unidos de recuperarem sua imagem na América Latina é quase milagrosa, na opinião de Gedan. Hoje “66% dos mexicanos e 60% dos brasileiros têm uma opinião favorável do presidente Biden”.

O fracasso crônico da região em coordenar seus interesses, ou suas divisões ideológicas, renova o olhar da América Latina para a liderança e cooperação dos Estados Unidos. Ele cita como exemplo a invasão do Iraque, que foi muito impopular na América Latina. Mas, na sua opinião, bastou que Obama assumisse o poder para que “o apoio aos Estados Unidos se recuperasse praticamente da noite para o dia” na região.

Na sua opinião, a decisão da administração Trump de abdicar de sua liderança global apenas demonstrou a importância dos Estados Unidos, e não a sua irrelevância. “A propensão da América Latina para o esquecimento reflete sua dependência de Washington”. Para a América Latina, “os Estados Unidos são simplesmente demasiado grandes para serem desprezados”. Hoje, diz ele, a região está voltando seu olhar mais uma vez para Washington em busca de apoio para os grupos da sociedade civil que lutam contra a corrupção, os direitos humanos e a democracia. Novos cenários dos desastres causados pela instrumentalização política da luta contra a corrupção e pelo abuso da desvalorizada moeda macuquina com a qual negociam os direitos humanos.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR).

Tradução: Fernando Lima das Neves.