Jonathas de Andrade

Imagem: Jonathas de Andrade
image_pdf

Por PEDRO PENNYCOOK*

Considerações sobre a exposição “Na cidade da ressaca”

Certa vez, John Cage afirmou que muito do que compreendemos por arte poderia ser resumido a uma maneira peculiar de estar no tempo e no espaço. Peculiaridade essa que encontraria seus primeiros estímulos no modo como sons e imagens circulam em nosso ambiente, configurando uma rede sensorial desde a qual a arte possa surgir. Se essa me parece uma maneira sugestiva de iniciar, é porque um dos principais temas aos quais Jonathas de Andrade se dedica nos remete à sua cidade. Podemos mesmo dizer que sua mais recente individual gira, quase por inteira, em torno do Recife. Senão como elogio a ele, ao menos como memorial de suas ambivalências.

O artista nos ensina que devemos compreender uma cidade para além de seu mapeamento geográfico. Ela compõe-se também enquanto imaginário pulsional, determinando nossos modos de relação a nós e ao outro. Ao longo das obras, Andrade questiona os modos como a capital pernambucana é habitada, problematizando o tempo e espaço ao qual nosso imaginário urbano encontra-se aprisionado. Como se circunscrevem seus tempos, como se confundem seus espaços, que afetos circulam e quais subjetividades prescreve?

[i]

Educação para Adultos responde a perguntas como essas ao oferecer um dicionário afetivo do imaginário recifense. Composta de dezenas de cartazes, a obra subverte o método freireano de alfabetização, onde o letramento advém da inserção em objetos e cenários cotidianos aos alunos. Quando nos voltamos a cartazes como ‘progresso’, no entanto, vemos uma socialização cindida, onde a realidade local parece ser capturada por um vocabulário que lhe é alheio.

Antes de um engano, o aparente choque semântico incide do aprisionamento a uma gramática social que só reconhece como progresso a homogeneização da paisagem; ela vocaliza uma forma de vida cujas contradições já se converteram em ‘verdade’, sendo negadas até mesmo nossa capacidade para a estranhar. Contrapostos vocabulário e imaginário, somos indagados a nos perguntar a quem tal progresso estaria a serviço, deslocando sua naturalidade e invocando outro modo de habitar o tempo e preencher o espaço.

Nos enganaríamos caso reduzíssemos sua ‘verdade’ ao contexto recifense, todavia. De maneira mais decisiva, por mais evidente que seja a atenção de Jonathas de Andrade aos detalhes cotidianos do Recife, pouco há ali de regionalismo. Se há territorialidade, ela aparece pela negativa: presença da ausência de algo que jamais se concretizou. Por um lado, ausência que se faz tão presente quanto nas outras milhares de cidades do sul global ao qual alude, reunidas pela marca bruta de um passado entremeado à força a uma figura homogeneizada de universalismo. Por outro, presença que aprisiona o tempo-espaço da cidade e a espolia de sua territorialidade.

Mas porque não há ode ao particular, sua cartografia do Recife aponta para problemas presentes em praticamente todas as nossas grandes capitais. Ela se torna denúncia do projeto falido de modernização ao qual nos assujeitamos e do qual o Recife tornou-se exemplo. Ao longo de obras como projeto de abertura de uma casa (2009) e Recenseamento moral da cidade do recife (2008), mesmo as particularidades da cidade coreografam um esquecimento, uma cidadania universal que só pôde ser alcançada sob o preço de se tornar falsa.

Na primeira, encontramos montada a maquete de uma casa abandonada. Tomada pela vegetação e consagrada com os detalhes de sua ruína, a casa parece dar o tom da materialidade insólita de uma cidadania interdita. Seus escombros recolocam no mapa urbano do Recife o questionamento pela moradia digna, pondo em xeque a cada vez maior verticalização e privatização de seus espaços. Fazer dos escombros uma maquete é também uma maneira de denunciar como as contradições que marcam a cidade efetivam-na projeto ideológico. Projeto que insiste como, até mesmo o que aparece como mero entulho, é antes confirmação planejada da manutenção de injustiças.

O afunilamento habitacional seria apenas uma das primeiras faces da disparidade socioeconômicas da capital, cujo adensamento populacional faz-se sentir também pelo entrincheiramento bairros afora. Através de um questionário com perguntas sobre “bons modos”, Recenseamento moral da cidade do recife somos apresentados às cisões entre periferias e zonas centrais se fazem ouvir nas vidas íntimas de seus sujeitos. A obra nos mostra como tais trincheiras se modulam de modos diversos: certamente econômicas, elas marcam também as subjetividades de seus cidadãos: nossos projetos urbanos afiguram modos de vida, passando a determinar e confirmar maneiras viciadas de sociabilidade.

Quando analisadas conjuntamente, percebemos como maquete e enquete são dois lados de um mesmo mapa: elas represam ou intensificam afetos como medo e ensimesmamento. Afetos que percorrem de nossos gestos mais cotidianos ao modo como nossos corpos circularão nas ruas, saturando nossa subjetividade ao despertencimento de um progresso abstrato.

Em O Levante (2013), vemos a sensibilidade crítica de Jonathas para resistir à homogeneização. Se a arte é uma maneira de habitar o tempo e o espaço, esse projeto aparece como intervenção política na atual circulação destes. Ele busca balançar a estaticidade que em Educação para adultos violentamente sincroniza nossa vida urbana a um tempo e espaço que lhes são alheios. Em uma Recife forçosamente moderna, o projeto traz luz a um grupo constrangido à invisibilidade: os carroceiros, cuja atividade é banida na cidade. Ao reuni-los para uma corrida em pleno centro da capital, O levante suspende o funcionamento ‘normal’ das ruas em nome de injetá-las com uma velocidade outra. A cidadania interditada toma o centro da cidade para si, como uma maneira de confrontar o progresso que diariamente a empurra para as margens. Dando outra disposição para o espaço, abre-se espaço para uma velocidade que desestabiliza a vida frenética do Recife e a remete a outro tempo. Tempo e espaço, conjugados criativamente, fazem surgir a arte como intervenção no real.

O levante torna visível o que antes aparecia em nossa paisagem urbana como mero ruído de fundo, e que pode agora emergir como virtualidade de uma sociabilidade diferente. Dizer que a arte cria o real não se confunde com a imposição intransigente de um projeto alheio à realidade da qual ela parte. Em certa medida, tais encontros só poderiam ocorrer desde um circuito que violentamente os nega. Cria-se como modulação dos negativos, uma sintonização de seus fracassos que passa a assumir a função de denúncia: “A cavalgada começou no caminho previsto, depois um galope, uma gritaria, uma anarquia, e quando chegou a reta da avenida Guararapes, ganhou um desembesto que foi rasgando o centro numa festa, furando o percurso original e saindo do controle de uma maneira maravilhosamente autônoma”.[ii]

Rasgar o centro, “saindo do controle de uma maneira maravilhosamente autônoma”, mais do que um exercício puramente técnico, impressão laboriosa de uma vontade criadora que se projeta no mundo, nos convida a uma nova maneira de habitar o presente. Ao invés de copiar a realidade, a arte intervém no real e, com isso, também o produz. O levante marca a presença de uma inadequação no estado imediato da realidade: ele a fissura, denunciando algo que, ao mesmo tempo, já estava nela e ainda não haviam encontrado espaço para aparecer.

Não à toa essa peça se encontre no salão “externo” do Museu: situada antes de entrarmos propriamente na exposição, a obra oferece a sensação de habitar um ambiente limítrofe entre as salas onde as obras estão dispostas e as ruas sobre as quais narram. Esse liame entre o calmo ambiente interno e as ruas caóticas do centro parece sincronizar duas maneiras muito diferentes de habitar a cidade que Jonathas retrata: entre a lentidão e as buzinas frenéticas, mais do que um reenquadramento geográfico, incita-se com isso uma nova disposição afetiva.

O elogio ao Recife denuncia-se aqui como falência do regionalismo: não enquanto apego ufanista ao particular, mas direito e pertencimento à territorialidade singular. Ele só pode advir como reivindicação por outro modo de habitar o tempo e o espaço. É a serviço dessa inventividade que Jonathas de Andrade vai ao encontro.

*Pedro Pennycook é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Referência


Jonathas de Andrade. Na cidade da ressaca.
Curadoria: Moacir dos Anjos
Em cartaz no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM, Recife) até 18 de junho de 2023.

Notas


[i] Todas as fotos foram retiradas da página pessoal do artista e estão disponíveis em https://cargocollective.com/jonathasdeandrade/Jonathas-de-Andrade

[ii] https://cargocollective.com/jonathasdeandrade/o-levante


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES