Patriotismo, militarismo e lobby das armas – parte 2

Imagem: Andrei Tufanyuk
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Por MARIANA LINS*

Qualquer ideologia, longe de ser um fim em si mesmo, ou mero sintoma de uma coletividade de individualidades psiquicamente adoecidas, serve, via de regra, a interesses materiais de uma minoria bem restrita

“Não houve hostilidade, não houve excesso. Houve uma atuação profissional, que resultou em prisões. E nós vamos continuar com a operação” (Tarcísio Freitas sobre a chacina ocorrida no Guarujá em 30 de julho de 2023).

“A Constituição é uma coisa de cera nas mãos do Judiciário, que ele pode retorcer e moldar em qualquer formato que deseje” (Thomas Jefferson em carta para o juiz Spencer Roane, em 1819).

“A posição do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de considerar válida a invasão de domicílio nos casos em que a Polícia Militar identifica “atitude suspeita” já está servindo de fundamento para decisões de tribunais de segunda instância, a despeito de o STF não ter ainda decidido o mérito da discussão” (Tiago Angelo em artigo para a revista eletrônica Consultor Jurídico no dia 07 de março de 2024).

Considerações iniciais

Como sugerido no ensaio “Patriotismo militarismo e lobby das armas” publicado no site A Terra é Redonda logo após o fatídico 8 de janeiro de 2023, a pensadora política e militante anarquista Emma Goldman compreendeu o fenômeno do patriotismo como um tipo específico de psicologia coletiva e/ ou ideologia deliberadamente espraiada nas massas para os fins do militarismo – por sua vez, demonstrado por ela, como o principal baluarte do capitalismo.

Embora tenha categorizado o patriotismo como um subtipo da psicologia das massas reacionária ou contrarrevolucionária, ela não se concentrou em descrever as modificações psíquicas que a massa patriota impõe aos indivíduos que a compõem ou muito menos em esmiuçar os delírios ideológicos que dão substância a essa psicologia. Por ver nesse fenômeno psicológico e coletivo específico muito mais o resultado da manipulação deliberada do que de uma expressão instintiva e espontânea, julgou mais pertinente identificar, com o maior grau de precisão possível, as suas causas materiais – uma estratégia de investigação que pode ser sintetizada sob o bordão follow the money.

Segundo Emma Goldman, a causa primeira do patriotismo deve ser buscada não nos desvios de caráter e/ou deficiência cognitiva compartilhados pelos patriotas – uma sintomatologia que, no nosso tempo, inclusive, qualquer leitor mediano de Freud sabe ser inerente à psicologia das massas (e isso independentemente da vertente política)… Sob os parâmetros do diagnóstico por ela apresentado, em vez de no escrutínio da subjetividade alheia, a causa do patriotismo deve ser buscada nos interesses do lobby armamentista que por meio de técnicas incitam deliberada e sub-repticiamente a formação de um tipo específico de psicologia das massas, no caso, a patriota – que na sua forma mais extrema, culmina nas massas fascistas. Obviamente, conforme ela também identificou, tais interesses e técnicas do império das indústrias bélicas estão diretamente associados aos outros grandes interesses capitalistas, de modo que as técnicas são compartilhadas e adaptadas.

Dizer que “o militarismo é o maior baluarte do capitalismo”[i] é, em Emma Goldman, o mesmo que dizer que “o militarismo atua como a parte sanguinária dos conflitos econômicos”, para o que, também enfatiza, é imprescindível “a aprovação e o apoio do Estado”, com o seu braço armado legalizado e permanente – que, independentemente das razões alegadas, como diria Tucídides, está sempre apontado contra o inimigo interno.[ii]

Ela, inclusive, foi além e nomeou os demônios que nesta nossa hora fatídica do mundo, mais uma vez, se apresentam diante de nós no esplendor da sua potência; fazendo assim, curiosamente, jus à alcunha que, por ironia, recebeu dos jornais liberais da sua época, a de Suma Sacerdotisa do Anarquismo… afinal, decifrar o nome dos demônios é um dos primeiros passos para o exorcismo: “O que está sempre e novamente por trás do feroz Moloch da guerra é o deus ainda mais feroz do Comercialismo [capitalismo]”.[iii]

Sob o mesmo propósito do texto “Patriotismo, militarismo e lobby das armas” publicado em A Terra é Redonda no dia 23 de janeiro de 2023, o objetivo das linhas que se seguem consiste em aplicar o esquema interpretativo desenvolvido por Emma Goldman a alguns dos fatos e dados referentes ao militarismo e patriotismo que neste momento compõem a nossa realidade nacional imediata; e, portanto, em reatualizar e adaptar as conclusões gerais às quais ela chegou, ou das quais partiu, com o intuito de elaborar um prognóstico político declaradamente ensaísta – em vez de pretensamente científico.

Que, ao fim e ao cabo, não passe de mero exercício de uma liberdade de expressão dispensável, é um resultado mais do que satisfatório, já que, ao menos, consistirá numa lembrança de que a liberdade de expressão, inclusive nas suas trivialidades e riscos concretos, é uma bandeira originária da radicalidade libertária. A própria Emma Goldman foi uma grande defensora da liberdade de expressão e se valeu amplamente desse direito irrestrito do indivíduo que, por definição, não pode estar sujeito ao controle estatal; como, por exemplo, no caso dos seus discursos materialistas e radicais diretamente direcionados à juventude militar ou, em vias de se militarizar – o que, no contexto do alistamento tornado obrigatório nos EUA com a declaração de guerra à Alemanha em 1917, lhe custou a prisão e, conseguinte, deportação sem retorno do país onde vivia há mais de 30 anos.

Pois que a direita tenha nos roubado também essa bandeira, pode vir a implicar em custos bem mais altos do que no momento suspeitamos. Neste nosso vasto Brasil que se tornou terra arrasada depois da Lava Jato e do golpe jurídico-parlamentar contra a então presidenta Dilma Rousseff, golpe que segundo se dizia na época foi “um grande acordo nacional”, “com Supremo com tudo”, talvez seja tarefa mais do que suficiente reatualizar as palavras, referendadas por Emma Goldman, da também anarquista Voltairine de Cleyre sobre os efeitos que o julgamento do caso Haymarket causou sobre ela (hoje considerado um dos maiores erros judiciários da história estadunidense, além de evento histórico homenageado no Primeiro de maio),[iv] sendo estas palavras: “Até então eu acreditava na imparcialidade essencial da lei […]. Depois desse caso, já não pude mais”.[v]

Antes de seguirmos em frente, é importante ter em mente que o contexto no qual Emma Goldman elaborou as suas reflexões sobre o patriotismo, foi aquele em que os Estados Unidos despontavam como potência militar global. Já antes da entrada dos EUA na Primeira Grande Guerra, a anarquista chamava atenção para o fato de que parte da elite estadunidense estava enriquecendo exponencialmente com “a fabricação de munições e com os empréstimos de guerra aos Aliados” – sob a escusa nobilíssima de “esmagar” os malvados patriotas alemães.[vi] Ela inclusive anteviu que se o investimento militar se tornasse um programa de ação nacional nos Estados Unidos, o militarismo estadunidense se tornaria muito mais terrível tecnicamente do que o militarismo alemão que declarava combater. E isso porque, nas suas palavras, “em nenhum outro lugar do mundo o capitalismo se tornou tão desavergonhado no seu excesso quanto aqui”.[vii]

1.

Em “Patriotismo: uma ameaça à liberdade” de 1910, a reflexão sobre a temática é iniciada com o esclarecimento sobre o que o patriotismo não é. Diferentemente do que, num primeiro momento, poder-se-ia supor, o patriotismo não diz respeito ao amor pela terra natal ou à nostalgia provocada por tempos idos referentes a uma infância e juventude felizes sob o aconchego familiar e fraternal. Não diz respeito à ternura, não é expressão de uma sensação generalizada de pertencimento e acolhimento, ou de respeito, conhecimento e louvor às tradições culturais encerradas numa determinada localidade geográfica a que se chama país. Se isso fosse patriotismo, constata a anarquista, então a esmagadora maioria dos soldados que conforma a argamassa que dá concretude ao patriotismo – na medida em que oriunda das classes baixas e não raro de um cotidiano miserável – não poderia jamais ser patriota.

Com o intuito de fazer ver a relação diretamente proporcional entre o aumento do investimento global em gastos militares e o despontar, em cadeia, do patriotismo das massas – presente especialmente nos países em que esses investimentos eram mais expressivos –, Emma Goldman traz à tona um conjunto de dados bastante robusto. Pois se de um lado ela identifica essa “coincidência” global entre o incremento da histeria patriótica e o aumento ininterrupto do investimento militar, de outro não compreende essa “coincidência” como acidental ou espontânea.

Os dados apresentados por ela são indicativos do até então inédito aumento exponencial dos gastos militares mundial, ocorrido durante o período de 1881 a 1905 – destacando-se no topo do ranking, os seguintes países: Grã-Bretanha, França, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Itália e Japão. No período indicado, o orçamento destinado ao exército teria quadruplicado na Grã-Bretanha, triplicado nos Estados Unidos, duplicado na Rússia, aumentado em 35% na Alemanha cerca de 15% na França, e no Japão em quase 500%. Ela também apresentou dados para comprovar crescimento semelhante no orçamento das marinhas desses países (cabe lembrar que a Força Aérea só se desenvolve na Segunda Guerra).[viii]

É ao computar o custo crescente do militarismo “como taxa per capita sobre a população” que pretende deixar cristalina uma das suas principais subteses no tocante ao patriotismo, sendo esta: a de que o patriotismo é a justificativa para que o povo pague financeiramente por todo investimento no militarismo, na forma de impostos e taxas. Segundo os dados que apresenta, no referido intervalo de tempo – cujo desdobramento culminou, como sabemos hoje, na Primeira Grande Guerra –, esse aumento per capita do peso do militarismo se deu da seguinte forma: na Inglaterra, de $18,47 para $52,50; na França, de $19,66 para $23,62; na Alemanha, de $10,17 para $15,51; nos Estados Unidos, de $5,62 para $13,64; na Rússia, de $6,14 para $8,37; na Itália, de $9,59 para $11,24, e no Japão de 86 centavos para $3,11.[ix]

E aqui temos a primeira grande analogia com a nossa situação imediata. Pois, seja uma mera ironia do destino ou não, o surgimento do nosso patriotismo verde e amarelo se provou diretamente proporcional ao aumento com gastos militares por parte do Estado brasileiro, sendo, portanto, pago por nós, o povo brasileiro, independentemente da filiação política ou partidária.

Sob a tentativa de emular (ainda que canhestramente) a estratégia argumentativa de Emma Goldman, vale listar alguns dados e fatos recentes referente ao nosso país: (i) De 2012 a 2022, “os militares das Forças Armadas tiveram o maior aumento médio de salário entre os servidores do governo federal”– o que dá “quase cinco vezes a média das carreiras federais e o dobro do que todas as categorias do funcionalismo brasileiro incluindo União, Estados e municípios”.[x]

(ii) Na gestão Jair Bolsonaro, não só o número de militares em cargos civis no executivo subiu em 70% (algo em torno de 6000 cargos, conforme foi bastante divulgado nas mídias), [xi]como também foi “permitido” a certos militares da reserva “receber acima do limite do teto remuneratório do serviço público”, ao acumular a aposentadoria privilegiada de militar e o novo (e gordo) salário.[xii] Um “teto do teto” all exclusive que, na prática, implicou que os “generais da reserva do governo do presidente Jair Bolsonaro, que ocupavam cargos no primeiro escalão do Planalto”, recebessem, por mês, “um salário líquido de mais de R$ 100 mil” – caso dos ilustríssimos Mourão, Heleno, Braga Neto e Luiz Eduardo Ramos, para mencionar alguns dos nomes mais conhecidos.[xiii].

(iii) “Em 2022, a Defesa passou a ser o principal destino” do orçamento do governo federal, “abocanhando 21% dos R$ 42,3 bilhões previstos no orçamento sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) no fim de janeiro”;[xiv] um valor, vale acrescentar, quase duas vezes maior do que o destinado ao Ministério da Saúde e quase três vezes maior que o destinado à Educação.[xv] (iv) O governo de Jair Bolsonaro utilizou R$ 375,9 milhões das “sobras” do programa Bolsa Família, remanejados no fim de 2021, para pagar despesas das Forças Armadas, desde o “auxílio-moradia de militares até projetos estratégicos do Ministério da Defesa”, como o “sistema de lançadores de mísseis, o Astros 2020”.[xvi]

(v) “Mais de 79 mil militares receberam indevidamente o Auxílio Emergencial, ainda no primeiro mês que o benefício foi concedido” – sendo, na época, os “nomes dos beneficiados” de conhecimento exclusivo do Ministério da Cidadania.[xvii] (vi) O “Exército multiplicou produção de cloroquina por 12 vezes em 2020”.[xviii]

É verdade que não foi uma invenção de Jair Bolsonaro (antes o contrário) que no Brasil, a esmagadora maioria dos recursos destinados ao Ministério da Defesa vá para o pagamento de salários e, especialmente, de aposentadorias e pensões, em vez de ir para tecnologia e estrutura – destinação que envolve justamente o investimento em armamento e demais equipamentos militares. À guisa de ilustração, vale mencionar os números ainda humildes de 2020, segundo os quais para “cada R$ 10 despendidos pelo Ministério da Defesa, R$ 8,35 destinaram-se a gastos com pessoal”, o que significa que do total da “despesa de R$ 110,8 bilhões”, “R$ 92,4 bilhões foram para a folha de pagamento, representando 83,5% do total”. E o que é mais digno de nota: desse montante destinado aos gastos com pessoal, apenas 41,3% foram para os militares e civis da ativa: a maioria (58,7%) indo para o pagamento de aposentados e pensionistas do Exército, Marinha e Aeronáutica. [xix]

Assumindo que Jair Bolsonaro e os seus efetivamente pretenderam dar um golpe de Estado, é possível supor que um dos principais acertos para manter os chefes militares dito legalistas – os quais, segundo o nosso Ministro da Defesa, são os verdadeiros responsáveis pela salvação da nossa “democracia inabalada” –[xx] de boca fechada ante o novo gênero político-literário “minuta do golpe”, foi justamente o excesso de mimos que o ex-presidente lhes dedicou (caso dos mares de leite condensado hiperfaturado, das montanhas de lombo de bacalhau e picanha, dos rios de cerveja da melhor qualidade, uísque 12 anos e conhaques de uva,[xxi] entroncamentos de barcas de sushis e sashimis,[xxii] além das próteses penianas e viagra à vontade).

De outro lado, também é possível supor que o erro no cálculo do golpe desse repetidamente autodesignado chefe supremo das forças armadas e de segurança pública (além de chefe supremo das miliciais e dos CACs, no sentido neoliberal da coisa) foi que a “generosidade” do seu governo aos trabalhadores portadores das armas não se estendeu às patentes mais baixas, caso dos “praças”,[xxiii] como tampouco se estendeu aos demais “braços” armados do Estado; o que inclui nada menos do que os policiais federais, rodoviários, os agentes penitenciários[xxiv] e as polícias civis.[xxv]Pois um fato pouco divulgado, discutido e mesmo aproveitado pela esquerda foi que líderes dessas quatro categorias declararam em diversos veículos, desde 2020, que Jair Bolsonaro traiu a classe ao não cumprir as promessas que fez.

Traição e erro de cálculo que, vale observar, um dos principais herdeiros atuais do bolsonarismo, Tarcísio Freitas, parece estar corrigindo, quando, por exemplo, sancionou, logo após a sua posse, o projeto de lei que estabeleceu aumento salarial médio de 20,2% para as carreiras das forças de Segurança Pública de São Paulo – justamente uma de suas promessas de campanha.[xxvi] E mais do que estar corrigindo parece, agora, estar preparando o terreno: vide as propostas de ampliação de poderes antes circunscritos à polícia civil, como investigação e registro de ocorrência, para a polícia militar[xxvii] e agentes do sistema penitenciário[xxviii] – propostas que se implementadas, segundo o jurista Lênio Streck, teriam a provável função “de transformar o estado em Estado Policial”;[xxix] ou ainda o decreto que prepara o pagamento de um bônus de 500 milhões de reais para os policiais do Estado de São Paulo “de acordo com a redução dos índices de criminalidade e com o aumento da produtividade dos agentes”.[xxx]

Que, de outro lado, desde o início do governo deste (ex) capitão do Exército e patriota Tarcísio de Freitas – “coincidentemente” formado na mesma Academia Militar das Agulhas Negras que Hamilton Mourão e Jair Bolsonaro – , os policiais da ativa só estejam aumentando as estatísticas da matança, tanto por assassinato,[xxxi] quanto por suicídio,[xxxii] embora absurdo do ponto de vista democrático, é um dos resultados inerentes à equação da qual um dos fatores invariáveis é o maior investimento no militarismo e forças correlatas.

Pois o problema maior não é pagar financeiramente pelo militarismo, essa instituição tão cara como bem observou Emma Goldman no seu tempo, e como pode ser agora observado por nós não só no Brasil, mas no globo terrestre em estado de guerra ou de preparação para a guerra. Basta considerar, por exemplo, que no ano passado, em 2023 os gastos militares globais bateram o novo recorde com aproximadamente 2,3 trilhões de dólares[xxxiii] ou que, no contexto da pandemia de Covid-19, o aumento percentual no PIB global direcionado ao setor defesa de 2020 a 2021, foi “quase dez vezes superior à meta de arrecadação estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para combater a emergência sanitária global”.[xxxiv]

O problema maior são as exigências sanguinárias impostas pelo militarismo ao povo que o sustenta financeiramente; já que por esse “luxo” é preciso antes de tudo estar disposto a sacrificar os “próprios filhos”, a arregimentá-los numa massa em prontidão para matar mãe, pai, irmã e irmão – caso se mostre necessário, ante a ordem de atirar. Pois o militarismo torna protocolarmente inadmissível o livre-arbítrio.

Nas suas análises, Emma Goldman também chamou a atenção para o objetivo da formação militar, que é o de transformar um ser pensante numa máquina de obediência e lealdade, num “autômato”, isto é, num ser cuja autonomia e iniciativa devem estar completamente destruídas para que assim possa ser comandado pelos seus superiores com uma máquina de morte na mão.[xxxv] Que parte significativa da juventude de “uma República livre” desperdice os seus dias de primavera “batendo continência para todo e qualquer tenente insignificante”,[xxxvi] isso quando não matando e encarcerando, no nosso caso de guerra interna – era, para ela, uma situação digna do mais profundo lamento.

Sob essa sua perspectiva, quiçá também em consonância com o prognóstico de Lênio Streck, podemos inclusive suspeitar que o objetivo “dasescolas cívico-militares nas regiões mais pobres” de SP proposta recentemente pelo mesmo Tarcísio é simplesmente garantir mão de obra jovem, maleável e barata para as bases militaristas e seu futuro “Estado Policial”.[xxxvii] Dito de modo frio: com a repressão, opressão e matança legitimadas politicamente, nada mais prudente do que garantir o cadastro de reserva das forças policiais.

Um dos pontos altos da análise da anarquista é o destaque cirúrgico que dá ao fato de que o contingente dos soldados, a argamassa que dá concretude ao patriotismo, é formado por membros das classes menos favorecidas, como também é o caso da “classe” dos criminosos comuns (ela inclusive atenta para o fenômeno hoje bastante ordinário de soldados que se aventuram nos mais variados crimes, enquanto criminosos tornam-se soldados). Ou seja: não é o gosto pessoal que leva à escolha pelo ofício de soldado; se assim fosse encontraríamos entre eles, os filhos das elites – o que não acontece.

Daí que a guerra seja desvelada por ela como autoaniquilamento induzido nas classes dos trabalhadores para que o lucro e acumulação do capital possam se manter em crescimento ininterrupto. Numa imagem: soldados combatendo internamente “criminosos” (caso, por exemplo, dos nossos PMs) ou grevistas (caso do exército estadunidense da época de Emma Goldman) como nada mais do que o autoaniquilamento entre compatriotas do mesmo estrato socioeconômico; soldados combatendo soldados de outros países como nada mais do que trabalhadores nascidos em diferentes localidades se matando entre si.[xxxviii]

Ante a matança legalizada, nada mais esperado em se tratando de seres humanos que as coisas logo fujam do controle e que a matança se torne ainda mais generalizada, o que justifica inclusive a exigência militar da prontidão para atirar em mãe, pai, irmã e irmão – a depender da ocasião. Um horror que, a despeito da comoção que possa gerar, testemunhamos rotineiramente no nosso contexto de guerra interna e externa.

2.

Como desenvolvido na primeira parte do presente escrito publicada em janeiro de 2023,[xxxix] Emma Goldman viu na psicologia das massas contrarrevolucionária, em oposição à revolucionária, mais o resultado de uma manipulação do que de uma espontaneidade instintiva. No seu panfleto “Patriotismo: uma ameaça à liberdade” de 1910, a consciência dessa manipulação de dimensões transcontinentais não poderia, inclusive, ser expressa de forma mais direta. Pois, conforme declara, os “poderes que durante séculos escravizaram as massas desenvolveram um estudo bastante completo da sua psicologia”:

Eles sabem que as pessoas, de um modo geral, são como crianças cujo desespero, tristeza e lágrimas podem ser transformados em alegria com um simples brinquedinho. Assim como sabem que quão mais belamente o brinquedo esteja adornado, quão mais vibrantes forem suas cores, maior será o apelo que exercerá sobre essa criança formada por milhões de pessoas.[xl]

É justamente para obliterar a insanidade militarista que conduz ao automassacre dessa criança formada por milhões de cabeças, que o patriotismo precisa entrar em cena. Pois segundo a análise oferecida por Goldman, o patriotismo é a ideologia, que deliberadamente incitada nas massas, não só legitima como lhes fazer exigir “o aumento contínuo das demandas do militarismo” – ameaçando assim “cada uma das nações com um esgotamento progressivo tanto de recursos, quanto de seres humanos.”[xli]

Na medida em que a “função” do exército “é matar”, escreveu muito antes de termos ouvido a mesmíssima declaração de Jair Bolsonaro, só pode viver “por meio do assassinato” de modo que “é inevitável que busque um inimigo ou que crie um artificialmente”.[xlii] Segundo conclui, ecoando nesse ponto as ideias dos radicais da sua época, o principal inimigo a que visa o militarismo é o inimigo interno. E isso, porque o patriotismo não só é sustentado pelas massas, como também é algo que diz respeito exclusivamente a elas. Dito de modo breve: patriotismo é coisa do povo, de nós, gentalha. Pois os donos do mundo, relembra-nos Goldman mais de cem anos atrás, são os verdadeiros internacionalistas: “Não são os ricos, americanos na América, franceses na França, alemães na Alemanha e ingleses na Inglaterra?” – pergunta retoricamente.[xliii]

Nesse sentido, não deixa de ser curioso, que no mesmo dia que Elon Musk estava incitando por aqui as turbas bolsonaristas, com o seu ataque de desinformação dirigido a Alexandre de Moraes transvestido de defesa da liberdade de expressão, o perfil do BRICS no X, ex-Twitter, tenha se valido de Musk como referência para dizer o que a desinformação é e não é, num viés claramente pró-Putin: “Elon Musk diz que a maior parte da desinformação no X vem do Ocidente, não da Rússia”, dizia o tuite do dia 10 de abril de 2024.[xliv]

Que, de outro lado, o mesmo Elon Musk, autodesignado “campeão da liberdade de expressão”, no contexto da criminalização dos atos pró-Palestina nos Estados Unidos tenha retuitado uma declaração de Benjamin Netanyahu[xlv] – sob a escusa de que nem sempre os fortes estão errados do ponto de vista moral –[xlvi] torna a compreensão de Emma Goldman de que a divisão ideológica diz mais respeito ao povo, do que aos poucos poderosos do mundo, ainda mais perspicaz.

Até porque, vale acrescentar, o mesmo Vladimir Putin coroado por parte da nossa esquerda nacional como baluarte anti-imperialista – a despeito da sua pública troca de afagos com os mesmos Donald Trump[xlvii] e Elon Musk[xlviii] dos bolsonaristas –, não só classificou, na Rússia atual, o movimento LGBT como terrorista, como tornou ilegal manifestações antipatrióticas, a exemplo do caso de um ativista antiguerra detido por se manifestar com um cartaz contendo uma citação de Leon Tolstói, que teria incorrido na infração de desacreditar as Forças Armadas da Rússia, prevista no artigo 20.3.3 do Código de Ofensas Administrativas. Segundo o relatório elaborado pelo departamento de polícia de Moscou, o autor de Guerra e Paz é um “extremista reconhecido pelo seu posicionamento antigoverno”, de modo que “as ações do cidadão” em questão “devem ser interpretadas como um chamado para derrubar o atual governo, bem como para seguir a ideologia de L. N. Tolstói”.[xlix]

Verdade que de acordo com a própria Emma Goldman, no seu texto “Patriotismo: uma ameaça à liberdade”, esse grande gênio literário russo, anarquista, pacifista e cristão foi além de tudo o maior antipatriota do seu tempo, inclusive por ter sido um dos primeiros a compreender o patriotismo como a justificativa para a apropriação da força de trabalho pelo Estado (em funções militares) e pela iniciativa privada (na indústria de artefatos militares) com o fim da promoção material da morte em massa, em vez da promoção da vida mesma, como no caso da produção de alimentos e fabricação de coisas básicas como sapatos, roupas, moradias, abrigos etc.

Nas suas palavras: “Lev Tolstói, o maior antipatriota do nosso tempo, define o patriotismo como o princípio que justifica o treinamento de assassinos em grande escala; um negócio que exige os melhores equipamentos para o exercício de matar seres humanos, em vez de exigi-los para a fabricação de coisas básicas como sapatos, roupas e casas; um negócio que garante melhores retornos financeiros e uma glória muito maior do que no caso de um trabalhador médio”.[l]

O “fator predominante” para a “preparação militar”, ou seja, para a manutenção de um permanente estado de prontidão militar para guerra – “o que conduz inevitavelmente à guerra” – é, segundo Emma Goldman, o que hoje designamos lobby das armas.[li] De forma bastante didática, ela define o chamado lobby das armas como grupos de interesse formados “por todos os envolvidos na fabricação e venda de munições e equipamentos militares para ganho e lucro pessoais”; cujos “emissários trabalham em todos os lugares” e exercem influência direta sobre a imprensa, escola, igreja, políticos e oficiais militares do mais alto escalão, de modo a incitar “sistematicamente o ódio e antagonismos nacionais”.[lii] Sendo esse ódio e antagonismos incitados sistematicamente entre habitantes de localidades diferentes ou da mesma localidade – como é o nosso caso de guerra interna não declarada – justamente via o patriotismo que traz em si o militarismo acoplado.

Emma Goldman sugere nominalmente, embora, não exatamente afirme (por falta de provas suficientes), como uma das principais causas que deflagraram a Primeira Grande Guerra, o lobby exercido pela família Krupp “na Alemanha, na verdade, em muitos países”, cujos tentáculos se estendiam “sobre a imprensa, sobre escola, igreja e estadistas do mais alto escalão”. A Fried. Krupp AG. era, então, uma das maiores siderúrgicas e fabricantes de armas do mundo; tendo iniciado o seu império, em 1811, no ramo da indústria siderúrgica, viu os negócios se ampliarem exponencialmente com a fabricação de armas – destacando-se na produção de canhões e munições.

Emma Goldman acreditava que o conhecimento das causas desse “grande crime”, a Primeira Grande Guerra, seria capaz de beneficiar as gerações futuras para que, assim, não repetissem os “rios de sangue” e “as montanhas de sacrifício humano” que já antes dos 1910 previa o porvir. Em “Preparação militar, o caminho para o massacre universal” de 1915, fez questão inclusive de prestar reverência ao, segundo ela, “único homem público corajoso da Alemanha atual, Karl Liebknecht”, quem, “pouco antes da guerra”, “chamou a atenção do Reichstag para o fato de que a família Krupp tinha a seu serviço oficiais da mais alta patente na hierarquia militar, e isso não apenas na Alemanha, mas também na França e em outros países”.[liii]

As provas documentais do suborno de oficiais do exército alemão pela Friedrich Krupp AG chegaram a Liebknecht – na época deputado no Reichtag pelo Partido Social-Democrata da Alemanha – anonimamente e o caso ficou conhecido como o “escândalo de Kornwalzer”. Muito embora a denúncia de Liebknecht, nas palavras de Emma Goldman, tivesse lançado luz a “um truste internacional de artigos de guerra que não está nem aí para patriotismo ou amor pelo povo, mas que utiliza ambos para incitar a guerra e embolsar, nessa terrível barganha, lucros milionários”,[liv] o resultado do “escândalo de Kornwalzer” foi tão somente o julgamento e prisão de alguns oficiais militares e funcionários da Krupp AG.

Cabe frisar, que estamos tratando aqui do mesmo Karl Liebknecht, que depois de preso por suas atividades antimilitaristas e antiguerra, em maio de 1916, e, de ter obtido a anistia, em outubro de 1918 (com o fim da Primeira Guerra), fundou, logo em seguida, o partido Comunista da Alemanha (em dezembro de 1918); sendo, menos de um mês depois, no dia 15 de janeiro de 1919, brutalmente assassinado, junto a Rosa Luxemburgo, por um grupo de paramilitares nacionalistas fanáticos – que nunca foram condenados.[lv] Isso para, como dizem os estadunidenses, make a long story short. Quanto à Fried. Krupp AG, seu ocaso só veio com a derrota da Alemanha na Segunda Grande Guerra, pois as indústrias Krupp não só eram as maiores fornecedoras de armas para os nazistas, como se valeram do trabalho escravo de prisioneiros de guerra – na sua imensa maioria judeus. Em Nuremberg, ex-diretores do grupo foram julgados, com destaque para Alfried Krupp que foi sentenciado a modestos 12 anos de prisão pelos seus crimes de guerra.[lvi]

Como mencionado anteriormente, Emma Goldman, obviamente, reconheceu que, muito longe de serem exclusivos, os interesses do lobby das armas estão diretamente associados a outros interesses capitalistas. Para ilustrar essa compreensão, ela nos remete ao exemplo da Guerra Hispano-Americana ocorrida em 1898, supostamente um acontecimento grandioso e patriótico da história dos Estados Unidos – já que a motivação alegada, absolutamente altruísta, seria a de salvar os irmãos cubanos das atrocidades perpetradas pelos colonos espanhóis. Conforme relata, houve na época uma forte comoção pública entre os estadunidenses com a situação do povo cubano, de modo que os pedidos pela intervenção dos EUA, numa guerra que não era sua, partiram do próprio povo estadunidense. O ponto é que esse clamor público aparentemente internacionalista, a despeito da sua nobreza e sinceridade, não foi exatamente espontâneo, mas incitado sistematicamente, segundo a análise que oferece, pelos jornais sensacionalistas da época, o chamado yellow journalism.

Com o fim da guerra – que, bem-sucedida, culminou com a primeira vitória militar dos Estados Unidos sobre uma potência estrangeira, no caso a Espanha, e com a independência de Cuba – os seus objetivos nada nobres que estavam desde o início em jogo tornaram-se suficientemente evidentes; e isso, ao mesmo tempo em que os custos da guerra recaíram sobre o povo estadunidense no aumento do preço de mercadorias e aluguéis – então justificado pela guerra. Objetivos nada nobres, porque conforme aclarado pela anarquista: “a causa da guerra hispano-americano dizia respeito ao preço do açúcar; […] o sangue e o dinheiro do povo americano foram usados para proteger os interesses dos capitalistas americanos, então ameaçados pelo governo espanhol”. Prova disso, segundo nos conta, é que, “quando Cuba estava finalmente nas garras dos Estados Unidos, os mesmos soldados enviados para libertar Cuba receberam ordens para atirar em trabalhadores cubanos durante a grande greve nas fábricas de charutos, que teve lugar logo após a guerra”.[lvii]

Com esse mesmo objetivo de demonstrar que o militarismo atua como a parte sanguinária dos grandes interesses econômicos, para o que conta com a aprovação e o apoio do Estado e da imprensa (além da escola, igreja etc.), Emma Goldman também se referiu a conflitos então em curso no momento em que escrevia, como o apoio militar fornecido pelos EUA ao ditador mexicano Porfírio Diaz – que na sua repressão brutal a toda e qualquer oposição política interna, garantia a “estabilidade” do país para o investimento estrangeiro –, e à guerra russo-japonesa (1904-1905), que segundo a então recente denúncia de Aleksei Kuropatkin, o Ministro da Guerra da Rússia durante o período, foi deflagrada exclusivamente para assegurar os investimentos de aristocratas russos em concessões coreanas.[lviii]

Embora não desenvolva esse aspecto, Emma Goldman também faz alusão ao estágio em que as massas patriotas tomadas pela histeria de guerra, misturam a religião ao patriotismo e militarismo a ele acoplado, passando a entoar com louvor e fervor o “evangelho espinhoso e multifacetado: o evangelho da preparação militar”, a saber: “Munição! Munição! Ó, Senhor, tu que governas o céu e a terra, tu, ó Deus do amor, da misericórdia e da justiça, dai-nos munição suficiente para destruir o nosso inimigo”.[lix]

Como nós brasileiros defensores do Estado democrático de direito, estivemos nos últimos anos, civilmente, a testemunhar, o ódio e o antagonismo generalizados não só incrementam efetivamente a venda de equipamentos mortíferos, como são também capazes de converter num único evangelho um deus de misericórdia e os propósitos da indústria armamentista. Embora essa junção não seja uma novidade – vide o caso de Theodore Roosevelt e o Movimento de Preparação Militar no contexto da entrada dos EUA na Primeira Grande Guerra, aludido por Emma Goldman –, nem por isso torna menos premonitória a declaração de Bolsonaro, quando ainda presidente, de que “Jesus Cristo ‘não comprou pistola porque não tinha’ na época em que viveu”.[lx]

Note-se que para a disseminação desse “espírito dos tempos”, no nosso caso trajado em verde e amarelo – e que vem se manifestando entre os seus como o demônio chamado Legião –, o governo de Jair Bolsonaro investiu alguns bons milhões. Segundo levantamento da Agência Pública, por exemplo, “a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) gastou em campanhas veiculadas em rádios e TVs de líderes religiosos que apoiam Jair Bolsonaro”, em 2020, “mais de R$ 30 milhões”. “Na ocasião, os líderes se encontraram com Bolsonaro para ‘interceder pela nação e levantar um clamor pelo Brasil’, como afirmou Silas Malafaia, um dos organizadores do encontro”[lxi] (e isso para não mencionar, as negociatas em barras de ouros com pastores, intermediadas pelo ex-Ministro da Educação, e também pastor, Milton Ribeiro).

Nesse sentido, vale relembrarmos ainda do caso do pastor do Espírito Santo que tentou rifar uma espingarda calibre 12 para investir no “Ministério Infantil” (um estilo de justificativa da perversão, por assim dizer, bem a la a pastora e senadora Damares Alves);[lxii] ou das manifestações religiosas dos nossos patriotas, que possuídos pelo evangelho da preparação militar, passaram a rezar, sem necessidade de mediações, nos muros do exército[lxiii] e para caminhões e pneus, e que tornaram o hino nacional também uma espécie de reza;[lxiv] ou ainda, da perseguição política contra a esquerda operada nos interiores das igrejas, em especial evangélicas, no contexto das últimas eleições;[lxv] e por fim, para arrematar, dado que os exemplos são inúmeros, guardemos na memória, o curioso caso do indígena bolsonarista, cuja prisão teria sido o suposto estopim dos ataques terroristas do dia 12 de dezembro, e quem além de se apresentar como pastor e missionário (embora já tivesse sido preso por tráfico de drogas), era apoiador ferrenho do agronegócio (além de apoiado por ele), e nutre (ou nutria) como um dos seus maiores sonhos a construção de algo como “uma bomba atômica indígena”, o que, não tão alienadamente assim, ele delirava ser o único caminho capaz de tornar os indígenas banqueiros e bilionários.[lxvi]

Que, de outro lado, Tarcísio Freitas e o subestimado Eduardo Bolsonaro – apadrinhado por Trump[lxvii] e recentemente entrevistado pelo jornalista de estimação do bilionário Elon Musk, Tucker Carlson (quem semanas antes havia entrevistado ninguém menos que Putin)[lxviii] –, para mencionar apenas dois nomes, tenham relações diretas e públicas com o lobby armamentista PROARMAS[lxix], a versão brasileira da NRA (National Rifle Association)[lxx] é algo que deveríamos observar bem de perto, em vez de gastar o nosso tempo com o escrutínio das suas presumidas inclinações morais perversas. Afinal, conforme apontado pela Suma Sacerdotisa do Anarquismo há mais de cem anos: por detrás do Moloch da guerra e dos seus representantes, há o deus ainda mais feroz do Capitalismo e dos seus beneficiários.

Nesse sentido, observemos que não se trata de mera idiossincrasia delirante ou mau gosto extremo, mas, sim, de uma questão de método que o bilionário Donald Trump esteja vendendo como formar de angariar fundos para a sua pré-campanha à presidência aos Estados Unidos, uma “Bíblia Patriota”….[lxxi]

3.

De acordo com a genealogia apresentada por Emma Goldman, em 1910, no contexto imediatamente anterior à Primeira Grande Guerra, os mesmos métodos utilizados “pelos diplomatas e militares alemães para acoplar o militarismo prussiano às massas” estavam, naquele momento, sendo aplicados pelo “círculo militar americano” às suas próprias massas para nelas acoplar o “militarismo americano”. Ou seja, sob a escusa de “destruir” o militarismo prussiano ou alemão – com o qual, segundo se dizia, não poderia “haver paz ou progresso na Europa” – estavam sendo utilizadas em diferentes países, caso dos Estados Unidos, as mesmas técnicas para criar um militarismo semelhante em potência.[lxxii]

Como desenvolvido em “Patriotismo, militarismo e lobby das armas”, para essa militante anarquista, o poder dos slogans não pode ser subestimado no tocante à sua importância para a psicologia das massas.[lxxiii]

Uma das principais técnicas para tornar simbiótica a relação entre patriotismo e militarismo é, assim, identificada por Goldman ao analisar os slogans patriotas que então reverberavam nos Estados Unidos do seu tempo. E esse aspecto é ainda mais esclarecedor.

Goldman observa que os slogans patriotas ultrarreacionários que estava testemunhando ecoar nas massas estadunidenses da sua época não passavam de adaptações descaradas dos slogans utilizados pelos “diplomatas e militares alemães” – sob o fito de manipular a referida simbiose entre o patriotismo das massas e incremento do militarismo.[lxxiv] Caso do slogan estadunidense recentemente reavivado por ninguém menos do que Donald Trump: o America first (América, em primeiro lugar). É realmente surpreendente que esse slogan hiperpatriota estadunidense tenha a sua origem na Alemanha, e no contexto em que os EUA se preparavam militarmente justamente para combater os alemães! Vide nesse sentido, o excerto abaixo, retirado de “Preparação militar, o caminho para o massacre universal” de 1915, em que além da versão original do America first, Goldman também nos apresenta a origem de um outro slogan ultrarreacionário – a nós brasileiros bem conhecido, sendo este: “Brasil, acima de tudo”.

Há quarenta anos, a Alemanha apregoava o seguinte slogan: “Alemanha acima de tudo. Alemanha para os alemães, em primeiro lugar, por último e sempre. Nós queremos paz; portanto, devemos nos preparar para a guerra. Apenas uma nação bem armada e fortemente preparada pode garantir a paz, pode impor respeito, pode ter certeza de sua integridade nacional”. E, assim, a Alemanha continuou a se preparar, forçando, com isso, as outras nações a fazerem o mesmo.[lxxv]

Como foi bastante divulgado nas mídias, o principal slogan do governo Jair Bolsonaro, “Deus Pátria e Família” – agora recentemente reapropriado pelo supramencionado Tarcísio Freitas[lxxvi] – foi retirado ipsi litteris do movimento Ação Integralista Brasileira, criado na década de 1930, especialmente influenciado pelo fascismo italiano, e que nos seus tempos áureos chegou a ter mais de um milhão de membros.[lxxvii] Seja como for, para além dessa questão dos slogans, há evidência mais do que suficiente para comprovar a ligação direta de Jair Bolsonaro com a ideologia fascista e mesmo com grupos neonazistas.[lxxviii]

De tudo isso, porém, o ponto que nos cabe destacar é tão somente o truísmo de que, sob a perspectiva materialista apresentada por Emma Goldman, qualquer ideologia, longe de ser um fim em si mesmo, ou mero sintoma de uma coletividade de individualidades psiquicamente adoecidas, serve, via de regra, a interesses materiais de uma minoria bem restrita. Nesse amor das massas pelos valores e ideias patriotas (ou fascistas), não há nada de natural, como muito menos de essencial ou “platônico”; no frigir dos ovos, não passa de mero meio para um fim.

Os fenômenos psicológicos bizarros que marcam o bolsonarismo ou o trumpismo – e que no tocante à bizarrice não podem deixar de incluir a hipocrisia asquerosa encarnada no partido democrata dos EUA sob a figura decrépita e “teleprompterzada” de Biden –[lxxix] devem ser considerados, sob a perspectiva aqui apresentada, não a partir da vivissecção dos impulsos reprimidos supostamente desrecalcados (o que estaria mais para efeito do que causa). E sim, a partir dos métodos aplicados no passado que modernizados estão sendo reaplicados com eficácia semelhante na nossa atualidade sob um fim aparentemente semelhante, sendo este, ousaríamos intuir: a guerra perpétua que, neste nosso avançado da hora, parece abranger a guerra de espectro total e a guerra total.

Ou ainda conforme as palavras de ninguém menos do que Julian Assange, por certo muito mais bem fundamentadas do que as acima dispostas: “O objetivo é uma guerra sem fim, não uma guerra bem-sucedida”.[lxxx]

*Mariana Lins é professora de filosofia na Universidade Estadual do Ceará.

Para ler a primeira parte clique em https://aterraeredonda.com.br/patriotismo-militarismo-e-lobby-das-armas/

Notas


[i] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado. Tradução, introdução e notas Mariana Lins. São Paulo: Hedra, 2023, p. 79.

[ii] Idem, p. 91.

[iii] Idem, p. 71.

[iv] Sobre esse evento ver: https://aterraeredonda.com.br/primeiro-de-maio-2/

[v] Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/voltairine-de-cleyre-the-making-of-an-anarchist

[vi] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 83.

[vii] Idem, p. 86.

[viii] Idem, p. 67.

[ix] Idem.

[x] https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/05/29/forcas-armadas-lideram-ganho-salarial-na-decada.htm

[xi] https://www.estadao.com.br/politica/presenca-de-militares-em-cargos-de-confianca-cresce-193-no-governo-bolsonaro/

[xii] É no mínimo curioso comparar os ataques que Lula recebeu pelas suas declarações sobre o teto de gastos (sob a prioridade declarada de garantir os alimentos aos mais pobres) com essa benesse aos militares que ficou justamente conhecida como “teto do teto”, já que antes, “os valores de aposentadoria e o salário do cargo comissionado ou eletivo eram somados, e o que ultrapassasse o teto era cortado”. https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/05/29/forcas-armadas-lideram-ganho-salarial-na-decada.htm

[xiii] Braga Netto, inclusive, o nosso quase-futuro vice-presidente (por míseros 1.8% dos votos válidos), “recebeu R$ 926 mil em apenas dois meses de 2020, sem abatimento do teto constitucional. Só de férias, foram R$ 120 mil pagos ao general em um único mês”. https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/07/4939869-ramos-mourao-braga-netto-e-heleno-recebem-salario-de-mais-de-rs-100-mil.html.

[xiv] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60311732

[xv] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/02/defesa-assegura-investimento-maior-que-obras-educacao-e-saude.shtml

[xvi] https://www.brasildefato.com.br/2022/06/24/bolsonaro-destina-aos-militares-recursos-que-deixou-de-usar-no-bolsa-familia

[xvii] https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/11/5052474-mais-de-79-mil-militares-receberam-auxilio-emergencial-indevidamente.html

[xviii] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/exercito-multiplica-producao-de-cloroquina-por-12-vezes-em-2020/#:~:text=A%20produ%C3%A7%C3%A3o%20de%20compridos%20de,atender%20a%20demanda%20dos%20anos

[xix] https://www.metropoles.com/brasil/ministerio-da-defesa-gasta-835-do-seu-orcamento-com-pessoal

[xx] https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2024/04/01/aos-60-anos-do-golpe-mucio-diz-que-desta-vez-foram-as-forcas-armadas-que-evitaram-nova-ruptura-democratica.ghtml

[xxi] https://revistaforum.com.br/politica/2022/4/17/farra-dos-militares-uisque-picanha-bacalhau-viagra-fatura-por-nossa-conta-113084.html

[xxii] https://www.brasildefato.com.br/2022/04/27/exercito-contratou-banquetes-de-sushi-e-sashimi-para-cerimonias-militares-veja-fotos

[xxiii] “O principal motivo de insatisfação [dos praças] foram as mudanças no sistema de Previdência dos militares, efetivado em 2020 com aprovação da Lei 13.954/19, que privilegiou os oficiais e prejudicou os praças, especialmente os da Marinha e da Aeronáutica”. https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2022/05/07/descontentes-militares-de-baixa-patente-vao-as-urnas-contra-os-generais.htm

[xxiv] https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/05/29/forcas-armadas-lideram-ganho-salarial-na-decada.htm

[xxv] https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/bolsonaro-perde-apoio-entre-policiais-civis-e-federais-diz-pesquisa/

[xxvi] https://www.saopaulo.sp.gov.br/sala-de-imprensa/release/governador-sanciona-aumento-salarial-para-as-policias-de-sp/

[xxvii] https://www.metropoles.com/sao-paulo/tarcisio-poder-investigacao-pm

[xxviii] https://www.metropoles.com/sao-paulo/tarcisio-criara-policia-penal-que-pode-registrar-crime-em-presidio

[xxix] https://www.brasil247.com/entrevistas/o-que-tarcisio-esta-fazendo-ao-conceder-a-pm-o-direito-de-investigacao-e-um-projeto-de-poder-diz-lenio-streck

[xxx] https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/04/23/salarios-pm-bonus-tarcisio-sp.htm?utm_source=twitter&utm_medium=social-media&utm_campaign=noticias&utm_content=geral

[xxxi] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/03/04/mortes-cometidas-por-pms-sobem-94percent-no-1o-bimestre-de-2024-2o-ano-do-governo-tarcisio-em-sao-paulo.ghtml

[xxxii] https://ponte.org/sob-tarcisio-suicidio-de-pms-bate-recorde-em-sp-e-faz-duas-vezes-mais-vitimas-do-que-homicidios/

[xxxiii] https://cultura.uol.com.br/noticias/64392_gastos-militares-globais-ultrapassam-os-us-2-trilhoes-em-2023-e-batem-recorde-historico.html

[xxxiv] Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/04/25/gasto-militar-mundial-bate-recorde-e-supera-us-2-trilhoes-em-2021-aponta-relatorio

[xxxv] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 89.

[xxxvi] Idem, p. 54.

[xxxvii] https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2024/02/gestao-tarcisio-quer-criar-escolas-civico-militares-em-regioes-mais-pobres.shtml

[xxxviii] Sobre essa perspectiva em específico, ver: https://anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/emma-goldman-e-as-forcas-de-seguranca-publica

[xxxix] https://aterraeredonda.com.br/patriotismo-militarismo-e-lobby-das-armas/

[xl] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 54.

[xli] Idem, p. 69.

[xlii] Idem, p. 92-93.

[xliii] Idem, p. 65.

[xliv] https://x.com/BRICSinfo/status/1777909203107254750

[xlv] https://www.middleeastmonitor.com/20240426-bassem-youssef-slams-elon-musk-for-reposting-the-lies-of-mass-murderer-netanyahu/

[xlvi] https://x.com/elonmusk/status/1784428001024938421

[xlvii] https://www.reuters.com/world/putin-says-trump-prosecution-shows-us-system-is-rotten-2023-09-12/

[xlviii] https://www.reuters.com/world/putin-hails-elon-musk-an-outstanding-person-businessman-2023-09-12/

[xlix] https://theins.ru/news/249938

[l] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 64.

[li] Idem, p. 93.

[lii] Idem, p. 94.

[liii] Idem, p. 93

[liv] Idem, p. 94.

[lv] https://www.britannica.com/biography/Karl-Liebknecht

[lvi] https://www.britannica.com/topic/Krupp-AG

[lvii] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 70-71.

[lviii] Idem, p. 71.

[lix] Idem, p. 83.

[lx] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2022/06/15/bolsonaro-diz-que-jesus-cristo-nao-comprou-pistola-porque-nao-tinha.htm

[lxi] https://apublica.org/2020/06/governo-gastou-r-30-milhoes-em-radios-e-tvs-de-pastores-que-apoiam-bolsonaro/?utm_source=twitter&utm_medium=post&utm_campaign=secomigrejas

[lxii] https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2022/05/27/estamos-muito-orgulhosos-disso-diz-pastor-de-igreja-evangelica-que-rifou-espingarda-calibre-12-no-es.ghtml

[lxiii] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/08/bolsonaristas-ajoelham-e-oram-em-frente-ao-muro-do-exercito-no-rj-video.htm

[lxiv] https://www.opovo.com.br/eleicoes-2022/2022/11/03/bolsonaristas-cantam-hino-nacional-para-pneu-no-parana.html

[lxv] https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/10/18/eleicoes-2022-perseguicao-contra-cristaos-ja-comecou-no-brasil-so-que-dentro-da-igreja.ghtml

[lxvi] https://www.cartacapital.com.br/politica/pastor-xavante-preso-em-atos-terroristas-apoia-agro-e-sonha-com-bomba-atomica-indigena/

[lxvii] https://www.cartacapital.com.br/politica/na-vespera-de-ato-eduardo-bolsonaro-denuncia-abusos-do-judiciario-em-evento-com-trump-e-milei/   https://www.poder360.com.br/congresso/trump-recebe-eduardo-bolsonaro-e-mario-frias-para-jantar-na-florida/

[lxviii] Uma entrevista, vale acrescentar, bastante celebrada nas mídias de esquerda. https://www.brasil247.com/mundo/tucker-carlson-se-encanta-com-moscou-apos-entrevistar-vladimir-putin

[lxix] https://oantagonista.com.br/brasil/grupo-armamentista-elege-mais-de-30-candidatos-aos-legislativos/

[lxx] https://www.braziloffice.org/en/articles/how-the-national-rifle-association-nra-and-the-gun-industry-messed-up-democracy-in-brazil

[lxxi] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2024/03/27/trump-anuncia-biblia-por-r-300-deus-abencoe-os-eua.htm#:~:text=Trump%20anuncia%20venda%20de%20B%C3%ADblia,%3A%20’Deus%20aben%C3%A7oe%20os%20EUA’&text=O%20ex%2Dpresidente%20dos%20EUA,%22Deus%20Aben%C3%A7oe%20os%20EUA%22 .

[lxxii] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 86.

[lxxiii] https://aterraeredonda.com.br/patriotismo-militarismo-e-lobby-das-armas/

[lxxiv] Emma Goldman. O indivíduo, a sociedade e o Estado, op. cit., p. 85.

[lxxv] Ibidem.

[lxxvi] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2024/05/tarcisio-abraca-lema-ideologico-apos-ser-alcado-a-herdeiro-de-bolsonaro.shtml

[lxxvii] https://www.dw.com/pt-br/como-deus-p%C3%A1tria-e-fam%C3%ADlia-entrou-na-pol%C3%ADtica-do-brasil/a-63371501

[lxxviii] https://theintercept.com/2021/07/28/carta-bolsonaro-neonazismo/  https://congressoemfoco.uol.com.br/area/pais/onze-vezes-em-que-o-bolsonarismo-flertou-com-o-nazismo/

[lxxix] https://www.youtube.com/watch?v=d-EPhkbSY_E

[lxxx] Importante considerar que essa declaração de Assange, de 2011, foi dada no contexto da guerra do Afeganistão. Segundo Assange, a guerra do Afeganistão não visaria um fim – como a vitória sobre o terrorismo ou a pacificação dos radicais islâmicos –, pois seu objetivo real seria “lavar o dinheiro das bases fiscais dos EUA e da Europa através do Afeganistão e devolvê-lo às mãos de uma elite de segurança transnacional”. De todo modo, a generalização dessa declaração de Assange por nós acima proposta, está, em grande medida, alinhada à compreensão exposta por Brian Terrell, um dos coordenadores do Nevada Desert Experience, organização antinuclear iniciada como movimento contra os testes de armas nucleares nos EUA em meados da década de 1980. Em artigo publicado no jornal eletrônico LA Progressive, em setembro de 2021, logo após o anúncio de Biden do fim da guerra do Afeganistão, Terrell inicia declarando o seguinte: “Falando na Casa Branca em 31 de agosto, o presidente Joe Biden mentiu ao povo dos EUA e ao mundo: ‘Ontem à noite em Cabul, os Estados Unidos encerraram 20 anos de guerra no Afeganistão – a guerra mais longa da história americana’. A guerra dos EUA contra o Afeganistão não terminou – apenas se adaptou aos avanços tecnológicos e transformou-se numa guerra mais sustentável politicamente, mais intratável e mais facilmente exportável” [grifo nosso]. Terrell também se remete à declaração de Assange acima citada e, como nós, a compreende de modo geral e não circunscrito à guerra do Afeganistão. Ao contrário, a situa como comprovação factual do futuro distópico previsto por Orwell em 1984, “onde as guerras seriam travadas perpetuamente, sem intenção de serem vencidas ou resolvidas de qualquer forma” (https://www.laprogressive.com/war-and-peace/will-the-longest-war-ever-end )


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