As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Karl Marx – 140 anos depois

Imagem: Nico Becker
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MILTON PINHEIRO*

Esse imenso pensador e revolucionário se consolidou como intérprete da contemporaneidade

Em 14 de março do ano em curso completou 140 anos do falecimento de Karl Marx. Esse imenso pensador e revolucionário se consolidou como intérprete da contemporaneidade. Sua grandiosa obra nos permite desvelar de forma concreta a atual quadra histórica que está sendo marcada pela condensação das diversas crises da ordem do capital. Avança o pauperismo social, aprofunda-se a erosão do capitalismo a partir dos seus marcos fundantes, avoluma-se uma profunda crise ideológica que alimenta o ressurgimento do fascismo, a sociabilidade dessa ordem em decadência alimentou as diversas formas de opressões, entre outros fatores determinantes da crise societária que está possibilitando a abertura do cenário político para a disjuntiva elementar do nosso tempo, socialismo ou barbárie.

O fundamental para compreendermos o pensamento de Karl Marx, enquanto um rigoroso teórico do empreendimento contemporâneo, passa por três noções constitutivas que são a teoria do valor trabalho; o método dialético e a perspectiva da revolução. Esse tripé fundamental possibilita, em seu conjunto, um poderoso instrumento de análise para que possamos entender o modo de produção capitalista, a ordem da sociabilidade burguesa e a perspectiva de ruptura; necessários cenários que precisam ser desvelados para que o sujeito imanente da revolução possa abrir caminhos para o processo de emancipação humana.

Karl Marx, ainda em vida, inspirou tradições revolucionárias e variadas interpretações sobre as questões do mundo contemporâneo. Seu legado cresceu nessa longeva jornada, tornou-se presente nas ciências sociais e humanas, nas revoluções do século XX e no movimento da classe trabalhadora por direitos e transformações. No atual momento histórico, mesmo com o imenso problema de organização revolucionária, orientados pelos marxismos, uma fértil militância ontologicamente comunista consegue ter um vasto campo de ação e acurada análise para enfrentar o projeto político do capital, mesmo que o movimento da classe trabalhadora ainda não seja o necessário para indicar uma relação de força pautado na contradição trabalho versus capital.

Embora seja a teoria social com maior capacidade de aderência ao real e para entender a crise societária, o marxismo quando eivado de academicismo estéril e da marxologia diletante, perde sua capacidade de ser sujeito do projeto de futuro da classe trabalhadora, ficando encapsulado ao ambiente de uma lógica sem fertilidade que é incapaz de permitir que a teoria se torne ação concreta.

As contradições da perene cena política contemporânea, com seus impasses do fim de um ciclo, possibilitaram o reaparecimento da extrema direita como alternativa de poder em várias partes do planeta. Ressurgiu o individualismo, o obscurantismo, o fundamentalismo, a xenofobia, o reacionarismo e todas as formas de opressão da sociabilidade capitalista. Karl Marx, como lição e ponto de partida, é uma fonte extraordinária para entendermos o processo em curso e avançarmos na procura do caminho que temos que construir para combater os monstros do fim de ciclo.

A atualidade de Marx encontra-se na análise fina que nos alerta o filósofo francês, Alain Badiou, “enfrentar a realidade do capital é ter uma solução de práxis para a revolução”. Essa trilha seminal é a manifestação da profunda atualidade de Karl Marx. Esse motivo concreto inspira e opera a luta pela hegemonia de um projeto que confronta a ordem do capital no atual ciclo histórico. No entanto, essa perspectiva estratégica só será vitoriosa com a organização da classe trabalhadora e sua duradoura formação teórica.

A obra de Karl Marx é inseparável de sua vida e da luta histórica que travou. Seus estudos sempre refletiram os passos concretos das batalhas que lutou e dos fundamentos que desvelou para avançar na construção da revolução mundial. Sendo assim, no momento em que o gigante pensador marxista Ernest Mandel completaria cem anos, podemos, com base em sua contribuição, descortinar algumas etapas da “história” de Karl Marx.

Os escritos de 1837-1843 conformam o que identificamos como democratismo radical, marcado por trabalhos como As diferenças entre a filosofia da natureza de Demócrito e Epicuro, A Gazeta Renana e a Crítica da filosofia do direito de Hegel.

Os fundamentos da emancipação política à emancipação social (1843-1844) são encontrados nos livros sobre A questão judaica, na Introdução a uma crítica da filosofia do direito de Hegel e nos Manuscritos econômicos-filosóficos.  

No ápice das revoltas europeias (1848-1850), Karl Marx se dedicou ao movimento da revolução burguesa à revolução proletária. São desse período os textos sobre O Manifesto Comunista, Trabalho assalariado e capital, e a Mensagem ao Comitê Central da Liga dos Comunistas.

Com a derrota da chamada primavera dos povos, Karl Marx escreveu dois livros de balanço dessa vaga revolucionária, das lutas de classes e das lutas políticas daquele período (1850-1852): As lutas de classes na França (três ensaios publicados numa revista) e O 18 de brumário de Luís Bonaparte.

A partir daí um novo ciclo preocupa Karl Marx que começou a desenvolver pesquisas sobre o capitalismo (1853-1859), iniciando o processo de preparação de O capital. É também desse período a colaboração no jornal New York Daily Tribune (1852-1862), os Grundisse e a Crítica da economia política.

A partir de 1860-1867, Karl Marx aprofunda sua obra econômica e realiza debates na Primeira Internacional. Sendo dessa etapa Teorias sobre a mais-valia, Manuscrito II de O capital, Discurso inaugural da Associação Internacional dos trabalhadores, O capital (Vol. I), O capital (Vol. II – manuscrito), 1869-1870.

Podemos fechar esse ciclo intelectual (1867-1883) com as preocupações de Karl Marx sobre a revolução proletária em marcha e os partidos políticos. Temos então os Dois informes sobre a guerra franco-prussiana, A guerra civil na França, Crítica ao programa de Gotha, Carta aos dirigentes da socialdemocracia alemã, Carta a Vera Zassoulith e o Prefácio à segunda edição russa do Manifesto comunista.

Hoje, o pensamento de Marx nos coloca de frente para a história e é fundamental no debate sobre a revolução no começo do século XXI. Afinal, quando os trabalhadores franceses dias atrás, em luta aberta por seus direitos, cantam o hino da Internacional em manifestações nas ruas de Paris, um novo ciclo começa a ser apresentado com forte possibilidade de desvelar as lutas de classes e apresentar um real e concreto projeto de futuro para a humanidade.

*Milton Pinheiro é cientista político e professor titular de história na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).


O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Paulo Capel Narvai Luiz Roberto Alves Eliziário Andrade José Micaelson Lacerda Morais Bento Prado Jr. Henry Burnett Benicio Viero Schmidt Ricardo Fabbrini Flávio R. Kothe Ronaldo Tadeu de Souza Rodrigo de Faria Luciano Nascimento João Lanari Bo André Singer Luiz Costa Lima José Raimundo Trindade Carla Teixeira Eugênio Bucci Alysson Leandro Mascaro Maria Rita Kehl Elias Jabbour Bernardo Ricupero Ronald León Núñez José Geraldo Couto José Costa Júnior Claudio Katz Paulo Fernandes Silveira Airton Paschoa Thomas Piketty Walnice Nogueira Galvão Lincoln Secco Otaviano Helene Jorge Branco Marcos Aurélio da Silva Roberto Bueno Vanderlei Tenório Bruno Fabricio Alcebino da Silva Jean Pierre Chauvin Celso Frederico Henri Acselrad Paulo Martins Michael Löwy Ricardo Abramovay Jorge Luiz Souto Maior Fernão Pessoa Ramos Roberto Noritomi Annateresa Fabris Ari Marcelo Solon Atilio A. Boron Manchetômetro Luis Felipe Miguel Francisco Pereira de Farias José Machado Moita Neto Everaldo de Oliveira Andrade Anselm Jappe Ladislau Dowbor Fábio Konder Comparato João Carlos Loebens Alexandre de Freitas Barbosa Eleonora Albano Marcelo Guimarães Lima Juarez Guimarães Luiz Bernardo Pericás Osvaldo Coggiola Rafael R. Ioris Anderson Alves Esteves Gerson Almeida Daniel Brazil Francisco Fernandes Ladeira Chico Whitaker Luiz Eduardo Soares Leonardo Avritzer Leda Maria Paulani Andrew Korybko André Márcio Neves Soares Sandra Bitencourt Luiz Werneck Vianna Gilberto Maringoni Francisco de Oliveira Barros Júnior Chico Alencar Paulo Nogueira Batista Jr João Sette Whitaker Ferreira Daniel Afonso da Silva Fernando Nogueira da Costa João Adolfo Hansen Luiz Marques Dennis Oliveira Remy José Fontana Paulo Sérgio Pinheiro Gabriel Cohn Renato Dagnino Antonio Martins Eduardo Borges Carlos Tautz Priscila Figueiredo Marcelo Módolo Marilia Pacheco Fiorillo Tales Ab'Sáber Eugênio Trivinho Daniel Costa Marcos Silva Érico Andrade Sergio Amadeu da Silveira Samuel Kilsztajn Igor Felippe Santos Liszt Vieira Dênis de Moraes Mário Maestri Marilena Chauí Mariarosaria Fabris Flávio Aguiar José Luís Fiori Lorenzo Vitral Manuel Domingos Neto Marcus Ianoni Luiz Renato Martins Alexandre Aragão de Albuquerque Afrânio Catani Marjorie C. Marona João Paulo Ayub Fonseca Milton Pinheiro Kátia Gerab Baggio Plínio de Arruda Sampaio Jr. Antônio Sales Rios Neto Tadeu Valadares Ricardo Musse Leonardo Boff Tarso Genro Luís Fernando Vitagliano Armando Boito Gilberto Lopes José Dirceu Vinício Carrilho Martinez Ronald Rocha Ricardo Antunes Heraldo Campos Slavoj Žižek Julian Rodrigues Valerio Arcary Jean Marc Von Der Weid Alexandre de Lima Castro Tranjan João Carlos Salles Yuri Martins-Fontes Celso Favaretto Leonardo Sacramento Valério Arcary Berenice Bento Eleutério F. S. Prado Luiz Carlos Bresser-Pereira Lucas Fiaschetti Estevez Salem Nasser Rubens Pinto Lyra Boaventura de Sousa Santos Bruno Machado João Feres Júnior Caio Bugiato Denilson Cordeiro Antonino Infranca Vladimir Safatle Michael Roberts

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada