As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Longe de Pindorama

Imagem: Ciro Saurius
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por FLAVIO AGUIAR*

Considerações sobre o uso de determinadas palavras e expressões

Abordo aqui, palavras e expressões que nunca usei, não uso, e nunca vou usar. Ou usarei com muito, muito cuidado.

Por exemplo, “Tupiniquim”. Por que será que pessoas de esquerda, quando querem manifestar algum tipo de desprezo pelo Brasil, usam a expressão “Tupiniquim”?

Em primeiro lugar, por que não “Tupinambá”? Ou “Caiapó”? “Carijó”? “Tamoio”? “Xekleng”? Em segundo lugar, por que, para manifestar desprezo pelo Brasil, recorrer a uma velha e surrada metáfora indígena? Do que os “Tupiniquim” têm culpa? Por que ficaram com o Mico neste jogo de baralho que embaralha preconceitos os mais variados? Será que é porque se diz que eles eram aliados dos Portugueses e os “Tupinambá”, não? Será que ser “Tupiniquim” é um “programa de índio”?

É verdade que este preconceito já existia antes mesmo da chegada dos Portugueses. Não sou expert em tupi-guarani, mas pelo que pude levantar o significado de “Tupiniquim” é algo como “o povo ao lado”, ou seja, o “vizinho”.  Já “Tupinambá” poderia significar “os primeiros descendentes dos pais” ou “todos os tupis”. De uma ou de outra maneira, “Tupiniquim” queria dizer, para os Tupinambá, “os que vieram depois”. Os recém-chegados. Os migrantes tardios. Os que vieram atrapalhar o nosso reinado, dividir o nosso território. Qualquer semelhança com os atuais refugiados é mera coincidência.

Uma hipótese interessante para explicar o sucesso da palavra para menosprezar os brasileiros está na sua terminação “piniquim”. Lembra “pequeno penico”, não é? Trata-se de uma maneira elegante, acadêmica, sofisticadamente metonímica e metafórica, de se referir a “um povim de merda”, ou a ela afeito. Traz à baila o comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, em alguma de suas páginas, dizendo que os adeptos do Positivismo no século XIX e começos do XX sentiam um “secreto horror” quando encaravam o Brasil. Além da mestiçada, da negrada, da indiada, da caboclada, da mistureba, quando abriam a janela viam bananeiras, jacarandás, araçás, palmeiras, araucárias e suas taças retorcidas, barbas-de-pau, cipós, e outros vegetais tortos, rios rebeldes ou preguiçosos, ao invés dos ínclitos pinheiros eliótis da Floresta Negra ou das águas plácidas, serenas, solenes do Sena, do Arno, do Reno, do Elba, do Tâmisa, ou mesmo, em último caso, do Tejo e do Douro. Viam urubus ao invés de corvos, maritacas e carcarás no lugar de rouxinóis e águias.  Junto com “Tupiniquim” vai a palavra  “Pindorama”, também usada, embora com menos frequência, para se referir pejorativamente ao Brasil.

O que me deixa perplexo é o fato de intelectuais que ficam pálidos de espanto ou coram rubicundos, quando se deparam com expressões racistas referentes aos afros e seus descendentes (repulsa  inteiramente justa ao racismo), continuarem usando, impávidos, termos tão preconceituosos com relação a nossos indígenas.

Aí vem “o brasileiro médio”. Esta expressão me dá erisipela na alma. Vem sempre associada a algo muito negativo. Não sei o que ela significa, num país com mais de 210 milhões de habitantes, seis mil quilômetros de norte a sul e outros tantos de leste a oeste, com quase todos os climas do planeta, exceto o andino, o alpino, o ártico e o antártico, uma das maiores desigualdades sociais do mundo, etc. “Médio” para mim era coisa de futebol, a começar pelo centro-médio de antigamente, como o Dequinha do Flamengo, ou o médio-volante, um conceito tão elástico a ponto de abranger de Zito e Didi a Zico, Falcão e Maradona. Em todo caso, “o brasileiro médio” costuma ser racista, homofóbico, machista, ignorante, tapado, em suma, um traste da história. O “brasileiro médio” é como o “país tupiniquim”: não tem jeito nem nunca terá. Qual é o antônimo do “brasileiro médio”? Não existe, porque onde e quando ele entra em campo, os contrários desaparecem. Por exemplo: os 47 milhões de eleitores que votaram em Fernando Haddad, no segundo turno de 2018, simplesmente deixam de existir. Porque o “brasileiro médio” votou, vota e votará em Bolsonaro. Na verdade, há um antônimo do “brasileiro médio”: é o articulista que usa a expressão, porque ele não é o “brasileiro médio”. Ao contrário, ele está “acima da média”. Gozado: neste campo semântico, só existe “o brasileiro médio”. Não existe (pelo menos nunca vi) “a brasileira média”. Eis mais uma prova contundente, portanto, de que “o brasileiro médio” é machista e obtuso.

E a “classe média”, então? Êta arraia miúda com mania de graúda, uma “raça desgraçada”. Em caso de dúvida no seu artigo, dê um pau na “classe média”. Despreze a “classe média”. Pise nela, que é a verdadeira fonte da desgraça neste país. Por quê? Porque  “em qualquer país civilizado”, em “qualquer país sério”, isto é, não “Tupiniquim” nem habitado pelo “brasileiro médio”, a “classe média”, embora possa ter problemas, é tolerável. A “classe média” de outros países é poliglota, fala inglês, francês, alemão, espanhol, holandês, etc., não deve ser consumista nem desprezar turcos, africanos ou muçulmanos, etc. Mas no Brasil não: a “classe média” será sempre horrível.  Esqueça a burguesia, os rentistas, os milicianos, a culpa será sempre da “classe média”. 99,99 % dos articulistas que costumam tascar o pau no lombo da “classe média” a ela pertencem, mas não leve isto em conta. Porque eles, os articulistas, não são “o brasileiro médio” nem padecem da “razão tupiniquim”, muito menos vivem em “Pindorama”. Aliás, não sei bem onde vivem. Deve ser na rive gauche de algum rio plácido, sereno e solene.

*Flávio Aguiar, escritor e crítico literário, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de O teatro de inspiração romântica (Senac).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Flávio R. Kothe Valerio Arcary Jean Pierre Chauvin Atilio A. Boron José Raimundo Trindade Julian Rodrigues João Paulo Ayub Fonseca José Costa Júnior Francisco Pereira de Farias Celso Favaretto Benicio Viero Schmidt Antonino Infranca Andrew Korybko Luís Fernando Vitagliano José Machado Moita Neto Rodrigo de Faria Armando Boito Henry Burnett Paulo Sérgio Pinheiro André Singer Gilberto Maringoni Vinício Carrilho Martinez Eugênio Trivinho Vanderlei Tenório Bento Prado Jr. Ricardo Abramovay Luiz Bernardo Pericás Flávio Aguiar Jorge Branco Lorenzo Vitral Eduardo Borges Alexandre de Freitas Barbosa Slavoj Žižek Gerson Almeida Dennis Oliveira Marcelo Guimarães Lima Ladislau Dowbor Ronald León Núñez Francisco Fernandes Ladeira Luiz Werneck Vianna Samuel Kilsztajn Marjorie C. Marona Plínio de Arruda Sampaio Jr. Antonio Martins João Sette Whitaker Ferreira Manuel Domingos Neto Osvaldo Coggiola Paulo Fernandes Silveira Bruno Machado Tadeu Valadares Igor Felippe Santos Ronald Rocha Daniel Costa Eugênio Bucci Roberto Bueno Claudio Katz José Dirceu Liszt Vieira Boaventura de Sousa Santos Otaviano Helene Marcelo Módolo Michael Roberts Elias Jabbour Fernando Nogueira da Costa Leonardo Avritzer Luiz Marques Alysson Leandro Mascaro Juarez Guimarães Caio Bugiato Leda Maria Paulani Everaldo de Oliveira Andrade Sergio Amadeu da Silveira Michael Löwy Daniel Afonso da Silva Rubens Pinto Lyra João Adolfo Hansen Eliziário Andrade Roberto Noritomi Antônio Sales Rios Neto Denilson Cordeiro Ricardo Musse Ricardo Antunes Tarso Genro Daniel Brazil Priscila Figueiredo Yuri Martins-Fontes Rafael R. Ioris Alexandre Aragão de Albuquerque Luis Felipe Miguel Henri Acselrad Paulo Martins Walnice Nogueira Galvão Marilena Chauí Carla Teixeira Paulo Capel Narvai Annateresa Fabris Leonardo Sacramento Heraldo Campos Anderson Alves Esteves José Micaelson Lacerda Morais Dênis de Moraes Alexandre de Lima Castro Tranjan Berenice Bento Luciano Nascimento Marcos Aurélio da Silva Ricardo Fabbrini Remy José Fontana Marcos Silva Kátia Gerab Baggio Luiz Carlos Bresser-Pereira Fábio Konder Comparato Érico Andrade João Carlos Salles Eleonora Albano Carlos Tautz Renato Dagnino Gabriel Cohn Luiz Costa Lima Ari Marcelo Solon Thomas Piketty Vladimir Safatle Mariarosaria Fabris Paulo Nogueira Batista Jr Mário Maestri Tales Ab'Sáber José Geraldo Couto João Lanari Bo Jorge Luiz Souto Maior Jean Marc Von Der Weid João Carlos Loebens Leonardo Boff Marilia Pacheco Fiorillo José Luís Fiori Lincoln Secco João Feres Júnior Bernardo Ricupero Manchetômetro Chico Alencar Luiz Renato Martins Maria Rita Kehl Marcus Ianoni Milton Pinheiro Salem Nasser Valério Arcary Gilberto Lopes Airton Paschoa Afrânio Catani Chico Whitaker André Márcio Neves Soares Celso Frederico Bruno Fabricio Alcebino da Silva Lucas Fiaschetti Estevez Anselm Jappe Ronaldo Tadeu de Souza Sandra Bitencourt Luiz Roberto Alves Eleutério F. S. Prado Francisco de Oliveira Barros Júnior Fernão Pessoa Ramos Luiz Eduardo Soares

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada