Mapas para que(m)?

Imagem: William Hadley
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Por HÉRIC MOURA*

Longe de serem neutros, mapas como os do Google e Waze reconfiguram politicamente o território, destacando rotas comerciais e ocultando redes de proteção social

1.

Hoje muitas grandes empresas (muitas mesmo, mas citemos apenas algumas mais simbólicas) Uber, iFood, Waze e principalmente Google, utilizam o georreferenciamento como base de operações e serviços. Mapas e geolocalização são hoje parte dos dados que organizam fluxos, regulam deslocamentos e modelam a relação entre pessoas, territórios e empresas. Aparentemente neutros, esses sistemas de mapeamento digital retomam, sob novas formas, questões antigas da geografia crítica: Quem define o mapa? Para que(m) ele serve?

Os mapas nunca foram simples representações da realidade, mas historicamente o mapa foi e é um instrumento de poder. Desde o tempo das grandes navegações, a cartografia serviu para delimitar, ordenar e controlar o espaço, tendo sido uma ferramenta de expansão mercantil e posterior dominação. Mas essa mesmo não era apenas uma representação técnica.

O próprio mapa-múndi que tradicionalmente é a representação mais comum da terra, com a Europa posicionada no centro, é um exemplo claro de como a representação espacial reflete e reforça uma determinada visão de mundo (eurocêntrica, hierárquica e voltada para os interesses do comércio e da colonização). Esse mapa é baseado na projeção de Gerardus Mercator, concebido em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, conforme detalhado pela Geography Realm¹.

Essa projeção foi adotada durante os séculos XVI e XVII, porque atendia as necessidades práticas da navegação marítima europeia. A projeção de Gerardus Mercator preserva os ângulos locais, mantendo a forma dos continentes em pequenas escalas, mas deforma as áreas à medida que se afasta do equador. Essa operação garante que as rotas de rumo constante aparecem como linhas retas, o que facilitava a navegação de longo curso: o navegador podia traçar uma linha reta no mapa e manter uma direção fixa na bússola para seguir seu trajeto. Em termos práticos, essa propriedade tornou a projeção de Mercator o instrumento técnico ideal para navegações longas simplificando a definição de rotas entre colônias e metrópoles.

Mas essa mesma propriedade que tornou o mapa útil à navegação implica até hoje em fortes distorções geométricas e simbólicas. Ao ampliar progressivamente as regiões de altas latitudes a projeção faz com que territórios do norte global pareçam bem maiores do que realmente são.

De forma que Groenlândia e Europa apareçam visualmente comparáveis à África, embora o continente africano seja cerca de 14 vezes maior (segundo a National Geographic²). Essa deformação não é apenas uma questão matemática: ela reforça uma hierarquia visual e geopolítica, em que as potências coloniais do norte ocupam o centro e o destaque do mapa, enquanto o sul global é comprimido e marginalizado.

2.

Nos dias de hoje o processo cartográfico continua sendo determinado por quem detém a produção técnica e social para definir o que é “verdade” no espaço. Os mapas que se tornam hegemônicos ao longo da história são aqueles impostos por instituições e grupos sociais capazes de legitimar sua visão de mundo. Como escreveu Brian Harley (1989), “o mapa é uma construção social de conhecimento, inscrita em relações de poder que determinam o que é visível e o que permanece oculto”.³

Essa lógica de seleção e poder permanece, agora mediada por tecnologias digitais. Empresas de tecnologia obtêm e utilizam dados espaciais em uma escala sem precedentes. Por exemplo: mesmo quando o GPS está desligado, plataformas como o Google são capazes de estimar com alta precisão a localização de um dispositivo. Isso ocorre porque, ao longo dos anos, a empresa construiu um vasto mapeamento invisível do ambiente urbano.

Durante as varreduras do Street View, seus carros chapados de câmeras registram as imagens das ruas, mas também sinais de redes Wi-Fi (essa informação não é alardeada pela empresa mas está na documentação do Google⁴ e foi noticiada pelo G1⁵). Cada um desses pontos é associado a uma coordenada geográfica e arquivado em grandes bancos de dados.

Considerando a capacidade de coleta intensiva de dados de empresas como o Google, seria tecnicamente simples criar plataformas que mapeassem e integrassem, por exemplo serviços públicos essenciais como a rede de serviços públicos de assistência social, saúde e educação com a mesma precisão que mapeiam o comércio. Mas, isso não acontece. A invisibilidade desses serviços nos mapas ocorre por um motivo simples: dar visibilidade à rede de proteção social não gera lucro (pelo contrário), não contribui para a acumulação de capital dessas corporações.

A acumulação capitalista aparece totalmente divorciada de qualquer interesse social e prosperidade dos trabalhadores. Os dinâmicos e modernos mapas que brilham nas telas dos computadores e celulares, não apenas representam o território, mas o reconfiguram politicamente, impondo uma hierarquia sobre o que merece ser visto (o mercado) e o que pode ser esquecido (o direito social).

*Héric Moura é graduando em Serviço Social na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Notas


  1. GEOGRAPHY REALM. A Look at the Mercator Projection. Geography Realm, [s.d.]. Disponível em: https://www.geographyrealm.com/look-mercator-projection/.
  2. NATIONAL GEOGRAPHIC. Why your mental map of the world is (probably) wrong. National Geographic, [s.d.]. Disponível em: https://www.nationalgeographic.com/premium/article/all-over-the-map-mental-mapping-misconceptions.
  3. HARLEY, J. B. Deconstructing the Map. Cartographica: The International Journal for Geographic Information and Geovisualization, Toronto, v. 26, n. 2, p. 1–20, 1989. DOI: 10.3138/E635-7827-1757-9T53.
  4. EUSTACE, Alan. WiFi data collection: An update. Google Official Blog, 14 maio 2010. Disponível em: https://googleblog.blogspot.com/2010/05/wifi-data-collection-update.html.

G1. Google admite coleta de dados pessoais via redes Wi-Fi com Street View. G1, São Paulo, 19 maio 2010. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/05/google-admite-coleta-de-dados-pessoais-via-redes-wi-fi-com-street-view.html


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