György Lukács e a revolução húngara dos conselhos

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Por ANTONINO INFRANCA*

Comissário da cultura na breve revolução húngara, Lukács defendeu Shakespeare e Goethe para os operários e aprendeu que reformas impostas de cima, sem reforma agrária, condenam qualquer conselho

A adesão de György Lukács ao Partido Comunista Húngaro (dezembro de 1918) foi seguida, quase imediatamente, pela Revolução dos Conselhos. Em 21 de março de 1919, o Partido Comunista Húngaro, na pessoa de seu secretário Béla Kun, declarou a República dos Conselhos. A hostilidade das potências da Entente e dos países limítrofes colocaram imediatamente em dificuldade a recém-nascida república, mas também as reformas impostas de cima, imitando as contemporâneas reformas da Rússia Soviética, sem levar em conta a situação concreta húngara – como advertia Lenin – fizeram perder o pouco consenso que a República dos Conselhos havia recebido da população.

Esse pouco consenso fora obtido pela recusa, por parte da República dos Conselhos, da perda de territórios, habitados parcialmente por húngaros, mas que haviam sido concedidos aos países limítrofes – sobretudo a Transilvânia à Romênia, mas também algumas zonas fronteiriças à Tchecoslováquia e a Voivodina à Iugoslávia. As poucas reformas sociais internas não conseguiram atrair o consenso popular, porque eram vistas como imposições de cima e não como conquistas vindas de baixo. Além disso, nunca foi realizada a reforma agrária. Em 1º de agosto, Budapeste foi conquistada pelas tropas romenas, que impuseram como ditador o almirante Miklos Horthy e puseram fim à breve vida da República dos Conselhos. György Lukács, como muitos dos líderes da República, foi obrigado a refugiar-se em Viena.

1.

Gostaria, aqui, de analisar mais detalhadamente os escritos de György Lukács do período da República dos Conselhos em seu conjunto. Nota-se imediatamente o entusiasmo, unido a algumas notas de misticismo revolucionário, com o qual Lukács participa da política da República. Ele ocupou o cargo de Comissário do Povo para a Cultura e a Educação, uma espécie de ministério. György Lukács está plenamente envolvido na ação política direta, e será a única ocasião de sua vida na qual desempenhará funções eminentemente políticas.

Vale a pena, portanto, analisar qual foi essa sua ação, quais projetos tentou realizar nos cem dias de existência da República dos Conselhos. Pela brevidade da existência da República dos Conselhos, os artigos de György Lukács frequentemente se tornam pura crônica da evolução dos acontecimentos revolucionários, dos problemas e das dificuldades a resolver, dos contrastes e das contradições a enfrentar, das orientações políticas a adotar.

Surge também o grande contraste que caracteriza a vida intelectual da Hungria do século XX, isto é, o contraste entre urbánosok contra népiek (urbanos e populares). Os primeiros eram pela modernização da Hungria e por sua orientação ao mundo ocidental e democrático, e estavam concentrados sobretudo na capital, Budapeste, geralmente eram bilíngues pelo uso do alemão e do húngaro; os segundos, por sua vez, eram pela tradição, pelo uso da língua húngara, pela manutenção da cultura da vida rural. György Lukács estava alinhado com os urbánosok, isto é, pela democratização da cultura e da sociedade húngara e, portanto, olhava também para a evolução revolucionária da Rússia soviética e da Alemanha do primeiro pós-guerra.

O que emerge imediatamente da leitura desses artigos é a desconfiança, que logo se converteu em hostilidade em relação ao Partido Socialdemocrata, o qual era, porém, naqueles meses, aliado do Partido Comunista, e juntos governavam a República dos Conselhos. György Lukács sempre acusou de oportunismo a política dos socialdemocratas, chegando ao ponto de sustentar que o Partido Comunista, antes do nascimento da República dos Conselhos, fora obrigado a realizar uma obra de difusão de ideias marginalmente e em oposição ao próprio Partido Socialdemocrata.

A consequência foi que o Partido Comunista não conseguiu chegar à burguesia e à pequena burguesia húngara. Lembremos que o próprio György Lukács era rebento de uma família da altíssima burguesia budapestina, demonstrando com sua experiência pessoal que, se o Partido Comunista tivesse sido capaz de fazer compreender a essa burguesia e à pequena burguesia budapestina que seu programa era inspirado nas tendências dos urbánosok, poderia ter recrutado membros nesses estratos sociais ou ao menos poderia ter atenuado a oposição de classe que encontrou. Junto à pequena burguesia da burocracia estatal, também os semi-intelectuais não foram atraídos pelo programa ideal do Partido Comunista.

2.

Deve-se destacar que, durante o período da República dos Conselhos, a reflexão de György Lukács se concentra obviamente no problema da luta de classes, que para ele põe em relação teoria e prática políticas. A luta de classes tem o objetivo de superar as diferenças de classe. Dado esse propósito, frequentemente a tática foi espontânea, porque as diferenças de classe e seus consequentes contrastes eram facilmente compreendidos pelo proletariado e a ação, nesses momentos de luta de classes espontânea, não foi guiada pela teoria.

Mas nesses momentos, o proletariado correu o risco de cair em erros que se deviam à sua consciência de classe ainda não completamente madura, aos seus instintos pequeno-burgueses. György Lukács, então, tira uma primeira conclusão da tomada do poder por parte do proletariado na República dos Conselhos: o proletariado “tem o poder supremo do Estado. Ele rompeu o quadro do Estado de classe. A tarefa do proletariado consiste em edificar o novo Estado, correspondente aos princípios do socialismo, e a nova sociedade”.[i]

Mas esta ainda não é uma vitória completa, porque falta o momento teórico que pode fundamentar tal ação, e György Lukács faz uma referência explícita ao marxismo como fundamento teórico da ação revolucionária e da edificação do socialismo: “Quem pensa assim abandona imediatamente o caminho retilíneo do marxismo, o único que conduz ao objetivo”[ii]. Lukács adverte que sem um fundamento na teoria revolucionária do marxismo, ou seja, sem uma realização completa da transformação das relações de produção, acaba-se no mesmo erro no qual haviam caído os socialdemocratas nas lutas parlamentares.

O antiparlamentarismo de György Lukács, portanto, nasce justamente no curso da Revolução dos Conselhos; logo, para ele, o soviete deve substituir o parlamento, e por essa sua posição será duramente condenado por Vladímir Lênin no ano seguinte. Para György Lukács não se pode construir o socialismo somente com uma maioria parlamentar; é necessária a tomada do poder estatal e sua utilização para superar as diferenças de classe. Tal superação, porém, só é possível quando a revolução proletária se tornar uma revolução mundial, porque “enquanto houver uma classe burguesa, haverá ainda uma luta de classes.

O internacionalismo proletário gera necessariamente o internacionalismo burguês”.[iii] Portanto, a vitória do proletariado húngaro não é um segundo momento, depois da Revolução de Outubro, para conduzir a luta de classes em nível mundial. As potências da Entente, após a derrota do imperialismo alemão, poderão concentrar-se contra as duas revoluções proletárias em curso, a russa e a húngara.

3.

György Lukács fixa alguns parâmetros para a ação revolucionária proletária: “A ação do proletariado segue, ao contrário, uma linha organizada, unitária e reta. Cada erro teórico teve até agora consequências funestas, e isso não deverá acontecer novamente no futuro” [iv]. A linha organizada se funda na autodisciplina das massas em sua totalidade, e a direção política se confia a “um homem em quem se encarna a vontade autêntica da totalidade”,[v] que deve conhecer os interesses do proletariado em seu conjunto e tenha a resolução para a ação que siga esses interesses. É claro que Lukács está se referindo a Vladímir Lênin, que conhecia bem os interesses do proletariado e o sucesso de sua ação revolucionária o confirma.

Naturalmente György Lukács, em 1919, não podia saber quão deletério se tornaria a confiança em um único homem na evolução da Revolução russa, após a morte de Lenin. Refiro-me a Joseph Stalin, que se aproveitou justamente da concepção de “um homem em quem se encarna a vontade autêntica da totalidade” para apossar-se do poder total na URSS. A evolução política subsequente do próprio György Lukács o levou a mudar de opinião sobre essa concepção política inicial, que era o sinal de uma maturação política incompleta.

No período da República dos Conselhos, György Lukács está concentrado na superação das divisões de classe, que surgem da organização da produção. Portanto, uma realização completa de uma sociedade comunista é a abolição das diferenças de classe, o que implica uma prévia transformação da estrutura econômica da produção, porque a posição de um ser humano dentro de uma sociedade civil é determinada pela sua posição no interior da ordem da produção. Esta é uma concepção que encontraremos mais ampliada em História e consciência de classe.[vi]

Naturalmente essa transformação não pode ser imediata, se não se quer instaurar um sistema terrorista – como aquele dos Khmer Vermelhos no Camboja –, mas deve ser o fruto de uma evolução, ainda que lenta, que deve envolver também uma mudança intelectual. A mudança da estrutura produtiva oferece somente uma possibilidade para uma ulterior mudança social e cultural. Na Hungria da República dos Conselhos, essa possibilidade de mudança econômica, social e cultural tornou-se uma possibilidade concreta, porque o proletariado tomou o poder político. György Lukács expressa com clareza qual é a condição que a tomada do poder político impõe ao proletariado: “O quadro, o livro, a escola não pertencem àqueles que deles têm a posse efetiva ou legal, mas àqueles que podem deles extrair o melhor proveito, a maior alegria, a maior educação. O fato de que os tesouros da arte, o teatro, as escolas etc. estejam nas mãos do proletariado não cria a possibilidade de uma nova cultura, a apropriação efetiva desta época ou todas as obras da cultura pertencerão ao patrimônio interior de todos os trabalhadores”[vii].

György Lukács adverte que também no campo da cultura a mudança não ocorrerá imediatamente, porque será preciso saber educar adultos que até aquele momento haviam sido excluídos da cultura, mas haviam sido limitados a uma instrução apenas fundamental. Além disso, dever-se-á superar também a nítida separação entre trabalho intelectual e trabalho manual.

4.

Como é sabido, György Lukács ocupou o cargo de Comissário para a cultura e a instrução no interior da República dos Conselhos. Então, é oportuno reler a declaração programática que publicou quando começou a ocupar esse cargo: “O Comissariado do Povo para a instrução não apoiará oficialmente a literatura de nenhuma escola de partido. O programa cultural comunista não distingue senão a boa e a má literatura e não tem a intenção de rejeitar Shakespeare ou Goethe porque não tenham sido escritores socialistas; não há nenhuma tendência, sob o título do socialismo, de abandonar a arte ao diletantismo. O programa cultural comunista é o de fazer chegar a arte mais elevada e mais pura ao proletariado […] A política não é senão um meio; o objetivo é a cultura. O Comissariado do Povo para a instrução apoiará tudo o que tenha um valor literário não falsificado. É mais que natural que ele apoie em primeiro lugar a arte que floresce no interior do proletariado, desde que esta seja arte. O Comissariado do Povo para a instrução não quer arte oficial e não quer, todavia, uma ditadura de uma arte partidária. O ponto de vista político permanecerá ainda por muito tempo um critério de escolha, mas não deve jamais ditar a orientação da produção literária. Pode ser somente um filtro, mas não a única fonte”.[viii]

Muitas polêmicas surgiram sobre a atuação de György Lukács como Comissário para a cultura, durante a República dos Conselhos. Aqueles que sustentam que Lukács realizou uma política cultural dogmática provavelmente não conhecem esta declaração, ou deveriam documentar quais foram as ações dogmáticas de György Lukács.

Deve-se distinguir da liberdade cultural o problema da liberdade de crítica interna ao movimento revolucionário, sobretudo no curso da própria revolução. György Lukács faz uma importante distinção: “Essa liberdade de crítica podemos exigi-la incondicionalmente, mas devemos protestar contra o fato de que seja autorizada uma crítica que estaria pronta, nas almas menos conscientes, para estimular sentimentos antirrevolucionários”.[ix] Por conseguinte, deve-se impedir que a potência intelectual da burguesia exerça livremente o seu poder; portanto, deve-se reforçar a ditadura do proletariado em defesa da revolução; pois sabe-se bem que a burguesia usa o seu poder econômico para dominar também no campo da cultura.

Não é mais uma questão cultural, mas é uma questão puramente política. Então, a tarefa a ser colocada como revolucionários é “a luta pela cultura, pela autoinstrução e pela educação deve ser posta no centro das preocupações e do trabalho dos jovens operários”. Agora, ao contrário, a cultura surge da própria sociedade civil, isto é, de baixo, e com a cultura também a economia é controlada pelos próprios trabalhadores.

5.

György Lukács se dirige aos jovens operários: “É também interesse de vocês que se unam à luta pela cultura, para que possamos criar e decidir o que resta daquilo que os séculos passados criaram, o que pode ser utilizado e o que é inutilizável. Pedimos a vocês que aprendam, que façam da instrução o objetivo principal da vida de vocês, que deem o seu valor a esta nova cultura, convidando-os a estudar para mudar a sociedade, porque a sociedade civil precisa da contribuição dos jovens”.[x]

György Lukács convida os jovens a se apropriarem da grande cultura burguesa, a fazê-la tornar-se um patrimônio cultural próprio, para depois passar à fase criativa de uma nova cultura. Deve-se observar que é uma orientação inteiramente em comum com aquela contemporânea de Antonio Gramsci. E como Gramsci, György Lukács convida os jovens operários a manterem-se distantes de qualquer compromisso.

György Lukács enfrenta também o problema da liberdade de imprensa, um problema sempre atual na sociedade burguesa, e recorda como os jornalistas são continuamente obrigados a prostituir sua capacidade de trabalho de acordo com as mudanças de opinião do grande capital.[xi] György Lukács chega mesmo a sustentar que o operário é menos alienado que o trabalhador intelectual, porque o primeiro vende sua força de trabalho, mas depois está livre da coerção quando está fora da produção, enquanto o segundo está tão submetido ao trabalho alienante da venda de sua força de trabalho intelectual que se torna incapaz de pensar livremente quando está livre da produção.

O trabalhador intelectual deve vender sua liberdade de opinião, sua honestidade moral à produção capitalista da mercadoria-imprensa; torna-se como uma prostituta, incapaz de amar por causa da venda de sua capacidade de amar. O Estado proletário deve lidar com essa forma de estranhamento, sem ilusões de restabelecer uma liberdade de imprensa à maneira burguesa, porque a imprensa burguesa está, por interesses de classe, mais próxima da contrarrevolução do que da revolução e, portanto, está pronta para passar da apologia da revolução, quando esta está no poder, ao apoio à contrarrevolução, quando esta tem alguma possibilidade de vitória.

O proletariado húngaro, por conseguinte, não pode conceder liberdade à imprensa burguesa em meio à luta revolucionária. Logo, não é um problema de democracia ou de liberdade em sentido elevado, mas de prática política contingente, ou seja, determinada pela luta política imediata e em curso.

6.

Nesses primeiros meses da reflexão marxista de György Lukács, surge com força a questão da totalidade. A revolução proletária produzirá uma nova totalidade, isto é, o proletariado mundial, que tomará o poder em decorrência da revolução mundial, na qual grupos e indivíduos poderão plenamente realizar seus propósitos e sua vida. Porém, o surgimento dessa nova totalidade requer o que György Lukács chama de um “autossacrifício”, quer dizer, um abdicar dos próprios interesses individuais ou de grupo.

A nova totalidade requer uma tomada de consciência dos interesses globais da totalidade social e, ao mesmo tempo, a conversão dos próprios interesses individuais naqueles da totalidade social; e se tal conversão não for possível, então os próprios interesses individuais devem ser sacrificados, de modo que esse sacrifício permita participar da causa comum do proletariado mundial. Esse sacrifício cria uma situação de vantagem: “A autenticidade de todas as forças é determinada pelo seu grau de disposição ao sacrifício. Aquele que está pronto ao sacrifício é invencível”.[xii]

Há um obstáculo a superar, isto é, “a predominância dos interesses imediatos sobre o objetivo final, a predominância do egoísmo sobre a solidariedade”;[xiii] ou seja, superar essa predominância e depois unir os interesses do proletariado húngaro à luta do proletariado mundial – na prática, ao proletariado russo – pela emancipação do proletariado mundial inteiro em sua totalidade. György Lukács indica nessa passagem dos interesses imediatos e instantâneos à ação final de emancipação total. Lukács, com tons quase místicos, leva adiante a proposta de uma nova moral, que é uma nova moral revolucionária.

Observe-se a ausência de um papel do Partido Comunista nesse envolvimento do indivíduo na totalidade. O papel do Partido aparecerá mais adiante. Note-se também que Lukács não impõe limites à participação dos indivíduos na totalidade, quer dizer, não limita essa participação somente aos operários ou aos trabalhadores em geral, provavelmente querendo reportar sua própria experiência pessoal, filho de uma família da alta burguesia budapestina, que milita no movimento comunista húngaro.

A menos de um mês do nascimento da República dos Conselhos, iniciou-se a ação militar contrarrevolucionária a partir da intervenção romena. György Lukács, diante desse perigo, lança um apelo pela unidade autêntica em defesa da República. Por “unidade autêntica” György Lukács quer dizer que se devem superar as diferenças entre comunistas e socialdemocratas, que evidentemente eram por ele vistas como um limite da ação revolucionária. Lukács reconhece que, aproveitando-se da fraqueza da burguesia húngara, a revolução tomou mais facilmente o poder, em comparação ao que ocorrera na Rússia.[xiv] Agora que a contrarrevolução agride do exterior a República dos Conselhos, é oportuno estreitar ainda mais a unidade interna, isto é, uma fusão entre Partido Comunista e Partido Socialdemocrata, e pedir ao proletariado aquele autossacrifício que a fácil vitória de 21 de março não havia exigido.

Para György Lukács, chegou o momento da verdade, tanto da disponibilidade do proletariado húngaro para lutar pela própria revolução, quanto de suas próprias teorias, reportadas acima, que agora perdem de repente aquele sopro místico para se tornarem palavras de ordem para uma ação prática imediata.

Com a queda da República dos Conselhos, em 1º de agosto de 1919, György Lukács permaneceu ainda na Hungria por alguns meses para conduzir uma luta clandestina. Mas a periculosidade dessa situação era tal – dado que havia sido condenado à morte pelo governo fascista de Miklos Horthy – que foi obrigado a refugiar-se em Viena. Continuou sua luta política, mas não mais diretamente na pátria, e sim por meio de jornais, revistas e várias publicações, analisando a situação política da Hungria e da Europa, em um período no qual surgiam outros focos revolucionários, ou então por meio de análises de obras que pudessem ter sempre um retorno político.

Em Viena, em um clima já não mais de política imediata e, portanto, mais tranquilo e relaxado, György Lukács pode analisar a experiência da República dos Conselhos e indica algumas das causas de sua derrota: “Para que a revolução tivesse êxito, a única coisa necessária era, então, que o proletariado superasse o seu passado socialdemocrata, com todos os seus erros, a incapacidade de adaptar-se à atualidade, suas hesitações e covardias pequeno-burguesas, sua contaminação com o nacionalismo”[xv]. Os comunistas erraram também quando “acreditavam que a reeducação do mundo operário da socialdemocracia ao comunismo podia ser o resultado da simples propaganda e da agitação. Isso se revelou impossível”.[xvi]

Em suma, um pequeno país como a Hungria, que fala uma língua raríssima, quase única e cercada por populações de línguas eslava ou alemã, caiu mais uma vez na armadilha do nacionalismo. György Lukács parece ter compreendido que mais uma vez a cultura dos nepiek (populares), com suas tradições agrícolas e conservadoras, havia prevalecido sobre os urbánosok (urbanos) que apostavam na modernidade, ainda que fosse o comunismo.

*Antonino Infranca é doutor em filosofia pela Academia Húngara de Ciências. Autor, entre outros livros, de Trabalho, indivíduo, história – o conceito de trabalho em Lukács (Boitempo). [https://amzn.to/3TZgN8E]

Tradução: Juliana Hass.

Notas


[i] G. Lukács. “La tattica del proletariato vittorioso”. In: Antonino Infranca (a cura di). Scritti rivoluzionari, 1919-1921. Milano: Punto Rosso, 2025, p. 23.

[ii] Ibidem.

[iii] Ivi, p. 24.

[iv] G. Lukács. “Che cos’è il comportamento rivoluzionario?”. In: Antonino Infranca (a cura di). Scritti rivoluzionari. 1919-1921, cit., p. 28.

[v] Ibidem.

[vi] História de consciência de classe.

[vii] G. Lukács. “L’appropriazione effettiva della cultura”. In: Antonino Infranca (a cura di). Scritti rivoluzionari 1919-1921, cit., p. 33.

[viii] G. Lukács. “Una controversia culturale”. In: Id. Scritti rivoluzionari, cit., p. 27.

[ix] G. Lukács. “Discorso del secondo giorno del Congresso nazionale del partito”, in Id., Scritti rivoluzionari, cit., p. 41.

[x] G. Lukács. “Discorso al Congresso della gioventù operaia”. In: Id., Scritti rivoluzionari, cit., p. 43.

[xi] G. Lukács. “Libertà di stampa e capitalismo”. In: Id., Scritti rivoluzionari, cit., pp. 46-47.

[xii] G. Lukács. “L’appropriazione effettiva della cultura”, cit. p. 30.

[xiii] G. Lukács. “Le fasi dell’autocoscienza proletaria”: In: Id., Scritti rivoluzionari, cit., p. 38.

[xiv] G. Lukács. “Discorso del secondo giorno del Congresso nazionale del partito”, cit., p. 41.

[xv] G. Lukács. “Perché la dittatura del proletariato in Ungheria non è stata distrutta?”. In: Id., Scritti rivoluzionari, cit., p. 55.

[xvi] Ibidem.

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