As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Frente ampla sem o proletariado?

Imagem_Elyeser Szturm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por Herick Argolo*

A história vai se acelerar e janelas se abrirão para nós, assim como para nossos inimigos. Mais uma vez, é o proletariado quem poderá jogar o papel decisivo na história

No meio da pandemia, o neofascismo está em ofensiva no Brasil. Uma das vias de avanço do fascismo, historicamente, é a transferência do exercício do poder de Estado do parlamento e do judiciário para instituições repressivas. A ela, dentre outras, Bolsonaro tem recorrido.

Já há um segmento social mobilizado em torno do fechamento do Congresso Nacional e do STF. Bolsonaro conta, ainda, com o exército, a marinha e a aeronáutica no seu governo. Tem uma ascendência muito grande sobre as polícias militares. E tem relações com o submundo das milícias. Recentemente, conseguiu tomar para si o controle da cúpula de um importante aparato repressivo, a polícia federal.

O pronunciamento recente de Rodrigo Maia sobre a necessidade de o congresso cuidar da economia e deixar o impeachment de lado, e a permanência de Guedes no governo, apesar dos rumores, indicam que Bolsonaro segue com forte apoio na grande burguesia. Ele se desfaz de ministros e aliados. Empurrado pelos conflitos, é verdade. Mas julgando-se forte o suficiente para formar um governo neofascista cada vez mais puro sangue, e seguir suas investidas.

Essa situação vai criando uma espécie de “duplo poder”, no qual o neofascismo avança na tomada do poder de Estado, mas não conta com forças suficientes para fechar o regime. Por outro lado, os demais representantes do grande capital não conseguem refrear Bolsonaro, justamente porque ele é bastante útil a parte expressiva desse mesmo grande capital. Daí o parlamento, o judiciário e os ideólogos tradicionais do grande capital terem que se restringir a pronunciamentos, notas de repúdio ou tweets contra Bolsonaro, mesmo com tantos crimes de responsabilidade seguidamente cometidos por ele.

Embora, no bojo da sua ofensiva, Bolsonaro venha perdendo apoio na alta classe média, vem ganhando apoio nas classes populares, principalmente entre os trabalhadores desempregados e precarizados. Esse é um fenômeno perigosíssimo, pois tem o potencial de garantir ao neofascismo a força necessária para avançar.

Por nossa vez, o distanciamento das organizações de esquerda do proletariado segue crescente. Recordemos que na própria luta conta o golpe não se pôde organizar uma grande greve sequer contra o impeachment. Isso num ano recordista em número de greves, com mais de 2.100 em todo o Brasil. Mesmo depois do golpe, só conseguimos uma mobilização proletária expressiva em abril de 2017, na greve geral contra a reforma da previdência. Mas ali os trabalhadores já estavam prestes a serem esmagados. E, diante do rolo compressor das medidas neoliberais do governo Temer, não foi possível prosseguir resistindo.

Todos esses fenômenos já estavam em curso antes pandemia, mas têm sido bastante acelerados por ela. Qual deve ser a estratégia da esquerda para vencermos o neofascismo? A forma fundamental de combatermos o neofascismo é impedirmos que avance sobre as classes populares e construirmos a resistência proletária.

Sobre as contradições que vem se manifestando entre o neofascismo e os velhos representantes burgueses, argui-se, não devemos sobre elas intervir? É óbvio que sim. Precisamos buscar explorar as divisões no seio do inimigo. É preciso nelas intervir, na medida do que nos for possível, contra o movimento neofascista, contra Bolsonaro.

Porém, isso não significa, de forma alguma, compor com os representantes tradicionais da burguesia uma “frente ampla”, como tem sido defendido. Para sermos sintéticos, constituir uma frente com esses significa, essencialmente, compartilharmos um mesmo programa com Dória, Rodrigo Maia, Rede Globo, Witzel, Sérgio Moro. Lembremos, em primeiro lugar, que esses eles têm compromisso algum com a democracia. E, em especial, não esqueçamos que eles também são apoiadores do programa ultraliberal que tem piorado drasticamente as condições de vida do povo. Formar uma frente com esses sujeitos não é concebível.

Porém, junto com eles, queremos sim atacar o neofascismo. Aqui se trata não de frente ampla, mas de unidade de ação. Que é pontual, circunstancial. Não estratégica. E da qual não podemos abrir mão.

Devemos exigir o isolamento social, que salva a vida dos trabalhadores, como tem feito Dória, por exemplo. Nos manifestemos em apoio a ele, sem hesitações, quando o faz. Mas devemos ir além. Denunciemos setores do grande capital, não essenciais, que se permite permanecerem abertos para salvar lucros em detrimento de vidas. Denunciemos, firmemente, as demissões e cortes de salário, que deveriam ser proibidos pelo governo. Ao tempo, diga-se, que precisava estar dando amparo econômico aos pequenos empresários, que são os que mais empregam. Pelo contrário, as demissões e cortes de salários são defendidos pelo governo e, também, pelos seus adversários dos velhos partidos burgueses. Enquanto isso, um gigantesco “amparo” econômico vai para os grandes bancos silenciosamente. Não deixemos de denunciar, em nenhum momento, que é por causa do projeto neoliberal, defendido por Dória inclusive, que atrofia o sistema público de saúde, que milhares de pessoas vão morrer sem um respirador na UTI.

O que as organizações de esquerda precisam não é da frente ampla que tem sido propagada. Simplesmente porque ela neutralizaria nossa capacidade de acumular forças no proletariado.

Construamos uma frente popular. Que não dispense a unidade de ação com representantes burgueses sempre que apropriado, sempre que isso signifique com eles convergir em ataques ao neofascismo. Mas conscientes de que não podemos e não devemos, por um minuto que seja, renunciar ao trabalho independente em matéria de educação e organização das massas.

O Dia do Trabalhador organizado hoje pelas centrais sindicais, com convites para FHC, Davi Alcolumbre, Rodrigo Maia, e outros, juntamente com representantes sociais-democratas da esquerda, não é um caminho capaz de nos levar à superação do neofascismo. 

Construamos a união da Frente Brasil Popular, da Frente Povo sem Medo e das Centrais Sindicais. Porém, esse é apenas o passo mais fácil. Isso não é, ainda, a frente popular antifascista que necessitamos para a vitória democrática e popular contra o neofascismo.

Precisaremos trabalhar para criar organismos da frente popular nas empresas, entre os desempregados, nos bairros populares, etc. O centro da nossa propaganda devem ser as categorias que se mostraram mais fortes e dinâmicas na greve geral de abril de 2017. E aquelas vinculadas ao grande capital que, não essenciais, permanecem funcionando. Ou as essenciais onde há cortes de salário, demissões, ou proteção insuficiente à saúde do trabalhador. Seremos bem-sucedidos na vitória contra o neofascismo se, e somente se, conseguirmos construir a força central dessa frente na base proletária. Ainda estamos muito limitados pelo isolamento social, mas teremos e criaremos oportunidades.

A história vai se acelerar e janelas se abrirão para nós, assim como para nossos inimigos. Mais uma vez, é o proletariado quem poderá jogar o papel decisivo na história. É indispensável, neste momento, que tenhamos uma vanguarda com um mínimo de unidade em torno de uma frente popular, com clareza do que está acontecendo e capaz de se reconectar ao proletariado. Esse é o caminho para virarmos o jogo.

*Herick Argolo é militante da Consulta Popular em Sergipe.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Lucas Fiaschetti Estevez Heraldo Campos Érico Andrade Luis Felipe Miguel André Márcio Neves Soares Andrew Korybko João Feres Júnior Gilberto Maringoni Luiz Carlos Bresser-Pereira Manchetômetro Chico Whitaker Leonardo Sacramento Alysson Leandro Mascaro José Costa Júnior João Paulo Ayub Fonseca Marilia Pacheco Fiorillo Tarso Genro Salem Nasser Caio Bugiato Remy José Fontana Paulo Sérgio Pinheiro Sergio Amadeu da Silveira Valério Arcary Renato Dagnino Gerson Almeida Samuel Kilsztajn Ari Marcelo Solon Eugênio Bucci Ronald León Núñez Osvaldo Coggiola Francisco Pereira de Farias Alexandre Aragão de Albuquerque Rafael R. Ioris Luiz Costa Lima Paulo Fernandes Silveira Anselm Jappe João Lanari Bo Liszt Vieira Afrânio Catani Fernando Nogueira da Costa Leonardo Boff Denilson Cordeiro Marcelo Guimarães Lima Alexandre de Freitas Barbosa Marjorie C. Marona Carlos Tautz Jean Pierre Chauvin Marcos Silva Mário Maestri Leda Maria Paulani Igor Felippe Santos Luiz Renato Martins João Sette Whitaker Ferreira Paulo Capel Narvai Eleonora Albano Luiz Eduardo Soares Annateresa Fabris Tales Ab'Sáber Flávio Aguiar Tadeu Valadares Armando Boito Benicio Viero Schmidt Ricardo Antunes Ronald Rocha Vladimir Safatle Dênis de Moraes João Carlos Salles Roberto Noritomi Yuri Martins-Fontes Bruno Fabricio Alcebino da Silva José Dirceu Manuel Domingos Neto José Raimundo Trindade Francisco Fernandes Ladeira Luís Fernando Vitagliano Roberto Bueno Otaviano Helene José Geraldo Couto Ricardo Musse José Machado Moita Neto Luiz Roberto Alves Rodrigo de Faria Alexandre de Lima Castro Tranjan Atilio A. Boron Milton Pinheiro André Singer Vanderlei Tenório Antonio Martins Bernardo Ricupero Carla Teixeira Airton Paschoa Vinício Carrilho Martinez Antonino Infranca Henry Burnett Daniel Costa Henri Acselrad Dennis Oliveira Sandra Bitencourt Ricardo Fabbrini Jorge Branco Marcus Ianoni Luiz Werneck Vianna Anderson Alves Esteves Slavoj Žižek Luiz Marques José Luís Fiori Michael Löwy Gabriel Cohn Antônio Sales Rios Neto Juarez Guimarães Rubens Pinto Lyra João Carlos Loebens Fernão Pessoa Ramos Jean Marc Von Der Weid Elias Jabbour Paulo Nogueira Batista Jr Gilberto Lopes Ladislau Dowbor Mariarosaria Fabris Lincoln Secco Celso Favaretto Walnice Nogueira Galvão Paulo Martins Plínio de Arruda Sampaio Jr. Chico Alencar Daniel Brazil Leonardo Avritzer Jorge Luiz Souto Maior Francisco de Oliveira Barros Júnior Celso Frederico Boaventura de Sousa Santos Julian Rodrigues João Adolfo Hansen Claudio Katz Fábio Konder Comparato Priscila Figueiredo Valerio Arcary Marilena Chauí Eugênio Trivinho Marcos Aurélio da Silva Daniel Afonso da Silva Lorenzo Vitral Thomas Piketty Everaldo de Oliveira Andrade Luiz Bernardo Pericás Marcelo Módolo Eduardo Borges Bento Prado Jr. Eleutério F. S. Prado José Micaelson Lacerda Morais Eliziário Andrade Kátia Gerab Baggio Berenice Bento Maria Rita Kehl Ricardo Abramovay Ronaldo Tadeu de Souza Michael Roberts Luciano Nascimento Flávio R. Kothe Bruno Machado

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada