Liberais no espelho

Imagem: Pieter Bruegel

Por RENATO NUCCI JUNIOR*

Liberais agora expressam arrependimento no voto a Bolsonaro, mas não abandonam a agenda econômica do governo

Uma onda de arrependimento pelo voto em Bolsonaro, ou no mínimo pela subestimação do seu perigo, toma conta das hostes liberais. No cipoal de ícones do liberalismo brasileiro, alguns já declaram aberto arrependimento pelo voto no energúmeno na eleição de 2018. Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que em 2017 decretou que doravante a agenda do Congresso seria a agenda do mercado, é um dos arrependidos. Recentemente declarou que seu apoiou a Bolsonaro no segundo turno por causa da agenda econômica liberal do então candidato. Fernando Gabeira reconhece que subestimou o perigo representado por Bolsonaro (https://revistaforum.com.br/politica/arrependido-gabeira-diz-que-subestimou-o-perigo-que-bolsonaro-representava-em-2018/). E Reinaldo Azevedo, que não votou em Bolsonaro, mas emulou por anos a ira da extrema-direita contra qualquer traço de pensamento progressista, foi ainda mais longe: concluiu que o impeachment de Dilma foi um erro.

Mas alguém pode perguntar: o que teria feito gente tão sabichona apoiar um proto-fascista para a presidência, ou subestimar seu perigo? Era a economia, estúpidos! Afinal, Bolsonaro nunca negou ser o que é: um fascista, miliciano, escroto, escroque, machista, homofóbico, negacionista, reacionário etc. Todos esses liberais ilustrados conheciam o histórico desabonador do candidato. Mesmo assim, muitos deles resolveram apostar em Bolsonaro por um motivo simples: a agenda ultraliberal defendida pelo genocida na campanha eleitoral. A aplicação dessa agenda era afiançada pela indicação de Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga”, como superministro da economia. Para atenuar a culpa da infame escolha, a revista Veja chegou a estampar uma foto de Guedes na capa de sua edição de 22/08/2018, com o título: “ELE PODE SER PRESIDENTE DO BRASIL” (https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2596/). Era como se a revista dissesse o seguinte: não se sintam culpados por votar em Bolsonaro, pois quem mandará de fato será Paulo Guedes. Vera Magalhães, entusiasta do golpe em 2016 e agora uma das arrependidas, declarou em 21 de outubro de 2018, que os alertas sobre o caráter autoritário do futuro governo Bolsonaro não passava de “exagero proclamado em tom alarmista por eleitores do PT”.

Esses liberais arrependidos, agindo como verdadeiros negacionistas, pensavam que o radicalismo verbal do proto-fascista era pura encenação para vencer a disputa eleitoral. Empossado, Bolsonaro atenuaria seu discurso ou seria controlado pelas “instituições” de nossa “forte e pujante” democracia. Porém, o que essa gente não diz é que as tais instituições são aparelhos do Estado burguês, cujo papel é o de reproduzir relações de produção baseadas na exploração e dominação de classe. A revelação dos diálogos entre os procuradores da operação Lava-Jato mostra como as “instituições” serviram de instrumento para o golpe em 2016 com todas as suas conseqüências políticas e sociais. Seria cômico, se não fosse trágico, ver agora esses liberais reclamarem agora do negacionismo de Bolsonaro. Afinal, foram eles a colocarem a agenda ultraliberal como escusa para o voto no “capetão”. Eles sabiam do horror em que estavam apostando e mesmo assim preferiram pagar para ver.

Por isso soa patético o apelo feito por Vera Magalhães aos operadores de mercado e a elite econômica, em coluna publicada no Globo de 09 de fevereiro último, “A Fé da Faria Lima” (https://blogs.oglobo.globo.com/vera-magalhaes/post/fe-da-faria-lima.html). Na coluna, a escriba apela ao mercado, que tem na Avenida Faria Lima em São Paulo sua base de operação, para abandonarem o presidente enquanto é tempo. Sem largar sua fé no credo liberal que destrói o país, Vera alerta que Bolsonaro nunca entregará a agenda de reformas prometida por Paulo Guedes. E ainda por cima avisa que o capetão é uma ameaça à economia. É que por causa de “sua covardia crônica”, temeroso contumaz de ser alvo de crítica, o energúmeno poderia reeditar o auxílio emergencial por pressão das massas populares, o que vai “acabar de desarrumar as contas públicas”.

Se a coluna de Vera insiste em recitar nas entrelinhas o credo liberal que se insensibiliza com o sofrimento do povo (o auxílio emergencial vai desarrumar as contas públicas), ela destaca duas questões sumamente importantes.

A primeira é o movimento, diante da crescente impopularidade do governo e das imprevisíveis consequências do colapso sanitário iminente, de descartar o capitão para salvar a agenda ultraliberal. E para isso acusa-se Bolsonaro de não ser um liberal autêntico, mas um populista de direita. Um exemplo é a matéria publicada no site DW Brasil, “Aos poucos desmorona o mito de um governo neoliberal no Brasil” (https://www.dw.com/pt-br/aos-poucos-desmorona-o-mito-de-um-governo-neoliberal-no-brasil/a-56771745). O texto reclama que Bolsonaro está a abandonar “um programa econômico liberal que incluía a privatização de empresas estatais”, para caminhar “cada vez mais em direção ao intervencionismo econômico”. O texto sugere que uma manifestação desse intervencionismo seria o auxílio emergencial, que teria servido para elevar “a taxa de aprovação do governo”. E implicitamente indica como o neoliberalismo é a doutrina por excelência dos donos do capital. O professor Oliver Stuenkel da Fundação Getúlio Vargas, um entrevistado para a matéria, apresenta como sinal desse abandono do neoliberalismo o fato de que “Bolsonaro não está mais buscando o apoio das elites ricas , mas dos pobres e conservadores das grandes cidades”. Em suma, pobres e conservadores querem mais intervenção econômica, enquanto os ricos querem um mercado livre e desregulado. Mais claro sobre o real significado do neoliberalismo impossível.

A segunda questão do texto de Vera é deveras reveladora. Situa explicitamente que uma das principais bases de sustentação do governo Bolsonaro, mesmo diante do caos e de um país que na pandemia se transforma num tumbeiro moderno para seu povo, é a gentalha da Faria Lima. Em outras palavras, a elite econômica do Brasil. Melhor dizendo, os donos do capital, a burguesia brasileira. Bolsonaro é, portanto, por mais que os liberais requintados não admitam o sujeito certo para aplicar uma agenda cujo objetivo é o de facilitar, para a classe dominante, o assalto ao Estado e o agravamento da superexploração da classe trabalhadora. É uma agenda altamente destrutiva para o povo e o país, que requer para a tarefa um brucutu e não um sujeito requintado de finos modos. Alguém que seja a expressão da brutalidade intrínseca dos “capetalistas” brasileiros.

Mas esse percurso dos liberais brasileiros não deveria nos surpreender. Ele repete o roteiro comum aos liberais em todo o mundo desde meados do século XX. Por ódio ao povo, e para derrotar os segmentos mais conscientes e organizados das massas trabalhadoras, abraçam o fascismo e outras vias politicamente reacionárias. Soltam os demônios da garrafa para estes cumprirem o papel de tropa de choque dos interesses do capital. Depois, incapazes de controlá-los, devorados pelo monstro que eles próprios emularam, mostram-se arrependidos e apelam para a formação de uma frente ampla capaz de derrotá-lo. Foi assim na Alemanha e na Itália. É assim no Brasil contemporâneo.

Para derrotar as massas trabalhadoras e impor sua agenda de reformas regressivas, ao capital e seus porta-vozes liberais interessava soltar uma malta de negacionistas, reacionários, trogloditas, fundamentalistas, terraplanistas, monarquistas, fascistas, racistas, machistas, homofóbicos e conspiracionistas. Os liberais esperavam que após o golpe de 2016 essa turba, cumprido o papel sujo de tropa de choque dos interesses do mercado, contentar-se-ia em ter “tirado a esquerda” do poder e voltaria para o esgoto de onde saíram. Esperava-se que a eleição de 2018 serviria para normalizar o turbulento cenário político criado pelo golpe de 2016, com a eleição de um liberal limpinho e cheiroso como o tucano Geraldo Alckmin.

O que esses liberais não esperavam, bem como frações mais tradicionais da burguesia que fizeram essa aposta, era a profunda desmoralização do sistema político. Nesse ambiente a malta reacionária pegou gosto pelas ruas, descolou-se desse centro liberal limpinho e cheiroso e foi capaz de se apresentar como novidade para o eleitorado. Aproveitando-se do cenário, a essa formação aderiu sem pudor frações até então marginais da burguesia brasileira no sentido literal e figurado do termo: piratas do sistema financeiro, redes de comércio varejista, agronegócio mais destrutivo e devastador, grileiros, mineradoras, madeireiros e as milícias. Tudo abençoado por religiosos fundamentalistas e assegurado pelas forças armadas, especialmente o exército, que paira como uma sombra ameaçadora sobre uma ordem democrática esfrangalhada, caso a oposição “estique a corda”.

A atual crise brasileira é a mais grave de nossa história desde a Independência. De olho na pilhagem da riqueza nacional os parasitas do sistema financeiro, apoiados em Bolsonaro e no Centrão, conduzem o Brasil para uma situação de falência, desarticulação e interdição do Estado nacional. O resultado é que podemos estar assistindo a própria desintegração territorial brasileira. Isso não é exagero. Sob a capa de um liberalismo de conveniência, justificado pelo combate aos vícios patrimonialistas, apresenta-se como saída da crise a privatização completa de todo o patrimônio nacional. Nesse contexto, a briga entre as distintas frações burguesas, transformadas em verdadeiras facções criminosas são para ver quem leva a melhor na repartição do butim. O resultado dessa disputa entre bandos milicianos rivais, que é no que se transformou a burguesia brasileira, pode inviabilizar o exercício da unidade político-administrativa sobre o país. O controle das milícias sobre vastas regiões do Rio de Janeiro é o protótipo do que nos espera, agora em escala nacional: uma verdadeira guerra civil intra-burguesia pelo espólio do Estado brasileiro.

Por esses motivos é que a “Fé da Faria Lima” no governo Bolsonaro não será abalada, nem pelos apelos patéticos de virtuoses liberais, nem com a pandemia produzindo mortos em escala industrial. A gestão genocida que o governo faz da crise sanitária não é fruto de desgoverno. Obedece a um plano preciso. Enquanto a sociedade se desmobiliza, pois está preocupada em salvar a si e aos seus da morte e da fome, os “capetalistas” mantém-se como os mais fiéis aliados do “capetão”. Interessa-lhes acima de tudo avançar com seu projeto de dilapidação do país. E para isso a política criminosa de Bolsonaro é conveniente aos interesses burgueses, pois diminui as chances de surgir significativa resistência popular.

Não haverá saída da grave crise que o “mercado” e seu governo genocida jogaram o povo se mantida a agenda liberal. Por mais que agora os ícones do liberalismo brasileiro tentem salvar seu projeto se distanciando de Bolsonaro, o modo de o presidente governar segue à risca orientação liberal que eles defendem. Em sua essência, o Estado deveria se desincumbir de qualquer responsabilidade pela segurança e pela vida privada dos cidadãos. Sua única preocupação é com a acumulação do capital, o que leva a autocracia burguesa a um limite insuportável. É o cada um por si elevado a máxima potência. Por mais que alguns liberais esperneiem seu desencanto e arrependimento, o genocídio bolsonarista é resultado lógico da agenda ultraliberal de Guedes e do mercado. E os liberais requintados, por mais que não admitam, estão colocados diante do espelho.

Compreender esse cenário é importante no momento em que a luta para derrotar o pesadelo que nos atormenta exige traçar uma estratégia e uma tática adequadas. No cenário aqui descrito, a derrota do entulho ultraliberal é etapa necessária a ser enfrentada. Derrotar politicamente o rentismo, reestatizar as estatais privatizadas, anular as reformas trabalhista e da previdência, acabar com o teto nos gastos e o por fim à Lei de Responsabilidade Fiscal, universalizar o direito à saúde e educação públicas e de qualidade, etc., seriam etapas de um programa mais abrangente que vise uma verdadeira revolução política e social no Brasil. O que também exige, num plano mais imediato, medidas emergenciais que ponham fim a barbárie que atravessamos, por vacina, comida e emprego. Lutar por esse programa requer da esquerda brasileira a compreensão de que se juntar aos liberais arrependidos e “golpistas democráticos”, em nome de uma frente ampla para derrotar o fascismo, seria pavimentar o caminho de uma nova derrota.

*Renato Nucci Jr. é ativista da Organização Comunista Arma da Crítica.