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Lições do golpe e do contragolpe

Imagem: Ferran Perez
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Por FLÁVIO AGUIAR*

Vivemos um momento surreal. Os Estados Unidos, de fato, e as esquerdas, de direito, defendendo a democracia, a ordem e o progresso

“Ninguém vai dar o golpe pelo telefone” (Governador Leonel Brizola, em ríspida conversa telefônica com o general Artur da Costa e Silva, em 27 de agosto de 1961).

Houve uma tentativa de golpe de estado em 08 de janeiro próximo passado: não se duvida disto. A tentativa fracassou: também é óbvio. Houve um contragolpe tão fulminante quanto foi violenta a tentativa golpista: idem, é certo, com a liderança do ministro Flávio Dino, desde a sede de seu ministério, em Brasília. Já a discussão dos comos e porquês está em aberto. Bem como a das lições que se pode tirar destes acontecimentos dramáticos.

Tempos atrás publiquei no site A Terra é Redonda uma série de seis artigos sobre os muitos golpes de Estado e os poucos contragolpes de sucesso na nossa história. Aqui vou procurar discernir algumas constantes nos sucessos e fracassos de um e outro lado.

Para começo de conversa, e penso que vou surpreender com este comentário, vejo alguma semelhança do fracasso do golpe com o fracasso do que na história ficou conhecido como “A Operação Valquíria”, aquela da intenção de matar Hitler em 20 de julho de 1944.

Calma, não estou comparando intenções nem valores conexos, muito menos as circunstâncias históricas. Estou tentando fazer aquilo que nos meus tempos de ginásio e colégio se chamava de “análise sintática”, que nem sei se ainda é praticada nas escolas pós-modernas. Ou seja, trata-se de, abstraindo-se a semântica, analisar as conexões e conetivos que levam à construção de uma frase organizada, com princípio, meio e fim, mas vista como uma estrutura simultânea.

Se alguém preferir uma versão mais conspicuamente acadêmica, trata-se de analisar um enredo narrativo, que se desdobra no tempo, como uma estrutura simultânea, que pode ser visualizada como um quadro pictórico.

A operação para matar Hitler fracassou, em primeiro lugar, por não ter conseguido seu objetivo primeiro e final: a morte do alvo. Mas em segundo lugar, ela fracassou porque seus praticantes recorreram a um recurso previsto dentro da própria ordem nazista: a chamada “Operação Valquíria”, que consistia, no caso de uma vacância do poder em Berlim, no Exército assumir o controle da cidade e passar a emitir as ordens a serem seguidas.

Em resumo, os conspiradores, por melhor que fossem suas intenções, se enfiaram na boca do lobo. Depois do atentado, acorreram para o quartel da Wehrmacht, em Berlim, hoje (merecidamente) transformado em Museu da Resistência Alemã, na Stauffenbergstrasse.

O paralelo que quero sublinhar, é que os conspiradores do 08 de janeiro, pretendiam, pelo que se divulga, recorrer a um expediente “legal” a ser acionado pelo alvo que queriam derrubar, o presidente Lula: a Garantia da Lei e da Ordem, GLO. Provavelmente estavam pretendendo ter uma cobertura legal para justificar seus atos nacional e internacionalmente, uma vez que o tradicional mentor dos golpes de Estado na América Latina, o governo norte-americano, não estava mais do seu lado. Chamando o presidente Lula forças do Exército para conter o motim em curso, estas mesmas forças abririam o rumo para que os mentores do golpe assumissem o poder de fato, e sabe-se lá onde o presidente Lula iria parar: embaixada, prisão, cemitério. Não deu certo: ao invés de dar um tiro no próprio pé, Lula, deu um tiro no pé deles, os golpistas: interveio no aparato de segurança do Distrito Federal, reforçando a hierarquia de mando.

Outro erro: na pressa de dar o golpe, os golpistas não combinaram nada com os possíveis aliados, a mídia mainstream, sempre disposta a apoiar golpes contra as esquerdas, a burguesia nacional, que não namora mais o Ogro de Orlando, a não ser sua parcela mais ardida e retrógrada, ou seja, setores do agro, do garimpo ilegal, das milícias e o lumpen-empresariado que recebeu benesses do desgoverno terminado em 31 de dezembro e de seu incompetente ministro da Fazenda. Sem falar em que a burguesia financeira internacional decidiu livrar-se do Ogro, de seus milicianos do crime organizado e do crime desorganizado.

Mas nem só de erros constituiu-se o enredo da tragicomédia que vivemos naquele domingo. Houve acertos também. Já apontei o acerto tático de não se acionar a GLO e sim a intervenção no aparato de (in)segurança montado em Brasília.

Houve também um acerto estratégico e histórico.

Se examinarmos as circunstâncias em que contragolpes democráticos neutralizaram golpes ditatoriais, como em 1955, com o general Lott garantindo a posse de Juscelino e Jango, ou em 1961, com a Campanha e Rede da Legalidade, liderada por Brizola, e agora em 08 de janeiro de 2023, garantindo o governo de Lula.3, encontramos em seus frontispícios aquela palavra mágica: “Legalidade”.

Vivemos mais uma vez esta situação curiosa: as esquerdas liderando as forças progressistas em nome da lei e da ordem, enquanto as direitas pregam a subversão, a desordem, o vandalismo, a balbúrdia e o caos. E é isto – a defesa da Legalidade – que dá às esquerdas sua força de liderança.

Como assim? No fundo deste enredo dramático todo, para o povão brasileiro, a lei, a Legalidade, é uma utopia, e uma utopia a ser preservada. Sim, o país está dividido. Sim, o Ogro teve quase 60 milhões de votos em 30 de outubro de 2022. Mas foi defendendo o arcabouço legal e constitucional do país que Lula teve um pouco mais do que 60 milhões de votos. Foi entronizando o povão que ele subiu a rampa do Palácio do Planalto em 1º. de janeiro. E foi defendendo a Legalidade que ele venceu a tentativa de golpe de 08 de janeiro. Vitória final? Não existe. A luta continua.

Decididamente, vivemos um momento surreal. Os Estados Unidos, de fato, e as esquerdas, de direito, defendendo a democracia, a ordem e o progresso.

Quem viveu, viu.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

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