Infinitas faces – a construção do ator

Marcelo Guimarães Lima, SYMPLOKE, digital drawing, 2023
image_pdf

Por EDUARDO SINKEVISQUE*

Comentário sobre o livro de Thalma Bertozzi e Roberto Cordovani

Quem assistiu a espetáculos teatrais de Roberto Cordovani já sabe que ele, para além de atuar, escreve e dirige muitos, se não a maioria de seus trabalhos.

Durante o auge da pandemia de COVID-19, Roberto Cordovani foi entrevistado por Thalma Bertozzi e elaboraram o livro Infinitas faces – a construção do ator, uma espécie de biografia, e de biografia artística mesclada com alguns conselhos a atores sejam iniciantes, sejam tarimbados.

No livro de Roberto Cordovani, há também ganchos, links, em que a entrevistadora (e redatora do texto final) tece paralelos entre a vida artística de Cordovani com a sua. Ou seja, há um texto como sendo uma segunda voz, um canto paralelo ao canto principal, ao canto do artista em questão. Não me atenho nessa segunda voz, mas é preciso destacar que a linguagem que Thalma Bertozzi imprime no livro é de grande fluidez e clareza (qualidade estilística), não deixando nada ambíguo ou de difícil compreensão.

Aprecio uma frase que Roberto me contou que sua mãe proferiu ao Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, como resposta se ela se orgulhava do filho premiadíssimo.

Roberto me disse que a mãe respondeu: “sim, mas sempre de saia”. O tom de fala foi o de uma espécie de fazer o quê? Uma espécie de resignação.

Roberto Cordovani não está em cena sempre de saia. Fez e faz vários espetáculos em que atua dando vida à personae femininas, mulheres incríveis, fortes, marcantes, importantes, como a governanta em Amar Verbo Intransitivo (que adaptou e também dirigiu para o teatro), Greta Garbo, Eva Perón (peças que escreveu e também dirigiu) etc.

Mas, personae masculinas como em o Clube do Gelo (que também dirigiu) ou no mais recente Morte em Veneza, que assina, em parceria com Vinícius Coimbra, a adaptação para o teatro. Nesse espetáculo ele faz o papel do escritor em férias que se apaixona por um jovem belíssimo. Isso, para não nos esquecermos do vilão da novela das seis, da Rede Globo de Televisão, Sebastião Quirino.

Nem sempre de saia, Roberto mostra em seu livro a versatilidade que vive no palco e fora dele como produtor, autor, diretor etc.

Fica evidente também em Infinitas faces – a construção do ator que a observação e a auto-observação são mais que atitudes produtivas para a arte de Cordovani, são postulados de vida e profissão, sendo o maior tesouro que o relato do livro pode deixar a seus leitores junto com o “ouvir o outro”.

Mais que um método de trabalho, a observação é um modo de viver de Roberto. Daí eu destacar isso como condensação de virtudes.

Em Infinitas faces – a construção do ator se encontram narrativas de circunstâncias familiares, como em qualquer biografia. Relatos do início da vida de Roberto, início dos trabalhos em arte, particularmente artes cênicas, causos e supostas razões que levaram Cordovani a ser ator, assim como a ascensão de sua carreira, sua transferência para Europa, volta ao Brasil, suas parcerias, colaboradores.

Outro aspecto típico de biografias é o caráter exemplar da narrativa. Neste sentido, o livro de Cordovani, a voz dele emanada no livro, pode servir como exemplo para outros profissionais, amadores, ou apenas interessados.

O principal conselho do (e no livro) talvez seja o que Roberto dá sobre o ator aprender a ser produtor teatral, ser realizador e viabilizador de seu trabalho, não esperar por convites para atuação.

No livro de Roberto Cordovani, vemos um garoto diferente, um adulto diferente, um ator singular, um ser maduro raro. Versátil? Penso que o qualificativo versátil não dá conta da complexidade e da completude da persona e do artista Roberto Cordovani.

Ele está em Infinitas Faces como um ator mais do que ator. Um artista completo, um artista pleno, povoado de grandes artistas, grandes textos, grandes obras, nem sempre de saia, mergulhado sempre na alma dele e das pessoas.

*Eduardo Sinkevisque é pós-doutor em teoria literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Referência

Roberto Cordovani e Thalma Bertozzi. Infinitas faces – a construção do ator. São Paulo, Magis, 2021.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES