História da União Soviética

Mira Schendel, 1962, Reprodução fotográfica Thomas R. DuBrock

Por MARISA MIDORI DEAECTO*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Lincoln Secco.

“A luta de classes é a chave histórica para se entender o fim do socialismo real” (Lincoln Secco).

Em Praga, livrarias e antikvariáty perfazem uma totalidade tão harmoniosa com a paisagem urbana, que as vitrines dos livros parecem prolongar as inscrições monumentais espalhadas pela cidade. Atravesso uma dessas portas de vidro, surpreendida por uma imagem de Paulo Coelho, embora meu interesse seja bem diverso. Arrisco em inglês um pedido: o Manifesto Comunista, de Marx e Engels. O olhar vago da jovem atendente é intimidador, mas não desisto: Das kommunistische Manifest, Marx und Engels? Não, não há! Tento desviar minha atenção noutros volumes, mas é a apatia da vendedora que me detém. Na República Tcheca as obras de Marx e Engels não são editadas desde a revolução, explica-me, mais tarde, uma funcionária da Biblioteca Nacional.

Desde 1989, os países do Leste parecem exorcizar a experiência comunista. Na Bohemia, propriedades e bibliotecas, testemunhas vivas de um passado aristocrático, são reclamadas por seus descendentes. A sombra de Ceauşescu sobrevive no palácio monumental que ele fez erigir no centro de Bucareste, enquanto uma fina camada de antigos funcionários zela silenciosamente por repartições que se tornaram arcaicas. Na Hungria, a bela capital erguida às margens do Danúbio faz renascer o sonho de um império Magyar prenhe de seu povo, orgulhosode suas façanhas pretéritas, móvel perpétuo de um nacionalismo ultraconservador, entranhado e revigorado pelo primeiro-ministro Viktor Orbán. A velha confederação alemã perfaz hoje um Estado forte e vicejante na nova e já bastante desgastada zona do euro, “Do Maas ao Memel/Do Etsch ao Belt”, como reza seu hino.

Assim Iugoslávia, Polônia, Albânia, Bulgária, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha, todos esses países, alguns totalmente desfeitos, “varreram o socialismo” nas revoluções de 1989, cada qual expondo suas singularidades históricas, os caminhos e os limites daquela ruptura. E, como observa Lincoln Secco, “logo se iniciou o debate se 1989 era uma revolução ou contrarrevolução”. Ao que completa: “em 1968, tratava-se de reformar o socialismo; em 1989, de aboli-lo” (p. 103). Em 1991, a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas demarcava o fim de uma era. E, todavia, a humanidade não se tornou mais feliz por isso. Mas ela o deveria ser?

O colapso da União Soviética e de todo o mundo que se movia em sua órbita se encontra no cerne das questões propostas por Lincoln Secco, em seu mais recente livro. Escrita militante, fruto das leituras acumuladas por um jovem andarilho dos sebos da cidade – fato que se expressa na ampla (e pouco ortodoxa) bibliografia compulsada –, da vivência em sala de aula, mas também das débâcles experimentadas na vida política História da União Soviética é um livro sem roupagem acadêmica, redigido em primeira pessoa (quando a situação o permite) e destinado aos jovens de todas as idades, interessados em compreender o nosso tempo a partir da mais longeva e sólida experiência comunista.

A narrativa foi estruturada a partir de grandes temas que obedecem à ordem cronológica dos fatos, embora não sejam raras as digressões, em que o presente, ou passado mais recente, se justapõe a um evento mais distante. Os primeiros capítulos são dedicados às origens da União Soviética, logo, às revoluções que pautaram o ano de 1917, à guerra civil que se estendeu até 1921, quando “a formação de repúblicas soviéticas de adesão livre e voluntária”, segundo proposta de Lênin, na Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, de 1918, tornou-se uma realidade. Porém, sob o controle do partido bolchevique, seguindo uma tendência centralizadora– e de inspiração jacobina – que se mantém até o fim.

O culto à personalidade, antes, o debate sobre a questão do indivíduo diante dos movimentos da história, parece incontornável, e o autor deve revisitá-lo em diversos momentos. Acerca de Lênin, reafirma-se sua imprescindibilidade no rumo dos acontecimentos, quando se recupera o desembarque emblemático na estação Finlândia e sua liderança na revolução bolchevique.

Sobre Lênin e o leninismo, a fortuna que cerca o personagem e o conceito se cristalizou sob a marca de uma teoria marxista que abraçou a revolução proletária. Todavia, lembremos que, ainda ontem (2015), a memória do grande líder foi objeto de uma disputa insólita que se travou na Alemanha, sobre a pertinência (ou não) de desenterrar a cabeça de sua estátua colossal para a exposição “Revelados: Berlim e seus Monumentos”, inaugurada no ano seguinte.

A figura de Stalin é mais complexa e propensa às contradições, tanto do personagem, quanto do historiador que se coloca diante da difícil tarefa de a recompor.

No capítulo destinado à disputa pelo poder, após a morte de Lênin, o autor apresenta os principais postulantes ao posto de dirigente do partido, à luz de suas origens sociais: “Trotsky era filho de fazendeiros, Zinoviev, de um produtor de leite, Kamenev, de um construtor de ferrovias e Bukharin, de um casal de fazendeiros […] com exceção de Stalin, todos eles tiveram educação universitária” (p. 38). Malgré tout, Stalin se tornou o estadista temido por todos – para se ter dimensão deste aspecto, basta a leitura da entrevista que ele concedeu a Emil Ludwig – e a maior liderança mundial após a Segunda Guerra.

Sabemos, todavia, que Stalin foi julgado e condenado após sua morte (1953), quando Kruschev tornou públicas as perseguições, os expurgos e os assassinatos que praticou contra seus opositores. Mas, nesse ponto, o leitor deve dirigir sua atenção para os diferentes prismas e vozes (Hobsbawm, Althusseur, Lukács, Togliatti…) de que lança mão o autor para avaliar o stalinismo, um regime que, nas palavras de Jacob Gorender, matou mais comunistas do que o próprio capitalismo.

Com efeito, a segunda parte do livro se destina ao declínio do mundo soviético a partir da publicação do Relatório Kruschev, em 1956. A questão é avaliada “retrospectivamente” como um “erro geopolítico” (em 2005, observa o autor, Putin fará a mesma análise): “sem Stalin e o Komintern e sob a Guerra Fria, uma liderança coletiva seria a única possível, mas a crítica pública ao stalinismo só enfraqueceu a unidade comunista internacional. Hungria e Polônia enfrentaram revoltas já em 1956. China (1961), Albânia e Romênia se afastaram de Moscou. O Kominform foi extinto em 1956” (p. 68). A partir desse ponto, os fatos se precipitam para o século atual, e o debate parece se aproximar mais da Glasnost (abertura) do que do sentido que Lincoln Secco pretende imprimir à revolução bolchevique, para a qual toma como paradigma a Revolução Francesa e os jacobinos, com seus múltiplos desdobramentos, particularmente, em 1848 e 1870.

Tal perspectiva tem uma razão de ser: a desestalinização ocorreu na conjuntura de maior prosperidade dos partidos comunistas na Europa e, como lembra Secco, na América Latina. A Revolução de 1917 havia atingido todas as estruturas sociais, da mais elementar, ou seja, das estruturas que movem a vida cotidiana e suas bases materiais, até as estruturas do pensamento. E esta mudança não se operou apenas na União Soviética, mas em todo o bloco socialista. Na verdade, ela tangenciou o debate político internacional.

O autor ainda nota que a ruptura provocada por Kruschevno XX Congresso do PCUS, com seus desdobramentos de curto e médio prazos no bloco socialista, atingiu igualmente os países capitalistas, de modo que “a esperança no futuro se tornou o pesadelo do século XXI. Os partidos de esquerda de massas, sindicatos estabelecidos e uma classe trabalhadora autoconfiante declinaram. Movimentos fascistas retornaram e o neoliberalismo atacou o Estado de bem-estar social” (p. 73).

Para definir, em poucas palavras, História da União Soviética, mais vale a expressão tomada a Lucien Febvre: história, ciência do presente. Braudelianamente, Lincoln Secco nos convida a olhar a experiência soviética em diferentes temporalidades e espacialidades. Camadas profundas emergem no tempo nervoso da Revolução, porém, rupturas e permanências fazem mover o solo histórico no curto século XX. O olhar do historiador é o ponto de fuga no escrito que ora se apresenta.

À guisa de “Prefácio”, pois certamente se trata de uma introdução do autor, são explicitadas as intenções do livro:um estudo de síntese, “obra de um não especialista”, escrita, todavia, por um pesquisador dotado de conhecimento enciclopédico sobre o tema. No capítulo conclusivo, o historiador coloca à prova seu ofício: a escrita da História da União Soviética representa, sim, um ato político.

Também a natureza da edição diz muito das escolhas do autor e merece algumas palavras. Publicado pela editora Maria Antonia, que traz na sua logomarca a imagem provocante de um homem armado, tendo a seus pés um maço de livros, o escrito bem se apresenta como inspiração intelectual, pelas questões que levanta, mas também como arma contra o apagamento da história.

E se a forma do livro pode dizer tanto quanto o seu conteúdo, não é demasiado observar que a edição foi totalmente preparada por jovens marxistas agremiados que têm em Lincoln Secco uma liderança. De todo esse esforço a um só tempo político, intelectual e militante, a leitora apenas ressente a ausência de referências bibliográficas completas nas notas de rodapé, as quais bem fariam jus não apenas à riqueza das leituras e lutas travadas pelo autor, mas também ao amor que ele jamais renunciou aos livros.

*Marisa Midori Deaecto é professora do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Império dos Livros: Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista (Edusp).

Referência


Lincoln Secco. História da União Soviética. São Paulo, Editora Maria Antonia, 2020.