Fragmentos XXIII

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Por AIRTON PASCHOA*

Quatro sonetos em prosa

1.

Poema não é conto de fada.
Desconhece castelo o mísero,
princesa… Para ser sincero,
se conto, de favas contadas.
Ei-lo, logo, condenado à real
(não de rei, mas de desencanto)
idade; não vale a pena, um conto
de réis, ou da carochinha… É, ao
que parece, e o tenha o bom Deus,
morreu mesmo; perdeu os sentidos
para sempre, eufemizam comovidos.
Encomendemos-lhe já a coroa! Eu
lamento, mas tenho bem pouco de suicida:
quem troca a sesta pela Bela Adormecida?

 

2.

Eia! quero eu também glosar o mote,
exibir em arte poética sã virtuose.
Apertem o cronômetro já! Não temo
escandir em versos o tempo. A sós e
a meia-voz, e a meia-luz do rito
e da torre, e a decorar o salão,
e fervoroso, sob pena de um tiro
nos cornos — não, no coração!
Mas deixemos este mote da vida,
matéria de soco, não de coturno.
Golias com um soco afunda Davi.
Cravo, Cavouco, Outono e Noturno.
Matéria de coturno, não de soco? Não é tragédia?
Não é matéria? Eia, do burro larguemos a rédea!

 

3.

Não, não escreverei aos pósteros.
Não vá a pena, tão graves! intrigá-los
(não, não vale a pena, nem a próspera,
que dirá a avara?) com briga de galos
ou de vizinhos… Ah que a fronte
de louros me enruga a quimera!
Que musa porém eleva o tom
ou a cabeça baixa a quireras?
Mais pio é desvestir o santo
logo; o ofício já não engana;
musas inspiram tanto quanto
uma novena e meia de bananas.
Demais, não é vão invocá-las às dúzias?
Cultivemos a estoutras, surdas, e musas!

 

4.

Sonetos? e elisabetanos? Por amor de…
Sem pés? Decerto por não fugir, lógico,
à Fama. De rimas esdrúxulas? Oh Lord!
um fidalgo perfeito, puro, nórdico…
Pudera jamais querer e quis tanto,
não fosse o temor do prélio físico,
propinar-lhe pneumotórax… tango!
Mas não parece de cá o vulgo tísico.
Coisa alguma aliás se nota promissora
a saudar nele, Paschoa, em quem talento
algum luz (a saldar nota promissória,
dizem, abunda). Escreva a seu talante,
pois, mais e mais, e pondo tudo na arca e em ordem,
que vamos lançá-lo – à cova primeiro, post mortem.
[Palavras do Editor]

*Airton Paschoa é escritor, autor, entre outros livros, de Banho-maria (e-galáxia, 2021, 2.ª edição, revista).

 

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