Genivaldo na câmara de gás

Carlos Zilio, PRATO, 1971, tinta industrial sobre porcelana, ø 24cm

Por JOÃO FILHO*

Reflexões sobre o projeto de morte que asfixia o Brasil

Em 48 horas, a Polícia Rodoviária Federal, cujo objetivo é policiar e fiscalizar as rodovias federais, participou diretamente de 27 assassinatos. Só na Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, policiais rodoviários ajudaram a assassinar 26 pessoas, muitas delas sem nenhum envolvimento com crimes. Entre eles, um garoto de 16 anos, morto a facadas. Segundo uma apuração prévia feita por integrantes da OAB, há fortes indícios de tortura e execução. Não houve um confronto. Nenhum policial foi baleado. Houve um massacre.

Essa foi a segunda chacina mais letal da história do Rio, atrás apenas da ocorrida no Jacarezinho, no ano passado, quando ocorreram 27 assassinados nas mesmas condições. À época, o presidente da República aplaudiu o massacre e parabenizou os autores dos crimes — um claro sinal verde para os bandidos que vestem farda. Agora, no massacre da Vila Cruzeiro, ele parabenizou novamente a ação criminosa da polícia.

Além de ser parabenizado por Bolsonaro, o chefe do setor da PRF que comandou os crimes junto ao Bope foi promovido ao posto máximo da corporação, o que soou como uma premiação pelos serviços prestados. O presidente, que ostenta em seu currículo fortes ligações políticas e financeiras com as milícias do Rio de Janeiro, usa seu poder de influência entre os policiais para incentivar e legitimar suas ações criminosas. Em ambas as chacinas, as vítimas eram pretas e pobres.

No dia seguinte à chacina exaltada pelo presidente amigo das milícias, tivemos a 27a morte comandada por policiais rodoviários. Genivaldo de Jesus Santos, 38 anos, pai de dois filhos, foi brutalmente torturado e assassinado na frente de várias pessoas em Umbaúba, litoral de Sergipe.

As imagens registradas pelos celulares de quem estava lá não deixam dúvidas: Genivaldo, que era portador de esquizofrenia, estava sozinho, desarmado, sem nenhuma possibilidade de oferecer perigo a dois policiais armados. Mesmo alertados pelo sobrinho de Genivaldo que ele tinha problemas cardíacos, os criminosos da PRF iniciaram uma sessão de tortura em praça pública, aos olhos da população e das lentes de câmeras de celulares.

Sem o menor temor com as consequências, os criminosos colocaram a vítima no camburão da viatura, fecharam a porta e jogaram uma bomba de gás dentro. Transformaram uma viatura policial numa câmara de gás. Desesperado, Genivaldo balançou as pernas até ser asfixiado completamente. Virou mais um cadáver nas costas de uma polícia cuja função deveria ser fiscalizar o trânsito em rodovias federais.

Nos anos 90, o refrão de uma música de Marcelo Yuka, d’ O Rappa, dizia “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Depois dessa sessão de tortura sádica em Sergipe, poderíamos acrescentar que “todo camburão tem um pouco de Auschwitz”.

Não deveria ser necessário dizer que, mesmo se Genivaldo fosse um bandido com várias passagens pela polícia, ainda assim seria vítima de um crime. Qualquer assassinato cometido pela polícia que não seja em legítima defesa é crime, sem margem para discussão. Dessa vez, o presidente não parabenizou os policiais rodoviários criminosos, mas se calou e deu as costas para o caso ao viajar para Belo Horizonte para, entre outras coisas, fazer campanha eleitoral. Enquanto o país estava atordoado pelas imagens de um brasileiro agonizando na câmara de gás, um presidente sorridente fazia sua motociata.

Assim como as vítimas da chacina no Rio de Janeiro, Genivaldo também era preto e pobre, claro. Até porque, sabemos, um homem branco em cima de uma Harley Davidson seria tratado como um cidadão de bem. Vivemos no país em que o presidente comemora assassinato de inocentes e desumaniza pretos ao pesá-los em arrobas – a unidade de medida utilizada para pesar animais.

A vergonhosa nota emitida pela PRF mostra que esse tipo de abordagem do guarda da esquina está amparada pela corporação. Segundo o documento, Genivaldo “resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe da PRF” e, por causa de sua “agressividade”, foram empregadas “técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à delegacia da polícia civil da cidade”. A nota é mentirosa. Descaradamente mentirosa.

Foi emitida mesmo após o país ter assistido às imagens que contradizem absolutamente todas as informações contidas nela. O texto justifica a atuação dos bandidos de farda. Para a corporação, improvisar uma câmara de gás dentro do camburão de uma viatura é apenas um “instrumento de menor potencial ofensivo”. No país em que o presidente e o vice chamam um torturador do Estado de “herói”, é natural que um instrumento de tortura seja classificado como “menor potencial ofensivo”.

Depois da nota mentirosa, a PRF informou que afastou os militares e que abrirá um “processo disciplinar para elucidar os fatos”. É como se as câmeras tivessem registrado policiais cometendo uma infração leve como jogar lixo na rua.

Num país racista e cujo presidente foi eleito sob o lema do “bandido bom é bandido morto”, assassinatos de pretos rendem votos. Tanto Bolsonaro quanto o governador bolsonarista Cláudio Castro, ambos buscando a reeleição, aproveitaram a chacina em ano eleitoral para fidelizar a base eleitoral e atrair novos votos reacionários. Eles ignoraram as mortes de inocentes para passar a ideia de que são implacáveis contra o crime.

O governador carioca pode se orgulhar pelo fato que as duas maiores chacinas da história do estado ocorreram sob a sua gestão, que mal completou um ano de duração. Segundo um levantamento do Instituto Fogo Cruzado e do grupo de estudos sobre a violência da Universidade Federal Fluminense, o Geni, durante esse ano de gestão do governo bolsonarista foram registradas 182 mortes em 39 chacinas no estado do Rio de Janeiro.

Dissociar esses crimes cometidos pelo estado com a ascensão do bolsonarismo ao poder é impossível. Não que não houvesse abuso de violência policial antes de Bolsonaro. A cultura do ódio e a prática da necropolítica sempre estiveram entre nós. Mas agora os crimes cometidos por agentes públicos contam com a legitimação, o incentivo e a exaltação pública de um chefe de estado.

Negar o recrudescimento do abuso policial nos últimos anos como consequência direta do triunfo do bolsonarismo é tapar o sol com a peneira. A presença de um homem que exalta a violência, a tortura e que não costuma cumprir leis na presidência da República autoriza o guarda da esquina a agir acima da lei.

Hoje a cultura da morte é difundida a todo momento pelo presidente, seja negligenciando o combate à pandemia, seja exaltando publicamente chacinas cometidas por agentes do estado, seja pesando pretos em arrobas. O bolsonarismo virou sinônimo de desumanização. Genivaldo é mais uma vítima do bolsonarismo. Morreu asfixiado no país em que o presidente imita pessoas com Covid morrendo sufocadas.

*João Filho é cientista social e jornalista. Autor do Jornalismo Wando.

Publicado originalmente no site do The Intercept Brasil.